Abadessa

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Abadessa, a superiora espiritual e temporal de uma comunidade de doze ou mais freiras. Com algumas exceções necessárias, a posição de uma abadessa em seu convento corresponde geralmente à de abade em seu mosteiro. O título era originalmente a denominação distintiva dos superiores beneditinos, mas com o tempo passou a ser aplicado também aos superiores conventuais de outras ordens, especialmente às da Segunda Ordem de São Francisco (Pobres Claras) e às de certos colegiados de canonesas. 

ORIGEM HISTÓRICA – As comunidades monásticas para mulheres surgiram no Oriente nos primórdios da Igreja. Após sua introdução na Europa, no final do século IV, começaram a florescer também no Ocidente, principalmente na Gália, onde a tradição atribui a fundação de muitas casas religiosas a São Martinho de Tours. Cassiano, o grande organizador do monaquismo na Gália, fundou um famoso convento em Marselha, no início do século V, e a partir desse convento, em um período posterior, São Césario (m. 542) chamou sua irmã Cesária e a colocou em uma casa religiosa que ele estava fundando em Arles. Diz-se também que São Bento fundou uma comunidade de virgens consagradas a Deus e a colocou sob a direção de sua irmã Santa Escolástica, mas se o grande Patriarca estabeleceu ou não um convento, é certo que, em pouco tempo ele passou a ser visto como guia e pai dos muitos conventos já existentes. Seu governo foi adotado quase universalmente por eles, e com ele o título Abadessa passou a ser usado em geral para designar o superior de um convento de freiras. Antes dessa época, os títulos Mater Monasterii, Mater Monacharum e Proposita eram mais comuns. O nome Abadessa aparece pela primeira vez em uma inscrição sepulcral do ano 514, encontrada em 1901 no local de um antigo convento de virgens sacras; que ficava em Roma perto da Basílica de Santa Inês Fora dos Muros. A inscrição comemora a abadessa Serena, que presidiu esse convento até o momento de sua morte, aos 85 anos de idade: “Hic requiescit in pace, Serena Abbatissa S.V. quae vixit annos P.M. LXXXV.

MODO DE ELEIÇÃO. – O ofício de uma abadessa é eletivo, sendo a escolha feita pelos sufrágios secretos das irmãs. Pela lei comum da Igreja, todas as freiras de uma comunidade, professadas para o coro e livres de censuras, têm direito a voto; mas, por lei específica, algumas constituições estendem o direito de uma voz ativa apenas àqueles que foram professados ​​por um certo número de anos. As irmãs leigas são excluídas pelas constituições da maioria das ordens, mas nas comunidades onde elas têm o direito de votar, seus privilégios devem ser respeitados. Em mosteiros sem exceção, a eleição é presidida pelo ordinário da diocese ou seu vigário; em casas isentas, sob jurisdição imediata da Santa Sé, o bispo também preside, mas apenas como delegado do Papa. Naquelas que estão sob a jurisdição de um prelado regular, as freiras são obrigadas a informar o diocesano do dia e hora da eleição, para que, se assim o desejar, ele ou seu representante possa estar presente. O bispo e o prelado regular presidem em conjunto, mas em nenhum caso eles têm voto, nem mesmo voto de qualidade. E o Concílio de Trento prescreve, ainda, que “quem presidir a eleição, seja o bispo ou outro superior, não entrará no recinto do mosteiro, mas ouvirá ou receberá o voto de cada um na grade.” (Conc. Trid. Sess. XXV, De regular. Et monial., Cap. Vii.) A votação deve ser estritamente secreta e, se o sigilo não for observado (seja por ignorância ou não da lei), a eleição será nula e sem efeitos. Uma maioria simples de votos para um candidato é suficiente para uma eleição válida, a menos que as constituições de uma ordem exijam mais do que a maioria simples. O resultado deve ser proclamado imediatamente, anunciando o número de votos de cada freira, para que, em caso de disputa, seja oferecida uma oportunidade imediata para a verificação da votação. Caso nenhum candidato receba o número necessário de votos, o Bispo ou o prelado regular ordena uma nova eleição e, por enquanto, nomeia um superior. Se a comunidade novamente não concordar com qualquer candidato, o bispo ou outro superior poderá nomear aquele que julgar ser o mais digno e representá-la como abadessa. A recém-nomeada abadessa assume as funções de seu ofício imediatamente após a confirmação, que é obtida para conventos não isentos do diocesano e para casas isentas do prelado regular, se estiverem sob sua jurisdição ou diretamente da Santa Sé. (Ferraris, Prompta Bibliotheca; Abbatissa. – Cfr. Taunton, A Lei da Igreja.)

