Da Natureza das Orações dos Santos

Apresentação

Pude participar recentemente de uma magnífica live apologética com o professor Eduardo Faria. Na ocasião, respondemos a um pastor de nome Carlos Vailatti, que se propôs inicialmente a responder a um antigo vídeo do professor Eduardo. 

Foram dezenas de temas abordados pelo pastor, e mais outras dezenas de respostas — bíblicas e patrísticas — que lhe demos; menciono aqui, todavia, a que ganhou certa repercussão com o público e que me fez ter a honra de se prestigiado com um vídeo do diácono João Victor Mariano em seu canal do Youtube, que rasgou elogios a um dos argumentos que apresentei para a refutação das objeções contra a intercessão dos santos no céu. 

Devo dizer, antes de mais nada, que a raiz do argumento se encontra em uma polêmica do Dr. Carlos de Laet, jornalista e um gramático de ponta, contra um pastor protestante de seu tempo; e também em Santo Tomás, o Doutor Comum da Igreja. O que fiz foi simplesmente condensar as sementes de ambas as fontes. Que a Virgem Santíssima esteja comigo, e que Nosso Senhor não me permita dizer nada mais que a Verdade.

Se o homem pode interceder

Penso que seja mais adequado, antes de mais, trazermos os exemplos claríssimos na Sagrada Escritura que todo homem é, em alguma medida, também um mediador. Julgo que, inicialmente, não enfrentaremos tanta dificuldade, posto que grande parte dos protestantes aceitam o fato de que nós, neste mundo, devemos orar uns pelos outros; é o que ensina Jesus Cristo, em diversas e diversas ocasiões (Lc 6, 27-28; Mt 5,44; etc.).

Ocorre que, a confusão mental é tal, que invertem a cadeia do raciocínio: iniciam negando que o homem é também mediador, na medida que intercede pela salvação de outro; mas quando se prova que é a Escritura quem isto nos diz, passam a aceitar o ensinamento como se antes não o rejeitassem, mas afirmam que tal mediação só ocorre no mundo presente, no plano terrestre em que nos encontramos, e não no eterno. Ora, não seria muito mais fácil iniciar defendendo o segundo ao invés do primeiro? Nos obrigam, portanto, a provar que existe uma mediação secundária que se dá em virtude do corpo místico de Cristo; e como a união dos membros no corpo místico está para além do tempo e do espaço, esta mesma mediação ultrapassa igualmente as barreiras do tempo e do espaço. 

Essa mesma mediação secundária, que se dá em virtude da participação dos membros no corpo místico de Cristo, não ocorre todavia por algum defeito no poder divino, mas muito pelo contrário: Deus mesmo opera com o seu poder através de causas segundas agentes a fim “de que a sua bondade se difunda mais multiplamente nas coisas, enquanto estas recebem d’Ele não só as bondades próprias, mas ainda o serem causa de bondade para outras”, como muito bem observa Santo Tomás (Suma Teológica, Suplemento, q. 72, a. 2).

E recorramos, mais uma vez, à Sagrada Escritura. A Revelação muito nos diz a respeito da intercessão dos homens pelo bem de seus irmãos e o quanto que isto é agradável aos olhos de Deus. Moisés, logo após ver o povo que ele mesmo libertou da escravidão do Egito idolatrando o bezerro de ouro, começou a orar incessantemente e,, pasmem!, o Senhor suspendeu o seu castigo por intermédio de sua intercessão (Ex 32,11-14). 

O mesmo Moisés aparece mais uma vez intercedendo pelo povo no livro de Números, quando Deus mais uma vez ameaça castiga-lo: “Perdoa, pois, a iniquidade deste povo, segundo a grandeza da tua misericórdia; e como também perdoaste a este povo desde a terra do Egito até aqui. E disse o Senhor: Conforme à tua palavra lhe perdoei” (Nm 14,19-20).

Também observamos, no diálogo de Samuel com os israelitas, que o próprio povo pedia aos homens justos e santos que intercedessem por todos diante de Deus: “E todo o povo disse a Samuel: Roga pelos teus servos ao Senhor teu Deus, para que não venhamos a morrer” (1 Sm 12,19). Ao que respondeu Samuel: “E quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós” (1 Sm 12,23). É interessante notar que, para Samuel, deixar de interceder pelo povo de Israel constituiria um pecado contra Deus.

