A Imaculada Conceição de Maria foi necessária?

A doutrina da Imaculada Conceição de Maria ensina que a Mãe de Jesus foi “preservada imune de toda mancha do pecado original”[1] desde o primeiro instante de sua concepção “por singular graça e privilégio de Deus onipotente”[2]. O dogma foi oficialmente proclamado pelo Papa Pio IX em 1854 por meio da bula “Ineffabilis Deus”.

É preciso ressaltar que a formalização desta doutrina como dogma não implica que os católicos passaram a depositar a sua fé nesta verdade somente depois da segunda metade do século XIX. Uma breve leitura da bula papal é suficiente para contestar essa afirmação, pois nela estão contidas as fundamentações bíblicas, teológicas e históricas deste artigo de fé.

Nossos irmãos separados (os protestantes), normalmente[3], rejeitam esta ideia como herética e blasfema. O argumento implícito por trás desta rejeição é o seguinte:

Se Deus é poderoso o suficiente para fazer com que Maria seja concebida imaculada no ventre de uma mãe pecadora, também é poderoso o suficiente para fazer com que Jesus seja concebido imaculado no ventre de uma mãe pecadora. Assim, como não há nenhuma referência explícita na Bíblia para a imaculada conceição da Mãe do Salvador, nem razão suficiente para admitir tal fato, somos levados a rejeitar completamente esta ideia.

Este é, de fato, um argumento muito bom e convincente. Tão convincente que tem forçado a grande maioria dos católicos a admitir que realmente não haveria uma razão necessária para a Imaculada Conceição de Maria. A grande maioria das defesas do dogma da Imaculada Conceição têm usado o argumento da conveniência, “decuit, potuit, fecit!”[4]. A própria formulação dogmática do Papa Pio IX não vai além desta razão: “era de todo conveniente que esta Mãe tão venerável brilhasse sempre adornada dos fulgores da santidade mais perfeita”[5].

Um novo argumento

Hoje, no entanto, gostaria de aprofundar a questão e propor um novo[6] argumento, apontando para o fato de que, para além da conveniência, há pelo menos uma razão necessária[7] pela qual Maria deveria, de fato, ser imaculada. O argumento fica da seguinte forma:

Premissa 1: Era necessário que a natureza humana de Jesus fosse imaculada.

Premissa 2: Para que a natureza humana de Jesus fosse imaculada, a humanidade de sua mãe, de quem Jesus herda a sua humanidade, também deveria ser imaculada.

Conclusão: Logo, a mãe de Jesus foi imaculada.

A primeira premissa

As razões da primeira premissa me parecem óbvias. Jesus, enquanto Deus, é a própria santidade e pureza encarnadas. Seria absurdo admitir que Aquele que é o cume e a fonte de toda a santidade e pureza pudesse ter uma natureza humana manchada pelo pecado do qual Ele mesmo veio nos salvar e libertar.

A segunda premissa

A segunda premissa nos é mais desafiadora. A primeira afirmação, de que Jesus herda a sua humanidade de sua mãe Maria, nos parece incontestável, uma vez que devemos admitir que Jesus é consubstancial ao Pai em sua divindade e consubstancial ao homem em sua humanidade. Ou, como se costuma corretamente dizer, Jesus é cem por cento homem e cem por cento Deus. As heresias antigas que buscavam negar uma coisa ou outra já foram superadas e não merecem ser tratadas aqui. Doutrinas cristológicas sérias, mesmo dentro do protestantismo, não discordam essencialmente daquilo que a Igreja Católica historicamente ensina nestes quase dois mil anos[8].

A segunda afirmação desta mesma premissa, de que a humanidade da mãe de Jesus também deveria ser imaculada, é o cerne do nosso argumento. Devo começar apresentando os dois modos pelos quais se é possível realizar a salvação.

O primeiro modo é chamado redenção. Ele consiste no ato de se salvar alguém de uma situação mal ou desastrosa na qual esta pessoa já se encontra, por exemplo, atirar uma boia ao mar para salvá-la do afogamento, ou perdoar seus pecados para salvá-la da morte eterna.

O segundo modo é conhecido por prevenção. Ele consiste no ato de se salvar alguém também de uma situação mal ou desastrosa, porém, antes mesmo que essa pessoa se coloque em risco, por exemplo, impedindo-a de cair no mar para salvá-la de um afogamento iminente ou impedindo-a de contrair o pecado original para salvá-la da morte eterna iminente.

