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	<title>Fé e Ciência &#8211; Cooperadores da Verdade</title>
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	<description>Apologética Católica</description>
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	<title>Fé e Ciência &#8211; Cooperadores da Verdade</title>
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		<title>O Evangelho que se Atualiza em Lourdes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aducci Correia Neto]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 May 2021 14:49:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fé e Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Vídeos]]></category>
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					<description><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="O Evangelho se Atualiza em Lourdes" decoding="async" fetchpriority="high" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes-1024x576.jpg 1024w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes-1536x864.jpg 1536w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p>“Há um grito de angústia”.&#160;Não tenho como não ficar impressionado com isso. Por vezes, lendo as páginas dos Santos Evangelhos, com aquele modo tão sintético que é próprio dos evangelistas, não conseguimos nos dar conta de tudo o que se passava&#160;nos fatos narrados. Tenhamos sempre em mente que os evangelistas, enquanto escreviam&#160;seus relatos,tomavam&#160;por pressuposto o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="O Evangelho se Atualiza em Lourdes" decoding="async" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes-1024x576.jpg 1024w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2021/05/O-Evangelho-se-Atualiza-em-Lourdes-1536x864.jpg 1536w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p>“Há um grito de angústia”.&nbsp;Não tenho como não ficar impressionado com isso. Por vezes, lendo as páginas dos Santos Evangelhos, com aquele modo tão sintético que é próprio dos evangelistas, não conseguimos nos dar conta de tudo o que se passava&nbsp;nos fatos narrados.</p>



<p>Tenhamos sempre em mente que os evangelistas, enquanto escreviam&nbsp;seus relatos,tomavam&nbsp;por pressuposto o conhecimento mais ou menos certo de que tinham as pessoas acerca das circunstâncias da época. É&nbsp;por isso&nbsp;que certos&nbsp;elementos&nbsp;passam despercebidos&nbsp;ao leitor de ouros tempos.</p>



<p>Veja, por exemplo, o caso emblemático de uma disputa do Senhor Jesus Cristo com os fariseus. Estes costumam ser conhecidos&nbsp;entre nós&nbsp;pela&nbsp;hipocrisia. Embora eu tenha motivos suficientes para concluir que a maior&nbsp;parte das pessoas não medita&nbsp;a fundo o significado dessa hipocrisia&nbsp;(com efeito,&nbsp;interpretam segundo o conceito atual de hipocrisia,&nbsp;conceito este degenerado por&nbsp;dois mil longos anos de uso&nbsp;corriqueiro do termo), chamar alguém de fariseu é o mesmo que chamá-lo de hipócrita. Nesse caso específico que quero relatar, falaremos de um aspecto&nbsp;ao qual&nbsp;se dá atenção&nbsp;pouca atenção&nbsp;acerca de tais homens, que é a avareza.</p>



<p>No capítulo 16 do Evangelho de S. Lucas, Nosso Senhor Jesus Cristo conta a parábola do administrador infiel. Arremata o Senhor o seu ensinamento com uma das sentenças mais conhecidas dos Santos Evangelhos:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.</p><cite>(Lc 16, 13)</cite></blockquote>



<p>Logo após, em um curtíssimo versículo, S. Lucas faz notar que os fariseus começaram a zombar de Jesus Cristo.&nbsp;O evangelista&nbsp;explica que o motivo de tal acinte era a avareza daqueles homens.</p>



<p>Para o homem da época, familiarizado com&nbsp;os&nbsp;fariseus e&nbsp;os&nbsp;saduceus, a avareza característica&nbsp;desses homens&nbsp;era algo evidente, a&nbsp;qual não necessitava de maiores explicações.&nbsp;Evidentemente, não se tratava de uma avareza&nbsp;auto-declarada; existia todo um sistema de interpretação dos Escritos Sagrados que atribuíam ao pecado certos males&nbsp;temporais como a pobreza e a doença. É bem por isso que os fariseus disseram àquele cego de nascença que os afrontou no infame inquérito a que foi submetido:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Tu que nasceste todo em pecado queres nos ensinar a nós?</p><cite>(Jo 9, 34)</cite></blockquote>



<p>Para que isso seja bem entendido, é necessário ter em conta aquilo que J. Perez de&nbsp;Urbel&nbsp;fala sobre&nbsp;Anás, partidário dos&nbsp;saduceus&nbsp;que fora sumo sacerdote e que permanecia exercendo sua influência política despótica por meio de seu&nbsp;genro&nbsp;Caifás, que era sumo sacerdote naquele ano:&nbsp;</p>



<p>É um artista da&nbsp;política ,&nbsp;perito na difícil arte de navegar em mares agitados por correntes contrárias, bem visto em casa do procurador, favorecido pelos cortesãos de Roma e respeitado pelos compatriotas, que admiravam sua fortuna e seu poder, que admiravam seus negócios e suas lojas fora de Jerusalém e nos arredores do Templo, e que, embora criticassem seu despotismo e os seus processos pouco escrupulosos, desfaziam-se em vênias com um servilismo de escravos.</p>



<p>Embora seja perfeitamente possível compreender a mensagem que Jesus Cristo transmitiu por meio da parábola do administrador infiel sem ter conhecimento de todo esse contexto, uma vez que qualquer advertência contra a avareza é cabível para&nbsp;os homens de todas as épocas e lugares, é preciso admitir que uma noção mais completa de todos esses elementos&nbsp;aperfeiçoa formidavelmente o entendimento.</p>



<p>Além disso, devemos ter em conta que&nbsp;os evangelistas não intencionavam escrever uma biografia da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao menos segundo o que me parece. Podemos perceber muitas vezes que não parece haver uma unidade cronológica e narrativa entre os relatos; eles parecem ser dispostos como que fragmentos que compõem um mosaico. Quero dizer com isso que à&nbsp;luz de todo o resto, os fragmentos fazem sentido, mas isoladamente podem causar perplexidade.&nbsp;Isso é percebido até mesmo no Evangelho de S. Lucas, conhecido como o mais criterioso dos evangelistas.</p>



<p>Ao douto que não compartilha de minha concepção (e devo dizer desde já que estou pronto para abrir mão dessa idéia, pois meu nível de erudição nessa matéria não é dos melhores), peço apenas um esforço para entender com condescendência esse ponto de vista que eu apresento.&nbsp;</p>



<p>Por que estou dizendo isso? Para comprovar a tese inicial de que os evangelistas tomavam por pressuposto&nbsp;certos elementos que hoje são estranhos para a maioria dos leitores, e que também pouco se importaram com requintes literários. Fosse de outro modo, a cada relato fariam caso de descrever o local, uma ou outra conjuntura e tudo o mais que é típico dos escritores.</p>



<p>Em que resulta toda a síntese dos Evangelistas e os pressupostos por eles tomados?&nbsp;Na&nbsp;necessidade de esforços, alguns consideráveis, outros nem tanto,&nbsp;para bem compreender os relatos evangélicos. Como tal compreensão só pode ser alcançada por meio da meditação e dos estudos, venho aqui contribuir com você, meu caro leitor,&nbsp;nessa empresa.</p>



<p>Antes de prosseguirmos, preciso esclarecer um ponto para&nbsp;não ser mal compreendido: Limito-me a descrever uma realidade em relação aos Evangelhos e seus leitores, sem tecer qualquer juízo de valor em relação aos evangelistas.&nbsp;Eu&nbsp;seria louco se&nbsp;acreditasse que os evangelistas falharam, pois tenho a firme convicção que cada palavra escrita pelos autores dos livros canônicos foram&nbsp;inspiradas&nbsp;pelo Espírito Santo.</p>



<p>Para mim, tenho por certo que até mesmo essas dificuldades que devem ser superadas fazem parte do propósito de Deus, pois é um meio sabiamente disposto pela Divina Sabedoria para que nos aplicássemos diligentemente ao estudo e à meditação, sempre confiando na autoridade da Igreja como intérprete infalível dos Escritos Sagrados.</p>



<p>Um desses&nbsp;não tão consideráveis&nbsp;esforços que percebo que poucos fazem ao meditar os relatos&nbsp;evangélicos é o de&nbsp;formar uma boa composição&nbsp;dos fatos. Esse assunto&nbsp;tem para mimtanta importância que pretendo em breve falar sobre ele na minha página do&nbsp;<em>Instagram</em>.</p>



<p>S. Francisco de Sales nos ensina na Introdução à Vida Devota que a meditação, de modo geral, contém quatro elementos: a composição, as considerações, os afetos e as resoluções.</p>



<p>A composição é uma atividade da imaginação, pela qual&nbsp;reproduzimos os fatos narrados como que em um curta-metragem imaginário. O autor quer com isso nos mostrar a aplicação mais útil que podemos dar a imaginação, essa “louca da casa” que no mais das vezes é o maior empecilho para uma boa meditação.</p>



<p>De modo geral, todos nós fazemos composições imaginárias quando ouvimos ou lemos um relato. No entanto, se olharmos nossa imaginação com diligência, veremos que ela&nbsp;pode e deve ser exercitada para que tais representações sejam cada vez mais ricas em detalhes. A imaginação em seu estado subdesenvolvido contempla os objetos a ela apresentados como&nbsp;que dispostos&nbsp;em um&nbsp;palco de teatro escuro.&nbsp;Do teto vem uma&nbsp;luz&nbsp;que ilumina somente aquele objetoenquanto todo o resto permanece no breu; é aquela cadeira iluminada no meio do palco, esperando para que um dos atores nela sente e inicie seu monólogo.&nbsp;Tudo o mais está invisível na escuridão.</p>



<p>Uma imaginação&nbsp;exercitada&nbsp;não irá contemplar somente a cadeira central que está iluminada, mas todo o cenário, tanto quanto lhe for possível; ela funciona como olhos&nbsp;atentos e capazes de enxergar&nbsp;através do breu das imagens que foram desprezadas no relato (imagens que, no caso dos Evangelhos, são desprezadas por serem subentendidas).</p>



<p>É por isso que costumo dizer a quem me pergunta como se deve fazer uma meditação que tente imaginar com a maior riqueza de detalhes&nbsp;os fatos narrados. Quando fazemos isso, naturalmente o nosso entendimento passa a considerar outros elementos que até então se passavam despercebidos. Isso aumenta a posse que temos da realidade.</p>



<p>Como um simples exercício, sugiro que você faça uma meditação sobre o terceiro mistério gozoso, que é o nascimento de Cristo. Sei que a sua tendência, como a da maioria das pessoas, é a de imaginar a Sagrada Família já na lapa, contemplando o Divino Menino na manjedoura. No entanto, tente dessa vez começar pela estrada que inicia em Nazaré e termina em Belém.</p>



<p>Imagine uma jovem moça que não deve ter mais do que quinze anos, a Virgem Santíssima, montada em um jumentinho, com uma barriga de quase 52 semanas. O jumentinho está carregado com as provisões para a viagem, e ao lado deles vai São José, tendo em suas&nbsp;mãos a corta com que está laçada a besta. De tempos em tempos eles param para um breve descanso, um pouco de água, um momento de oração em família, e então seguem viagem. O frio lhes aflige, como é natural naquela época do ano, e&nbsp;tudo isso eles suportam para&nbsp;registrarem o nome&nbsp;de José e suas posses no censo para que o império pudesse cobrar impostos sobre seus bens.&nbsp;É de fato aquilo que hoje chamamos imposto de renda, feito segundo as condições da época.&nbsp;Nada mais ordinário, nada mais concreto: Ali está&nbsp;a&nbsp;santidade que se oculta no labor aparentemente estéril do cotidiano.</p>



<p>Sugiro que você faça&nbsp;todo o trajeto até a estalagem&nbsp;onde foram recusados como hóspedes, motivo pelo qual tiveram de se abrigar em uma gruta destinada aos animais.&nbsp;Componha; sem pressa&nbsp;componha&nbsp;todo o filme em sua imaginação, e deixe estar até que&nbsp;alguma consideração&nbsp;surja, pois o intelecto não se mantém inerte&nbsp;diante de tais representações. Também por esse labor, creia firmemente que o Espírito Santo exerce sua ação divina, iluminando o mesmo intelecto para uma compreensão mais profunda dos mistérios da Fé.</p>



<p>Se você&nbsp;adotar esse hábito,&nbsp;experimentará&nbsp;um aumento significativo&nbsp;na qualidade de sua oração.</p>



<p>Eu julguei necessário explicar todas essas coisas para que você entenda o que fiz&nbsp;parameditar esse milagre de Lourdes relatado pelo Monsenhor Bianchini, saindo da mera impressão inicial que comove o coração e fortalece a Fé para uma consideração ainda mais profunda,&nbsp;capaz de gerar um afeto muito mais duradouro no coração. Ao final, espero que você possa compreender porque intitulei esse artigo como o Evangelho que se atualiza em Lourdes.</p>



<p>“Há um grito de angústia”. Somos capazes de ver, conduzidos que fomos por&nbsp;Monsenhor&nbsp;Bianchini, todas aquelas pessoas aglomeradas, esperando receber do Divino Salvador o milagre que tanto esperam. O Cardeal passa com o Santíssimo, que é o próprio Cristo que está presente na Hóstia Consagrada dentro do ostensório.&nbsp;Enquanto passa, toda aquela multidão clama por milagres: gritam, choram, prostram-se por terra, imploram ao Deus de suas vidas para que lhes ajudem ou para que se compadeça daquela pessoa querida que&nbsp;está&nbsp;em necessidade. Acontecem então muitos milagres: os cegos voltam a ver, os coxos voltam a andar, os mudos voltam a falar, os enfermos de todas as doenças são curados, os possuídos por espíritos malignos são libertos, e aos pobres é anunciado o Reinado de Deus.</p>



<p>Ao realizar toda essa composição, de pronto passo a considerar outra cena que me é mais familiar do que esta.&nbsp;</p>



<p>Jesus Cristo, depois de voltar do território dos&nbsp;gerasenos&nbsp;(no qual&nbsp;havia expulsadouma legião de demônios de um pobre homem,&nbsp;enviando&nbsp;aqueles espíritos malignos aos porcos), foi recebido por uma grande multidão que o esperava.</p>



<p>Componha esse momento: Uma multidão está&nbsp;à&nbsp;espera de Jesus. São pessoas as mais diversas, a maioria delas pobre e sofredora, que deixam todos os seus afazeres para esperar o regresso do grande Profeta que Deus levantou do&nbsp;meio do povo. Muito ouvem falar d’Ele,&nbsp;dos sinais que&nbsp;opera,&nbsp;de seus ensinamentos;&nbsp;ali estão em busca de milagres e respostas.&nbsp;</p>



<p>Considerando a renda&nbsp;<em>per capta</em>&nbsp;do mundo antes da fundação do Banco Nacional&nbsp;da Inglaterra&nbsp;e da primeira revolução industrial, podemos imaginar aqueles pobres não como as pessoas humildes de hoje em dia, que por mais simples que sejam conseguem levar consigo um sanduíche&nbsp;e uma garrafa de água para uma espera tão grande. Longe disso! Esses&nbsp;pobres ficariam&nbsp;ali&nbsp;padecendo o desconforto da fome, da sede e das intempéries até que chegasse aquele que tinham por Profeta vindo da parte de Deus.&nbsp;</p>



<p>Outro detalhe importante é que também nessa época não&nbsp;havia&nbsp;chuveiros, água encanada e energia elétrica; tomar um banho não era um ato tão corriqueiro como estamos acostumados. Desodorantes, perfumes e roupas sempre limpas e alisadas? Isso era luxo de poucos, e é necessário dizer que um assalariado de hoje no Brasil tem mais conforto em seu pequeno apartamento do que o imperador de Roma tinha em toda a sua glória.&nbsp;</p>



<p>Se eu descrever cada detalhe que me vem à imaginação quando faço essa composição, todo o artigo se resumiria a isso. Evidentemente, não para isso que me ponho a escrever. Peço então&nbsp;para que você aplique&nbsp;aqui&nbsp;o mesmo esforço que fez para imaginar o trajeto da Sagrada Família à gruta de Belém,&nbsp;para assim vislumbrar&nbsp;de modo mais&nbsp;rico&nbsp;os fatos narrados nessa passagem dos Evangelhos.</p>



<p>Jesus chega, e as pessoas exultam. Você consegue ouvir os clamores? Muitos gritam angustiados, imploram por um pouco de atenção da parte do Profeta, choram de&nbsp;tal&nbsp;modo que comove o coração; são doentes, pobres, injustiçados, maltratados pela vida, colocados sob fardos&nbsp;pesados&nbsp;pelas próprias pessoas às quais havia sido confiado o Reinado de Deus. &nbsp;No ímpeto do tudo ou nada, pois talvez nunca mais vissem o Profeta, lançam-se sobre Ele: Querem tocar-lhe,&nbsp;suplicar de perto;&nbsp;não aceitam a idéia de sair dali sem uma bênção.</p>



<p>Um homem notório se aproxima do Senhor: É Jairo, o chefe da sinagoga. Não foi, no entanto, valendo-se de sua autoridade em meio ao povo, mas como uma alma reduzida ao pó pela sua impotência diante da morte e da perda. Sua filha única, de doze anos de idade, estava muito doente e prestes a morrer. Lançou-se&nbsp;aos pés de Cristo, humilhou-se diante de todos, e posso imaginar que entre lágrimas é que suplicou que Jesus fosse à sua casa para restaurar a saúde da pobre criança.</p>



<p>O final dessa belíssima história nós conhecemos: Cristo vai à casa de Jairo, toma a menina já morta pelas mãos e a ressuscita, manifestando sua Glória para os três discípulos de sua maior estima: Pedro, João e Tiago.</p>



<p>Espero que nesse ponto você já tenha&nbsp;percebido,&nbsp;meu caro irmão, como a Vida de Cristo é um símbolo do tempo da Igreja: O mesmo Cristo que andava pela Terra Santa andou naquele momento em Lourdes, abençoando, curando, libertando. Veja&nbsp;que a reação do povo subjugado por&nbsp;Satanás permanece sendo a mesma: O clamor, a angústia, os gemidos, o fervor.</p>



<p>Pintada a cena, devo&nbsp;trazer à reflexão outra passagem emblemática, que para mim é a que mais fielmente retrata a história do pobre menino de Lourdes.</p>



<p>Certa vez Jesus se aproximava de Jericó, e como sempre foi recebido pela multidão com aquele fervor que agora podemos contemplar de modo mais&nbsp;rico. O ruído era grande; era impossível passar sem perceber o que acontecia. É certo que a cidade havia parado para contemplar aquele espetáculo.</p>



<p>Um cego estava sentado à beira do caminho pedindo esmolas e começou a ouvir o enorme ruído das súplicas e dos prantos. Penso que naquele momento seu coração ficou como que em chamas. Será que é Ele? – deve ter perguntando a si mesmo. Levantou-se e começou a perguntar&nbsp;de um modo ansioso&nbsp;qual era o motivo de tamanho alvoroço, ao que lhe responderam que era Jesus de Nazaré que estava passando por ali. É de se imaginar que a adrenalina tenha tomado conta do seu corpo. Havia meditado, refletido, sonhado com aquele dia. Não podia deixar essa oportunidade passar de jeito nenhum!&nbsp;Tinha de alcançar o Profeta de Nazaré para lhe suplicar&nbsp;pela cura, custe o que custar!&nbsp;Passou a andar rapidamente, e guiando-se&nbsp;pelo ruído da multidão, começou a berrar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”.</p>



<p>Jesus, no entanto, continuou seu caminho como que ignorando totalmente aquele infeliz.</p>



<p>Entendo a conjectura que podem fazer alguns de que Jesus, sendo Deus,&nbsp;era também homem, e estava por isso sujeito às limitações naturais de um ser humano. Com isso querem dizer que Jesus não ignorou aquele pobre cego, mas que simplesmente&nbsp;não tinha tido condições de prestar atenção nele. Por bem arrazoada que seja essa opinião, penso que Nosso Senhor Jesus Cristo tinha por costume testar a Fé das pessoas, ver até onde elas eram capazes de ir para alcançar o Reinado de Deus. Isso fica muito claro na passagem da samaritana, a qual recebe uma das respostas mais duras que Cristo já deu a alguém, não somente pelo conteúdo das palavras,mas pelo fato de que ela não estava ali para pô-lo a prova tal como os fariseus: estava suplicando&nbsp;por uma bênção,&nbsp;isto é,&nbsp;reconhecendo que Ele vinha da parte de Deus.</p>



<p>Tenho por certo que Nosso Senhor Jesus Cristo ouviu sim os clamores do cego de Jericó; se não&nbsp;os&nbsp;ouviu com os ouvidos da carne, ouviu-os com os ouvidos da alma. Mas mesmo assim, ignorou o pobre miserável,&nbsp;prosseguindo&nbsp;em seu caminho.</p>



<p>O cego de Jericó poderia ter feito a mesma escolha que muitos dos outros cegos de nosso tempo&nbsp;fazem:&nbsp;ele podia ter&nbsp;desistido.&nbsp;Teria,&nbsp;segundo o que erroneamente&nbsp;acreditam, razão em concluir que Deus não se importava&nbsp;com Ele e que o havia trazido&nbsp;ao mundo somente parasofrer. E qual desses cegos&nbsp;modernos&nbsp;culparia o&nbsp;pobre homem&nbsp;se este passasse então a odiar Deus, a blasfemar contra Cristo, a militar contra a Fé? Se formos pensar&nbsp;como esses homens, o cego de Jericó&nbsp;deveria se revoltar&nbsp;não só contra Deus, mas contra&nbsp;toda a humanidade. Afinal, não&nbsp;são todos egoístas, que suplicam a Deus por uma bênção sem respeitar um pobre desgraçado emcondição muito mais deplorável?&nbsp;Com efeito, não havia quem lhe desse a mão para conduzi-lo até Jesus e, não bastasse isso, ainda ordenavam-lhe que calasse a boca! “Ó, mundo cruel! Para o inferno com tudo isso!” é o que os cegos de nosso tempo esperariam ouvir da boca do cego de Jericó.</p>



<p>Mas o cego de Jericó é diferente. Aprendeu durante todos aqueles anos a cultivar a virtude da humildade e viveu, ainda que de modo forçado, a santa pobreza que purifica a alma de muitos males. Sabia também, como que pela Graça, que Cristo o ouvia o provava; não iria despedi-lo de mãos vazias. Tinha, portanto, Fé: Conhecia a Deus muito mais do que todos os outros que ali estavam. Que fez então? Ignorando todo o mundo que militava contra a sua Fé, e ignorando até mesmo a aparente indiferença de Deus, continuou gritando e com mais força: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”.</p>



<p>O final dessa história nós também conhecemos: Jesus para&nbsp;pelo caminho&nbsp;e ordena que&nbsp;tragam&nbsp;o cego a sua presença; restabelece sua visão e lhe despede dizendo&nbsp;“tua Fé te salvou” (Lc&nbsp;18, 42).</p>



<p>É impossível não ver no menino que foi curado a figura do cego de Jericó. O menino se agitava. Havia implorado por muito tempo&nbsp;à&nbsp;mãe&nbsp;para que&nbsp;lhe levasse a Lourdes para receber a cura de sua doença, nutrindo essa esperança todos os dias desde que foi iluminado pela luz daFé. Estando em Lourdes e tendo visto se aproximar o Senhor, começou a clamar,&nbsp;a&nbsp;implorar a Jesus pela cura.&nbsp;Ainda que o clamor da multidão fosse grande, sua agitação&nbsp;não passou despercebida. A mãe, constrangida pela visão, com amor coloca suas mãos sobre a cabeça do menino e lhe pede que tenha calma, que perceba que nem todos são curados. O menino não presta ouvido:&nbsp;Está certo&nbsp;de que Jesus irá ouvi-lo.</p>