ELEGIBILIDADE. – Com relação à idade em que uma freira se torna elegível para o cargo, a disciplina da Igreja variou em momentos diferentes. O Papa Leão I prescreveu quarenta anos. São Gregório Magno insistia que as abadessas escolhidas pelas comunidades deveriam ter pelo menos sessenta anos – mulheres para quem os anos haviam dado dignidade, discrição e poder de resistir à tentação. Ele proibiu com muita veemência a nomeação de moças como Abadessas (Ep. Iv, cap. Xi). Papas Inocêncio IV e Bonifácio VIII, por outro lado, estavam ambos satisfeitos com trinta anos. De acordo com a legislação atual, que é a do Concílio de Trento, nenhuma freira “pode ser eleita como abadessa, a menos que tenha completado o quadragésimo ano de sua idade e o oitavo ano de sua profissão religiosa. Mas, se ninguém for encontrado em nenhum convento com essas qualificações, uma poderá ser eleita de outro convento da mesma ordem. Mas se o superior que preside a eleição considerar isso um inconveniente, pode ser escolhido, com o consentimento do bispo ou de outro superior, uma dentre as do mesmo convento que estão além do trigésimo ano, e que desde a profissão tenham vivido ao menos cinco anos de maneira exemplar… Em outros detalhes, a constituição de cada ordem ou convento deve ser observada.” (Conc. Trid., Sess. Xxv, De regular. Et monial., Cap. Vii.) Por várias decisões da Sagrada Congregação do Conselho e da Sagrada Congregação dos Bispos e Regulares, é proibido, sem a dispensa da Santa Sé, a eleição de uma freira de nascimento ilegítimo; uma que não possua integridade virginal do corpo; ou alguém que teve que sofrer uma penitência pública (a menos que fosse apenas salutar); uma viúva; uma freira cega ou surda; ou uma das três irmãs vivas na época no mesmo convento. Nenhuma freira pode votar em si mesma. (Ferraris, Prompta Bibliotheca; Abbatissa. – Taunton, op. Cit.) As abadessas geralmente são eleitas para a vida toda. Na Itália, no entanto, e nas ilhas adjacentes, pela bula de Gregório XIII, “Exposcit debitum” (1º de janeiro de 1583), são eleitas apenas por três anos e, em seguida, devem deixar o cargo por um período de três anos, durante esse tempo elas não podem agir nem como vigárias. 

RITO DE BENEDIÇÃO – As abadessas eleitas perpetuamente podem ser abençoadas solenemente de acordo com o rito prescrito no Pontificale Romanum. Esta bênção (também chamada ordenação ou consagração) elas devem buscar, sob pena de privação, no prazo de um ano após a eleição, do Bispo da diocese. A cerimônia, que ocorre durante o Santo Sacrifício da Missa, pode ser realizada em qualquer dia da semana. No Pontificale, nenhuma menção é feita em relação à entrega do báculo, habitual em muitos lugares na instalação de uma abadessa, mas o rito é prescrito em muitos rituais monásticos e, em regra, a abadessa, como o abade, carrega o báculo como um símbolo de seu ofício e de sua posição; ela também tem direito ao anel. A indução de uma abadessa ao cargo assumiu um caráter litúrgico cedo na história da Igreja. Santa Radegunda, em uma de suas cartas, fala disso e nos informa que Agnes, a abadessa de Sainte-Croix, antes de assumir sua responsabilidade, recebeu o solene rito de bênção de São Germano, o bispo de Paris. Desde a época de São Gregório Magno, a bênção foi reservada ao bispo da diocese. Atualmente, algumas abadessas têm o privilégio de recebê-lo de certos prelados regulares.