Ainda no Antigo Testamento, vejamos o que o próprio Senhor disse no final do livro de Jó: “Tomai, pois, sete touros e sete carneiros, e ide ao meu servo Job. Oferecei um holocausto por vós; o meu servo Job orará por vós. Admitirei propício a sua intercessão para que se vos não impute esta estultícia, porque vós não falastes de mim o que era recto, como o meu servo Job” (Jó 42,8). Aqui é Deus mesmo quem admite que Ele concede graças aos seus servos por causa da intercessão de seus homens santos: Admitirei propício a sua intercessão para que se vos não impute esta estultícia.

E no Novo Testamento nada muda. Toda a Igreja neotestamentária rezou e intercedeu a Deus por São Pedro, seu chefe visível (Jo 21,15-19), quando da ocasião de sua prisão (At 12,5). São Paulo, em sua primeira carta a Timóteo, diz que devemos interceder por todos os homens: “Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens […] Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador” (1 Tim 2,1.3). E mais uma vez a Escritura nos diz que intercedermos uns pelos outros é “bom e agradável diante de Deus”.

O mesmo São Paulo insistiu nisso em diversas ocasiões. Quando escreveu aos coríntios, não deixou de suplicar pelas suas orações: “Ajudais-nos também com as vossas orações” (2 Cor 1,11). E o mesmo com os tessalonicenses (1 Ts 5,25; 2 Ts 3,1-2); com os colossenses (Cl 4,3); com os efésios (Ef 6,18-19) e etc.

Não há quem negue, portanto, que a intercessão pelos irmãos é um dever moral para todos os cristãos.

Os santos estão no céu

Há, porém, aqueles que negam que os santos estejam no céu. Dizem que as almas, após a morte, entram em um estado de dormição, enquanto aguardam o dia do Juízo. É realmente uma pena que tal posição não encontre fundamento na Escritura que tanto dizem defender.

Antes de mais: a alma dorme apenas enquanto está ligada e unida ao corpo, que é o princípio ativo do sono. O mesmo se dá com a abstração, que não existe fora do corpo — o que é um grande exemplo em nosso favor. Explique-se.

Que é abstração? Quer dizer ab-trahere: trazer de. O processo de abstração nada mais é do que, como num recorte ontológico, apreender as formas da matéria. Primeiro o intelecto conhece aquilo que se nos apresenta aos sentidos através dos aspectos acidentais das substâncias, e só depois é que apreendemos a forma [sempre imaterial] destas mesmas substâncias. Mas, se o intelecto é imaterial, como pode ele ver aquilo que é material e distingui-lo/separá-lo do imaterial?

Isso se dá pelo simples fato de que a alma humana, além de intelectiva, é, também, sensível; ela que, por sua vez, está ligada aos nossos órgãos e sentidos. Sem olhos, ouvidos e etc., como seríamos capazes de abstrair? Portanto, o princípio da abstração é a ligação da alma ao corpo, embora a abstração seja um ato do intelecto. E assim se dá também com o sono, que é ato da alma, mas que tem por princípio o corpo.

Saindo agora do campo Metafísico, percebemos que a Revelação nos fornece as respostas à razão quanto ao que ocorre com a alma dos justos quando separada do corpo. Lemos no Antigo Testamento que Judas Macabeu vê Onias e Jeremias (ambos já haviam morrido) conscientes, tomando conhecimento do que se passava na terra e intercedendo pelo povo a Deus: “Eis o que tinha visto: Onias, que foi sumo sacerdote, homem nobre e bom, modesto em seu aspecto, de caráter ameno, distinto em sua linguagem e exercitado desde menino na prática de todas as virtudes, com as mãos levantadas, orava por todo o povo judeu […] Então, tomando a palavra, disse-lhe Onias: ‘Eis o amigo de seus irmãos, aquele que reza muito pelo povo e pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus’” (2 Mc 15,12.14).

Como se vê, Onias e Jeremias intercedem juntos pelo povo de Deus, mesmo quando já estavam mortos. Mas bradam os protestantes, dizendo que este é um livro apócrifo e que não deve ser considerado. Ora, se a régua (o kanón) sagrada para os protestantes está confiada nas mãos do povo que recusou e mandou prender e matar Jesus e que perseguiu fortemente o Cristianismo em seus primeiros dias de nascimento, a fim de que fosse extinto o mais rápido possível, e não nas mãos daquela coluna e firmamento da verdade (1 Tim 3,15) que lhes deu também o Novo Testamento, já não temos nada que ver com isso. 