<p>Acontece que Cristo passa e o menino não é curado. O coração da mãe despedaça-se completamente. Olha para o seu filho, e deseja ela mesma estar na pele dele para não ter de contemplar tamanho sofrimento, tamanha desilusão. Quem sabe até não condenaria seu filho se&nbsp;este&nbsp;lhe pedisse para ir embora&nbsp;imediatamente, julgando-se como uma vítima do Deus implacável e terrível. Mas o menino tinha Fé. Sua condição lastimável lhe ensinou a humildade, e por meio de suas orações aprendeu que por vezes Jesus Cristo parece não ouvir nossas preces, mas que nunca nega um pedido de sua Mãe Santíssima.&nbsp;E então, clamando pelo auxílio da Virgem Santíssima, foi imediatamente curado, e o povo passou a glorificar a Deus!</p>



<p>Ó, meu querido irmão! Como não ser invadido pelo entusiasmo? Como não ser iluminado pela luz da Fé por meio dessa reflexão? Cristo vive! Cristo reina! É o mesmo que andou por esse mundo curando, libertando, salvando. Ele nos mostra, por meio dos Santos Evangelhos, que permanece a agir do mesmo modo, esperançoso de que compreendamos o significado de todas essas coisas para nos aproximarmos com confiança d’Ele.</p>



<p>Que de agora em diante o Evangelho seja isto para você: Uma carta de Amor na qual Deus fala sobre Si para que você o conheça. A Fé é o conhecimento de Deus.</p>



<p>Que Deus abençoe a todos e ao&nbsp;apostolado Cooperadores da Verdade.</p>
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		<title>Os curandeiros são realmente condenáveis?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Dom Estevão]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 May 2020 17:00:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fé e Ciência]]></category>
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					<description><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/05/Os-curandeiros-são-realmente-condenáveis.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="Os curandeiros são realmente condenáveis" decoding="async" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/05/Os-curandeiros-são-realmente-condenáveis.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/05/Os-curandeiros-são-realmente-condenáveis-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/05/Os-curandeiros-são-realmente-condenáveis-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/05/Os-curandeiros-são-realmente-condenáveis-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/05/Os-curandeiros-são-realmente-condenáveis-1024x576.jpg 1024w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p>Os curandeiros e os que exercem a medicina em nome de ciências ocultas ou do S. Evangelho, serão realmente condenáveis, como se diz?&#160;Realizam muitas curas maravilhosas. Não será isto o sinal de que Deus está com eles? O exercício da medicina em nome da Religião é algo de assaz comum em nossos dias, até mesmo [&#8230;]</p>
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<p><em><em>Os curandeiros e os que exercem a medicina em nome de ciências ocultas ou do S. Evangelho, serão realmente condenáveis, como se diz</em></em>?&nbsp;<em><em>Realizam muitas curas maravilhosas. Não será isto o sinal de que Deus está com eles?</em></em></p>



<p>O exercício da medicina em nome da Religião é algo de assaz comum em nossos dias, até mesmo nas classes mais elevadas da sociedade.</p>



<p>Para proceder com segurança no estudo de tão estranho fenômeno, procuraremos abaixo analisar o comportamento do terapeuta ocultista e o do seu paciente — o que nos possibilitará chegar a algumas conclusões significativas.</p>



<p>Na elaboração da presente resposta, muito nos valemos do estudo de Maurice Colinon: «Les Guérisseurs». Paris 1957, na coleção «Le Bilan do Mystêre» N<sup>o</sup>&nbsp;1. Grasset, éditeur. — Antes de escrever tal obra, o autor realizou demoradas pesquisas no mundo dos curandeiros, dedicando-se, a seguir, à prática do magnetismo durante alguns meses. Guiado por tal experiência, Colinon resolveu escrever, professando «não obedecer a preconceito ou paixão de espécie alguma» (ob. cit. pág. 8).</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A psicologia do curandeiro</strong></h2>



<p>Observa-se que há curandeiros e terapeutas ocultistas dos mais variados tipos: alguns fazem sobre o paciente uma prece acompanhada de «bênção»; outros dão-lhe um chá específico; outros, água «milagrosa», que o enfermo deve beber ou aplicar à parte doente do seu corpo; ainda outros entregam um «bentinho» ou um talismã&#8230; Em geral, cada curandeiro especializa-se no recurso a um desses meios, que ele costuma aplicar independentemente da índole da doença que lhes seja apresentada pelo cliente.</p>



<p>Contudo, por muito pobres e monótonos que sejam os procedimentos dos curandeiros, o resultado que estes anunciam e que os pacientes dizem obter, é sempre o mesmo: recuperação da saúde.</p>



<p>Deste fato já se deduz uma conclusão importante: na chamada «medicina livre» não é propriamente o remédio que importa e que cura, mas, sim, o&nbsp;<strong>homem ou a pessoa</strong>&nbsp;do curandeiro.</p>



<p>Aliás, isso é bem compreensível. O curandeiro, não tendo estudado a medicina cientifica, não se pode interessar muito pelo diagnóstico científico das moléstias; ele tem que visar muito mais o enfermo do que a enfermidade como tal; a essência da sua arte consiste em estabelecer um contato de pessoa a pessoa com o seu consulente, que o vai procurar frequentemente num estado de ansiosa expectativa. Não estando ligado às normas da medicina científica, o curandeiro pode com destreza amoldar-se à personalidade do seu paciente, procurando «simpatizar» com ele («simpatia» no sentido etimológico de «padecer com&#8230;, identificar-se com quem sofre»), &#8230; procurando outrossim corresponder ao temperamento e aos anelos que o enfermo lhe apresenta; em uma palavra, ele se torna para todos «o homem do momento».</p>



<p>Transcrevemos aqui dois testemunhos que bem ilustram quanto acaba de ser dito. O primeiro provém de um curandeiro italiano, o Dr. Racanelli, que, para se conformar à lei civil, fez seus estudos de medicina:</p>



<p>«O segredo do curandeiro reside precisamente nessa comunhão, consciente ou inconsciente, com o enfermo que nele tem fé. O curandeiro não cura a doença, mas o doente» (F. Racanelli, Le don de Guérison. Delachaux et Niestlé 1951, 33).</p>



<p>Confronte-se tal depoimento com o seguinte testemunho, emanado de um médico norte-americano, o Dr. Arnold Hutschnecker, o qual procede estritamente segundo os métodos científicos:</p>



<p>«O novo homem de ciência, o especialista, aproxima-se do doente, munido de aparelhagem completa e variegada. Ele vê diante de si não pròpriamente um enfermo, mas uma enfermidade» (Arnold Hutschnecker, La Volonté de vivre. Robert Laífont 1954, 10).</p>



<p>Justamente por não possuir formação de medicina científica, o curandeiro facilmente crê possuir um dom extraordinário — o dom das curas — assim como a missão divina de utilizar essa graça em favor do próximo. É o que explica certos títulos atribuídos a famosos terapeutas de França: «Radar do diagnóstico, Mulher-rádio».</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A psicologia do cliente do curandeiro</strong></h2>



<p>Maurice Colinon, durante seus dez anos de estudos do assunto, realizou um inquérito junto a doentes que iam procurar os curandeiros, indagando quais os motivos por que assim procediam. As respostas mais frequentemente obtidas eram do teor seguinte:</p>



<p>«&#8230; porque sabem coisas que todos nós ignoramos». «&#8230; porque eles nos compreendem e nós os compreendemos», «&#8230;porque os curandeiros restauraram os remédios simples e naturais, já há muito tempo esquecidos».</p>



<p>«&#8230; porque o curandeiro é gente de vanguarda.</p>



<p>Como se vê, estas respostas não se baseiam propriamente em dados científicos nem em raciocínio rigoroso; são, antes, a expressão de uma benevolência preconcebida para com os curandeiros; estes parecem despertar nos clientes o sentido do «misterioso» ou do «místico», sentido particularmente arraigado na alma de tais pacientes.</p>



<p>Outro inquérito do mesmo teor, efetuado pela revista «Présences» (no. especial «Malades et guérisseurs», pág. 56), sugeria semelhante conclusão. Notem-se algumas das respostas então registradas:</p>



<p>&#8211; certas pessoas confessavam que iam ter com o curandeiro, porque tentavam escapar a uma intervenção cirúrgica ou a internação em casa de saúde;</p>



<p>&#8211; outras, &#8230; porque desejavam evitar a compra de remédios caros;</p>



<p>&#8211; outras, &#8230; porque o tratamento receitado pelo curandeiro não é doloroso.</p>



<p>Sintetizando os resultados de numerosas análises e pesquisas, os estudiosos chegaram à verificação seguinte: à semelhança do que se dá com o próprio curandeiro, também o consulente deste é movido primàriamente por razões emocionais; não examina muito a ciência nem o preparo intelectual do terapeuta; o que, antes, o fascina é a pessoa deste, geralmente apregoada como extraordinária, dotada de poderes taumatúrgicos, de intuições místicas, etc. É a pessoa, e não o remédio, que age sobre ele; verifica-se até que o mesmo remédio aplicado ao paciente por outra pessoa que não o curandeiro «tal», não produz efeito algum.</p>



<p>Procurando explicitar ainda mais a psicologia do cliente da «medicina livre», lembraremos o seguinte: o estado de ânimo de quem vai consultar um ocultista é bem diferente do estado de quem se dirige a um médico propriamente dito. Quem vai ao ocultista ou ao curandeiro, se acha em situação de sofrimento exacerbado. Desiludido dos recursos que a ciência costuma indicar no caso respectivo, tal infeliz ouve repentinamente falar de nova esperança que lhe parece sorrir na pessoa de tal ou tal «taumaturgo»; várias curas maravilhosas lhe são relatadas&#8230; A impressão é tal que, pondo de lado o senso crítico, o enfermo facilmente conclui: «Porque não tentaria, também eu, uma consulta ao homem portentoso? Afinal de contas, nada perderei com isso!». Enceta então uma viagem que por vezes é longa e penosa, apta a acumular impressões na mente do enfermo; no lugar de chegada, junto ao consultório do «taumaturgo», tem muitas vezes que esperar em condições incômodas, entre dezenas de doentes febris, uns desfigurados, outros quiçá transfigurados pela esperança; enquanto aguardam, vão narrando uns aos outros as maravilhas efetuadas pelo terapeuta; a atmosfera fervilha; o sonho de recuperarem a saúde se torna cada vez mais vivaz e impressionante; dir-se-ia que pouco falta para que se torne realidade!&#8230;</p>



<p>Chegado finalmente à presença do «taumaturgo», o enfermo, por seu olhar suplicante, por sua voz emocionada, por suas mãos trêmulas, parece exprimir duas coisas apenas: extraordinária confiança no médico e o pedido de que este ponha em ação o seu poder milagroso&#8230;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O benéfico encontro</strong></h2>



<p>O encontro com a personalidade do paciente não pode deixar de abalar, de certo modo, também a personalidade do terapeuta ocultista; este, estimulado pela atitude confiante de quem assim o interpela, julga-se, ainda mais do que antes, capacitado para socorrer ao infeliz; a fé «na missão que Deus lhe deu» torna-se nele ainda mais dinâmica. Curandeiro e doente assim entram em acordo tácito (acordo que é o efeito da sugestão recíproca): «Não há dúvida, a cura há de ser obtida, não poderá deixar de ser eficaz o recurso aplicado (prece, bênção, água lustral, chá&#8230;); o poder do Alto há de corresponder maravilhosamente». O curandeiro põe então em prática a sua arte, com todo o aparato de que ela se costuma revestir. — Tal arte por si é certamente inadequada para resolver a situação; acontece, porém, que ela pode produzir — e de fato muitas vezes produz — o efeito desejado, não por seu valor intrínseco, mas por exercer a função que se poderia dizer de «catalisar», isto é, de acelerar um processo psíquico já iniciado no paciente. Este processo psíquico é que provocará finalmente a cura (real ou aparente, duradoura ou transitória&#8230;; isto depende das circunstâncias de cada caso) da moléstia que acabrunha o consulente.</p>



<p>Assim se explica que, em não poucos casos, o encontro do enfermo com o curandeiro acarrete realmente a restauração (ao menos aparente) da saúde. O tratamento então é psíquico, e não somático, como se depreende da análise acima (já verificamos, na resposta anterior a esta, que grande número de moléstias somáticas são, pela medicina moderna, intimamente relacionadas com o psiquismo do paciente).</p>



<p>Observe-se ainda que, no encontro do enfermo com o seu curandeiro, aquele não é somente passivo nem este somente ativo, mas há entre ambos influência recíproca; talvez mesmo o paciente dê mais do que o próprio curandeiro.</p>



<p>Sim; «o doente&#8230; reforça no curandeiro a ação da sugestão coletiva&#8230; sem a qual o curandeiro nada conseguiria&#8230; O doente oferece ao mago aquilo de que este precisa: a sua fé, o seu ato de fé (no poder taumatúrgico do terapeuta). Então estabelece-se o contato&#8230; entre dois inconscientes gêmeos, igualmente fracos, igualmente sugestivos, como se um dissesse ao outro&#8230;: &#8216;Eu te torno curandeiro&#8217;, e o outro respondesse: &#8216;E eu, eu te curo&#8217;&#8230; Muito chama a atenção o fato de que a maioria dos curandeiros não tem confiança em seu próprio poder senão na medida em que essa confiança lhes é imposta pelos doentes mesmos» (Colinon, Les Guérisseurs 111).</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Pesquisas científicas comprovam&#8230;</strong></h2>



<p>A explicação do processo de cura que acabamos de dar, supõe sejam o curandeiro e seu cliente personalidades em alto grau capazes de receber sugestões; ambos se deixam, sim, afetar profundamente pela «onda do momento» e comunicam um ao outro, de maneira extraordinariamente forte, a impressão que tal onda possa causar.</p>



<p>Essa afirmação, mormente no tocante aos curandeiros, tem sido comprovada por pesquisas, cujos resultados principais vão aqui brevemente consignados.</p>



<p>Em abril de 1954, realizou-se em Saint-Paul-de-Vence (França) um Colóquio Internacional de Parapsicologia (estudo de fenômenos que ocorrem ao lado — pará, em grego — dos normais, não, porém, contraditoriamente aos normais). Participaram do certame cientistas de renome, como Adlous Huxley e os professores de Universidade Bender (Friburgo), Ducasse (Brown, EE.UU. da América), Eisenbud (Denver), van Lennep (Utrecht), Meng (Basiléia), Meier (Zürich), Servadio (Roma), Thouless (Cambridge), Nrban (Innsbruck), assim como o Dr. Leuret, presidente do «Bureau des Constatations Médicales» (Comissão de Exames Médicos) de Lourdes. Entre os principais pontos do programa de estudos estavam consignadas as «curas paranormais» (sua origem e seu desenvolvimento). Pois bem; sem dificuldade os estudiosos se mostraram de acordo em reconhecer «a importância essencial, única, da personalidade do curandeiro» em tais processos. Em consequência, o Prof. van Lennep propôs a análise aprofundada<br>da psicologia do curandeiro, da psicologia do paciente, assim como das relações que entre eles se estabelecem por ocasião da terapêutica.</p>



<p>Van Lennep pessoalmente submeteu curandeiros holandeses ao teste das «quatro imagens»; o Prof. Heiss fez que outros passassem pelo teste das «pirâmides de cor». Em conclusão, ambos verificaram que tais taumaturgos apresentam entre si profundas semelhanças de ânimo, a ponto de se poder dizer que constituem quase um grupo psicológico caracterizado.</p>



<p>Pesquisas ainda mais significativas foram efetuadas pelo Dr. Moser, de Zürich, o qual recorreu aos testes de Szondi, cujo desenrolar é o seguinte: apresentam-se ao cliente seis séries de fotografias, cada uma das quais representa pessoas de tipos psicológicos muito diversos; em cada série, o «sujeito» deve indicar os dois semblantes que mais lhe agradam e os dois que menos o atraem; a escolha há de ser rápida e espontânea, como um reflexo.</p>



<p>O Prof. Szondi, ao conceber tal teste, baseava-se na tese de que as escolhas que o homem faz na vida, dependem de genes próprios, responsáveis pela atração ou pela repulsa que tal ou tal pessoa experimenta em relação a tais e tais outras pessoas. Existe, portanto, conforme Szondi, um «genotropismo», tropismo este que vai mover, por exemplo, tal doente a escolher tal médico ou tal curandeiro; os mesmos genotropismos existentes em pessoas diversas provocam análogos comportamentos na vida e fundam uma espécie de comunhão de sortes entre essas pessoas.</p>



<p>Pois bem; os testes de Szondi aplicados pelo Dr. Moser a curandeiros suíços levaram às duas conclusões seguintes:</p>



<p>1) as curas &#8220;paranormais&#8221; (no nosso caso:&#8230; ocultistas) verificam-se com frequência toda especial entre pessoas associadas entre si por afinidade psicológica da qual elas geralmente não têm consciência).</p>



<p>2) «Personalidade fraca» é condição necessária para que se deem tais curas.</p>



<p>Por «personalidade fraca» entende-se aqui «temperamento profundamente influenciável ou sugestionável». Em uma palavra, as duas conclusões acima confirmam o que dizíamos: a terapêutica curandeirista supõe entre o «médico» e seu cliente afinidade baseada em elevada tendência a se deixarem empolgar por misticismo, e misticismo cego ou descontrolado.</p>



<p>«Poder-se-ia crer que esse tipo de personalidade (fraca, sugestionável) é nocivo ao prestigio dos curandeiros. De modo nenhum. É, ao contrário, a condição necessária ao seu êxito. Pois o curandeiro por si nada é; ele só é tal, mesmo aos seus próprios olhos, por influência dos doentes que o vão procurar e por influência da fama que estes lhe proporcionam. O ambiente místico é indispensável ao curandeiro. Caso se atenue ou desapareça, o &#8216;dom&#8217; desaparece com o ambiente» (Colinon, ob. cit. 105s).</p>



<p>A sugestionabilidade dos que se acham envolvidos no curandeirismo, explica que muitos e muitos deles possam estar agindo de boa fé: totalmente empolgados pela situação que se cria em torno deles, não conseguiriam sequer suspeitar algum erro no seu procedimento pessoal.</p>



<p>3) Também a grafia dos curandeiros foi submetida a exame&#8230; Um grafólogo de autoridade, membro do Conselho da Sociedade de Grafologia de França, tendo analisado a escrita de bom número desses terapeutas, averiguou entre as notas mais comuns as seguintes:</p>



<p>&#8211; temperamento pouco dado à intelectualidade e ao raciocínio,</p>



<p>&#8211; desequilíbrio de glândulas endócrinas (hipófise e suprarrenais),</p>



<p>&#8211; nervosismo acentuado.</p>



<p>(Notícia colhida na citada obra de Colinon, pág. 113s).</p>



<p>Estes dados fazem eco aos dos testes psicológicos atrás mencionados: a peculiaridade do curandeiro reside no seu psíquico; nada tem que ver nem com ciência pròpriamente dita nem com a intervenção de forças superiores ocultas.</p>



<p>Instituíram-se outrossim estatísticas a respeito das moléstias que mais frequentemente são curadas por via paranormal, verificando-se que em média 83% dos casos bem sucedidos têm por objetivo uma das seguintes doenças: certos fibromas, hipertireoidismo, úlceras do estômago, asma, infecções cutâneas e moléstias ditas «sem causa».</p>



<p>Ora a medicina tem averiguado que sobre tais enfermidades a sugestão exerce influência por vezes decisiva.</p>



<p>O assunto já foi abordado na resposta à questão precedente; seguem-se aqui apenas algumas notas complementares.</p>



<p>É Colinon quem observa:</p>



<p>«Milhões de seres humanos vivem numa atmosfera saturada de bacilos; contudo somente alguns dentre eles caem doentes, e muitas vezes não são os menos resistentes do ponto de vista puramente fisiológico. Um dos grandes mistérios da vida humana é justamente o de saber<strong>&nbsp;porque</strong>&nbsp;somos atingidos em tal momento por tal infecção à qual escapamos em outras circunstâncias análogas ou mais propicias à contaminação. Verifica-se assim que não há ‘doenças físicas’ e ‘doenças imaginárias’; há, sim, seres humanos em desequilíbrio, nos quais a moléstia equivale a um brado de alarme» (ob. cit. 117).</p>



<p>Ilustrando com uma imagem as idéias acima, o Dr. Hutschnecker escrevia:</p>



<p>«O agente físico que chamamos &#8216;causa da doença&#8217; — o micróbio da gripe ou a célula maligna — se relaciona com a doença como o tiro do revólver de Saravejo se relacionou com a primeira guerra mundial» (La volonté de vivre 13).</p>



<p>O que quer dizer: a ação do bacilo mórbido é por vezes mera ocasião para que um processo de desordem psíquica latente no íntimo de uma personalidade prorrompa finalmente num distúrbio somático. Se não fôra essa desordem psíquica, o bacilo não lograria efeito.</p>



<p>Quanto às moléstias cutâneas em particular (urticária, verrugas, eczemas, etc.), Colinon (que, como notamos no inicio desta resposta, praticou a medicina conforme as normas do magnetismo) assevera que constituem o setor de triunfo de todo curandeiro principiante:</p>



<p>«Lembro-me da minha primeira paciente&#8230; a qual, já havia dez anos, sofria de eczema crônico. Em duas sessões obteve a cura. Foi o que deu fundamento à minha fama de taumaturgo&#8230; Não me lembro de ter alguma vez fracassado em caso de eczema ou de verruga&#8230; Basta soprar sobre as verrugas. Era o que eu fazia conscientemente. O enfermo executava o resto, isto é, em horas marcadas efetuava uma série de gestos complicados que eu inventava conforme o caso. O essencial era que tais gestos exigissem muita atenção e muito tempo. — Não se diz, aliás, que o segredo da eficácia dos cataplasmas consiste no fato de exigirem meia-hora de preparativos?» (ob. cit. 119s).</p>



<p>Por fim, a propósito das doenças cuja origem não é imediatamente perceptível (doenças ditas «sem causa», como acontece com certas enxaquecas, nevralgias, palpitações cardíacas, insuficiências hepáticas, paralisias parciais), verifica-se muitas vezes que estão profundamente associadas a um estado psíquico perturbado; fígado, coração, estômago se acham, do ponto de vista fisiológico, em condições totalmente normais; de nada adiantaria aplicar-lhes drogas e tratamentos; o que deve ser reformado em tais casos, é o estado de ânimo do paciente; ora é justamente isto o que uma visita ao curandeiro pode muitas vezes provocar (recurso contudo precário, pois, como veremos adiante, não soluciona o problema pela raiz).</p>



<p>«O homem que é causa da sua própria doença (sem ter consciência disso, é claro; muitas vezes mesmo, recusando-se a admitir tal hipótese), pode ser causa da sua própria cura. Basta, para isto, que o processo psicológico tome o sentido oposto» (Colinon, ob. cit. 120).</p>