AUTORIDADE DA ABADESSA – Uma abadessa pode exercer autoridade doméstica suprema (potestas dominativa) sobre seu mosteiro e todas as suas dependências, mas, como mulher, está impedida de exercer qualquer poder de jurisdição espiritual, como acontece com um abade. Ela tem o poder de administrar as posses temporais do convento; emitir ordens às freiras “em virtude da santa obediência”, vinculando-as assim na consciência, desde que a obediência que ela exija esteja de acordo com as regras e estatutos da ordem; e prescrever e ordenar o que for necessário para a manutenção da disciplina em casa ou propício à observância apropriada da regra e à preservação da paz e ordem na comunidade. Ela também pode irritar diretamente os votos de suas professas irmãs e, indiretamente, os dos noviços, mas não pode comutar esses votos, nem dispensá-los. Tampouco pode dispensar seus súditos de qualquer observação regular e eclesiástica, sem a permissão de seu prelado, embora ela possa, em um caso particular, declarar que um certo preceito deixa de se vincular. Ela não pode abençoar publicamente suas freiras, como um padre ou um prelado abençoa, mas pode abençoá-las da maneira que uma mãe abençoa seus filhos. Ela não tem permissão para pregar, embora possa, no capítulo, exortar suas freiras em conferências. Além disso, uma abadessa tem um certo poder de coerção, que a autoriza a impor punições de natureza mais leve, em harmonia com as disposições da regra, mas em nenhum caso ela tem o direito de infligir sanções eclesiásticas mais graves, como censuras. Pelo decreto (“Quemadmodum”, 17 de dezembro de 1890, de Leão XIII, as abadessas e outros superiores são absolutamente inibidas “de procurar, direta ou indiretamente, por comando, conselho, medo, ameaças ou agruras, induzir seus súditos a fazer para eles as manifestações secretas de consciência, de qualquer maneira ou sob que nome. ”O mesmo decreto declara que a permissão ou proibição da Santa Comunhão“ pertence exclusivamente ao confessor comum ou extraordinário, os superiores não tendo o direito de interferir no assunto, exceto apenas no caso em que qualquer um de seus súditos tivesse sido motivo de escândalo para a comunidade desde… sua última confissão, ou havia sido culpado de alguma grave falha pública, e isso apenas até que o culpado recebesse mais uma vez o Sacramento da Penitência. ” No que diz respeito à administração da propriedade monástica, deve-se notar que, em casos de maior envergadura, uma Abadessa é sempre mais ou menos dependente do Ordinário, se sujeito a ele, ou ao prelado se sua abadia está isenta. Pela Constituição “Inscrutabili”, de 5 de fevereiro de 1622, de Gregório XV, todas as abadessas, tanto isentas quanto não-isentas, também são obrigadas a apresentar uma declaração anual de suas temporalidades ao bispo da diocese.

Nos tempos medievais, as abadessas das casas maiores e mais importantes não eram incomumente mulheres de grande poder e distinção, cuja autoridade e influência rivalizavam, às vezes, com a dos bispos e abades mais venerados. Na Inglaterra saxônica, “eles costumavam ter o séquito e o estado das princesas, especialmente quando vinham de sangue real. Elas trataram com reis, bispos e os maiores senhores em termos de perfeita igualdade; (…) Estiveram presentes em todas as grandes solenidades religiosas e nacionais, na dedicação das igrejas, e até, como as rainhas, participaram das deliberações das assembléias nacionais e afixaram suas assinaturas nas cartas ali concedidas”. (Montalembert, “Os Monges do Ocidente”, cap. XV). Elas também apareceram nos conselhos da Igreja no meio dos bispos, abades e sacerdotes, assim como a Abadessa Hilda no Sínodo de Whitby em 664 e a Abadessa Elfleda, que a sucedeu, no do Rio Nith, em 705. Cinco abadessas estavam presentes no Conselho de Becanfield em 694, onde assinaram os decretos perante os presbíteros. Mais tarde, a abadessa “levou dízimos de igrejas expropriadas para sua casa, apresentou os vigários seculares para servir às igrejas paroquiais e tinha todos os privilégios de um senhorio sobre as propriedades temporais ligadas à sua abadia. A abadessa de Shaftesbury, por exemplo, financiou sete honorários de cavaleiro para o serviço do rei e realizou suas próprias cortes senhoriais. Wilton, Barking e Nunnaminster, bem como Shaftesbury, ‘detinham pelo rei um baronato inteiro’, e por esse direito, por um período, tiveram o privilégio de ser convocdas para o Parlamento. ” (Gasquet, “Vida Monástica Inglesa”, 39.) Na Alemanha, as Abadessas de Quedlinburg, Gandersheim, Lindau, Buchau, Obermunster etc., todas classificadas entre os príncipes independentes do Império e, como tal, sentaram-se e votaram na Dieta como membros do banco de bispos da Renânia. Elas viviam em estado principesco com uma corte própria, governavam suas extensas propriedades conventuais como senhoras temporais e não reconheciam superior eclesiástico, exceto o papa. Após a Reforma, seus sucessores protestantes continuaram desfrutando dos mesmos privilégios imperiais até tempos relativamente recentes. Na França, Itália e Espanha, as superioras femininas das grandes casas monásticas também eram muito poderosas. Mas o esplendor externo e a glória dos dias medievais agora se afastaram de todos.