Redenção é o modo pelo qual Deus nos salva, redimindo-nos de todos os nossos pecados (o pecado original e os pecados atuais), aplicando a nós os méritos de Cristo conquistados na Cruz. Isso acontece no nosso batismo, conforme acreditamos como católicos.

Seria contraditório admitir, no entanto, que o próprio Cristo, enquanto homem, fosse redimido de todos os seus pecados como nós, pois sabemos que Ele não contraiu o pecado original nem cometeu pecado algum (cf. Hb 4, 15). Porém, admitir que o Filho de Deus teria sido preservado do pecado, sendo miraculosamente concebido no ventre de uma “mãe pecadora”, não deixa de ser uma ideia igualmente contraditória, uma vez que seria admitir que o salvador, antes, precisou Ele mesmo ser salvo (por prevenção).

Não é possível cogitar a hipótese de que a humanidade de Jesus, o Filho de Deus encarnado, cume e fonte de toda a santidade e pureza, estivesse sujeita à mancha do pecado original, sem cair em contradição. Assim, a afirmação de que a Imaculada Conceição de Maria foi necessária para servir à Encarnação do Verbo e gerar humanidade imaculada de Jesus é uma consequência lógica e necessária que somos forçados a admitir.

Objeções

É importante enfatizar que essa necessidade não recai sobre os pais da Virgem Maria, nem seus ascendentes, como muitos argumentam. Isso se deve ao fato de que sua “imunidade” ao pecado não é de origem natural, mas miraculosa. No curso natural, Maria estava sujeita ao pecado original como qualquer um de nós. Ela seria, de fato, uma pecadora se não fosse a graça e o favor imerecidos de Deus que, tendo-a escolhido para ser a Mãe do Salvador, a preservou deste terrível mal para que, assim, como a humilde serva do Senhor, pudesse cooperar com a vinda de Seu Filho ao mundo.

Esse privilégio concedido por Deus à Virgem Maria não é uma negação da redenção, mas sim um fruto dela. Maria foi salva de maneira antecipada e extraordinária por meio da redenção de Cristo, antes mesmo de conceber Jesus em seu ventre. Isso não configura nenhuma contradição ou impedimento para Deus, como alguns podem pensar. Afinal, Deus é o Senhor do tempo. Se os méritos de Cristo na cruz podem ser aplicados a nós hoje, quase dois mil anos depois do evento que redimiu o mundo, o que impediria Ele de aplicá-los antecipadamente àquela que seria a mãe do seu Filho, o Salvador Encarnado? Nada.

A conclusão

Enfim, as premissas apresentadas confirmam a conclusão de que a Imaculada Conceição de Maria é uma verdade necessária e coerente com a natureza divina e humana de Jesus Cristo.

Como tenho dito constantemente, a Mariologia é a fiel guardiã da Cristologia. E aqui temos um exemplo claro de que não poderíamos negar este dogma mariano sem comprometer a compreensão do próprio Cristo como o Salvador e Redentor do mundo.

Salve Maria!

Referências:

  1. Ineffabilis Deus, 13.
  2. Ineffabilis Deus, 41.
  3. Nem sempre foi assim. Lutero, por exemplo, admitia a Imaculada Conceição de Maria.
  4. “[Deus] podia, convinha, então fez.” (Duns Scotus)
  5. Ineffabilis Deus, 3.
  6. Novo, pelo menos para mim, mas pode ser que alguém já tenha pensado nisso antes, embora eu desconheça.
  7. Estamos falando de uma necessidade hipotética e não absoluta. Absolutamente nem mesmo a figura de Maria foi necessária, uma vez que Deus poderia ter criado a humanidade de Jesus ex nihilo (do nada). A necessidade hipotética é aquela em que uma ação é necessária para alcançar um determinado fim. Isso significa que, se Deus escolheu que o Filho se encarnaria no ventre de uma mulher, era necessário que essa mulher fosse imaculada.
  8. Não admitir, por exemplo, que Jesus herde a sua humanidade de Maria (suas características genéticas, etc., considerando que a parte masculina necessária para a sua concepção é de origem miraculosa), facilmente nos faria cair na heresia do docetismo, para a qual a humanidade de Jesus era apenas aparente. Isso contraria a afirmação bíblica explícita de que Jesus se fez “igual a nós em tudo” (cf. Hb 4, 15).
  9. Catecismo da Igreja Católica, 1213-1284.
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