<p>Os dados acima corroboram bem o que anteriormente dissemos sobre a importância capital do fator psíquico nas curas dai chamada «medicina livre ou ocultista». Resta-nos agora rematar a explanação propondo breve.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Reflexão final</strong></h2>



<p>É inegável que, por arte dos curandeiros, se podem debelar certas moléstias. Contudo a análise de tais curas dá a ver que não se trata de efeitos sobrenaturais, mas, sim, do desencadeamento de forças psíquicas latentes no próprio enfermo e «catalisadas» no momento oportuno pela presença e pela ação do curandeiro. Os progressos da medicina moderna, principalmente a descoberta do caráter psicossomático das doenças humanas, fornecem assim a explicação dos fenômenos do curandeirismo (um ou outro caso talvez leve a supor direta intervenção do demônio).</p>



<p>Ninguém negará que a medicina ocultista é muitas vezes praticada por pessoas (terapeutas e pacientes) dotadas de sinceridade. Contudo essa técnica não pode deixar de provocar a repulsa de quem tenha o espírito um pouco esclarecido, mormente de quem tenha o espírito cristão.</p>



<p>E por que?</p>



<p>Por dois motivos:</p>



<p>1) Do ponto de vista meramente humano ou psicológico, verifica-se que o curandeirismo, longe de extinguir o mal do paciente, apenas o desloca. Sim; o enfermo que sofria de um estado psíquico manifestado por tais sintomas ou por tal doença do corpo, após a cura ocultista passa a sofrer de outro estado psíquico pouco regular; este não se patenteia pelos mesmos sintomas que o anterior, mas tende a se revelar cedo ou tarde mediante nova doença do corpo.</p>



<p>De resto, deve-se frisar que o adepto do curandeirismo padece como que um recuo do seu psiquismo, tornando-se semelhante a uma criancinha amedrontada, a braços com suas angústias e à espera das&#8230; «fadas» que a libertarão!</p>



<p>Ora está claro que não vale a pena iludir-se com o recurso a tal terapêutica!</p>



<p>2) Do ponto de vista cristão, o curandeirismo representa evidentemente um abuso da fé e dos valores religiosos. A fé não é algo que Deus dê ao homem para que se imunize dos males do corpo e da vida presente; ao contrário, Cristo prometeu aos seus fiéis a cruz como instrumento de purificação interior — o que não pode deixar de ser doloroso (cf. Mt 16,24); acontece mesmo que, quanto mais elevado é o grau de perfeição a que alguém se destina, tanto mais também deve contar com a ação da cruz em sua vida (cf. Apc 3, 19).</p>



<p>O cristão doente, longe de pretender fazer da Religião o instrumento de sua cura somática, procurará, à luz da fé, rever o seu estado de alma e corrigir os defeitos morais, grandes ou pequenos, que aí possa haver. A fé ensina, sim, que toda enfermidade se prende ao pecado, ao menos ao primeiro pecado (o pecado de Adão), cuja herança todos nós trazemos. Consciente disto, o discípulo de Cristo verá na sua doença um sinal providencial de Deus, que o desperta para um exame de consciência e para a emenda de sua vida, vida quiçá tíbia e sempre suscetível de perfeição maior. A fé, iluminando desse modo o sentido da doença de um cristão, concorrerá eficazmente para tornar a enfermidade profícua, embora a fé não sempre contribua para restaurar a saúde do corpo (valor este que é secundário em comparação com o vigor sobrenatural da alma).</p>
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		<title>A Infusão da Alma em Gêmeos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Dom Estevão]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 May 2020 18:30:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fé e Ciência]]></category>
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<p>Quando se dá a infusão das respectivas almas humanas a gêmeos (dois ou mais) que se desenvolvam de um só óvulo? 1.&#160;Sobre a época em que é infundida a alma humana (intelectiva) a um embrião (gêmeo ou não gêmeo), duas são as teorias debatidas por biólogos e filósofos (cf. P. R.&#160;3/1957, qu, 3) : a) [&#8230;]</p>
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<p><em><em>Quando se dá a infusão das respectivas almas humanas a gêmeos (dois ou mais) que se desenvolvam de um só óvulo?</em></em></p>



<p><strong>1.</strong>&nbsp;Sobre a época em que é infundida a alma humana (intelectiva) a um embrião (gêmeo ou não gêmeo), duas são as teorias debatidas por biólogos e filósofos (cf. P. R.<sub>&nbsp;</sub>3/1957, qu, 3) :</p>



<p>a) a mais antiga é a da «animação mediata»; afirma que o feto vai sendo vivificado sucessivamente por alma vegetativa e alma sensitiva, até que atinja o desenvolvimento necessário para ser sede da alma racional ou humana propriamente dita (o que se daria quarenta ou oitenta dias após a conceição, respectivamente no embrião masculino e no feminino, segundo a teoria de Aristóteles,&nbsp;+322 a.C.);</p>



<p>b) a mais recente teoria, propugnada tanto por fisiólogos como por filósofos, ensina dar-se a infusão da alma intelectiva no instante mesmo em que o óvulo é fecundado; julgam os autores modernos que, desde esse momento, há no feto a organização pressuposta para que nele exista uma alma racional.</p>



<p>Qualquer das duas teorias é aceitável à luz da fé católica (ainda recentemente o bispo Mons. A. Lanza defendia a tese da «animação por etapas», embora não seja a mais comum entre os autores católicos contemporâneos; cf. o artigo «<em>La questione dei momento in cui l&#8217;anima razionale è infusa nel corpo</em>», em «Bollettino Filosofico» 4 e 5 [1938 e 1939]). O Papa Inocêncio XI, aos 2 de março de 1679, apenas rejeitou a proposição dos que julgavam provável que o embrião, antes de nascer, ou seja, no período de gestação no seio materno, não possuía alma racional; tais autores queriam justificar o aborto como se não fosse homicídio (cf. Denzinger, Enchiridion 1052). Independentemente, porém, da teoria que se professe sobre a época da infusão da alma racional (questão que a Santa Igreja em absoluto não quer definir), a Moral Católica tem o aborto direto na conta de ato gravemente ilícito, qualquer que seja a fase da gestação em que se cometa; já que praticamente permanecem dúvidas sobre a existência ou não, de alma humana no feto, quem pratica o aborto direto, aceita o risco de cometer um homicídio, atitude que já por si é condenável ; o aborto é, em qualquer caso, a destruição da vida iniciada de um homem.</p>



<p><strong>2.</strong>&nbsp;À luz destas premissas, passemos agora à questão da formação dos gêmeos no seio materno.</p>



<p>Duas são as vias pelas quais se podem originar os gêmeos:</p>



<p>a) Dois ou mais óvulos são fecundados por dois ou mais espermatozoides; tem-se então gêmeos «fraternos, biovulares ou pluriovulares» (também ditos «bicoriais ou pluricoriais»; o cório vem a ser a membrana que nos mamíferos envolve o ovo fecundado). Em tal caso, a questão da infusão da alma humana põe-se nos mesmos termos da fecundação simples considerada no princípio deste artigo: o problema filosófico e religioso não oferece modalidades novas.</p>



<p>b) Mais estranho ê o caso em que de um só óvulo se formam dois ou mais (até o máximo de cinco, na espécie humana) fetos (gêmeos «idênticos, monovulares ou monocoriais»). É o fenômeno da poliembrionia, que dá origem a prole toda pertencente ao mesmo sexo e dotada de notas comuns de fisiologia e psicologia (até de impressões digitais) que surpreendem o observador. Esses gêmeos se devem ao fato de que o ovo já fecundado se subdivide, por motivos ainda não plenamente elucidados pelos biólogos, em dois ou mais embriões; cada uma das células então resultantes é portadora de todo o potencial necessário para produzir um indivíduo humano; em consequência, cada uma das células que, se não fosse a divisão do ovo, teria contribuído com 50 % ou 25 % ou menos ainda para a obtenção de um único vivente, contribui por si só (100%) para a formação de um ser humano completo. Isto se explica pelo fato de que o embrião nas suas fases iniciais é assaz simples, de modo que sua estrutura específica se salvaguarda em cada célula que então dele se separe.</p>



<p>Que dizer agora sobre a questão filosófica da infusão da alma nos gêmeos monocoriais?</p>



<p>O espermatozóide e o óvulo antes da fecundação se comportam como instrumentos portadores da vida dos respectivos genitores; não têm principio vital próprio, mas são vivificados pelos dos genitores; caso se separem do organismo destes, a vida continua a existir neles a título de entidade transitória (em todo instrumento as virtualidades da causa principal se encontram a título transitório). Somente depois que o esperma e o óvulo se fundiram num embrião caracterizado por suas notas individuais é que se pode admitir o surto de um princípio vital novo (diferente do dos respectivos genitores). No caso, pois, dos gêmeos monocoriais somente após a última e definitiva subdivisão do ovo em embriões independentes é que se pode falar da origem de princípios vitais próprios. Antes desta subdivisão o processo de fecundação ainda está em via ; por conseguinte, o ovo vive da entidade fluente que anima os elementos no processo de via.</p>



<p>Uma vez feita a partição definitiva do ovo em embriões independentes, aplica-se a cada um dos novos fetos a tese da animação mediata ou imediata anteriormente exposta; o problema então recai nos termos dos casos simples.</p>



<p>A titulo de ilustração, segue-se uma estatística publicada pelo médico italiano Chiarugi, concernente à frequência do nascimento de gêmeos:</p>



<p>os partos de dois gêmeos ocorrem na proporção de um caso para 84,6 casos de parto simples (no Japão a porcentagem ainda é mais exígua);</p>



<p>os de três gêmeos, na proporção de um caso para 6.731 partos simples;</p>



<p>os de quatro gêmeos, na proporção de um caso para 963.612 partos simples;</p>



<p>os de cinco gêmeos, na proporção de um caso para 23.608.502 partos simples (fenômeno que talvez não se tenha verificado mais de 60 vezes nos últimos 500 anos; tenham-se em vista as quinquegêmeas Dionne, U.S.A.</p>
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		<title>Pode haver milagres fora da Igreja Católica?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Dom Estevão]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Apr 2020 20:30:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fé e Ciência]]></category>
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					<description><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Milagre.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="Milagre" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Milagre.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Milagre-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Milagre-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Milagre-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Milagre-1024x576.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p>Em vista da clareza de doutrina distinga-se entre&#160;milagre&#160;propriamente&#160;dito&#160;(ou milagre na linguagem técnica dos teólogos) e&#160;milagre em&#160;sentido&#160;largo. 1. O milagre propriamente dito é um fenômeno estranho ao curso natural das coisas, fenômeno que Deus produz como sinal da sua presença e ação neste mundo. A função de sinal é inerente ao conceito de milagre propriamente dito. Este, [&#8230;]</p>
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<p>Em vista da clareza de doutrina distinga-se entre<strong>&nbsp;milagre&nbsp;</strong><strong>propriamente&nbsp;dito</strong>&nbsp;(ou milagre na linguagem técnica dos teólogos) e<strong>&nbsp;milagre em</strong>&nbsp;<strong>sentido&nbsp;largo.</strong></p>



<p><strong>1.</strong> O milagre propriamente dito é um fenômeno estranho ao curso natural das coisas, fenômeno que Deus produz como sinal da sua presença e ação neste mundo. A função de sinal é inerente ao conceito de milagre propriamente dito. Este, por conseguinte, é sempre um testemunho que o Todo-Poderoso dá em favor de uma verdade ou de uma pessoa: a Divindade de Cristo, a autenticidade de sua Igreja, a santidade de uma alma, a eficácia da oração, etc. — Em consequência, escapam à qualificação de «milagre» certos fatos que, embora sejam admiráveis ou estranhos (algumas curas repentinas, visões destituídas de conteúdo doutrinário, um ou outro caso de estigmatização), não têm significado religioso, não elevam a Deus, mas, ao contrário, só servem para satisfazer ao capricho ou à vaidade de alguém. Quando Deus efetua prodígios, nunca o faz por capricho ou ostentação de sua Onipotência, mas sempre a fim de chamar a atenção do homem para algum dos atributos divinos.</p>



<p>Pois bem; os teólogos não hesitam em afirmar que o milagre propriamente dito pode ocorrer tanto dentro da Igreja (entre os fiéis católicos) como fora desta (entre não católicos: hereges, cismáticos, pagãos). Este último caso certamente é raro; quando, porém, o milagre é produzido fora da Igreja Católica (é sempre Deus quem o produz), o seu testemunho é tal que não redunda em abono dos erros do paganismo ou da heresia, mas em favor da verdade, verdade que em plenitude é possuída pela Igreja Católica; o milagre produzido fora desta adquire assim um valor construtivo, é sinal da autêntica revelação e tende a levar a única Igreja de Cristo.</p>



<p>São Tomás (De potentia 6,5 ad 5), por exemplo, ensina que Deus pode realizar um milagre para confirmar simplesmente uma verdade da religião natural (ou seja, uma verdade religiosa que o homem por sua inteligência natural reconhece) ou para atestar o valor da virtude praticada sinceramente por quem de boa fé vive fora do Catolicismo; e cita o caso, narrado por S. Agostinho (De civ, Dei 10,26), conforme o qual uma vestal de Roma (virgem consagrada ao serviço da Divindade), para comprovar a conservação de sua pureza, havia conseguido carregar água do Tibre num vaso perfurado&#8230; São Tomás assim comenta tal notícia:</p>



<p>«Não está excluído que, para exaltar a castidade, o Deus verdadeiro, por meio de seus anjos, tenha realizado o milagre de deter as águas; pois, se floresceu alguma virtude entre os gentios, floresceu por dom de Deus».</p>



<p>O que quer dizer: quem fora da Igreja procura sinceramente a Deus, seguindo a sua consciência com toda a boa fé, encontra a Deus, o único Deus da Revelação cristã. Este então, caso julgue oportuno, pode, por meio de um milagre, dar testemunho público das sinceras disposições de tal servo seu.</p>



<p><strong>2.</strong>&nbsp;O&nbsp;<strong>milagre em sentido largo</strong>&nbsp;é (como sugere a palavra latina correspondente, miraculum) tudo que suscita a admiração dos homens por depender de causas que os espectadores ignoram.</p>



<p>a) Essas causas podem ser forças latentes na alma, poderes naturais ainda pouco conhecidos e explorados pela Psicologia; têm-se então fenômenos chamados&nbsp;<strong>paranormais</strong>&nbsp;(= ao lado dos normais ), como são a telepatia, a radiestesia, a transmissão de pensamento, a clarividência do passado e do presente, as curas por sugestão&#8230; Às vezes estes fenômenos são tidos como milagres e atribuídos a mensageiros do Além; erroneamente, porém. Com os estudos modernos de Psicologia, que mais e mais penetram no subconsciente e no inconsciente, os fenômenos paranormais vão sendo elucidados e reduzidos progressivamente à categoria do normal; a maioria dos psicólogos julga que, com o tempo, o paranormal será totalmente claro e considerado como normal.</p>



<p>b) As causas ocultas aos espectadores, acima mencionadas, também podem estar fora do homem; seriam almas de defuntos, anjos ou demônios (quando é o próprio Deus, tem-se um milagre pròpriamente dito, de que tratamos acima).</p>



<p>No caso da intervenção de almas de defuntos, anjos ou demônios (intervenção que só se verifica por especial permissão de Deus e nunca pode ser forçada ou extorquida pelos homens), os fenômenos são chamados&nbsp;<strong>preternaturais</strong>&nbsp;(= além dos naturais), por serem fenômenos que ultrapassam os poderes do homem na terra, mas não os de outra natureza criada, dotada de faculdades superiores às do homem. Fenômenos preternaturais são, por exemplo, a descrição de acontecimentos futuros previsíveis por quem conhece bem suas causas atuais, a indicação de fórmulas farmacêuticas e terapêuticas que excedem os conhecimentos da precária ciência humana, a transposição de objetos e pessoas de um lugar para outro,.. Tais efeitos estão certamente ao alcance dos anjos bons e maus que, possuindo inteligência superior à do homem, podem, melhor do que nós, penetrar nos segredos da natureza; possuem também raio de ação mais amplo que o do homem (quanto às almas dos defuntos, podem por concessão de Deus gozar de maior liberdade de ação do que quando unidas aos corpos).</p>



<p>Os fenômenos preternaturais podem-se verificar, por permissão do Senhor, tanto dentro como fora da Igreja Católica. Não há dúvida, ocorrem em alguns processos do espiritismo; ocorrem também em formas de curandeirismo, que invoca explicitamente os espíritos maus e usa da magia negra. Jesus mesmo predisse que «surgiriam falsos Cristos e falsos profetas, os quais fariam grandes sinais e prodígios, de modo a seduzir, se fosse possível, até os eleitos» (cf. Mt 24,24); São Paulo atribui semelhantes poderes ao Homem Iníquo por excelência, que se manifestará no fim dos tempos (cf. 2 Tes 2,8-10). Note-se que em geral não são as almas dos defuntos evocados que intervêm nas sessões espíritas; na maioria dos casos, dá-se um dos fenômenos paranormais acima enunciados (telepatia, clarividência, transmissão de pensamento&#8230;).</p>



<p>Deve-se observar ainda que, se Deus permite a realização de portentos (não milagres no sentido estrito) por parte dos anjos maus ou demônios, Ele a permite para comprovar e purificar a fé dos homens. Contudo não deixa de fornecer indícios para discernirmos as maravilhas que Deus faz por Si ou por meio dos anjos bons, das maravilhas que o demônio, por concessão do Onipotente, efetua; Deus, que é justo, nunca poderia permitir que o homem seja, por obra dos espíritos maus, invencivelmente levado ao erro no tocante à religião e à salvação eterna. Entre os principais critérios de discernimento, enumeram-se os seguintes: os prodígios realizados pelo demônio são geralmente cercados de ritos, práticas supersticiosas (ou seja, recurso a causas ineptas para obter efeitos de ordem superior), fórmulas e receitas evocadoras; o conteúdo das respectivas mensagens não leva a Deus e a Cristo (às vezes,<em>&nbsp;</em><em>é</em><em>&nbsp;</em>verdade, os oragos espíritas mandam seus clientes frequentar a igreja ou corrigir um vicio; fazem-no, porém, a fim de suscitar maior confusão, recorrendo a um pouco de verdade para encobrir grande dose de erro; não visam gerar integralmente a fé e a moral católicas no paciente); a procura de tais portentos deixa geralmente a pessoa perturbada, inquieta, tendente a um estado psicopata. Ao contrário, os prodígios realizados por Deus e pelos anjos bons são geralmente imprevistos; acontecem sem evocação nem provocação alguma, sem ostentação aparatosa (tenham-se em vista os milagres de Fátima, Lourdes, La Salette etc.); são fatores de paz e alegria profundas, não afetadas pelas contradições humanas; corroboram a virtude, principalmente a humildade e a obediência ou renúncia à vontade própria perante a autoridade legítima (critérios importantíssimos). É, sem dúvida, pelos frutos que se conhece a árvore!</p>
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		<title>A &#8220;Inteligência&#8221; dos Animais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Dom Estevão]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Apr 2020 20:30:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fé e Ciência]]></category>
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					<description><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="A Inteligência dos Animais" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais-1024x576.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p>Em síntese:&#160;As publicações científicas falam freqüentemente de &#8221;inteligência dos animais&#8221; — o que é ambíguo. Inteligência é a faculdade de conceber noções abstratas, universais, formular definições, falar (utilizando diversos vocábulos para significar o mesmo conceito), progredir em cultura e civilização, distinguindo o essencial e o acidental&#8230; Ora os animais infra-humanos não realizam tais coisas; são [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="A Inteligência dos Animais" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Inteligência-dos-Animais-1024x576.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p>Em síntese:&nbsp;<em>As publicações científicas falam freqüentemente de &#8221;inteligência dos animais&#8221; — o que é ambíguo. Inteligência é a faculdade de conceber noções abstratas, universais, formular definições, falar (utilizando diversos vocábulos para significar o mesmo conceito), progredir em cultura e civilização, distinguindo o essencial e o acidental&#8230; Ora os animais infra-humanos não realizam tais coisas; são dotados, sim, de estimativa, que os leva a avaliar o que convém e o que não convém entre os objetos que os cercam; são também dotados de instinto, que lhes permite efetuar seus abrigos (teias, galerias, ninhos&#8230;), captar a presa com precisão, cuidar dos filhotes com grande dedicação, mas são cegos no exercício de suas funções; não são capazes de corrigir algum defeito ocorrente ou de melhorar e progredir.</em></p>



<p><em>A mera observação empírica, que não procura causas latentes dos fenômenos, pode igualar entre si fenômenos diversos, ao passo que a reflexão filosófica ultrapassa a aparência visível dos fatos e descobre as diferenças reais latentes, que caracterizam os fatos e os diferenciam entre si.</em></p>



<p>A revista Science et Vie, n. 919, de abril 1994, pp. 65-71, disserta sobre a &#8220;inteligência dos animais&#8221;, apresentando vários casos de comportamento dos animais que parecem supor inteligência. — O assunto é de grande importância, pois a inteligência ou o intelecto é uma faculdade da alma espiritual. Por conseguinte, se os animais têm inteligência, têm alma espiritual e imortal. Continuam a viver no além, após a morte física. É preciso, pois, esclarecer, com a possível nitidez, o que é inteligência e como julgar a conduta perspicaz e hábil dos animais infra-humanos.</p>



<p>Observamos que em PR 232/1979, pp. 135-150 já foi estudada a &#8220;linguagem dos animais&#8221;; em PR 347/1991, pp. 155-160, o instinto dos mesmos.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>1. O que é Inteligência?</strong></h2>



<p>Inteligência ou intelecto&nbsp;<em>é&nbsp;</em>a faculdade (a capacidade) de intus-legere, ler dentro, isto é, de perceber o essencial de cada ser, distinguindo-o do que lhe é acidental. Assim, por exemplo, ao ver um homem, uma mulher, uma pessoa magra, uma gorda, um ancião, uma criança&#8230;, o olhar registra as diferenças que caracterizam esses objetos (diferenças de tamanho, de cor da pele, do formato dos olhos, do nariz&#8230;), mas a inteligência é capaz de perceber a unidade íntima ou unidade da essência, que está latente nesses seres: são todos viventes&#8230; e viventes racionais (têm a capacidade de raciocinar). Ao provar água do rio, água do mar, água da fonte mineral, água gasosa, água sulfurosa, água limpa, água suja, uma pedra de gelo&#8230;, meu paladar observará as diferenças de gosto, meus olhos observarão as diferenças de cor, o tato sentirá também a diferença entre o líquido e o sólido, mas a inteligência me dirá que todos esses objetos têm a mesma essência ou a mesma realidade íntima; são&nbsp;H2O.</p>



<p>A inteligência, que abstrai das notas concretas para perceber o que está intus (dentro) ou o essencial, é, por isto, capaz de formular definições ou conceitos abstratos, universais; assim o conceito de flor compreende rosa, cravo, violeta, margarida&#8230;; não existe flor abstrata senão em minha mente; mas o conceito de flor corresponde a diversas realidades concretas, das quais a inteligência o abstrai, concebendo o essencial de toda flor e formulando uma definição que compreende qualquer tipo de flor.</p>