CONFISSÃO À ABADESSA. – As abadessas não têm jurisdição espiritual e não podem exercer nenhuma autoridade que esteja de alguma forma ligada ao poder das chaves ou das ordens. Durante a Idade Média, no entanto, não eram frequentes as tentativas de usurpar esse poder espiritual do sacerdócio, e lemos de Abadessas que, além de serem culpadas de muitas invasões menores nas funções do ofício sacerdotal, presumiram interferir mesmo na administração do sacramento da penitência e confessaram suas freiras. Assim, nos Capitulares de Carlos Magno, é feita menção a “certas abadessas que, contrariamente à disciplina estabelecida da Igreja de Deus, pretendem abençoar o povo, impõem-lhes as mãos, fazem o sinal da cruz na testa dos homens, e conferem o véu às virgens, empregando durante a cerimônia a bênção reservada exclusivamente aos sacerdotes”, prática que todos os bispos devem proibir absolutamente em suas respectivas dioceses. (Thomassin, “Vetus et Nova Ecclesiae Disciplina”, pars I, lib. II, xii, n. 17.) O “Monasticum Cisterciense” registra a inibição severa que Inocêncio III, em 1210, colocou nas abadias cistercienses de Burgos e Palência na Espanha, “que abençoaram seus religiosos, ouviram a confissão de seus pecados e, ao ler o Evangelho, presumiram publicamente pregar”. (Thomassin, op. Cit., Parág. I, lib. III, xlix, n. 4.)
O Papa caracterizou a intrusão dessas mulheres como algo “inédito, mais indecoroso e altamente absurdo”. Dom Martene, o sábio beneditino, em sua obra “De Antiquis Ecclesiae Ritibus”, fala de outras abadessas que também confessaram suas freiras e acrescenta, não sem um toque de humor, que “essas abadias evidentemente superestimaram seus poderes espirituais. ” E até 1658, a Sagrada Congregação de Ritos condenou categoricamente os atos da Abadessa de Fontevrault na França, que, por sua própria autoridade, obrigou os monges e monjas de sua obediência a recitar ofícios, rezar missas e observar ritos e cerimônias que nunca haviam sido sancionados ou aprovados por Roma. (Analecta Juris Pontificii, VII, col. 348.) Nesse sentido, porém, deve-se observar que, quando as regras monásticas mais antigas prescrevem confissão ao superior, elas não se referem à confissão sacramental, mas ao “capítulo das faltas” ”Ou a culpa, na qual os religiosos se acusam de falhas externas comuns, patente a todos, e de pequenas infrações à regra. Essa “confissão” pode ser feita em particular ao superior ou publicamente na capela; nenhuma absolvição é dada e a penitência atribuída é meramente disciplinar. O “capítulo de faltas” é uma forma de exercício religioso ainda praticado em todos os mosteiros das ordens antigas.

Mas aqui deve ser feita referência a certos casos excepcionais em que as Abadessas foram autorizadas, por concessão e privilégio apostólicos, é alegado, a exercer um poder de jurisdição extraordinário. Assim, a Abadessa do Mosteiro Cisterciense de Santa Maria, a Real de las Huelgas, perto de Burgos, na Espanha, era, pelos termos de seu protocolo oficial, uma “senhora nobre, administradora superior, prelada e legítima em espirituais e temporais da referida abadia real, e de todos os conventos, igrejas e eremitérios de sua filiação, das aldeias e lugares sob sua jurisdição, senhoria e vassalagem, em virtude de touros e concessões apostólicas, com jurisdição plenária, privada, quase episcopal, nullio dioecesis. ” (Florez, “Espana sagrada”, XXVII, Madri, 1772, col. 578.) Pelo favor do rei, ela foi, além disso, investida de prerrogativas quase reais, e exerceu uma autoridade secular ilimitada em mais de cinquenta aldeias. Como os Lordes Bispos, ela mantinha seus próprios tribunais, em casos civis e criminais, concedia cartas de dispensário para ordenação e emitia licenças autorizando padres, dentro dos limites de sua jurisdição, a ouvir confissões, a pregar e a se empenhar na cura das almas. Ela também teve o privilégio de confirmar abadessas, impor censuras e convocar sínodos. (“Espana sagrada”, XXVII, col. 581.) Em um Capítulo Geral dos Cistercienses, realizado em 1189, foi nomeada Abadessa Geral da Ordem do Reino de Leão e Castela, com o privilégio de convocar anualmente um capítulo geral na Burgos. A abadessa de Las Huelgas manteve seu antigo prestígio até a época do Concílio de Trento.