De todo modo, o texto dos Macabeus nos evidencia historicamente que a doutrina de que as almas dos justos intercedem a Deus pelo povo na beatitude já é antiquíssima (mais antiga até que a Encarnação de Cristo), e que, portanto, não passa de mais uma mentira a de que a Igreja fez sincretismo religioso com os ídolos do Império Romano pagão no quarto século.

Todavia, a Bíblia é católica; toda ela, do Gênesis ao Apocalipse; cada capítulo, cada versículo, cada letrinha assinalada pela inerrância dos autores sagrados nos mostram a catolicidade e o ensinamento sempre certo da Igreja. E é por isso que nós não nos limitamos tão somente aos livros dos Macabeus e encontramos a mesmíssima doutrina até em livros que, para o seu grande pesar, os protestantes também aceitam. Investiguemos um pouco mais.

Ainda no Antigo Testamento, Deus nos revelou que Samuel (já falecido) apareceu a Saul e com ele conversou: “E lhe disse: Como é a sua figura? E disse ela: Vem subindo um homem ancião, e está envolto numa capa. Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra, e se prostrou. Samuel disse a Saul: Por que me inquietaste, fazendo-me subir? Então disse Saul: Mui angustiado estou, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se tem desviado de mim, e não me responde mais, nem pelo ministério dos profetas, nem por sonhos; por isso te chamei a ti, para que me faças saber o que hei de fazer” ( 1 Sm 28,14-15). 

Acontece que não somente no mesmo capítulo é dito que Samuel já havia morrido (v.3), como também no capítulo 25 é narrada mais propriamente a sua morte. Portanto, tal como em Macabeus com o profeta Jeremias, no livro de Samuel também consta a verdade já tão antiga de que as almas dos santos estão conscientes e unidas a Deus na eternidade. Lemos, outrossim, em Eclesiástico que Samuel continuou profetizando, mesmo após a sua morte: “Mesmo depois de morto, ele profetizou e anunciou ao rei o seu fim” (Eclo 46,20). Que lástima! Um livro sagrado confirmando a doutrina de dois livros “apócrifos”!

Também é dito no livro de Eclesiastes: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Ecl 12,7). Ou mesmo as palavras de Cristo ao Bom Ladrão, que evidenciam perfeitamente a união da alma com Deus imediatamente (i.e, caso não passem primeiro pelo purgatório) após a morte: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). São Paulo, tendo o conhecimento desta mesma união prometida por Nosso Senhor, também escreveu: “Desejo partir e estar com Cristo […]” (Fl 1,23), quer dizer, unir-se a Deus no céu – o que ele diz que é, obviamente, muito melhor do que permanecer aqui (v.23).

É mister lembrar que o Novo Testamento ainda nos narra o episódio da Transfiguração de Jesus, onde Moisés e Elias aparecem vivos e conscientes conversando com o Senhor (Mt 17,1-3). Alguém ainda poderia objetar que a Transfiguração não nos prova nada, razão por que Elias não morreu. Concedemos o último, que é verdade bíblica; mas o que Moisés tem que ver com Elias? Nada. A Escritura é clara ao afirmar que Moisés morreu (Dt 34,5-6) e que, além disso, seu corpo ainda foi disputado por São Miguel e Satanás (Jd 1,9). Portanto, mesmo tendo morrido, Moisés se apresenta consciente diante do Senhor, como nos afirma infalivelmente a Escritura Sagrada.

Some-se a isto as várias passagens do Apocalipse que atestam que as almas dos santos mártires clamavam por justiça diante de Deus:  “E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (Ap 6,10). Mais uma vez a Escritura nos mostra almas que já partiram deste mundo conscientes e falando com Deus.

Deve-se também levar com particular consideração os ensinamentos que saíram diretamente da boca do Redentor, como quando narrou a parábola do Rico e Lázaro. Ali, Nosso Senhor descrevia os tormentos que a alma do rico passava após a morte e a sua total consciência do que lhe aconteceu — e não apenas isso, mas Cristo diz que o rico com o próprio Abraão conversou (Lc 16,25). E não me venham os protestantes querer invalidar ou diminuir os ensinamentos do Salvador alegando que se tratava “simplesmente” de uma parábola! Cristo muito ensinou através delas, e certamente não iria contradizer a sua doutrina sempre certa pondo em parábolas um dado contrário à Revelação — a de que as almas, tanto no céu como no inferno, estão conscientes. Imagine se disséssemos que o amor de Deus não é eterno simplesmente porque Cristo, a fim de melhor ilustrar esta verdade para nós, se valeu da parábola do filho pródigo!