<p>Por isto também a inteligência é capaz de levar o homem a progredir em seus artefatos e em sua civilização; o homem que se abrigava nas cavernas, viu que o essencial da caverna não era a rocha nem a escuridão, nem o frio; era, sim, o abrigo e a defesa que a caverna lhe proporcionava; por isto o homem pôs-se a procurar algo que lhe propiciasse abrigo e defesa em melhores condições, passando para casebres, choupanas, casas de tijolos, até chegar aos arranha-céus modernos. É a percepção do essencial, em oposição ao acidental, que permite ao homem progredir na sua civilização.</p>



<p>Mais: a linguagem é outra expressão da inteligência. Os conceitos que estão no intelecto, podem ser exteriorizados mediante sons convencionais, dispostos em ordem lógica (sujeito, verbo, objeto direto, objeto indireto&#8230;); o homem que fala, pode não somente escolher os sons que queira, mas pode também trocar esses sons sem alterar os conceitos, ou seja, pode&nbsp;dizer a mesma coisa em outras línguas mediante traduções; estas, aos ouvidos, soam muito diversamente, mas a inteligência as aceita como exteriorizações fiéis dos mesmos conceitos da inteligência do brasileiro, do inglês, do japonês, do africano&#8230;</p>



<p>Visto que a inteligência é capaz de abstrair do concreto material, diz-se que ela não é material; é uma faculdade espiritual, própria da alma humana espiritual. Por conseguinte, o vivente que consiga conceber noções abstratas, rever suas atividades, a fim de as aperfeiçoar,&#8230; consiga falar em linguagem concatenada, traduzindo seus vocábulos para diversas línguas, é indivíduo intelectivo; tem alma intelectiva, que, por seu modo de agir, revela não estar limitada ao material, concreto, mas ser de ordem espiritual.</p>



<p>Vejamos agora algumas das expressões dos animais infra-humanos que, segundo a revista Science et Vie, são indícios de inteligência.</p>



<h2 class="wp-block-heading">2. <strong>O Comportamento dos Animais</strong></h2>



<p>A primatologia tem progredido sempre mais, especialmente a partir da década de 1970, esmerando-se em observar meticulosamente a conduta dos animais (primatas) infra-humanos. Em conseqüência, os pesquisadores em nossos dias apontam casos atentamente acompanhados, que lhes parecem sintomáticos da &#8220;inteligência&#8221; animal. Entre outros, sejam mencionados os seguintes:</p>



<p>Um bando de macacos babuínos hamadryas é surpreendido por uma chuva torrencial, que durante a noite cai sobre o seu lugar de pouso. Os macacos, molhados, tiritam de frio. Têm que mudar de lugar. Dirigem-se então para um local onde tinham estado no dia anterior. Um deles, porém, mais velho, toma a direção oposta, após ter-se coçado muito (sinal de conflito interior). Os outros machos (que geralmente lideram os deslocamentos) sentam-se e também se coçam; finalmente seguem o mais velho. — A decisão foi sábia, porque, na direção que o grupo ia seguir, havia um córrego d’água transbordante que teria dificultado a passagem do bando. Julga o articulista de Science et Vie: &#8220;Nessas tomadas de decisão de tais macacos, há todas as aparências de um debate democrático&#8221; (p. 66).</p>



<p>Eis outro exemplo: um chimpanzé verifica que certos ramos de uma árvore que lhe fornece alimento, lhe são inacessíveis. Que faz? — Senta-se e examina a árvore por muito tempo. Depois vai buscar um tronco e ergue-o em direção oblíqua contra a árvore do lado em que se encontra o alimento. Feito isto, precipita-se pela rampa assim improvisada, e atinge finalmente os ramos que ele deseja! Cf. art. cit. p. 67.</p>



<p>Os animais seriam capazes de elaborar uma estratégia psicológica. Tal seria o caso do pássaro-fêmea, que, perseguido por um predador, finge estar ferido para desviar a atenção do mesmo e assim salvar a sua ninhada (art. cit. p. 68). Conta-se também a história de um chimpanzé que esperou a noite, quando seus companheiros estavam adormecidos, para ir desenterrar sua presa capturada durante o dia, a fim de a devorar sem ter que a repartir; ver art. cit. p. 68.</p>



<p>A arquitetura dos animais também chama a atenção: a teia de uma aranha, as galerias das formigas, o favo de mel das abelhas, as digas dos castores&#8230; O labro (peixe) constrói um poço para morar, servindo-se de pedras e conchas; a larva da cigarra torna-se impermeável à água e aos fatores que a ameaçam, soprando ar dentro de um líquido viscoso que ela produz, e dentro do qual ela se envolve.</p>



<h2 class="wp-block-heading">3. <strong>O que dizer?</strong></h2>



<p>Os fenômenos apontados não são necessariamente indícios de inteligência dos animais. Explicam-se pelo uso das faculdades sensitivas desses viventes; tais faculdades neles são agudas e perspicazes por generosidade da natureza ou do Criador, que os quis dotar dos recursos aptos a sobreviver em meio às ameaças do ambiente. Os animais infra-humanos, portanto, ficam no plano da vida sensitiva, não chegando à intelectiva, pois não concebem noções abstratas, universais, nem linguagem. Para exprimir tais conceitos, não formulam princípios e leis gerais, não progridem na sua cultura ou &#8220;civilização&#8221;.</p>



<p>Aprofundemos estas afirmações.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>3.1. Memória e aprendizagem</strong></h3>



<p>Os animais gozam de conhecimento sensitivo e de afetos ou emoções: vêem, ouvem, gemem, choram, alegram-se&#8230;</p>



<p>A essas faculdades acrescenta-se a capacidade de reter ou a memória. Com efeito; os animais reconhecem seu dono, por exemplo; isto quer dizer que guardam as imagens percebidas no passado e identificam com elas imagens que eles vêem no presente. É o que acontece com o cão, com o elefante&#8230;: reconhecem pessoas que os acompanham de perto.</p>



<p>Ora quem tem a capacidade de reter ou guardar na memória, tem também a capacidade de aprender, pois o reter na memória não é senão uma forma de aprendizado. Os animais aprendem, embora em proporções mais reduzidas que o homem. Assim o Prof. Swift, da Washington University, acompanhou um animal e um homem dados à aprendizagem e notou grande semelhança entre um e outro. Concretamente: Swift observou os&nbsp;erros e os progressos que um cão esfomeado faz para sair de um labirinto, e um datilografo que aprende a escrever à máquina; esta observação lhe permitiu traçar duas curvas que de perto correspondiam uma à outra.</p>



<p>De resto, há cinco modos de aprender: 1) por imitação instintiva; 2) por associação casual; 3) por domesticação; 4) por raciocínio e 5) por instrução intelectual. — Ora os animais infra-humanos podem aprender segundo os três primeiros modos. Com efeito,</p>



<p>—&nbsp;por imitação instintiva. O animal aprende quando espontânea ou instintivamente é levado a reproduzir as ações dos outros, como fazem os papagaios e os macacos; daí os termos &#8220;papagaiada&#8221; e &#8220;macaquear&#8221;;</p>



<p>—&nbsp;por associação casual. O animal aprende quando encontra imprevistamente algo de útil ou agradável, e reproduz esse algo associando a imagem de tal coisa e a imagem da ação que a causou. É assim, por exemplo, que os cães e outros animais aprendem a fazer girar o batente das portas e a manipular os botões automáticos de suas gaiolas&#8230; Não se trata aí de raciocínio, mas, sim, do efeito de um fato imprevisto e de uma associação de imagens. Mais precisamente: o animal encerrado numa gaiola se enfurece por estar preso, e se movimenta desordenadamente até o momento em que empurra por acaso o batente da porta ou toca um botão automático. A imaginação do animal é então impressionada pelo êxito obtido e associa automaticamente as duas imagens: a de empurrar o batente ou acionar o botão e a de abrir-se a porta e obter um efeito imprevisto. A capacidade de conservar na memória tais imagens faz que o animal possa repetir a operação todas as vezes que ele queira obter o efeito descoberto por acaso. Como se vê, não há raciocínio, mas fatos casuais e memória associativa; é assim que os animais domésticos conseguem aprender muitas façanhas que surpreendem os observadores;</p>



<p>—&nbsp;por domesticação. O animal aprende quando a associação de idéias é provocada pelo homem segundo um planejamento de aprendizado especial. Muitas vezes o domesticador faz que o animal associe em sua memória um determinado comportamento e um prêmio correspondente. Assim procedendo, os operadores podem ensinar aos animais (cães, cavalos, macacos&#8230;) ações complexas e difíceis, que são exibidas nos circos.</p>



<p>Quanto ao aprendizado por raciocínio ou por instrução, é exclusivo do homem, porque supõe a inteligência, que o animal não possui.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>3.2. A Estimativa e o Instinto</strong></h3>



<p>Em todo animal infra-humano (e também no homem), há uma faculdade do plano sensitivo que se chama &#8220;estimativa&#8221; ou &#8220;senso apreciativo&#8221;.</p>



<p>Pela estimativa ou pelo senso apreciativo o animal percebe as coisas concretas que o cercam na medida em que lhe são úteis ou nocivas, ou seja, do ponto de vista prático. Percebendo-as, o animal toma as atitudes correspondentes de procura ou de fuga, de defesa ou de ataque&#8230;</p>



<p>A essa estimativa está associado o instinto ou know-how natural (o instinto que sabe como fazer). O instinto é o conjunto das tendências naturais que derivam das necessidades fundamentais ou primárias do ser vivo. Em virtude dessas necessidades, o animal é levado a exercer todos os atos condizentes com a sua conservação individual ou da espécie. Essas tendências naturais se identificam com a natureza do ser vivo, sensível, e se definem por ela.</p>



<p>O know-how (saber como&#8230;) do animal é maravilhoso, surpreendendo o observador por sua precisão, mas não supõe raciocínio ou inteligência, pois é um saber mecânico (certeiro, mas cego), a tal ponto que o animal é incapaz de corrigir algum erro ou desviar algum contratempo que ocorra no exercício das suas funções instintivas. O instinto é limitado a certas funções: quando não as pode exercer, porque, de algum modo, mutilado, o animal não procura um procedimento substitutivo ou outra maneira de atingir sua meta. Assim, por exemplo, a abelha deposita o pólen em seu favo&#8230;; todavia, se um operador faz um buraco no fundo do vaso provocando a evasão do pólen, a abelha verifica o ocorrido, entra dentro do favo para o inspecionar (vêem-se as suas antenas passando pelo buraco do fundo), mas não remedia nem corrige o desastre; continua o seu trabalho.</p>



<p>A finalidade em mira é o bem do indivíduo, quando este caça a sua presa, ou o da espécie quando se trata de alimentar os filhotes.</p>



<p>Leve-se em conta o proceder de certos insetos himenópteros carnívoros: procuram assegurar a subsistência da prole, antes que esta nasça: em vista disto, assaltam um grilo, uma borboleta ou uma aranha, que o himenóptero assaltante leva para seu ninho a fim de pôr seus ovos no ventre do mesmo. Surge, porém, um problema: é preciso que a presa não seja captada morta, pois, uma vez morta, entraria em decomposição e não serviria mais de nutrimento aos filhotes; doutro lado, é preciso que não seja introduzida simplesmente viva no ninho, pois um golpe de suas patas, debatendo-se, poderia matar o embrião no ovo ou a larva recém-nascida.</p>



<p>O problema, porém, resolve-se de modo estupendo. Esses himenópteros possuem um ferrão na extremidade do abdômen, com o qual desferem um ou mais golpes nos centros nervosos motores da vítima, imobilizando-a por completo; a morte só após longo intervalo decorre desse ferimento. Ora, para atingir tais centros nervosos, requer-se minucioso conhecimento de anatomia e precisão extraordinária no golpear, pois as vítimas são &#8220;encouraçadas&#8221;, de modo que o ferrão do agressor só pode penetrar através de pontos débeis correspondentes às articulações dos segmentos do tórax e do abdômen. O mesmo agressor deve outrossim saber (ou agir como se soubesse) que, assim ferindo, ele imobiliza a vítima sem a matar. Isto tudo quer dizer:&#8230; deve ter a competência que somente alguns estudiosos especialistas possuem. — Esta qualidade se torna particularmente notória se se considera que, conforme experiências efetuadas por Fabre, a atividade dos referidos himenópteros é de todo inconsciente.</p>



<p>Esse &#8220;saber-fazer&#8221; também é inato, não adquirido; desencadeia-se sem aprendizagem e sem experiência prévia, com toda a perfeição (<a href="http://www.pr.gonet.biz/kb_read.php?pref=htm&amp;num=1030#_ftn1">[1]</a>). A própria natureza torna impossível a aprendizagem, como no caso de insetos (borboletas, besouros&#8230;) que vivem apenas uma estação. O saber instintivo é, ao mesmo tempo, muito competente, mas também muito limitado, como dito atrás; o animal não sabe por que procede deste ou daquele modo; por isto também não sabe corrigir as falhas que ocorram na sua atividade ([2]). Em conseqüência, não se pode atribuir inteligência ao animal. Atribui-se, antes, ao animal uma estrutura psicológica adequada, que varia de espécie para espécie de acordo com a finalidade a atingir.</p>



<p>Notamos ainda que o instinto dos irracionais é uniforme e estável. Isto quer dizer que é realmente admirável e certeiro, mas incapaz de progredir; já Aristóteles (+322 a.C.) descrevia o procedimento das abelhas tal como ele hoje ocorre. ([3]) Cada animal age de modo excelente dentro da sua modalidade, mas, fora desta, é ignorante e inepto. É importante notar isto, quando se trata de &#8220;ensinar&#8221; aos animais; os respectivos instintos podem ser aprimorados, principalmente nos animais superiores, mas o domesticador tem que se ater estritamente à lógica e ao sentido do instinto; sempre que o aperfeiçoamento sai desta área (ainda que isto nos pareça muito simples), o animal se desinteressa, porque não alcança o que se lhe quer transmitir.</p>



<p>Procuremos desenvolver estas breves noções de instinto, analisando mais alguns exemplos fornecidos pela Psicologia Experimental, a fim de distinguir nitidamente instinto e inteligência.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>3.3. Dependência e independência de circunstâncias particulares</strong></h3>



<p>No animal irracional, a atividade dos sentidos influi de maneira poderosa sobre o respectivo ritmo de vida; o animal dirige a sua conduta em estreita dependência das informações que os órgãos dos sentidos, &#8220;aqui e agora&#8221;, lhe comunicam: os irracionais cujos sentidos tenham sido mutilados, experimentam notável diminuição de sua vitalidade, chegando por vezes a morrer sem demora. O mesmo não se dá com o homem; este parece ter, além dos sentidos e dos instintos que a estes estão associados, um princípio de atividade que transcende sentidos e instintos. Em outros termos: o homem caracteriza os objetos de seu conhecimento, de modo a reconhecê-los em qualquer situação, independentemente do quadro em que os conheceu pela primeira vez. É o que as seguintes observações ilustram:</p>



<p>Uma galinha que esteja a chocar cuidadosamente os ovos, caso venha a quebrar um deles, come tranqüilamente o seu conteúdo como se não fora o objeto que ela anteriormente tanto acalentava.</p>



<p>O naturalista Volkelt refere que uma espécie de aranha, a &#8220;Zilla&#8221;, além de construir a sua teia, fabrica também um ninho no qual ela se oculta; logo que vê um inseto capturado pela teia, precipita-se sobre ele. Caso, porém, o mesmo inseto lhe seja oferecido dentro do próprio ninho, tal aranha foge, como se não o reconhecesse.</p>



<p>Bierens de Hann narra que os pólipos se mostram geralmente muito atentos e rápidos na caça de pequenos caranguejos; desde, porém, que tais animaizinhos lhes ocorram atados a um fio, fogem assustados.</p>



<p>Desses fatos parece poder-se concluir que, para a galinha, uma coisa é o ovo inteiro visto no conjunto dos demais ovos a ser chocados; outra coisa é o ovo quebrado. Para a aranha, uma coisa é a mosca na teia; outra coisa é a mosca no ninho. Para o pólipo, uma coisa é o caranguejo que caminha livremente; outra coisa, o caranguejo que aparece na água pendurado a um fio. Dir-se-á que o animal irracional contempla cada quadro isoladamente, não chegando a relacionar umas com as outras as situações em que se acha.</p>



<p>No ser humano, ao contrário, embora o uso dos sentidos seja de grande valor, a ausência de um ou mais destes não impede intensa atividade psíquica. Foi o que se deu, por exemplo, com Helena Keller, a qual, cega, surda e muda, alcançou elevado grau de cultura, chegando a redigir obras de filosofia. Outras pessoas, mutiladas em sua vida sensitiva, puderam, não obstante, aprimorar sua formação intelectual. — Note-se outrossim: o homem pode dizer &#8220;o ovo, a mosca, o caranguejo&#8221;, sem se referir a determinado ovo, a determinada mosca ou a determinado caranguejo&#8230; A verificação destes fatos permite concluir, como já o fizemos, que a atividade psíquica do homem emerge acima dos sentidos e dos objetos sensíveis que o cercam.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>3.4. Domesticação do animal e educação da criança</strong></h3>



<p>Há certos animais domesticados que parecem tão espertos ou &#8220;inteligentes&#8221; quanto um ser humano. Tal é o caso, por exemplo, dos macaquinhos de circo, que executam exercícios em trapézio, montam a cavalo, andam de bicicleta, tocam acordeão, fumam cigarro, comem à mesa com fidalguia, etc. Dir-se-ia que entre esses animais e um homem educado há mais afinidade do que entre um índio das selvas e um cidadão do séc. XX.</p>



<p>Observando de mais perto, porém, o estudioso verifica que, aquilo que o macaco executa de estupendo, ele o faz unicamente para imitar o comportamento do homem, sem perceber o significado intrínseco de seus atos (não foi em vão que os antigos deram ao macaco o nome de &#8220;simius&#8221;, isto é, simulador ou imitador). Em outros termos: a conduta do macaco se deve a mera associação de imagens e impressões; ele aprende cegamente (isto é, sem saber por quê) a realizar tal gesto ou a efetuar tais e tais ações desde que seja impressionado portal estímulo. (<a href="http://www.pr.gonet.biz/kb_read.php?pref=htm&amp;num=1030#_ftn4">[4]</a>) Com efeito, o animal que aprendeu alguma &#8220;arte&#8221;, nunca evoluiu nem se aperfeiçoa na execução da mesma; jamais chega ao limite máximo de suas possibilidades; ele apenas tolera a arte que lhe ensinaram, sem perceber a finalidade da mesma. Desde que se veja emancipado do seu domesticador, liberta-se dos costumes que aprendeu, ou emprega despropositadamente os instrumentos que ele antes parecia manejar com sabedoria.</p>



<p>Assim um macaco pode aprender a comer com a colher; desde, porém, que o homem o deixe entregue a si mesmo, tal animal usará da colher para brincar ou para qualquer outra atividade, não, porém, para comer. O macaco que toca acordeão, assim que o pode, serve-se deste instrumento corno se fora um trampolim, um projétil ou um bastão para atingir determinada fruta. O símio que veste trajes humanos, não consegue deixar de comer seus próprios excrementos, apesar dos muitos castigos que lhe são infligidos.</p>



<p>Estes dados mais uma vez mostram que o irracional não possui a capacidade de apreender proporções ou de perceber as relações vigentes entre meio e fim ou entre causa e efeito.</p>



<p>A criança, ao contrário, após aprender a manejar determinado instrumento, tende a perscrutar as leis do seu funcionamento, chegando a desmontar tal objeto, a fim de se tornar consciente das causas dos respectivos efeitos. Se possível, a criatura humana, tendo percebido as relações que existem entre as diversas partes do instrumento, ainda procura aperfeiçoar a este, tornando-o mais adaptado à sua finalidade.</p>



<p>Em outros termos dir-se-á: o irracional vive exclusivamente no presente; utiliza, sim, conhecimentos adquiridos no passado, mas apenas na medida em que beneficiam a situação presente; não possui a capacidade de se emancipar das circunstâncias atuais para conceber de algum modo também o futuro; é isto que comunica à conduta do animal a índole prática e realista que por vezes suscita a nossa admiração. — O homem, ao invés, tende a abarcar os acontecimentos passados e presentes numa só visão de conjunto, na qual o futuro já é previsto e contemplado; ao desenrolar sucessivo dos acontecimentos o homem costuma dar uma interpretação, procurando os fios condutores ou as linhas-mestras da história; e é por essa interpretação ou por essa &#8220;filosofia&#8221; que a pessoa humana costuma, antes do mais, guiar a sua conduta; a situação concreta de determinado momento não toma então senão valor secundário.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>3.5. Instrumentos de trabalho</strong></h3>



<p>&#8220;Instrumento de trabalho&#8221; vem a ser um objeto preparado para a execução fiel de certa tarefa; deve adequadamente corresponder às exigências dessa tarefa; todo instrumento traz em si a marca do emprego que lhe compete. Assim o balde é fabricado para carregar água; toda a sua configuração exprime tal finalidade; o balde pode também ser utilizado como instrumento de defesa ou de ataque; contudo este emprego é evidentemente alheio à idéia que inspirou a fabricação do balde.</p>



<p>Ora observa-se que o macaco se pode servir de um bastão para atingir determinado objeto, chegando por vezes a modificar o pau para o utilizar. Tal uso, porém, não pode ser considerado &#8220;uso de instrumento&#8221;, pois de modo nenhum depende do propósito de &#8220;proporcionar tal meio a tal fim&#8221;; o animal visa apenas a alargar, no momento presente, o raio de ação de seu organismo, prolongando com um cajado a extensão de seu braço; não tenciona produzir um instrumento para sempre adaptado à consecução de tal ou tal objetivo. Em conseqüência, o macaco, depois de haver usado uma vez o bastão para resolver o &#8220;caso&#8221;, abandona-o, ficando na emergência de ter que reconstituir o utensílio quando se vir diante de problema semelhante. O homem, ao invés, além de talhar previamente o seu instrumento, adaptando-o a uma finalidade bem concebida, conserva-o após o uso, tendendo a aperfeiçoá-lo; o mesmo instrumento pode passar para o serviço de outras pessoas, as quais por sua vez introduzem novos melhoramentos no utensílio; assim um instrumento chega a ter existência independente da existência de quem o usa.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>3.6. Macaco e criança</strong></h3>



<p>O fato de que a conduta da criancinha não se diferencia da do macaco nos seus primeiros meses, não quer dizer que o bebê não seja verdadeiro ser humano desde os seus primeiros dias, mesmo desde a concepção no seio materno. Apenas as suas faculdades intelectivas permanecem latentes em grau maior ou menor, enquanto não estão plenamente desenvolvidos o cérebro e, em geral, os sentidos, que fornecem à inteligência os elementos sobre os quais ela raciocina. À medida que o desenvolvimento se dá, a criança manifesta a presença e as qualidades do seu intelecto.</p>



<p>Os estudiosos têm realizado experiências muito significativas neste setor. Assim, por exemplo, o casal Kellog permitiu que seu filhinho Donald, dos dez aos dezenove meses de idade, fosse educado ao lado de uma criazinha de macaco chamada &#8220;Gua&#8221;, a qual, no início da experiência, contava sete meses de idade. Os observadores submeteram o filhote de macaco e a criança exatamente às mesmas provas (necessidade de fazer um desvio ou um circuito para alcançar o seu alimento, subir sobre um tamborete, manejar um objeto, obedecer a uma ordem, etc). Após minucioso confronto, verificaram que durante alguns meses Donald e Gua apresentavam semelhantes reações aos estímulos extrínsecos; respondiam aos mesmos testes com sucesso variável, mas geralmente obtendo empate final; apenas o macaco se mostrava mais hábil e ligeiro nos seus movimentos físicos, enquanto a criança manifestava mais capacidade de prestar atenção. Após determinado prazo, porém, observaram que a criança, por seus progressos, se distanciava do concorrente, de sorte a tornar vã qualquer ulterior comparação. A criança começou a falar propriamente; transpôs o limiar da linguagem, que a caracterizaria como ser humano.</p>