Um poder de jurisdição quase igual ao da abadessa de Las Huelgas foi uma vez exercido pela abadia cisterciense de Conversano na Itália. Entre os muitos privilégios desfrutados por esta abadessa, pode-se mencionar especialmente o de nomear seu próprio vigário-geral por meio de quem ela governava seu território abbatista; o de selecionar e aprovar confessores para os leigos; e a de autorizar os clérigos a ter a cura de almas nas igrejas sob sua jurisdição. Toda nova abadessa de Conversano também tinha o direito de receber a “homenagem” pública de seu clero – cuja cerimônia era suficientemente elaborada. No dia marcado, o clero, em um corpo, reparou na abadia; no grande portão de seu mosteiro, a abadessa, com mitra e botama, sentava-se entronizada sob um dossel, e quando cada membro do clero passava diante dela, fazia sua reverência e beijava a mão dela. O clero, no entanto, desejava acabar com a prática desagradável e, em 1709, apelou a Roma; a Sagrada Congregação dos Bispos e Regulares modificou alguns dos detalhes cerimoniais, mas reconheceu o direito da Abadessa à homenagem. Finalmente, em 1750, a prática foi totalmente abolida, e a abadessa privada de todo o seu poder de jurisdição. (Cf. “Analecta Juris Pontificii”, XXXVIII, col. 723; e Bizzari, “Collectanea”, 322.) Entre outras abadessas que se diz terem exercido poderes de jurisdição, por pelo menos um período, pode ser mencionada a abadessa de Fontevrault na França e de Quedlinburg na Alemanha. (Ferraris, “Biblioth. Prompta; Abbatissa.”)

ABADESSAS PROTESTANTES DA ALEMANHA. – Em algumas partes da Alemanha, notadamente em Hannover, Wurtemberg, Brunswick e Schleswig-Holstein, vários estabelecimentos educacionais protestantes, e certas irmandades luteranas são dirigidas por superioras que se denominam abadessas até os dias atuais. Todos esses estabelecimentos eram, ao mesmo tempo, conventos e mosteiros católicos, e as “abadessas” agora presidindo eles são, em todos os casos, as sucessoras protestantes de uma antiga linhagem de abadessas católicas. A transformação em casas e seminários comunitários protestantes foi efetivada, é claro, durante a revolução religiosa do século XVI, quando as freiras que permaneceram leais à fé católica foram expulsas do claustro e as irmandades luteranas se apossaram de suas abadias. Em muitas comunidades religiosas, o protestantismo foi imposto à força aos membros, enquanto em alguns poucos, principalmente no norte da Alemanha, foi voluntariamente adotado. Mas em todas essas casas, onde os antigos ofícios monásticos continuavam, os títulos dos funcionários também eram mantidos. E assim, desde o século XVI, existem tanto as abadessas católicas quanto protestantes na Alemanha. A abadia de Quedlinburg foi uma das primeiras a abraçar a Reforma. Sua última abadessa católica, Magdalena, princesa de Anhalt, morreu em 1514. Já em 1539, a abadessa Anna II de Stolberg, que foi eleita para o cargo aos 13 anos de idade, introduziu o luteranismo em todas as casas sob sua jurisdição. O serviço de coro na igreja da abadia foi abandonado e a religião católica foi totalmente revogada. Os ofícios monásticos foram reduzidos para quatro, mas os antigos títulos oficiais foram mantidos. Posteriormente, a instituição continuou como irmandade luterana até a secularização da abadia em 1803. As duas últimas abadessas foram a princesa Anna Amelia (m. 1787), irmã de Frederico, o Grande, e a princesa Sophia Albertina (m. 1829), filha do rei Adolphus Frederick da Suécia. Em 1542, sob a abadessa Clara da casa de Brunswick, a Liga Schmalkaldic impôs à força o protestantismo aos membros da antiga e venerável abadia beneditina de Gandersheim; mas embora os invasores luteranos tenham sido expulsos novamente em 1547 pelo pai de Clara, duque Henry, o Jovem, um católico leal, o luteranismo foi introduzido permanentemente, alguns anos depois, por Julius, duque de Brunswick. Margaret, a última abadessa católica, morreu em 1589 e, após esse período, abadessas luteranas foram nomeadas para a fundação. Estas continuaram a gozar dos privilégios imperiais de seus antecessores até 1802, quando Gandersheim foi incorporado à Brunswick. Entre as casas de menor importância ainda existentes, a Abadia de Drubeck pode ser notada especialmente. Ao mesmo tempo, um convento católico, caiu nas mãos protestantes durante a Reforma. Em 1687, o Eleitor Frederico Guilherme I de Brandemburgo concedeu as receitas da casa aos condes de Stolberg, estipulando, no entanto, que mulheres de nascimento nobre e professando a fé evangélica deveriam sempre encontrar um lar no convento, ser adequadamente providas e morar lá sob o governo de uma abadessa. Aparentemente, o desejo do eleitor ainda é respeitado.