Poderíamos ainda citar mais tantos outros exemplos por aqui, mas vejamos de onde surge o tal “fundamento bíblico” para a dormição da alma após a morte e tentemos entendê-la junto com o arsenal imenso de passagens que trouxe para sustentar uma doutrina de dois mil anos a respeito da intercessão dos santos no céu.

Selecionemos alguns dos textos principais:

  • “Os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma” (Ecl 9,5);
  • Os mortos não louvam o Senhor, nem os que descem ao silêncio” (Sl 115,7);
  • “Não queremos que ignoreis a respeito dos que dormem…” (1 Ts 4,13).

Quanto à passagem do livro de Eclesiastes, já sabemos que o próprio autor admitia que o corpo volta para a terra e a alma volta para Deus (Ecl 12,7). O que resolve a enigmática contradição de Eclesiastes é o fato de que, em um momento se enfatiza as realidades que o homem há de enfrentar do ponto de vista tão somente do mundo presente – e por isso se diz “debaixo do sol” (v.6), quer dizer, do ponto de vista meramente material na terra; e em outro momento o que há de acontecer após isto. Ora, no mesmo versículo é dito algo que sabemos por fé que não se segue: “nem tampouco terão eles [os mortos] recompensa” (v.5). Mas, se os mortos não terão recompensa, como que os justos de Deus seriam recompensados após essa vida? 

Nos confirma São Paulo: “Não sabeis que os que correm no estádio, todos correm, mas um só recebe o prêmio? Correi de tal modo que o alcanceis. Todo atleta se impõe toda espécie de disciplina; eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível, nós, porém, uma incorruptível” (1 Cor 9,24-25); e mais ainda: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Desde agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas a todos os que tiverem amado a sua vinda” (2 Tim 4,7-8).

Ora, então é verdade que os mortos receberão recompensa futura, desde que, como São Paulo, combatam o bom combate e guardem a fé; mas, sendo Eclesiastes também livro sagrado, é igualmente verdade que os mortos não recebem recompensa: do ponto de vista material, ao pó retornam e nada mais seus corpos podem fazer ou receber; do ponto de vista da alma [o mais importante, sem dúvidas], unem-se a Deus e, a exemplo dos já citados Jeremias e Samuel, estão conscientes do que se passa na terra e intercedem a Deus pelo seu povo.

Quanto à passagem do livro dos Salmos, o texto diz respeito ao culto pagão prestado aos ídolos, conforme é dito nos versículos anteriores: “Por que dirão os gentios: Onde está o seu Deus? Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou. Os ídolos deles são prata e ouro, obra das mãos dos homens. Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não veem. Têm ouvidos, mas não ouvem; narizes têm, mas não cheiram. Têm mãos, mas não apalpam; pés têm, mas não andam; nem som algum sai da sua garganta. A eles se tornem semelhantes os que os fazem, assim como todos os que neles confiam” (v.2-8). Quer dizer, trata-se de um texto que confronta diretamente o culto e a concepção pagã de divindade, e não se pode entender os “mortos” aqui em universal, mas em um sentido muito estrito ao contexto no qual o termo se encontra.

Usemos o culto idolátrico dos egípcios, estes que conviveram por muito tempo com os hebreus, como exemplo. Os pagãos entendiam que mesmo para os mortos havia um deus: Osíris. O faraó, que em vida já era considerado divino e, portanto, era cultuado por todo o reino, quando morria, recebia a plenitude de sua divindade e permanecia sendo cultuado pelo seu povo junto ao deus dos mortos. É isso que nos mostra as inscrições antigas das pirâmides egípcias: 

“Ó Unas, tu não partiste morto,

mas vivo

para te sentares no trono de Osíris,

com teu cetro ‘aba na mão

para que possas dar ordens aos vivos,

com teu cetro de botão de lótus na mão

para que possas dar ordens àqueles cujos assentos estão ocultos” 

(Utterance 213, Pirâmide de Unas).