<p>Experiência semelhante à do casal Kellog foi empreendida pela cientista russa Sra. Kohts, que confrontou o comportamento de seu filho com o de seu chimpanzé a partir de um ano e meio até os quatro anos de idade. Observou que o chimpanzé aprendia, sim, certas façanhas, mas de modo mecânico e rotineiro, sem manifestar tendências a se aperfeiçoar; ao contrário, o menino demonstrava a propensão a realizar trabalho cada vez mais produtivo, ou seja, a superar continuamente os dados que aprendia. Isto é, mais uma vez, indício de que a criança estava consciente do significado ou das proporções das artes que assimilava, ao passo que o macaco não percebia tais proporções.</p>



<p>Assim a faculdade de falar constitui o sinal de demarcação colocado entre o reino dos irracionais e o do homem; essa demarcação é intransponível, mesmo ao mais perfeito dos viventes meramente sensitivos.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>3.7. Ainda a percepção do universal: a inteligência</strong></h3>



<p>Outras duas experiências vêm ao caso para mostrar a diferença entre inteligência e instinto. Aquela apreende o invisível; este, não.</p>



<p>O prof. G. Révesz apresentou a macacos, crianças e homens oito caixas fechadas, das quais uma continha chocolate. Na primeira experiência colocou o chocolate na primeira caixa; na segunda experiência, deslocou-o para a segunda caixa; na terceira experiência&#8230; para a terceira caixa; assim, de cada vez, na caixa sucessiva. Ora homens e crianças dos seis, sete anos em diante descobriram sem demora a lei que regia essas experiências: importava saber que o alimento se encontrava na caixa n + 1, sendo n o número da experiência anterior. Ao contrário, os macacos, submetidos ao mesmo teste, não descobriram a lei abstrata geral (n + 1), mas de cada vez se precipitaram sobre a caixa que na experiência anterior fora &#8220;premiada&#8221;. Isto quer dizer que o animal infra-humano é incapaz de superar o concreto, material, para perceber o abstrato, universal. Donde se conclui que lhe falta a capacidade de conhecer espiritual, imaterial, ou a inteligência.</p>



<p>A análoga conclusão chegou o Prof. Hamilton: fez uma mesma experiência com dez indivíduos humanos (um adulto normal, um adulto deficiente, seis crianças normais de dez a cinco anos, uma criança de 26 meses, uma criança anormal de onze anos) e 27 animais (cinco macacos, dezesseis cães, cinco gatos e um cavalo). A experiência consistia em introduzir os indivíduos num recinto fechado com quatro portas. Uma destas podia abrir-se com um empurrão, ao passo que as outras estavam hermeticamente fechadas por fora. A porta que podia ser aberta com um empurrão variava de experiência para experiência, mas não de modo que pudesse ser identificado pela memória, pois as mudanças eram efetuadas segundo uma lei simples que seria preciso descobrir. — Ora também neste caso somente os indivíduos humanos sadios de mais de dois anos chegaram a perceber a lei secreta das mudanças. Aos animais o problema ficou sendo insolúvel. Isto quer dizer, mais uma vez, que os animais infra-humanos são incapazes de perceber princípios abstratos; não têm inteligência.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>4. Pondera</strong>ções Finais</h2>



<p>Ainda duas reflexões importantes nos ocorrem.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>4.1. Fatos básicos</strong></h3>



<p>Quando fatos concretos são apresentados à discussão dos filósofos, psicólogos, antropólogos&#8230;, importa, antes do mais, ter relatos objetivos e fidedignos de tais ocorrências. Ora quem refere as suas experiências, não raro tende a interpretá-las simultaneamente ou, com outras palavras, refere-as a partir das premissas filosóficas que lhe são próprias; assim o leitor recebe não somente a notícia fria e objetiva das ocorrências, mas é, ao mesmo tempo, sugestionado a aceitar determinada interpretação de tais fatos ou dados empíricos.</p>



<p>Com isto não queremos necessariamente dizer que os observadores de Science et Vie tenham retocado a realidade dos fatos ou hajam apresentado relatos pouco fidedignos. Apenas chamamos a atenção para uma norma fundamental de metodologia científica: antes de qualquer discussão filosófica, é necessário estabelecer com exatidão o teor, as dimensões ou a realidade dos fatos empíricos a ser discutidos.</p>



<p>É muito significativo o que tem ocorrido em outros campos de pesquisa: assim, por exemplo, no tocante à reencarnação, as revistas noticiaram em 1955 e 1956 ter sido comprovada pelas experiências de Morey Bernstein referentes à Sra. Virgínia Tighe (= Bridey Murphy, em suposta encarnação anterior). Quem lesse os noticiários dos periódicos naquela época, daria a tese como firmada e confirmada pelos estudos de Bernstein. Ora pouco depois entraram em foco elementos novos apresentados pelo pastor protestante Wally White. Este estudioso conhecia Virgínia Tighe desde a juventude; quando leu o relato das experiências a que fora submetida, resolveu entrar em cena e comunicar dados novos, desconhecidos, que dispensavam a interpretação reencarnacionista e elucidavam os fatos de maneira simples e satisfatória.(<a href="http://www.pr.gonet.biz/kb_read.php?pref=htm&amp;num=1030#_ftn5">[5]</a>) Semelhantes casos têm ocorrido na história das pesquisas: já houve relatos de experiências que pareciam, em sua época, comprovar uma tese filosófica nova e revolucionária, mas que, com o tempo, foram reconsiderados de maneira objetiva, evidenciando-se então que não tinham o alcance filosófico que se lhes atribuía. Verificou-se que os primeiros relatos de tais experiências não foram relatos puramente científicos, mas foram também interpretações pessoais e subjetivas de fatos objetivos (tais interpretações não depõem contra a honestidade dos cientistas que as propuseram, pois estes geralmente procederam de boa fé e mais ou menos inconscientemente); é, sim, espontâneo ao ser humano interpretar os fatos ao mesmo tempo que os descreve, ou apresentar os dados históricos a partir de suas premissas filosóficas.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>4.2. Empirismo e Metafísica</strong></h3>



<p>A psicologia moderna apresenta, entre outras correntes, a do empirismo, que se difundiu principalmente nos países de língua inglesa. Está outrossim muito influenciada pelo positivismo e o neopositivismo. Estas escolas apenas registram dados empíricos ou fenômenos e renunciam a procurar causas não empíricas (causas metafísicas) para os mesmos; verificam que o fenômeno A se segue ao fenômeno B e renunciam a procurar saber se existe relação de causalidade entre A e B e, eventualmente, qual seria essa causalidade. De modo especial, note-se: a psicologia que o empirismo inspira, é uma psicologia sem &#8220;anima&#8221; ou sem sujeito definido dos fatos psicológicos; ela se limita à descrição fenomenológica dos fatos psíquicos. Por isto, quando alguém diz que o comportamento do animal infra-humano é semelhante (ou mesmo idêntico) ao do ser humano, guardando apenas diferença gradativa em relação a este, põe-se legitimamente a pergunta: que entende o observador por &#8220;semelhante&#8221; ou &#8220;idêntico&#8221; no caso? — Reconhecemos, sim, a semelhança das atitudes dos animais com aquilo que o ser humano geralmente pratica. Trata-se de semelhança de fenômenos ou de dados experimentais, que não implica necessariamente identidade de essência ou de consciência psicológica. Dizemos que o animal pré-humano e o homem são capazes de exprimir sentimentos e afetos, mas só o homem emite conceitos ou tem pensamento e linguagem conceituais. Com outras palavras: o homem e o animal infra-humano são aptos a dizer que concebem afetos de simpatia ou que sentem dor, mas somente o homem é capaz de dissertar sobre a simpatia, o amor e a dor. O animal é capaz de pedir água para beber, para refrescar-se ou para lavar-se, porque ele pode experimentar os efeitos da água e, por conseguinte, pode desejar experimentá-los; todavia só o homem é apto a discorrer sobre a água, enunciando, de maneira teórica e especulativa (não meramente pragmática), o que a água é e aquilo de que ela se compõe.</p>



<p>Ora um psicólogo empirista contenta-se com a descrição dos fenômenos experimentados ou averiguados e, na base de tais averiguações, estabelece confrontos e afirma semelhanças ou identidades. Todavia o filósofo que não seja meramente empirista, mas que, através dos fenômenos, analisa as estruturas do ser e sonda as essências de cada qual, poderá ver diferenças essenciais por detrás de idênticos comportamentos fenomenais ou&nbsp;empíricos. Ora, se o cientista adota a filosofia empirista, entender-se-á que ele tenha conceito de inteligência diferente daquilo que se entende por inteligência humana em filosofia clássica. Em conseqüência, o seu relatório não será suficiente para se dizer que o animal e o homem diferem entre si apenas por graus de perfeição no tocante à sua conduta.</p>



<p>Em conclusão, afirmamos que o homem é dotado de alma intelectiva, a qual é espiritual, ao passo que qualquer animal infra-humano é vivificado por alma sensitiva, meramente material. Entre o grau de vida sensitivo e o intelectivo não há meio-termo, como não o há entre matéria e espírito. Este fica sendo característico do ser humano. Só o homem é capaz de conceber noções universais ou definições, abstraindo dos objetos sensíveis e materiais que o cercam, os conceitos imateriais ou essenciais que se realizam nesses diversos objetos. O homem apreende as essências ou as notas constitutivas, estruturais dos seres que o cercam, ao passo que o animal inferior apenas constata os fenômenos concretos e os concatena entre si com o auxílio da sua memória sensitiva. Ora tal operação supõe uma faculdade ¡material ou espiritual que se chama &#8220;o intelecto&#8221; e que é a expressão da alma intelectiva ou espiritual própria do ser humano.</p>



<p>A propósito citamos, dentre ampla bibliografia,</p>



<p>ADLER, MORTIMER J., The Diference of Man and the Difference it Makes. Holt, Rinehart and Winston, New York 1967.</p>



<p>LANGER, SUSANNE K., Philosophyin a new Key. A study in the symbolism of Reason, Rite and Art. A Mentor Book, 7th ed., published by the New American Library, New York 1955.</p>



<p>FAGGIN, G. Empirismo, in Enciclopedia Filosófica I. Venezia-Roma 1957, cois. 1878-1894.</p>



<p>KOPPERS, WILHELM, O Homem Primitivo e a sua Visão do Mundo. Porto 1954.</p>



<p>MARCOZZI, VITTORIO, II Senso delia Vita Umana. Milano 1947. IDEM, A Evolução Hoje. Ed. Paulinas, São Paulo 1969. MARCOZZI-SELVAGGI, Problemi delle Origini. Roma 1966. ROLDAN, ALEJANDRO, Evolução, Rio de Janeiro 1958.</p>



<hr class="wp-block-separator"/>



<h4 class="wp-block-heading">Referências</h4>



<p>[1] Por exemplo, o patinho, chocado por uma galinha, procura imediatamente a água e nada, apesar dos chamados da ave-mãe espantada. O esquilo faz a previsão de nozes para o primeiro inverno de sua vida (que ele não conhece de modo nenhum), como ele a fará para os invernos subseqüentes.<br>[2] Caso se substitua o casulo de uma aranha por uma bolinha de cortiça, a aranha arrasta e defende esse elemento heterogêneo, como se fosse o anterior.<br>[3] Cada espécie de aranha tece o mesmo tipo de teia; cada espécie de ave constrói o mesmo tipo de ninho, de sorte que com facilidade se depreende, pela análise do ninho, qual o pássaro que o arquitetou.<br>[4] Veja-se o que às pp. 341 s deste fascículo foi dito sobre memória e aprendizagem.<br>[5] Ver PR 49/1962, pp. 3-10.</p>
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		<title>A Natureza não depõe contra Deus?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Dom Estevão]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Apr 2020 14:16:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fé e Ciência]]></category>
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					<description><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Natureza-não-depõe-contra-Deus.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="A Natureza não depõe contra Deus?" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Natureza-não-depõe-contra-Deus.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Natureza-não-depõe-contra-Deus-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Natureza-não-depõe-contra-Deus-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Natureza-não-depõe-contra-Deus-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/A-Natureza-não-depõe-contra-Deus-1024x576.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p>As falhas da natureza (a doença, os seres defeituosos e monstruosos, a própria morte) não depõem contra a existência de Deus ou ao menos contra a sabedoria e a bondade do Criador? A questão acima focaliza um aspecto do grave problema do mal existente no mundo, problema já abordado em «P. R.»&#160;5/1957, qu. 1. O [&#8230;]</p>
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<p><em><em>As falhas da natureza (a doença, os seres defeituosos e monstruosos, a própria morte) não depõem contra a existência de Deus ou ao menos contra a sabedoria e a bondade do Criador?</em></em></p>



<p>A questão acima focaliza um aspecto do grave problema do mal existente no mundo, problema já abordado em «P. R.»&nbsp;<a href="http://www.gonet.biz/revista.php?nrev=-4">5/1957</a>, qu. 1. O assunto requer aplicação serena do raciocínio, isento de sentimentalismo superficial. É o que nos propomos fazer nos incisos que se seguem.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>1. Que é o mal?</strong></h2>



<p><strong>1.1.</strong>&nbsp;Antes de analisar qualquer dos aspectos do problema, é imprescindível definir o que se entende propriamente por «mal».</p>



<p>Uma das mais frequentes causas de dificuldades no estudo da questão é a espontânea tendência que se tem, de conceber o mal como uma entidade positiva ou como um ser subsistente em si. Ora tal não se dá; o mal justamente não é algo de positivo, mas é negação ou ausência de ser e — note-se bem — ausência do ser devido ou do ser que deveria existir em tal determinado sujeito (é o que se chama propriamente carência).</p>



<p>Assim a falta de olhos no homem é um mal. pois a natureza humana inclui em suas notas constitutivas a potência visual; ao contrário, a ausência de asas na criatura humana não é um mal, pois a essência do homem não implica a faculdade de voar.</p>



<p>Caso a carência se dê na ordem física, ou seja, na linha da essência estática ou da estrutura característica de um ser, tem-se o mal físico (a cegueira, por exemplo). Se, porém, a carência se verifica na linha moral, isto é, na atividade de um ser consciente que, em vez de se encaminhar para seu autêntico Fim Supremo, se desvia deste, tem-se o mal moral ou o pecado (o furto, por exemplo).</p>



<p>Estas breves considerações sobre a essência do mal já são suficientes para que nos voltemos para a questão focalizada no cabeçalho deste artigo.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>2. E os defeitos da natureza&#8230;?</strong></h2>



<p><strong>2.1.</strong> A possibilidade de incorrer no mal ou de ser falho é inerente ao conceito de qualquer ser criado. Com efeito, quem diz «criatura», diz «ser que começou a existir, &#8230; ser, portanto, que existe transitória ou contingentemente, &#8230; ser que não se explica por si mesmo, mas que é explicado por outro, a saber, por Aquele que lhe deu inicio».</p>



<p>Sendo assim, entende-se que toda criatura, pelo fato mesmo de não possuir necessariamente o seu ser (ela não era, e veio a ser por obra de um agente que não é ela mesma), está sujeita a perder esse ser ou em parte (desvirtuando-se e definhando) ou totalmente (caindo na ruína e na morte). Uma criatura que, por sua natureza mesma, não fosse sujeita a falhar e perecer, seria uma contradição: seria simultaneamente volúvel, transitória, não tendo em si mesma a sua razão de ser (pelo fato de ser criatura), e imutável, absoluta (pelo fato de não poder perder o ser).</p>



<p>Vê-se assim que Deus jamais poderia ter feito uma criatura que não fosse naturalmente sujeita a decair e perecer (a infalibilidade, caso exista na criatura, é dom gratuito do Senhor); Deus não poderia ter feito outro Deus; o Absoluto não poderia ter produzido outro Absoluto.</p>



<p><strong>2.2.</strong>&nbsp;Positivamente, a mesma conclusão se poderia formular nos seguintes termos: ao conceber cada criatura, o Criador concebeu-a dotada de perfeições em grau limitado. Isto, longe de depor contra a perfeição do Criador, era, e é, algo de necessário, algo de inerente ao conceito mesmo de criatura.</p>



<p>O que caracteriza a obra do Ser Perfeito ou de Deus, é o fato de que, no seu setor próprio, cada uma das criaturas é harmoniosa, reunindo um conjunto de elementos bem concatenados entre si; todos os seres criados são limitados, mas nenhum é, por sua essência mesma, contraditório ou absurdo.</p>



<p>Assim a natureza do ferro é em si devidamente equilibrada para desempenhar as funções características deste metal; não se espere, porém, que uma barra de ferro cresça e se multiplique&#8230;!</p>



<p>A rosa representa um artefato do Criador no setor da flor; não se espere, porém, que raciocine&#8230;</p>



<p>O homem, sim, é dotado da faculdade de raciocinar; ninguém, porém, exigirá que o homem, raciocinando, chegue a conhecer todos as segredos da natureza; somente uma inteligência é capaz de compreender tudo que existe: a inteligência do Ser Absoluto ou de Deus.</p>



<p><strong>2.3.</strong>&nbsp;A limitação e a defectibilidade inerentes a cada criatura explicam até mesmo a existência de indivíduos monstros no mundo. Sim, o Criador, ao acompanhar com a sua Providência a história do gênero humano, não tolhe a atividade das criaturas; ao contrário, suscita-a. Suscitando-a, porém, não modifica a natureza das criaturas, isto é, não as torna infalíveis. Donde se segue que na história da natureza mesma podem acontecer, e de fato acontecem, casos de aberração ou deformidade (cegos, paralíticos, surdo-mudos de nascença, etc.); o processo de formação de uma criancinha, por exemplo, no seio materno supõe a ação de glândulas, hormônios, tecidos, etc. dotados de perfeição finita; ao se concatenarem, compreende-se que tais fatores possam desgastar-se, dando lugar a erros, que são os chamados «erros da natureza». Esses erros, cuja frequência é relativamente exígua, não encobrem a harmonia geral do universo nem depõem contra a perfeição de Deus, pois não &#8221;são devidos ao Criador ou à Causa Primária, mas às criaturas ou às causas secundárias, que o Senhor Supremo se digna envolver no plano de administrar o mundo.</p>



<p>Uma analogia muito clara ilustra quanto acabamos de dizer:</p>



<p>Tenha-se em vista uma grande máquina sabiamente instalada numa oficina para fabricar determinados objetos. O seu funcionamento é automático; a pressão sobre um botão desencadeia uma corrente elétrica que põe em movimento rodas, engrenagens, alavancas, etc.; a matéria prima colocada na abertura da máquina sai do lado oposto pronta para o consumo&#8230; — Certamente uma sábia inteligência humana inventou tal aparelhagem; outra inteligência humana — a do operário técnico — desencadeia e observa atentamente o funcionamento da máquina. Da parte do inventor e do operador, pode haver todo o esmero profissional desejável; não obstante, é inevitável, no fim do processo, o aparecimento de objetos defeituosos ou monstruosos (uma folha de papel enrugada, em vez de lisa; páginas em branco na impressão de um livro, etc.). Tais falhas decorrem da deficiência natural do mecanismo (houve desajuste em alguma engrenagem ou começou a faltar óleo numa alavanca, desgastou-se uma peça&#8230;); cada um dos elementos do conjunto sendo defectível, é normal que um ou outro deixe de prestar sua função até mesmo quando menos se espere. Os “monstros” que procedam da máquina não desdizem a inteligência do inventor nem a do operador; acontece, porém, que nenhuma inteligência pode fabricar peças de metal, lona ou óleo totalmente isentos de desvirtuamento; quem conseguisse tal, já não estaria produzindo peças de metal nem lona nem óleo&#8230;</p>



<p>Ora algo de semelhante se dá no universo: a sabedoria do Criador concebeu e coordena as atividades de cada criatura em vista de uma harmonia de conjunto&#8230; Pois bem; a perfeição do Criador se manifesta não numa pretensa ausência de falhas dos seres criados (isto equivaleria a cancelar a atividade mesma desses seres); patenteia-se, antes, na arte grandiosa de tirar dos males um bem mais relevante, um bem muito reluzente, porque colocado sobre um fundo muito negro, um bem mais admirável porque obtido por meio (ou apesar) de toda a precariedade de instrumentos criados.</p>



<p>Flores que não murchem nem morram são flores artificiais, flores que não possuem perfume,&#8230; que são e não são&#8230; Será que a vantagem de não murchar, no caso, ainda é vantagem? O fato é que Deus não quis fazer flores artificiais; fê-las como as vemos na natureza, perecíveis, sim, mas perfumadas e fiéis às leis da vida; o Criador permite que as flores naturais morram, mas sabe utilizar essa própria morte das flores para produzir novos e maiores bens&#8230;</p>



<p>Assim faz Ele também com os homens,&#8230; e com os males dos homens!</p>
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		<title>Castidade Pré-nupcial: Moral e Ciência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Dom Estevão]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Apr 2020 14:05:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fé e Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Moral]]></category>
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					<description><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="Castidade Pré-nupcial: Moral e Ciência" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência-1024x576.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p>Afirmam certos autores que a castidade pré-nupcial ou é impossível ou é nociva à saúde. Não obstante, os moralistas católicos continuam a incutir a castidade perfeita como algo de obrigatório anteriormente ao casamento e mesmo no estado de viuvez. Como se justifica isto? Por «castidade» entende-se a virtude que assegura à alma o domínio sobre os [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="Castidade Pré-nupcial: Moral e Ciência" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/Castidade-Pré-nupcial-Moral-e-Ciência-1024x576.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p><em>Afirmam certos autores que a castidade pré-nupcial ou é impossível ou é nociva à saúde. Não obstante, os moralistas católicos continuam a incutir a castidade perfeita como algo de obrigatório anteriormente ao casamento e mesmo no estado de viuvez. Como se justifica isto?</em></p>



<p>Por «castidade» entende-se a virtude que assegura à alma o domínio sobre os prazeres sexuais. Já que o deleite sexual foi instituído pelo Criador como elemento concomitante da procriação (a fim de facilitar a conservação da espécie humana), compreende-se que a ninguém é lícito usufruir do deleite sexual senão dentro do matrimônio; o matrimônio é, sim, a instituição natural que tem como fim primário e essencial a procriação da espécie.</p>



<p>O princípio segundo o qual o ato sexual só é licito dentro do matrimônio, entende-se bem pelo fato de que a função dos genitores não se reduz a colocar mais um ser vivo no mundo; quem gera, tem a obrigação de educar. Ora a educação só é possível nos termos devidos se há colaboração de pai e mãe num consórcio de vida estável, que é o matrimônio. — Além disto, observe-se que a doação íntima que a criatura faz de si ao entrar em relações sexuais não é propriamente humana se é meramente carnal; a função sexual, no ser humano, só&nbsp;se&nbsp;exerce normalmente se é precedida e acompanhada pelo amor, ou . seja, por uma doação psíquica. Donde se vê que a cópula humana supõe e exige doação total da personalidade do varão à da mulher e vice-versa; ora essa doação total (que naturalmente há de durar a vida inteira) só se realiza na vida conjugal selada por autêntico contrato matrimonial.</p>