ABADESSA SECULAR NA ÁUSTRIA. – No Hradschin de Praga, existe um notável Instituto Imperial Católico, cuja diretora sempre leva o título de Abadessa. O instituto, hoje o mais exclusivo e o mais dotado do gênero na Áustria, foi fundado em 1755 pela imperatriz Maria Teresa, para nobres pobres da linhagem antiga. A abadessa é sempre uma arquiduquesa austríaca e deve ter pelo menos dezoito anos de idade para poder assumir as funções de seu ofício. Suas insígnias são uma cruz peitoral, o anel, o cajado e uma coroa principesca. Antigamente, era um privilégio exclusivo desta abadessa coroar a rainha da Boêmia – uma cerimônia realizada pela última vez em 1808, para a imperatriz Maria Louisa. Os candidatos à admissão no Instituto devem ter 29 anos de idade, moral irrepreensível e capacidade de rastrear sua nobre ancestralidade, paterna e materna, por oito gerações. Elas não fazem votos, mas vivem em comunidade e são obrigados a ajudar duas vezes ao dia no serviço divino na Stiftskirche, e devem confessar-se e receber a Comunhão quatro vezes por ano nos dias designados. Elas são todas Hoffahig1.

NÚMERO E DISTRIBUIÇÃO, POR PAÍSES, DE ABADESSAS – Atualmente, as abadessas dos beneditinos negros2 são 120. Dessas, 71 são na Itália, 15 na Espanha, 12 na Áustria-Hungria e 11 na França (antes da Lei das Associações), 4 na Inglaterra, 3 na Bélgica, 2 na Alemanha e 2 na Suíça. Os cistercienses de todas as Observâncias têm um total de 77 abadessas. Destas, 74 pertencem aos cistercienses da Observância Comum, que têm a maioria de suas casas na Espanha e na Itália. As cistercienses da estrita observância têm duas abadessas na França e uma na Alemanha. Não há abadessas nos Estados Unidos. Na Inglaterra, os superiores das seguintes casas são abadessa: Abadia de St. Mary, Stanbrook, Worcester; Abadia de Santa Maria, East Bergholt, Suffolk; Abadia de St. Mary, Oulton, Staffordshire; Abadia de Santa Escolástica, Teignmouth, Devon; Abadia de Syon em St. Bridget, Chudleigh, Devon (Brigittine); Abadia de St. Clara, Darlington, Durham (Pobres Claras). Na Irlanda: Convento das Clarissas, Ballyjamesduff.

THOMAS OESTRIECH

  1. Pessoas que não consideradas “dignas” de serem recebidas na corte e, por conseguinte, não aceitas nos círculos sociais mais nobres. (N. do T.)
  2. Referência à cor do hábito. (N. do T.)

O Cooperadores da Verdade tem o prazer de fornecer esse verbete completo da Enciclopédia Católica original, publicada entre 1907 e 1912. É um recurso valioso para assuntos relacionados a teologia, filosofia, história, cultura e muito mais. Porém, como a maioria das obras com mais de um século, ela pode ocasionalmente usar linguagem anacrônica ou apresentar informações científicas desatualizadas. Consequentemente, ao oferecer esse recurso, os Cooperadores não endossam, assim, todas as afirmações ou frases contidas nele.

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