Sobre a Imortalidade da Alma

A alma humana possui o desejo inato de existir sem fim e exercer seus atos vitais sem ruptura nem cessação de si mesma. Este desejo se deriva do fato de que ela é capaz de conceber o ser simplesmente dito, abstraindo de notas que o- tornem individual e restrito (assim o cavalo pode ser concebido pelo homem como um ser; da mesma forma uma pedra, uma criança, o próprio Deus). Ora, concebendo o ser sem restrição, a alma humana não pode deixar de o apetecer espontaneamente; não pode deixar de desejar a existência sem termo algum.

A tendência a não perder a existência, inata como é em toda alma humana, só pode provir do Autor da natureza ou do Criador. Disto se conclui que não há de ser frustrada ou vã; o Criador sumamente sábio não teria feito uma criatura espontaneamente tendente a um objetivo que ela não possa ou não deva alcançar; tal criatura seria uma contradição, um absurdo, que deporia contra o seu Autor.

Resta, pois, afirmar que o desejo da alma humana de ser e viver conscientemente sem conhecer fim, corresponde ao destino mesmo dessa alma. Ela é naturalmente imortal.

Note-se ainda o seguinte: embora o homem tenha horror a perecer ou morrer, ele, pelo fato mesmo de ser composto de corpo e alma, é contingente, traz em si o princípio de sua decomposição ou morte. Sim; tudo que é composto, pelo fato mesmo de ser composto, tende a se decompor ou desagregar em virtude do uso ou desgaste das partes componentes. Por conseguinte, o desejo inato que o homem tem de não perecer, só se pode atuar (por via natural, não suposta alguma intervenção extraordinária de Deus) na alma humana, que não possui partes componentes. — A alma é, de resto, a parte característica do homem, parte que lhe dá a sua personalidade.

A fé acrescenta que Deus gratuitamente restaurará a união da alma e do corpo após a morte do homem, ou seja, no dia da ressurreição final.

À diferença do corpo humano, a alma não se compõe de substâncias químicas nem de matéria e espírito, mas é espírito só, substância simples. Em sua natureza, portanto, ela não traz princípio de desagregação, de destruição de si mesma (pois ela não é um agregado). Disto se segue que a alma humana por si não perece.

É verdade que Deus, O qual a tirou do nada por criação, a poderia também reduzir ao nada; nenhuma criatura existe necessariamente ou por si; todo ser criado é contingente, só Deus é necessário. Contudo Este não aniquila a alma, pois usa da sua Onipotência de maneira sábia; tendo feito uma criatura desejosa de se conservar sempre no ser, Ele não contradiz a essa tendência.

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