<p>Com São Tomás, os moralistas distinguem duas espécies de castidade: a&nbsp;<strong>castidade perfeita</strong>&nbsp;e a&nbsp;<strong>castidade comum</strong>.</p>



<p>A&nbsp;<strong>castidade perfeita</strong>&nbsp;consiste na abstenção completa das funções sexuais, sejam estas realizadas com outra pessoa, sejam provocadas pelo indivíduo consigo mesmo (masturbação). É também chamada «continência perfeita»; deve caracterizar o gênero de vida das pessoas não casadas, quer simplesmente solteiras, quer viúvas.</p>



<p>A&nbsp;<strong>castidade comum</strong>&nbsp;caracteriza o estado conjugal. Consiste na renúncia a todo deleite sexual que não se concilie com a finalidade primária do matrimônio (procriação da prole) ou com alguma das prerrogativas deste (monogamia e indissolubilidade).</p>



<p>Está claro que a castidade ou a continência não se restringe apenas ao corpo humano; ela se estende também aos pensamentos, a todas as afeições e intenções do coração humano, impedindo que se apliquem a objetos indevidos. Note-se outrossim que a castidade não é algo de meramente negativo; não é mera renúncia nem oposição, mas constitui adesão mais plena da criatura humana ao Criador e aos seus sábios desígnios, vindo a ser, como diremos adiante, verdadeiro enriquecimento da personalidade.</p>



<p>Nas considerações que se seguem, focalizaremos primeiramente os autênticos ditames da Medicina em relação à castidade; a seguir, voltaremos nossa atenção para as objeções que são comumente formuladas contra tais normas.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>1. Os ditames da Medicina</strong></h2>



<p><strong>1.1</strong>. À medida que o organismo do jovem e da jovem se vai desenvolvendo, os órgãos genitais se vão tornando aptos para realizar a sua função. Desperta-se então a tendência sexual no adolescente. Esse despertar é paulatino; as aspirações daí decorrentes não são tais que se lhes deva dar satisfação imediata; não são a tal ponto imperiosas. Ao contrário, em vista . do equilíbrio físico e psíquico da personalidade, tais aspirações hão de ser devidamente reprimidas até que o indivíduo tenha atingido a maturidade de corpo e alma necessária para poder contrair união matrimonial. Esta coibição é necessária e salutar, por mais de um motivo:</p>



<p>a) enquanto o organismo humano se está desenvolvendo, ele armazena forças que deverá despender mais tarde e não deve portanto exercer alguma de suas funções vitais antes de estar plenamente habilitado para isso.</p>



<p>Tal norma se aplica de maneira especial à função de reprodução. Esta, mais acentuadamente do que qualquer outra, passa por uma curva de ascensão ou desenvolvimento, apogeu e declínio. O período de desenvolvimento, que começa já antes dos quinze anos de idade, é justamente aquele em que se formam os órgãos e se aperfeiçoam as faculdades concernentes à geração. É no período de apogeu que o indivíduo pode usufruir naturalmente do potencial de energia e vitalidade preparado durante o seu desenvolvimento. Se, porém, desde o desabrochar do atrativo sexual o jovem começa a usar de suas funções genitais, não pode deixar de experimentar funestas consequências de tal abuso, pois as células só se reproduzem normalmente quando hipernutridas; entre tais lamentáveis consequências, assinala-se a debilitação geral da saúde do jovem, o aparecimento de doenças venéreas, de psicastenias ou moléstias nervosas com todo o cortejo de males que a isto se prende; tal abuso pode mesmo acarretar a morte precoce ou decrepitude prematura» (texto citado pelo Dr. Mário Alcântara de Vilhena, em «Da continência e seu fator eugênico». Rio 1921, 74).</p>



<p>Dir<strong>&#8211;</strong><strong>se</strong>-á: mas o fato de que o adolescente&nbsp; por volta dos quinze ou dezessete anos está apto para fecundar um óvulo feminino não deve ser interpretado como licença concedida pela natureza mesma para o exercício de tal função? — Responder-se-á que não; tal fenômeno fisiológico de modo nenhum significa que o jovem, na referida idade, esteja apto para assumir as responsabilidades e o pesado encargo de construtor de um lar; eqüivale apenas a uma etapa percorrida pela natureza em demanda da completa e formal virilidade. Conforme alguns autores, a natureza leva oito ou dez anos para fazer de um rapaz um homem apto a exercer as suas funções sexuais até as últimas consequências acarretadas por estas.</p>



<p>Damos aqui a palavra mais uma vez a um médico, o Dr. Mário de Vilhena:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>«Do poder um indivíduo usar de seus órgãos genitais antes de os ter maduros e completos, não se segue&#8230; que já o deva, ou que já lho convenha fazer, da mesma forma que um automóvel cujo reservatório requeira sessenta litros de gasolina, poderá andar com um litro apenas, mas isto não convém.</p><p>Eis um dos mais funestos fatos para o desenvolvimento do indivíduo. As excitações fictícias e anormais que não têm na sua fonte a maturidade funcional dos órgãos, produzem, em virtude destes abusos ou destes usos muito precoces, o estiolamento dos próprios órgãos; os testículos estiolados, por sua vez, dão produtos estiolados e de má qualidade. O organismo assim tornado débil fornece germens débeis; a progênie sofre com isto» </p><cite>(obra citada, pág. 29s).</cite></blockquote>



<p>b) Sabe-se outrossim que as glândulas humanas funcionam todas em estreita correlação entre si; em particular, as que segregam os hormônios das funções genitais não servem somente a estas funções, mas beneficiam outras atividades do organismo humano. Em consequência, a abstenção da vida sexual permitirá que as glândulas hormonais favoreçam com mais intensidade outras funções vitais do indivíduo.</p>



<p>O Prof. D.r. Henrique Tanner de Abreu observava: «A endocrinologia reconhece nos testículos a existência de hormônios múltiplos, dos quais uns presidem ao desenvolvimento dos caracteres sexuais, e são produzidos pela glândula intersticial, notadamente pelas células de Leydig, e outros de que independem os caracteres do sexo e que estimulam as trocas gerais de matéria ou trocas íntimas do metabolismo orgânico, os quais têm origem na linha seminal e nas células de Sertoli.</p>



<p>Dir-se-ia que o testículo se desdobra em duas glândulas a se compensarem fisiologicamente, a falta de exercício de uma delas devendo favorecer o revigoramento da função da outra. A carência do exercício da função genética resultará benéfica à função estimuladora da nutrição geral» (Resposta ao 3o quesito da consulta feita pela Liga pela Moralidade, em março de 1918).</p>



<p>Mais recentemente o Dr. Joaquim Moreira da Fonseca perante uma assembleia de médicos asseverava:</p>



<p>Nos casos de abstenção sexual, «as (secreções) endócrinas vão estimular órgãos distantes, especialmente o sistema nervoso central, &#8216; dando-lhe tenacidade e vigor admiráveis. Assim se explica a genialidade de tantos homens castos heroicos. De fato, no caso de pluralidade de funções do mesmo órgão, o não uso de uma delas&#8230; beneficia a atividade das outras&#8230;&nbsp;Não é o não funcionamento dos órgãos sexuais, mas, sim, a extração deles, a causa dá degenerescência intelectual dos castrados» (cf. Dr. Joaquim Moreira da Fonseca, O fator endócrino e a continência masculina, em «Atas do 1o Congresso Brasileiro de Médicos Católicos». São Paulo 1947, 275).</p>



<p>Nesta passagem merece especial atenção a referência à castração, ou seja, à mutilação do organismo que alguém possa empreender a fim de se conservar casto. Tal recurso artificial, como nota o Dr. Moreira da Fonseca, longe de ser benéfico, acarreta verdadeiro detrimento para a personalidade humana, pois a priva violentamente do concurso de uma função que está intimamente relacionada não só com a reprodução, mas também com as demais atividades psicossomáticas do paciente.</p>



<p>Ao contrário, a continência natural, facilitando a concentração de energia ou de funções vitais, permite mais intensa aplicação ao estudo; permite também manifestação mais lúcida da inteligência do respectivo sujeito. O amor ou o exercício da vontade se torna mais firme e puro em virtude da continência espontânea: &#8220;Aqueles que guardaram a castidade, são melhores maridos, melhores pais que os outros&#8230; A continência proporciona uma reserva de forças. A economia sexual favorece a longevidade e as diversas formas da atividade intelectual&#8221; (Ch. Feré, L&#8217;instinct sexuel: évolution et dissolution). — Como insinua este depoimento, a continência vem a ser outrossim fator de robustez para o corpo mesmo do indivíduo: «O vigor físico que a continência acarreta é aproveitado pelos atletas e&nbsp;desportistas. Sabido é que os lutadores se conservam continentes, assim&nbsp;como&#8230;&nbsp;nos dias de encontros os jogadores de futebol se conservam sob um regulamento que lhes veda toda intemperança. Também os boxistas ingleses atuais são submetidos, no período de peleja, a uma dieta particular e à continência sexual» (cf. Vilhena, ob. cit. 106).</p>



<p><strong>1.2.</strong>&nbsp;É na base das considerações acima que as autoridades médicas se têm repetidamente pronunciado em favor da continência perfeita anterior ao matrimônio.</p>



<p>Haja vista, por exemplo, uma das conclusões do 1o Congresso Brasileiro de Médicos Católicos realizado em Fortaleza, de 1* a 7 julho de 1946:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>«A continência masculina até o matrimônio, mesmo quando apreciada exclusivamente sob o ponto de vista endócrino, deve ser praticada, porque dá em resultado maior desenvolvimento da glândula intersticial e daí maior atividade e vigor corporais e psíquicos» </p><cite>(Atas, pág. 277).</cite></blockquote>



<p>O Congresso de Eugenésia reunido no Rio de Janeiro em 1929, congregando numerosos médicos, juristas, educadores brasileiros e estrangeiros, aprovou unanimemente a seguinte tese: «É preciso ensinar à juventude masculina que não somente a castidade e a continência são possíveis e não são nocivas, mas também que estas virtudes são as mais recomendáveis sob o ponto de vista simplesmente médico e higiênico e que constituem um importante fator eugênico».</p>



<p>Com estas palavras o Congresso de Eugenésia corroborava a conclusão já unanimemente aprovada em 1902 por 150 autoridades médicas (Drs. Gailleton, Landouzy, Lassar, Neisser&#8230;) reunidas na Conferência Internacional de Profilaxia Sanitária e Moral em Bruxelas, com a participação de quatorze nações.</p>



<p>Por último, seja citado o depoimento unânime da Conferência Nacional de Defesa contra a Sífilis, reunida no Rio de Janeiro em 1940: «Impõe-se ensinar e divulgar por todas as formas que a prática da continência extraconjugal é o meio mais seguro de profilaxia antivenérea, e não acarreta em nenhum dos dois sexos nem em alguma idade, distúrbios de saúde ou alterações de desenvolvimento físico e intelectual».</p>



<p>Semelhantes testemunhos se poderiam multiplicar. Encontram-se colecionados, por exemplo, na obra de Vilhena 83-87.</p>



<p><strong>1.3.</strong>&nbsp;A necessidade da continência perfeita fora do estado matrimonial ainda pode ser ilustrada pela fisiologia comparada ou pelo que se dá na vida dos animais irracionais.</p>



<p>Com efeito, nos irracionais os instintos não se desviaram e podem ser observados na sua pureza primitiva (excetuados casos raros em que a domesticação haja modificado radicalmente a sua conduta de vida). Ora o instinto sexual nos animais irracionais ficou sendo própria e realmente lo instinto da reprodução. Desde que a maturidade dos órgãos sexuais permita a perpetuação da espécie, macho e fêmea se unem, em condições, porém, bem determinadas, fora das quais toda atividade sexual no macho fica suspensa. Sim; em certas épocas do ano, as fêmeas, tornando-se aptas para receber a semente masculina, produzem emanações odoríferas características; assim avisado pelo sentido do olfato, o macho se sente impelido ao ato sexual, que ele não poderia nem evitar nem adaptar a algum fim que não fosse a reprodução (o instinto é «correto» e certeiro). Fora de tais ocasiões, o macho observa perfeita continência sem prejuízo para a sua saúde física ou para a sua capacidade generativa.</p>



<p>Vê-se, pois, que existe nos animais irracionais uma pureza sexual rigorosa, embora inconsciente. Por conseguinte (observam alguns autores), fora de propósito é dizer-se que o homem libertino se torna bestial ou desce ao plano do animal irracional quando se entrega desmedidamente aos prazeres sexuais. Seria, antes, muito para desejar que os indivíduos humanos se norteassem, de maneira consciente, pela pureza de intenções que move os animais inconscientes à cópula sexual.</p>



<p>Estes dados de fisiologia comparada corroboram a conclusão de que no indivíduo humano a continência fora do matrimônio é realmente possível, ou melhor, exigida pelas próprias leis da natureza; vem a ser fator de equilíbrio físico e boa saúde.</p>



<p><strong>1.4.</strong>&nbsp;A esta altura, porém, perguntará alguém: se tal é a realidade, como se explica que tantas pessoas julguem o contrário?</p>



<p>Isto se deve a artifícios e preconceitos de uma mentalidade ou de uma moral decadentes.</p>



<p>Com efeito, desde que se desperta o atrativo sexual em nossos jovens, esse atrativo é muitas vezes indevidamente aguçado pelas circunstâncias do ambiente em que vive o adolescente. Tais circunstâncias são:</p>



<p>&#8211; a opinião pública ou o errôneo preconceito de que a continência é impossível ou nociva;</p>



<p>&#8211; a literatura, o cinema ( a tv) e o teatro pornográficos, que nutrem a obsessão do fruto proibido e a crença de que o vício é necessário;</p>



<p>&#8211; as solicitações de companheiros e colegas pervertidos</p>



<p>Tais fatores criam uma mentalidade no jovem e o levam ao desvio moral ou ao vício sexual. Maus hábitos são assim contraídos; a repetição do ato desregrado produz a «necessidade» de o realizar, necessidade que se torna cega ou mesmo obsessiva quando na verdade a função sexual deveria ser facultativa, ou seja, inteiramente sujeita ao alvitre da vontade! O que propriamente mereceria o nome de «aptidão sexual», é então tido como «imperiosa indigência sexual», à qual, dizem, ninguém se pode subtrair, como ninguém se pode furtar à necessidade de comer ou beber, sem detrimento para a saúde. Ora tal comparação é vã: a pretensa necessidade vem a ser mero produto de preconceito ou de mentalidade. A castidade física pode ser perfeitamente observada desde que no respectivo sujeito haja castidade intelectual, ou seja, uma interpretação autêntica dos fenômenos fisiológicos, acompanhada de amor aos verdadeiros bens.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>«Uma verdadeira castidade não se poderá cultivar senão na base de conceitos claros e de noções morais que o indivíduo procurará, aprofundar continuamente e que ele aprenderá a estimar» </p><cite>(Dr. Paul Dubois, professor de neuropatologia na Faculdade de Medicina de Berna, na obra «L&#8217;éducation de soi-même. Chasteté», 323).</cite></blockquote>



<p>Está claro que ninguém conseguirá combater eficazmente o mau hábito se não adquirir a consciência de que a pretensa «necessidade» é meramente fictícia, podendo ser debelada mediante reta atitude de ânimo ou mediante firmeza de vontade (à qual jamais faltará a graça de Deus). Caso alguém, talvez vencido pela vergonha, se disponha a reprimir o vício da incontinência, julgando que vai sufocar um ímpeto vital com prejuízo para a sua saúde, cairá naturalmente num estado de exacerbação nervosa ou de neurastenia, acrescentando novo mal ao anterior.</p>



<p>Dito isto, resta-nos ainda a consideração de algumas objeções que se costumam levantar contra o hábito da continência.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>2. Três dúvidas&#8230;</strong></h2>



<p>a) Há quem assevere que a continência produz atrofia da natureza.</p>



<p>«Apócrifo temor», responde o Dr. Max Hühner (Perturbaciones de la Función Sexual en el Hombre y en la Mujer. Filadélfia 1920, 278). O mesmo autor explica:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>«É fato comprovado que os órgãos sexuais estão sujeitos a princípios inteiramente diversos dos que governam a maioria dos outros órgãos do corpo. Sua estrutura específica permite-lhes exercer intermitentemente a sua atividade; suas funções podem mesmo ser indefinidamente suspensas sem que isto resulte em detrimento da sua anatomia ou fisiologia.</p><p>As glândulas mamárias nos oferecem autêntico testemunho do que digo. Quando a mulher concebe um filho&#8230;, suas glândulas mamárias, que durante anos se encontravam em estado latente, subitamente crescem e dispõem-se a segregar leite. Quando termina a lactação, tornam as ditas glândulas a reduzir-se de tamanho e cessa a sua secreção, podendo permanecer inativas durante mais anos, depois dos quais se for novamente fecundada a mulher, voltarão a aumentar e a produzir leite sem dificuldade».</p></blockquote>



<p>Além disto, note-se que nada é vão ou frustrado na natureza. Ora há períodos na vida conjugal em que o marido é, pela natureza, obrigado a privar-se das relações sexuais com sua esposa: assim, dois meses pelo menos antes do parto. Compreende-se que esta exigência não pode redundar em detrimento da saúde do esposo, nem se pode tornar pretexto para que viole outra norma da natureza, recorrendo à fornicação, ao adultério ou à masturbação. A natureza por si mesma deve garantir a possibilidade de comportamento continente sadio quando é ela mesma que o impõe.</p>



<p>b) Outra fonte de hesitações a propósito da castidade são as frequentes poluções noturnas que, conforme dizem, caracterizam o estado continente.</p>



<p>Em resposta, faz-se mister observar que as poluções noturnas são motivadas por dois fatores: um fisiológico e outro psíquico. Do ponto de vista fisiológico, «elas são perfeitamente normais, contanto que não se deem com demasiada frequência nem sejam acompanhadas de sentimentos de acentuada depressão» (Hühner, ob. cit. 117); o Dr. Hermann Rohleder julga que duas poluções por semana são algo de normal. Explicam-se pelo fato de que a natureza mesma espontaneamente se encarrega de eliminar o excesso de certas secreções glandulares. Tal fenômeno, dentro das proporções assinaladas, não é indício de estado mórbido nem acarreta consequências funestas para o respectivo sujeito.</p>



<p>Quando se tornam excessivamente frequentes, as poluções noturnas em muitos casos se devem a um fator psíquico, ou .seja, à excitação mais ou menos voluntária e anormal da concupiscência; o fato de que alguém se deixe invadir desregradamente por preocupações de ordem sexual terá como consequência óbvia o desencadeamento das funções genitais em estado de inconsciência ou de sono. — Deve-se frisar, porém, que tal desordem é propriamente de índole psíquica; o seu saneamento, portanto, consistirá no exercício de disciplina psíquica (controle dos pensamentos e afetos), e não em desregradas concessões à natureza.</p>



<p>c) Ouve-se outrossim dizer que a continência torna o homem triste, duro, selvagem ou ainda neurastênico e angustiado.</p>



<p>A este rumor respondem grandes médicos e psiquiatras, qualificando-o de preconceito destituído de fundamento real:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>«Quanto às perturbações nervosas e psíquicas,&#8230; não há observação concludente. Nós mesmos, não só procuramos, durante cinco anos de vida acadêmica à beira dos leitos dos doentes, um só caso de moléstia em que achássemos algo que pudesse ser atribuído à continência e não o encontramos, mas recomendamos a todos os nossos amigos e colegas que no-lo procurassem nos serviços em que trabalhavam e não nos deram relação de um sequer&#8230;</p><p>Por mais que procurássemos nos trabalhos de psiquiatria, não encontramos coisa alguma que nos fizesse concluir contra a continência.</p><p>No nosso Hospital Nacional de Alienados não nos consta, por mais que procurássemos, haver algum demente senil que tivesse sido casto&#8230;</p><p>Muito ao contrário, segundo as várias observações do Dr. Onofre Infante, o número de alienados em consequência de excessos sexuais é enorme» </p><cite>(Vilhena, ob. cit. 98-100).</cite></blockquote>



<p>Pode acontecer, sem dúvida, que um indivíduo continente seja, ao mesmo tempo, melancólico ou duro. — Frisar-se-á, porém, que tal estado de alma, longe de ser consequência necessária de sua vida casta, resulta de algum defeito&nbsp;psíquico, que se pode corrigir dentro mesmo da conduta devida continente.</p>



<p>O fator religioso será decisivo no saneamento de tais anomalias psíquicas. Estas muitas vezes se derivam de um conflito moral ou de consciência (que em última análise é conflito religioso), e só mediante solução desse conflito (ou&nbsp;seja, mediante volta a Deus ou à Lei de Deus) poderão ser removidas. Além do mais, o cristão sempre levará em conta o papel imprescindível da graça divina para a reforma dos costumes e a aquisição das virtudes. Em consequência, na sua&nbsp;vida espiritual, o discípulo de Cristo recorrerá à oração; a seguir, utilizará os múltiplos meios de santificação que Cristo oferece aos seus fiéis na Santa Igreja (entre os quais ocupam lugar primacial os sacramentos). A fidelidade ao Senhor será sempre o grande esteio de uma vida humana nobre e reta; o amor a Deus vem a ser a expressão por excelência do instinto de amor que todo ser humano experimenta dentro de si &nbsp;e que tão espontaneamente tende a se atuar na vida sexual; esta será digna e dignificante se for plenamente subordinada ao amor de Deus. «Conhecer a Deus é viver, e servir a Deus é reinar» (Missal Romano, postcomunhão da Missa pela paz).</p>



<p>Recomenda -se outrossim, em vista da conservação da castidade, a disciplina geral dos sentidos e dos prazeres: tanto o jovem como o adulto se acautelarão contra conversas, leituras e divertimentos tendenciosos ou libertinos, os quais, contribuindo para amolecer o ânimo, só fazem diminuir ou solapar o poder de resistência às paixões. Enfim toda essa disciplina será facilitada e corroborada pelo cultivo de certa higiene física: seja a alimentação frugal e sadia; as bebidas e o .fumo, moderados; a educação física e os esportes terão seu lugar em tal regime, principalmente por constituírem ótimo derivativo para a vitalidade que se afirma no jovem e no homem maduro; banho e asseio geral tornam-se indispensáveis; quanto ao sono, será regular, devendo a pessoa evitar ficar ociosamente no leito.</p>



<p>Eis, em linhas gerais, quanto a consciência cristã e a Medicina têm a dizer a respeito da continência, ou seja, a respeito do exercido de uma função sagrada que o Criador incutiu ao homem não para que este tropece moralmente, mas &nbsp;a fim de que se engrandeça e santifique.</p>
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		<title>O Poder do Pensamento Positivo. Isso Funciona?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Cooperadores]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Apr 2020 20:49:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fé e Ciência]]></category>
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					<description><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/O-Poder-do-Pensamento-Positivo.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="O Poder do Pensamento Positivo" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/O-Poder-do-Pensamento-Positivo.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/O-Poder-do-Pensamento-Positivo-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/O-Poder-do-Pensamento-Positivo-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/O-Poder-do-Pensamento-Positivo-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/04/O-Poder-do-Pensamento-Positivo-1024x576.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p>Que dizer do livro &#8216;O Poder do Pensamento Positivo&#8217; de Norman Vincent Peale, que tem obtido enorme sucesso tanto nos Estados Unidos como no Brasil? A mensagem do livro Norman Vincent Peale é pastor protestante norte-americano, professor de «New York&#8217;s Marble Collegiate Church» (U.S.A.). Tem-se dedicado, através da pregação, da imprensa, do rádio e da [&#8230;]</p>
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<p><em>Que dizer do livro &#8216;O Poder do Pensamento Positivo&#8217; de Norman Vincent Peale, que tem obtido enorme sucesso tanto nos Estados Unidos como no Brasil?</em></p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A mensagem do livro</strong></h2>