Portanto, o livro de Salmos condena antes os ídolos, aqueles mesmos de prata e ouro; que têm ouvidos e não ouvem; boca e não falam; etc., que os santos de Deus que partem deste mundo. Admitir maliciosamente o contrário é acusar a Escritura Divina de contradição e duvidar de sua inerrância, como faziam, aliás, os mesmos pagãos.

Quanto à passagem da primeira Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses, encontramos a menor de todas as dificuldades, uma vez que o Apóstolo se refere no mesmo lugar à Ressureição [do corpo, é evidente] que há de vir (v.14). E, para tal, se utiliza de linguagem figurada ao dizer “aos que em Jesus dormem”, e por duas razões: a) primeiro, porque o corpo, de fato, parece dormir quando morre — me sirvo das palavras do próprio Cristo, que dizia que Lázaro dormia: “Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo do sono […] Mas Jesus dizia isto da sua morte; eles, porém, cuidavam que falava do repouso do sono” (Jo 11,11.13); b) segundo, porque a alma de fato repousa e descansa quando contempla a Deus na beatitude, não sofrendo mais nenhuma espécie de tormento ou dor: “Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede; nem sol nem calor algum cairá sobre eles. Porque o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará, e lhes servirá de guia para as fontes vivas das águas; e Deus limpará de seus olhos toda a lágrima” (Ap 7,16-17). 

E, como já demonstramos suficientemente, o mesmo Apóstolo entendia que, partindo deste mundo, estaria então com o Cristo (Fl 1,23); o que igualmente se coaduna com aquilo que escreveu o autor de Hebreus, reforçando que a alma recebe o juízo particular de Deus imediatamente após a sua morte, sem que precise aguardar o dia do Juízo Final ou a Ressurreição para unir-se ao Senhor: “E assim como aos homens está ordenado morrer uma só vez, vindo depois disso o juízo” (Hb 9,27).

Portanto, fica devidamente provado, com amplo respaldo bíblico, que a alma não está inconsciente após a morte.

A caridade informa a oração

Chegamos, enfim, ao ponto fulcral de nosso simples artigo e ao argumento mesmo que apresentei contra o pastor Vailatti. Um dos questionamentos feitos pelo pastor, quanto ao texto de Apocalipse 5, foi o seguinte: qual a natureza das orações de todos os santos apresentadas pelos vinte e quatro anciãos diante de Deus?

Após a já exaustiva investigação que fizemos, percorrendo praticamente do Pentateuco ao Apocalipse, examinando as palavras do Cristo e as admoestações dos Apóstolos, analisando cuidadosamente as aparições dos justos do Antigo Testamento aos homens e ao próprio Senhor, dizemos que a natureza das orações apresentadas pelos santos diante de Deus — além dos louvores e da adoração que lhe prestam, é evidente — não é outra que não caritativa. E mais: somos da posição de que é a virtude teologal da caridade que informa a oração. Entendamos melhor.

Não parece ser outra virtude que não a caridade para informar as orações que fazemos a Deus; razão por que, além de ser a única das três virtudes que permanecerá para sempre (1 Cor 13,8), o homem pode até mesmo orar com fé e com esperança, mas, se não tiver caridade, de nada valerá.

É o que nos diz São Paulo, em um dos textos mais sagrados de toda Escritura e que merece ser lido integralmente:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.

Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e co­nhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada.

Ainda que distribuís­se todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!

A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante.

Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.

Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.

Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará.

A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita.

Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá.

Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como crian­ça. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de crian­ça.

Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido.

Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade – as três. Porém, a maior delas é a caridade.” (1 Cor 13).

Ubi caritas et amor, Deus ibi est: onde há caridade e amor, Deus aí está. É este o coração da oração: a caridade! A nossa fé poderia ser tal ao ponto de transportar as mais altas montanhas de um continente à outro; poderíamos obter toda a ciência do bem e do mal, como quiseram um dia Adão e Eva; poderíamos distribuir todos os bens e todas as riquezas para aqueles que mais precisam; sem a caridade, tudo isto se reduz a pó! E por que? Porque tudo é vaidade (Ecl 1,2), menos a caridade (1 Cor 13,4). Com isto não quero dizer que a fé, por exemplo, seja desnecessária, mas apenas repito o que o Apóstolo ensinou: se não houver caridade, a fé não servirá. Também São Tiago afirma enfaticamente que uma fé sem boas obras [que pressupõe necessariamente a caridade para que sejam meritórias] é morta (Tg 2,26).