<p>Norman Vincent Peale é pastor protestante norte-americano, professor de «New York&#8217;s Marble Collegiate Church» (U.S.A.). Tem-se dedicado, através da pregação, da imprensa, do rádio e da televisão, ao reconforto e à orientação das pessoas que sofrem. Convicto de que a grande maioria dos padecimentos dos homens se deriva, em última análise, da maneira como cada um encara a vida, Norman Peale tornou-se famoso «professor de otimismo». Numerosas consultas chegam-lhe diariamente de diversas partes do mundo; desde 1937, mantém um dos mais apreciados programas de rádio dos Estados Unidos.</p>



<p>O teor de suas palestras acha-se publicado em obras, das quais uma das mais famosas se intitula «O Poder, do Pensamento Positivo» (The Power of Positive Thinking); deste livro já foram vendidos mais de 2.000.000 de exemplares nos Estados Unidos, o que supera todos os recordes de venda até agora alcançados por obras semelhantes. No Brasil já atingiu a nona edição.</p>



<p>O livro «O Poder do Pensamento Positivo» tem em vista principalmente às pessoas que se deixam vencer pelas mínimas dificuldades da vida, vítimas da falta de coragem e continuamente revoltadas contra a sua sorte. — A tais pacientes Norman Peale dedica dezessete capítulos, em que formula conselhos práticos, ilustrados por múltiplos casos da experiência do próprio autor.</p>



<p>Eis alguns dos títulos de incisos mais significativos: «Tenha confiança em si mesmo» (cap. 1); «Como criar a sua própria felicidade» (cap. 5); «Espere sempre o melhor e consiga-o» (cap. 7); «Como acabar com as preocupações» (cap. 9); «Como empregar a fé na cura» (cap. 11); «Como recorrer ao Poder Supremo» (cap. 17). No fim de cada capitulo, o autor formula algumas regras precisas que indicam ao leitor como, na prática, deverá aplicar as ideias anteriormente enunciadas.</p>



<p>Através de suas considerações, redigidas em estilo simples, Norman Peale diz em resumo o seguinte: muitas e muitas das dificuldades de que nos queixamos, só são dificuldades porque as consideramos tais e nos julgamos mais ou menos destinados a sucumbir-lhes. As situações que ora temos na conta de aflitivas, poderão deixar de nos atribular se despertarmos em nós a consciência de que somos capazes de as superar (é essa consciência que Peale entende por «pensamento positivo»). Os que se dão hoje por infelizes, se proclamarão felizes amanhã, caso creiam no seu poder de vencer os obstáculos quotidianos. Em uma palavra: Norman Peale apela para o que se chamaria «a força da sugestão», ensinando os leitores a substituir a sugestão de pessimismo (da qual todos são, em certo grau, vítimas) pela sugestão de otimismo (em geral não ousamos aceitar as soluções de bom agouro, por nos parecerem demais idealistas e irreais).</p>



<p>«Não desanime. Você poderá eliminar inteiramente suas preocupações&#8230; O primeiro passo para eliminá-las consiste simplesmente em crer que você as pode de fato eliminar. Tudo que você crer, você o poderá fazer, e é certo que o fará com o auxílio de Deus» (ob. cit. 128).</p>



<p>De modo especial, é preciso notar que o autor em suas considerações envolve também temas religiosos; recomenda, sim, atitudes e práticas de fé como fatores poderosos para alimentar o otimismo e, por conseguinte, para se obter a vitória nas lutas de cada dia. A fim de corroborar seus ensinamentos, cita frequentemente passagens da S. Escritura, tais como:</p>



<p>&#8211; as palavras de Jesus em Mc 9,23 : «Se tens fé, cumpre saberes que tudo será possível àquele que a tem»;</p>



<p>&#8211; em Mt 17, 21: «Se tens fé,&#8230; nada te será impossível»;</p>



<p>&#8211; em Mt 9,29 : «De acordo com a tua fé é que receberás»;</p>



<p>&#8211; os dizeres de São Paulo em Fip 4,13: «Poderei fazer tudo com a ajuda de Cristo; Ele me dará forças» (citação um tanto livre, mas fiel, efetuada por Peale).</p>



<p>A título de ilustração, transcrevemos aqui uma das passagens mais características do livro.</p>



<p>Ao terminar o cap. 1, o escritor formula, entre outras, as seguintes regras:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>«5. Repita dez vezes ao dia estas palavras dinâmicas: &#8216;Se Deus estiver conosco, quem poderá estar contra nós?&#8217; (Rom 8,31). Suspenda aqui a leitura e repita-as AGORA lentamente e com confiança.</p><p>7. Repita sete vezes ao dia, em voz alta, se possível, o seguinte versículo: &#8216;Poderei fazer tudo com a ajuda de Cristo; Ele me dará força&#8217; (Flp 4,13). Repita-o AGORA. Esta declaração “mágica” é o mais . poderoso antídoto que existe na terra para os pensamentos pessimistas&#8230;</p><p>9. Entregue-se a Deus. Para lazer isso, basta dizer simplesmente: “Estou entregue a Deus”. Creia, depois, que está recebendo NESSA OCASIÃO todas as energias de que necessita. Sinta-as fluindo para dentro de você. Afirme que “o reino de Deus está na sua própria alma&#8221;. (Lc 17,21)., na forma de uma força apropriada para enfrentar a vida.</p><p>10. Lembre-se de que Deus está com você e de que nada o poderá vencer. Creia que está AGORA RECEBENDO d´Ele toda a força necessária».</p><cite>(pág. 24)</cite></blockquote>



<p>Ao abordar temas religiosos, o autor procura abster-se de ecleticismo, ou seja, de confusão do Cristianismo com o Hinduísmo, o Esoterismo ou o Espiritismo; esforça-se por ficar estritamente dentro das perspectivas bíblicas (embora por vezes lhes dê interpretações e aplicações inovadoras). As afirmações de Peale, portanto, podem, de algum modo ao menos, ser conciliadas com os princípios do Catolicismo (se bem que às vezes tomem sabor muito semelhante aos dizeres do Esoterismo). Assim concebido, o livro tem a possibilidade de satisfazer a um público muito vasto e variado.</p>



<p>O autor sabe até mesmo dar indicações (aliás, muito oportunas) para que alguém conquiste a simpatia de seus semelhantes na sociedade.</p>



<p>Enfim, por todo o seu livro, Peale assegura continuamente ao leitor que conseguirá os melhores resultados caso observe os conselhos dados; verificará que sua existência tomará novo sentido e novo valor; viverá, aqui na terra mesmo, uma vida isenta de aflições e bem correspondente ao seu ideal. Tal é, conforme o mestre, a maravilha que se pode obter mediante a fé em Deus e a confiança do sujeito em si mesmo.</p>



<p>Não se pode negar o poder de atrair e de persuadir que as páginas de Peale, redigidas era tom muito vivo e penetrante, exercem sobre o leitor. Estes predicados explicam a enorme difusão que tal escrito tem conseguido.</p>



<p>Procuremos agora tomar posição diante da mensagem de Norman Peale.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Um juízo sobre o livro</strong></h2>



<p>A intenção do autor é de todo louvável: levantar o ânimo dos que sofrem, aliviando a angústia de grande número de pessoas que poderiam perfeitamente ser mais alegres e felizes.</p>



<p>Quanto ao método proposto por Norman Peale aos seus leitores para que consigam tal fim, já o conhecemos&#8230; Consiste em excitarem em si a consciência de que podem realmente vencer os obstáculos, obstáculos que, de antemão e gratuitamente, os homens consideram insuperáveis. É o método da sugestão, e principalmente da autossugestão: cada indivíduo, dentro de si mesmo, diga e repita que está perfeitamente habilitado a triunfar na vida.</p>



<p>Que dizer dessa tática ?</p>



<p><strong>1.</strong>&nbsp;De modo geral, o princípio apresentado por Norman Peale é válido e sadio: as sugestões exercem, inegàvelmente, enorme influência sobre os indivíduos e as massas; criam um ambiente pelo qual as pessoas passam a se nortear, mobilizando energias latentes que, em outras circunstâncias, ficariam improdutivas dentro do sujeito, ou também paralisando forças que deveriam render&#8230; As sugestões desencadeiam outrossim, no subconsciente da pessoa, processos de raciocínio, assim como afetos (simpatia, coragem, ou ódio, temor&#8230;), que se manifestam na ocasião oportuna, dando resultados surpreendentes.</p>



<p>É preciso, pois, reconhecer a grande importância de removermos energicamente do nosso espírito preconceitos pessimistas ou derrotistas (estes criam em nós um clima de inibição que, sem justificativa alguma, nos impede de fazer o que poderíamos muito bem realizar). Esses preconceitos pessimistas hão de ser substituídos por outros, otimistas e confiantes, mediante os quais nos podemos realmente tornar vencedores.</p>



<p>O texto abaixo bem mostra o valor que, com razão, Norman Peale atribui ao subconsciente e à influência das sugestões sobre o mesmo:</p>



<p>«Eis um processo prático que o ajudará a eliminar de sua experiência o hábito anormal de cultivar as preocupações:</p>



<p>&#8216;Esvazie&#8217; diariamente o espírito. Deve fazê-lo preferivelmente antes de se recolher à noite a fim de evitar que ele retenha preocupações durante o sono. É durante o sono que os pensamentos tendem a mergulhar mais profundamente no subconsciente. Os últimos cinco minutos antes de dormir são de extraordinária importância, pois é nesse breve período que o espírito se torna mais receptivo para as sugestões. Ele tende a absorver as últimas ideias entretidas quando o sujeito ainda está desperto.</p>



<p>Esse processo de drenagem do espírito é importante para a eliminação das preocupações, pois os pensamentos eivados de temores, a menos que sejam expurgados, poderão dominar o espírito» (pág. 128).</p>



<p>O autor ainda desce a prescrições muito minuciosas, estabelecendo um verdadeiro código de higiene mental. Os frutos dessas prescrições poderão ser vários, de acordo com a índole ou o temperamento próprio de cada paciente.</p>



<p>Em princípio, pois, deve-se dizer que cabe a Norman Peale o .grande mérito de chamar a atenção do público para o papel da sugestão e da autossugestão na vida humana, mostrando que muitas vezes a solução de nossos problemas está em dissiparmos o desânimo e cultivarmos uma mentalidade confiante. Essa tática certamente garantirá muitos triunfos na luta quotidiana.</p>



<p>Não se deve, porém, exagerar a eficácia de tal método, crendo que é a receita adequada para resolver todas as dificuldades e tornar a vida terrestre simplesmente feliz. — De um lado, a experiência desmentiria otimismo tão generalizado. De outro lado, a visão cristã do mundo e do homem lembraria que o sofrimento é um valor, e valor inerente à vida de todos os filhos de Adão nesta terra; o cristão não pode abstrair da consciência do pecado original e das desordens que este acarretou na história, como também não pode esquecer que a cruz é o instrumento de salvação do gênero humano, instrumento que a Providência Divina não dispensa; enquanto o homem for peregrino neste mundo, nunca experimentará a bem-aventurança do paraíso. Com outras palavras: para o cristão, o sofrimento não é fenômeno meramente psicológico e natural, mas é outrossim algo de religioso e sobrenatural; por isto as leis da psicologia poderão ajudar a superar o problema da dor e da angústia, mas não o debelarão nem o elucidarão por completo.</p>



<p><strong>2.</strong>&nbsp;Quando Norman Peale se refere explicitamente à Religião, é de lamentar que o faça de maneira tão naturalista. Parece só considerar a Religião como a mais eficaz das táticas sugestionantes; seria um ótimo remédio ou o mais valioso dos recursos da psicoterapia. A Religião se regeria preponderantemente pelas leis da psicologia. «A fé religiosa é um processo científico para se viver &#8216;feliz&#8230; para melhorar a saúde e os negócios», diz Peale (ob. cit. pág. 60).</p>



<p>Mais precisamente, a religiosidade que se respira nas páginas de «O Poder do Pensamento Positivo» está deformada pelos seguintes traços:</p>



<p><strong>a)&nbsp;</strong><strong>antropocentrismo ou mesmo egocentrismo</strong><strong>.</strong>&nbsp;As práticas religiosas recomendadas por Peale, aliás com muito fervor, parecem ter valor principalmente por servirem ao homem ou ao próprio «eu»; pouco interessa ao autor o aspecto que diz respeito diretamente a Deus (adoração, louvor, glorificação do Criador&#8230;) e que, em última análise, é capital em toda observância religiosa. A religião, nesse conceito, é exaltada por proporcionar aos devotos, nesta vida mesma, os maiores bens de índole-higiênica e temporal de que precisem.</p>



<p>Eis, por exemplo, como o autor comenta o texto de São Paulo em 1 Cor 2,9:</p>



<p>«Os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem entraram nó entendimento dos homens as coisas que Deus preparou para aqueles que O amam” (1 Cor 2,9). Tenha fé em Cristo; tenha fé em seu sistema de pensamentos, e ponha-o em prática; tenha fé, e sobrepujará todo temor, ódio, complexo de inferioridade, ressentimentos e toda forma de derrotismo. Em outras palavras, tenha fé e adquirirá um grande bem.</p>



<p>Você jamais viu, jamais ouviu e jamais imaginou o que Deus dará àqueles que O amam» (ob. cit. pág. 187).</p>



<p>Ora as palavras de S. Paulo (1 Cor 2,9) aqui citadas referem-se diretamente aos bens da vida eterna; pelo respectivo contexto percebe-se que o Apóstolo está longe de querer prometer carência de dificuldades temporais e de cruzes aos que amam a Deus. Chegava mesmo S. Paulo a dizer que ele falava a linguagem da cruz (1 Cor 1,18), só queria saber de Jesus Cristo crucificado, o que se tornava desconcertante para quem só considerasse o aspecto temporal ou terrestre da vida humana (cf. 1 Cor 1,22-25).</p>



<p>Em particular, o antropocentrismo da religiosidade apregoada por Peale se manifesta no seu</p>



<p><strong>b)&nbsp;</strong><strong>conceito interesseiro de oração</strong><strong>.</strong>&nbsp;Esta, na obra citada, parece reduzir-se a um sistema de higiene mental e de forte sugestionismo, mediante o qual o homem pode alcançar enormes benefícios temporais, não somente invisíveis ou interiores, mas também visíveis e financeiros.</p>



<p>Uma das mais significativas passagens do livro a este propósito é a seguinte:</p>



<p>«Constantemente estão sendo descobertas por homens e mulheres de grande poder espiritual novas técnicas do domínio das orações. É aconselhável experimentar a força da oração segundo tais métodos, cujos resultados são benéficos. Se isso lhe parece novo e estranhamente científico, cumpre lembrar que o segredo da oração está em descobrir o processo que, de maneira mais eficaz, possa abrir o seu espírito para Deus. Qualquer método por meio do qual você possa fazer com que o poder de Deus flua para o seu espírito, é legítimo e proveitoso.</p>



<p>Um exemplo do uso científico da oração é a experiência de dois industriais famosos, cujos nomes seriam conhecidos a muitos leitores, tivesse eu a permissão de revelá-los. Ambos estiveram em conferência sobre um negócio e uma questão de ordem técnica. Poder-se-ia pensar que eles abordariam tal problema numa base puramente técnica. De fato, foi o que fizeram. Mas fizeram também outra coisa mais: recorreram à oração. Como o resultado não foi muito satisfatório, chamaram um pregador da região, um velho amigo deles, porque, como explicaram, a fórmula da oração da Bíblia diz : &#8216;Onde dois ou três se acharem reunidos em meu nome, ali estarei no meio deles&#8217; (Mt 18,20)..Fizeram também referência a outra fórmula, a qual diz: &#8216;Se dois dentre vós concordarem na terra, que o que desejam é tudo que eles pedirão, isso lhes será dado por meu Pai que está no céu&#8217; (Mt 18,19).</p>



<p>Tendo sido educados na prática cientifica, eles creem que, no tratar a oração como fenômeno, devem seguir escrupulosamente as normas delineadas na Bíblia, que eles descreveram como sendo o livro didático da ciência espiritual. O método apropriado de se empregar uma ciência é usar as fórmulas aceitas que se acham expostas no livro dessa mesma ciência. Raciocinaram que, se a Bíblia prevê que dois ou três devem reunir-se, talvez a razão de não terem sido bem sucedidos fosse devido à falta de uma terceira pessoa.</p>



<p>Por conseguinte, os três homens rezaram e, a fim de evitarem qualquer engano no processo, tomaram em consideração, com relação ao problema, várias outras normas da Bíblia, como as que se acham sugeridas nos seguintes versículos : &#8216;De acordo com a tua fé é que receberás&#8217; (Mt 9,29); &#8216;Sejam quais forem as coisas que desejares, quando rezares, crê que as receberás e tu as terás&#8217; (Mc 11, 24).</p>



<p>Após várias reuniões em que fizeram análises minuciosas e orações, os três homens afirmaram conjuntamente que tinham recebido a resposta ao problema. O resultado foi inteiramente satisfatório. Os resultados subsequentes indicaram que tinham realmente obtido a orientação de Deus.</p>



<p>Esses homens são grandes cientistas e o bastante para não precisarem de explicações exatas sobre a atuação dessas leis espirituais, como não precisariam também no caso das leis naturais. Ficam satisfeitos com o fato de que aquelas leis funcionam realmente quando se emprega uma técnica adequada» (ob. cit. pág. 54s).</p>



<p>Causa surpresa verificar como o escritor atribui índole técnica (dir-se-ia mesmo :&#8230; mágica) à oração. Esta teria que obedecer a receitas que, devidamente aplicadas, seriam capazes de desencadear fluidos e poderes invisíveis em favor do indivíduo. Contudo deve-se observar que Jesus, ao falar de dois ou três orantes reunidos, não quer indicar quantidades matemáticas, mas apenas deseja incutir uma mentalidade, isto é, o apreço da oração comunitária, da oração em que os discípulos de mais perto reproduzem a comunidade da Igreja, o Corpo Místico de Cristo.</p>



<p>Peale admite mesmo que a prece emite ondas para o ar e que ela se torna frutuosa justamente mediante ação exercida por tais ondas sobre outras pessoas ou até sobre o próprio Deus!</p>



<p>«Pessoalmente acredito que a oração transmite vibrações de uma pessoa a outra e a Deus. Tudo no universo é uma vibração constante. Há vibrações nas moléculas de uma mesa, no próprio ar. A oração entre seres humanos vibra também. Você, quando faz uma prece para alguém, está empregando uma força inerente ao universo espiritual. Você está transmitindo a esse alguém algo de amor, de auxílio, de apoio — uma forte e real compreensão — e, nesse processo, desperta vibrações no universo, através das quais Deus faz com que se realizem os bons desejos. Experimente esse princípio e conhecerá os seus extraordinários resultados» (ob. cit. pág. 60).</p>



<p>Mais adiante, Peale conta o caso de um amigo que sofria do hábito de embriagar-se. Certa vez, entrara num bar, acometido do forte desejo de beber; mas pôs-se a lutar consigo mesmo para não ceder ao vício; pensou em Norman Peale, sentindo necessidade desse amigo distante naquela hora. Em tal aflição, rezou&#8230; «Sua prece chegou até mim, e eu comecei a rezar por ele. Assim, juntos, tínhamos completado o circuito. Nossas orações alcançaram Deus, e o homem obteve sua resposta, adquirindo a força que precisava para enfrentar aquela crise. E que fez ele ?</p>



<p>Dirigiu-se a uma confeitaria, comprou uma caixa de bombons e comeu tudo. Foi o que o salvou daquela situação — orações e bombons» (ob. cit. pág. 65).</p>



<p>«Orações e bombons». Não haverá algo de disforme nessa associação de termos ? Será que a eficácia da oração pode ser justaposta à eficácia de bombons?</p>



<p>O autor explica ainda mais precisamente a sua teoria sobre o poder da oração no texto abaixo:</p>



<p>«Temos em nosso cérebro um verdadeiro acumulador que transmite a força por meio de pensamentos e orações. A força magnética do corpo já foi comprovada. Temos milhares de pequenas estações emissoras, as quais, ao serem ligadas pela oração, irradiam uma corrente poderosa, que passa pelos seres humanos. Podemos transmitir a força por meio de orações, as quais agem como estações emissoras e receptoras» (ob. cit. pág. 64s).</p>



<p>Estas palavras têm sabor muito pouco cristão, sabor esotérico, ocultista (o que, em última análise, redunda em panteísmo, identificação de Deus com a natureza).</p>



<p><strong>c)&nbsp;</strong><strong>Os conceitos</strong><strong>&nbsp;um tanto materialistas</strong>&nbsp;de Peale (lembremo-nos de que vibrações e ondas são algo de físico, matematicamente comensurável) se refletem na maneira como considera a vida póstuma: admite que as almas dos defuntos estejam unidas a um corpo, e assim explica certos fenômenos comumente considerados como comunicações entre vivos e defuntos.</p>



<p>Ora a sã filosofia e a teologia ensinam que as almas dos defuntos subsistem separadas de qualquer corpo, na qualidade de puros espíritos. Deus pode permitir que se comuniquem com os sobreviventes na terra; isto então se dá mediante sinais sensíveis, sem que precisem de se unir a um corpo. Leve-se em conta outrossim que, conforme os resultados mais recentes da ciência, não poucos dos fenômenos ditos de «comunicação com o Além» são fenômenos puramente parapsicológicos, que só têm realidade dentro do vidente (alucinação, telepatia, percepção extrassensorial, etc.). Donde se vê que também neste setor a posição de Norman Peale está sujeita a juízo desfavorável.</p>



<p>Por último, merece atenção o que o autor diz sobre</p>



<p><strong>d) O Poder Supremo</strong><strong>.&nbsp;</strong>Esta expressão designa Deus&#8230; Deus, porém, concebido de maneira assaz diferente daquela que caracteriza os escritos da Bíblia Sagrada. O Deus que o autor apresenta, é muito semelhante a um fluido cheio de energia, cuja ação benfazeja o homem tenta captar, elevando o espírito a Ele. Tem-se assim mais uma vez a impressão de que, em tal concepção, é o homem quem se serve de Deus, em vez de servir a Deus. Quanto à noção bíblica de Deus Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), que nos torna seus filhos pela regeneração batismal (cf. 1 Jo 3,1; Jo 3,3.5), essa noção é silenciada por Norman Peale — o que naturalmente provoca uma considerável lacuna na obra de tal autor.</p>



<p>Tenha-se em vista a seguinte passagem, muito inspirada pelo desejo de utilizar Deus e a Religião como se utilizam as energias latentes na natureza:</p>