Isso significa que, não importa o quanto oremos e o quão grande é a nossa fé; se a nossa oração não for movida pela caridade, ela de nada vale e nada pode fazer. Uma oração que busca satisfazer a própria vontade, colocando-a acima da vontade de Deus, não é verdadeira oração; é vaidade. E por isso dizemos firmemente: “fiat voluntas tua” — seja feita a vossa vontade! 

Deste modo, os santos que contemplam a face de Deus, que é a própria Caridade (1 Jo 4,8), unidos tão intimidante a Ele, não podem mais querer nada para si mesmos: já estão completamente esgotados da Felicidade Eterna e do Sumo Bem, que é o próprio Deus. Insista-se também que, mesmo quando ainda estavam neste mundo, os santos não pediam para si aquilo que lhes fosse contrário à obtenção da beatitude, razão por que rezariam de modo ímpio e, portanto, perderiam o mérito da oração, como diz Santo Tomás (Suma Teológica, II-II, q. 83, a. 15). 

Se já não podem mais nada obter de Deus em ordem à própria beatitude, e a caridade continua existindo mesmo no Céu, as orações dos santos, movidas e informadas pela mesma Caridade que contemplam face a face, pedem a Deus pelo bem daqueles que ainda precisam: ou seja, pelos membros da Igreja que ainda não se encontram na beatitude! Do contrário, teríamos que admitir dois gravíssimos erros: a) o primeiro, em assumirmos que a Felicidade Eterna (Deus mesmo) não foi suficiente para preencher as almas dos santos no Céu e, portanto, encontram-se ainda em potência para algo que o próprio Deus não lhes deu na visão beatífica; b) o segundo, em assumirmos que a caridade, contrariamente ao que ensinou belíssimamente São Paulo, é, sim, vaidosa, uma vez que, mesmo podendo pedir pelos que suplicam humildemente na terra, querem os santos no céu uma como maior beatitude para si mesmos, por mais que já estejam completamente unidos a Deus. 

O caso dos mártires em Apocalipse 6

Após tudo o que dissemos, poderia alguém objetar: se os santos no céu, impelidos pela Caridade, pedem não por si mesmos, mas por outros, por que os santos mártires pediram para que Deus os vingasse em Apocalipse 6?

Digo, desde já, que essa é uma excelente objeção e muito digna de resposta. Vejamos o que diz a passagem em questão:

“E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (Ap 6,9-19). 

Parece, portanto, que as almas dos santos mártires pediam algo para si mesmos a Deus. Mas é preciso esmiuçar melhor a questão.

Antes de mais, diga-se que as almas no céu já não movidas por nenhuma paixão dos apetites inferiores, de modo que, quando clamam pela vingança de Deus na terra, não o fazem movidos pelo ressentimento do que sofreram na terra, mas ainda pela mesma Caridade, para que Deus manifeste a sua justiça divina contra os maus — o que inclui, é evidente, os perseguidores — e console e socorra os bons — o que inclui os perseguidos: “Bem-aventurados os que forem perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus” (Mt 5,10). A caridade não contrapõe a justiça e nem muito menos a justiça contrapõe a caridade, e até mesmo age para que ela prevaleça.

Portanto, o clamor dos santos mártires não é para consolo de si mesmos; do contrário, teríamos que admitir que ainda padecem de certa paixão, sobretudo as inferiores, como se Deus mesmo não as tivesse cessado. Os mártires pedem pelo cumprimento da justiça divina, o que é e sempre será um bem; uma vez libertos deste mundo, agora se encontram em pleno e perfeito estado de justiça, e, unidos tão intimamente à ela, nada mais querem que não o seu cumprimento sobre os maus e a sua misericórdia sobre os que perseveram em graça. 

E apenas para encerrar: uma vez que as almas se encontram com Deus na eternidade, passam a querer de modo perfeito e atual a manifestação da sua justiça desde o instante em que com Ele se encontram; ora, se pertence à justiça de Deus a punição dos ímpios, não são somente os mártires que clamam ao Senhor pelo devido castigo, mas toda a multidão celeste, uma vez que todos os santos e mesmo os anjos têm a vontade absolutamente ligada à vontade de Deus. Querem, em outras palavras, exatamente o que Deus quer. 

E uma vez que esta mesma justiça já se manifestou para eles [os santos], agora só podem querer que ela se manifeste também na terra.

Que Cristo reine em nossas almas para sempre. Amen.

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