<p>«O Poder Supremo é uma verdadeira realidade na existência humana. As transformações radicais que opera para sempre nas vidas das pessoas deixam-me assombrado, não obstante ter eu visto inúmeras vezes esse fenômeno&#8230;</p>



<p>Ele está constantemente à disposição de todos. Se você se abrir a Ele, Ele afluirá para você qual uma gigantesca avalanche. É acessível a todo mundo em quaisquer circunstâncias e condições. Esse extraordinário fluxo é de tal força que na sua penetração vence todas as barreiras; elimina o temor, o ódio, a doença, a fraqueza e a derrota moral como se tais males jamais estivessem à sua mercê e o fortalece com uma nova vida cheia de saúde, felicidade e bondade» (ob. cit. pâg. 225).</p>



<h2 class="wp-block-heading">Conclusão</h2>



<p><strong>Em conclusão</strong><strong>,</strong>&nbsp;diremos: o livro «O Poder do Pensamento Positivo», transpirando otimismo e tranquilidade, facilmente capta a simpatia do leitor; é coisa benfazeja ler algumas de suas passagens referentes à psicologia humana. Acontece, porém, que, com sábias normas de psicoterapia, a obra difunde uma atitude religiosa deficiente ou mesmo errada, atitude que o leitor inconscientemente se arrisca a assimilar: é a atitude da Religião interesseira, antropocêntrica, ou da Religião reduzida a tratamento medicinal. (NT: teologia da prosperidade).</p>



<p>Talvez uma ou outra das passagens da obra de Norman Peale que acabamos de criticar, pudesse ser interpretada em sentido benigno. Poder-se-ia também dizer: Peale intenciona apresentar apenas um aspecto da Religião, ou seja, o aspecto que se relaciona diretamente com a psicologia humana. — Reconhecemos o valor dessas advertências; contudo cremos que, se alguém não quiser ou puder suprir as lacunas da obra de Peale (e é certo que a maioria dos leitores não o fará), conceberá uma noção totalmente errada de Religião. Na verdade, esta consiste, antes do mais, em louvor e glorificação de Deus, glorificação da qual só pode resultar — é claro — a felicidade do homem. Contudo não foi para a mesquinha felicidade desta terra que o Senhor Deus destinou o homem; que este alargue seus horizontes e dilate seus desejos, pois o Senhor lhe preparou, mediante a cruz, a ceia da vida eterna!</p>



<p>Em suma, parece-nos que se deve desaconselhar a leitura da obra de Peale. Se alguém precisa de conselhos de psicoterapia, procure-os em obra própria dessa matéria, obra que se dispense de reduzir a Religião a mera tática de higiene mental.</p>



<p>Em vista de um confronto construtivo, transcrevemos aqui um trecho de famoso autor de espiritualidade, Pe. Grou S.J., o qual dá a ver em que consistem a genuína prece e a autêntica atitude religiosa:</p>



<p>«O que devemos pedir a Deus&#8230; é que conheçamos a Deus e conheçamos a nós mesmos,&#8230; conheçamos o que Deus é e o que nós somos,&#8230; o que Ele fez por nós e o que temos feito contra Ele&#8230;</p>



<p>O que devemos pedir é a absoluta confiança em Deus, a qual nos leve a dizer como Jó: &#8220;Ainda que Ele me envie a morte, não deixarei de depositar n&#8217;EIe a minha esperança&#8217;.</p>



<p>O que devemos pedir é o espírito de fé, que nos eleve&#8230; acima de toda segurança (humana)&#8230;, que nos sustente nas trevas mais densas, na falta de todo apoio sensível e que nos conserve em paz, embora estejamos suspensos entre o céu e a terra.</p>



<p>O que devemos pedir, é uma obediência cega, que nos faça morrer ao nosso próprio juízo, à nossa própria vontade, que nos faça agir mesmo contra o nosso modo de ver e as nossas simpatias, que não nos deixe&#8230; argumentar contra Deus. Pois é certo que os caminhos de Deus não podem ser apreendidos pelos nossos raciocínios e contrariam todas as inclinações da nossa natureza,&#8230; e que jamais progrediremos em Deus se com todo o nosso ser não nos atirarmos ao que nos há de parecer um abismo sem fundo e sem recursos» (Manuel des âmes intérieures. Paris, 2&#8242; ed. 1925, 74s).</p>



<p>A entrega a Deus total e desinteressada, eis a alma da verdadeira Religião. Servir a Deus (e não ao próprio «eu») é reinar.</p>
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		<title>A Humanidade Provém de um só Casal?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Cooperadores]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Mar 2020 17:59:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fé e Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Sagrada Escritura]]></category>
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					<description><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/A-Humanidade-Provém-de-um-só-Casal.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="A Humanidade Provém de um só Casal" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/A-Humanidade-Provém-de-um-só-Casal.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/A-Humanidade-Provém-de-um-só-Casal-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/A-Humanidade-Provém-de-um-só-Casal-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/A-Humanidade-Provém-de-um-só-Casal-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/A-Humanidade-Provém-de-um-só-Casal-1024x576.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p>A questão aborda o problema «Monogenismo ou Poligenismo?». A fim de o tratar devidamente, proporemos, antes do mais, a nomenclatura vigente no debate; a seguir, veremos um pouco do histórico da questão, para finalmente considerar o que se encontra respectivamente nas fontes da Revelação e nos documentos da ciência sobre o assunto. Chama-se Monogenismo a doutrina que [&#8230;]</p>
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<p>A questão aborda o problema «Monogenismo ou Poligenismo?». A fim de o tratar devidamente, proporemos, antes do mais, a nomenclatura vigente no debate; a seguir, veremos um pouco do histórico da questão, para finalmente considerar o que se encontra respectivamente nas fontes da Revelação e nos documentos da ciência sobre o assunto.</p>



<p>Chama-se <strong>Monogenismo</strong> a doutrina que afirma ser todo o gênero humano descendente de um só casal.</p>



<p><strong>Poligenismo</strong> vem a ser correspondentemente a tese de que a humanidade provém de vários casais. Se se admite que estes vários casais constituíam todos um única população oriunda em um só lugar ou «berço», tem-se o poligenismo monofilético (phylon = tronco, ramo, em grego). Dado que, ao contrário, se afirme ter o gênero humano aparecido em várias estirpes independentes umas das outras e em diversos lugares ou «berços», professa-se o poligenismo polifilético. Donde se vê que o monogenismo sempre supõe monofiletismo; o monofiletismo, porém, não acarreta necessàriamente monogenismo. Resumindo, tem-se a seguinte tabela:</p>



<p><strong>Polifiletismo</strong>: muitos troncos (populações) e, consequentemente, muitos casais originários.</p>



<p><strong>Monofiletismo</strong>: um tronco (população) originário</p>



<p><strong>poligenismo</strong>: muitos casais a constituir um só tronco.</p>



<p><strong>monogenismo</strong>: um só casal a constituir o único tronco originário do gênero humano.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Um pouco do histórico da questão</strong></h2>



<p>A Tradição cristã, baseando-se na narrativa de Gên 2-3, sempre afirmou que todo o gênero humano descende de um só casal: Adão e Eva.</p>



<p>A partir do séc. XVI, porém, novas teorias foram sendo disseminadas sobre o assunto.</p>



<p>Em 1655 um autor francês calvinista, Isaque de la Peyrère, afirmava haver no livro do Gênesis duas narrativas da criação do homem: no sexto dia (1,25-31), teriam sido criados os pré-adamitas, dos quais descendem os gentios ou não-israelitas, chamados pela S. Escritura «filhos dos homens». Após o repouso do sétimo dia, o Senhor teria criado Adão em estado infantil, do qual haveria extraído uma costela para formar o corpo de Eva (Gên 2,21-24); Adão e Eva seriam os progenitores do povo de Israel, progenitores que pecaram em nome de todo o gênero humano, fazendo que tanto os seus descendentes como os da linhagem pré-adamita nasçam contaminados pelo pecado original. — Esta tese foi sem demora condenada pela Igreja; contraria não somente ao dogma cristão, mas também às regras da sã exegese, não levando em conta que os textos de Gên 1 e Gên 2-3 visam, apenas sob diversos pontos de vista, os mesmos acontecimentos primordiais da história.</p>



<p>Mais tarde, Voltaire (+1778), na sua introdução a «Essai sur les moeurs», escrevia: «Só a um cego será licito duvidar de que os brancos, os negros, os albinos, os hotentotes, os lapônios, os chineses, os americanos constituem raças inteiramente diversas». Por «raças» Voltaire aqui .entendia espécies heterogêneas.</p>



<p>A tese poligenista ganhou voga no século passado com a descoberta de novos fósseis, fósseis que pareciam irredutíveis a um único princípio comum: a nomenclatura atribuída a tais ossadas insinuava mesmo que pertenciam a espécies humanas diferentes da nossa (dita «homo sapiens»); assim falava-se (e fala-se) do «homo capensis», «homo kanamensis», «homo steinheimensis», «homo modjokertensis», «homo helmei», etc. — Das raças atuais, havia quem reduzisse a branca ao chimpanzé, a amarela ao orangotango, a negra ao gorila&#8230;</p>



<p>Em 1910 H. Klaatsch distinguia quatro ramos humanos e não-humanos oriundos de um vivente pré-humano, o «Propithecanthropus hypotheticus» ; seriam : 1) os australianos e as raças vizinhas ; 2) o pitecantropo de Java e o gibão (macaco superior) ; 3) o homem de Neandertal, acompanhado dos pigmeus, do gorila e do chimpanzé; 4) o homem de Aurignac («homo sapiens»), do qual descendem tanto o gênero humano atual como o orangotango. Esta tese, gratuita como era (jamais se encontrou o mínimo vestígio do protopitecantropo !), em breve perdeu a sua voga.</p>



<p>Entrementes, porém, exegetas católicos procuravam conciliar a doutrina do poligenismo com a letra da Escritura Sagrada e as proposições da fé cristã. Em vista disto, lembravam que o nome hebraico «Adão», cujo significado é «homem», não se refere necessàriamente a um indivíduo apenas, mas pode muito bem designar o homem coletivamente entendido, ou seja, tantos indivíduos (e casais) quantos Deus tenha colocado na raiz do gênero humano atual. Aplicando esta observação, que filològicamente é aceitável, à exegese de Gên 2-3, tais comentadores não viam dificuldade em interpretar o texto sagrado no sentido poligenista. Quanto ao pecado de Adão, teria sido (como mais explicitamente diremos à pág. 336s) o pecado não de um só indivíduo, mas de toda a coletividade ou de todos os indivíduos que constituíam a humanidade nos seus primórdios.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A posição da fé cristã</strong></h2>



<p>Tal era o rumo das idéias entre não-católicos e católicos, quando em 1950 a autoridade da Igreja, julgando que o dogma cristão estava sendo afetado pelas novas teorias, houve por bem tomar posição nítida sobre o assunto. Aliás já em 1870, por ocasião do Concilio do Vaticano, fora preparado o texto de uma declaração conciliar contrária ao poligenismo; a declaração, porém, não chegou a ser promulgada, pois o Concilio foi imprevistamente suspenso em virtude da guerra franco-alemã.</p>



<p>Em agosto de 1950, quando já ardia a controvérsia, baseada em numerosos dados paleontológicos, o S. Padre o Papa Pio XII voltou ao assunto, publicando a encíclica «Humani generis», da qual interessa aqui a seguinte passagem:</p>



<p>«Quanto&#8230; ao poligenismo, &#8230;aos fiéis não é lícito abraçar uma opinião cujos fautores ensinam que depois de Adão existiram na terra verdadeiros homens que não tenham tido origem, por via de geração natural, do mesmo Adão, progenitor de todos os homens, ou então que Adão representa um conjunto de muitos progenitores. Não se vê de modo algum como estas afirmações se possam conciliar com o que as fontes da Revelação e os atos do Magistério da Igreja nos ensinam acerca do pecado original, que provém do pecado verdadeiramente cometido individualmente por Adão e que, transmitido a todos por geração, é inerente a cada um como próprio» (Acta Apostolicae Sedis 32 [1950] 576).</p>



<p>Como se vê, o Santo Padre rejeitava explicitamente qualquer teoria exegética que, recorrendo à filologia, tentasse interpretar, em Gên 2-3, o nome «Adão» (= homem) em sentido coletivo.</p>



<p>Doutro lado, porém, note-se que o texto da encíclica está redigido de tal modo que não exclui a existência de «pré-adamitas», ou seja, de verdadeiros homens (dotados de corpo semelhante ao nosso e de alma intelectiva) que tenham vivido na terra antes de Adão, o único pai do gênero humano atual; os pré-adamitas se teriam extinto por ocasião do aparecimento de Adão, não deixando descendentes, de sorte que todo homem atualmente envolvido na história deste mundo deve ser dito filho de Adão e Eva. Esta teoria é, de fato, compatível com as palavras da encíclica: «Aos fiéis não é lícito abraçar uma opinião cujos fautores ensinam que depois de Adão existiram na terra verdadeiros homens que não tenham tido origem, por via de geração natural, do mesmo Adão, progenitor de todos os homens».</p>



<p>A hipotética existência de «pré-adamitas» (a qual, como se compreende não depende da arbitrária exegese proposta por Isaque de la Peyrère no séc. XVII) constitui questão sobre a qual a S. Escritura e a fé cristã simplesmente não se manifestam, como também não se manifestam sobre a existência de habitantes em outros planetas. Trata-se de temas que não interessam diretamente a salvação dos homens aos quais foi dirigida a Revelação judaico-cristã, temas que por isto ficaram fora do âmbito desta Revelação.</p>



<p>A teoria dos «pré-adamitas», por muito fantasista que pareça, não deixa de ter o seu valor apologético: poderá sempre servir para conciliar com a fé católica as pessoas que julguem serem os resultados da paleontologia testemunhos evidentes do poligenismo ou do polifiletismo. A tais pessoas dir-se-á que a fé, restringindo o campo de suas declarações a Adão e seus descendentes, deixa margem a que se admitam muitos indivíduos humanos de troncos diferentes (polifiletismo), contanto que se afirme a sua extinção por ocasião do aparecimento de Adão. Ora os cientistas não têm dificuldade em reconhecer que certos tipos de viventes desapareceram após determinada evolução; do seu lado, a Igreja nunca intencionou precisar a época em que Adão tenha vivido (a respeito da aparente cronologia dos primórdios bíblicos, veja-se «P.R.» 17/1959, qu. 5). Na base destas considerações, vê-se que mesmo aos mais ardorosos defensores do poligenismo não é impossível a conciliação com a doutrina católica.</p>



<p>A este propósito merecem atenção as palavras do grande teólogo contemporâneo Ch. Journet, o qual verifica não haver, nem por parte da fé, nem por parte da ciência, objeção contra a hipótese seguinte:</p>



<p>«Poder-se-ia dizer: Houve paralelamente vários casais humanos. Mas um só dentre eles, tendo sido sequestrado dos demais por uma providência especial, foi elevado ao estado de justiça original e é desta linhagem única, sempre protegida pela mesma providência, que todos nós descendemos.</p>



<p>O poligenismo então não seria verídico senão com relação à humanidade pré-adamítica; o monogenismo bíblico, ao contrário, valeria para todos nós» (Monogénisme de la Bible, em «Nova et Vetera» 26 [1951] 56).</p>



<p>Pergunta-se agora: quais os fundamentos da posição monogenista sustentada pela Igreja ?</p>



<p>A resposta é indicada pelo próprio Pontífice Pio XII no citado texto da encíclica «Humani generis»: o monogenismo está intimamente ligado aos dogmas do pecado original e da Redenção, de sorte que negá-lo seria, ao mesmo tempo, deturpar o sentido autêntico do depósito revelado. Em conseqüência, o monogenismo vem a ser o que se chama «um fato dogmático», isto é, uma verdade histórica, contingente, que nunca foi definida pelo magistério da Igreja, mas que não pode ser rejeitada sem perigo imediato de se cair em heresia.</p>



<p>Que afirmam, pois, os dois mencionados dogmas ?</p>



<p>A doutrina do <strong>pecado original</strong> ensina que todo homem nasce contaminado por uma culpa, que um indivíduo, Adão, pai de todo o gênero humano, contraiu pessoalmente e a todos transmite por via de geração. O Concilio de Trento (1545-1563) declarou explicitamente que o pecado de Adão é um <strong>ato único</strong> e se comunica a toda a descendência de Adão por via de geração, não meramente por imitação (sess.5ª, can. 2 e 3).</p>



<p>O dogma da <strong>Redenção</strong> acrescenta que, para restaurar o gênero humano violado pela culpa original, outro homem foi enviado a este mundo na qualidade de novo Princípio de vida para os demais: é o Cristo Jesus. Sendo assim, toda a ideologia cristã gira em torno dos dois eixos: Adão e Cristo, duas figuras com as quais o gênero humano inteiro é solidário, ora para à morte, ora para a ressurreição. Aliás já São Paulo delineia o paralelismo entre Adão e Cristo, em Rom 5,12.17-19; 1 Cor 15,21s. — Ora, assim como não se pode entender o segundo homem, Cristo, no sentido de uma coletividade, assim também não o primeiro; trata-se de dois indivíduos que, por sua obra pessoal, transmitem respectivamente morte e nova vida ao gênero humano. Daí a incompatibilidade do poligenismo com a doutrina católica. Esta, de resto, funda a sua posição monogenista ainda em outros textos bíblicos como</p>



<p>&#8211; At 17,26: «De um só (homem) fez (Deus) todo o gênero humano, para que habite sobre a face da terra», declara São Paulo no Areópago de Atenas.</p>



<p>&#8211; Sab 10,1: «Foi a Sabedoria que guardou o primeiro homem, formado por Deus para ser o pai do gênero humano, o único criado».</p>



<p>Por sua vez, os capítulos 2 e 3 do Gênesis insinuam que Adão e Eva eram dois indivíduos, um único casal. Assim o autor sagrado observa que o homem estava só, e Deus não o queria deixar solitário, pelo que decretou fazer-lhe uma mulher condigna (v. 2,18); entre os animais existentes, não se encontrava nenhum da mesma dignidade que Adão (v. 20); por conseguinte, Deus formou tal auxiliar condigna; vendo-a, Adão logo reconheceu que era da mesma natureza que ele (w. 21-23); «estavam ambos nus, Adão e sua esposa, sem que, por isto se enrubescessem» (v. 25). Finalmente em 3,20 o autor refere ter Adão dado à sua esposa o nome de Eva (= «vida» ou «vivente», em hebraico), «<strong>pois que se tornou a mãe de todos os viventes</strong>».</p>



<p>Estas passagens dão suficientemente a entender que todo o gênero humano provém de Adão e Eva, sendo estes um casal e não uma população inteira.</p>



<p>Eis as razões pelas quais a Igreja sustenta o monogenismo.</p>



<p>Para se entender melhor esta posição, vão aqui referidas algumas das tentativas feitas por autores católicos, antes da encíclica «Humani generis» (1950), para explicar o dogma do pecado original em sentido aparentemente compatível com o poligenismo ou mesmo com o polifiletismo.</p>



<p>1) O gênero humano, diziam alguns polifiletistas, provém de múltiplos troncos, sendo que o primeiro casal ou os primeiros casais de cada um desses troncos pecou.</p>



<p>Admitida esta hipótese, ter-se-iam muitos pecados originais — o que é contrário à unidade do primeiro pecado, afirmada constantemente pela doutrina católica e inculcada pelo Concilio de Trento Além disto, em tal caso poder-se-ia concluir que o pecado era inevitável, pois que os múltiplos homens da primeira camada humana o cometeram sem exceção.</p>



<p>2) O gênero humano, diziam os monofiletistas poligenistas, provém de um só tronco, que compreendia muitos casais; todos estes se associaram num único pecado coletivo.</p>



<p>Esta hipótese salvaguarda melhor a unidade do pecado original; supõe, porém, os pecados pessoais de muitos varões a concorrer para a realização do pecado coletivo, a que contraria à doutrina de que o pecado da origem é o pecado de um só varão — Adão. Além disto, tal hipótese dá a entender, como a anterior, que o primeiro pecado era inevitável.</p>



<p>Sendo assim, um terceiro grupo de autores preferiu asseverar que</p>



<p>3) O gênero humano constava de muitos casais, sim. Mas um só destes pecou. Contudo quis Deus responsabilizar todos os demais indivíduos, embora não tenham pecado.</p>



<p>Neste caso Deus haveria cometido injustiça, pois teria atribuído arbitràriamente uma culpa a indivíduos que não haveriam pecado nem haveriam herdado uma natureza humana pecaminosa.</p>



<p>Em consequência, não se vê como conciliar o poligenismo com a doutrina do pecado original. Esta, como foi dito atrás, ensina que os primeiros pais cometeram um pecado único, o qual se transmite aos descendentes de Adão e Eva por via de geração; é justamente por herdarem a natureza humana destituída dos dons paradisíacos que deveriam ter, que os filhos de Adão aparecem disformes aos olhos de Deus, ou seja, contaminados pela culpa original.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A resposta das ciências naturais</strong></h2>



<p>Independentemente das várias teorias pelas quais enveredam no tocante às origens do gênero humano, os homens de ciência concordam em admitir as duas seguintes proposições:</p>



<p><strong>1)</strong> <strong>As diversas raças humanas não constituem diversas espécies, mas uma só espécie humana</strong> (ou um só «syngámeon»).</p>



<p>O mais claro indício da unidade de espécie vigente entre os homens é a possibilidade de cruzamento dos mais variados tipos entre si: existem populações inteiras oriundas da união de indivíduos pertencentes a raças muito diversas uma da outra; tais são os «Boers», povo enérgico e vigoroso, que descende do matrimônio de holandeses com hotentotes;&#8230; os habitantes da Griqualândia (África do Sul), filhos de europeus e bosquimãs. Quanto aos caracteres somáticos que marcam cada raça, verifica-se que não constituem diferenças absolutas, mas que há uma escala de matizes entre eles, desde o branco róseo dos noruegueses, por exemplo, até o branco escuro dos abissínios; desde o amarelo muito claro dos chineses setentrionais até o amarelo carregado, quase chocolate, dos chineses meridionais; também as formas do nariz, dos olhos, do crânio, dos cabelos se alinham em escala gradativa através das diversas raças. O psiquismo é outro indício de unidade entre os homens: embora em todas as raças existam indivíduos mais, e outros menos inteligentes, todos são capazes de raciocinar e discutir na base dos mesmos princípios da lógica (os princípios de identidade, de contradição, de causalidade&#8230;); possuem o mesmo senso inato de pudor, proferem a mesma linguagem instintiva, agem segundo as mesmas tendências à verdade, ao bem e ao belo, desenvolvendo de maneira uniforme a sua civilização e indústria; nas mais diversas regiões, os homens recorrem aos mesmos tipos de instrumentos, variando apenas a matéria com que os confeccionam; ainda recentemente descobriram-se na Austrália e na África do Sul indivíduos que vivem isolados do mundo, mas utilizam instrumentos absolutamente idênticos aos que foram encontrados nas camadas mais remotas da idade da pedra.</p>



<p>Ora, se todos os indivíduos humanos constituem um só «syngámeon» ou uma só espécie, é lógico admitir que essa espécie tenha um só «berço» ou se derive de um só tronco, pois a ciência verifica que cada espécie de viventes possui um único lugar de origem, donde aos poucos se foi difundindo sobre a terra, por migrações (daí a nomenclatura da botânica e da zoologia). É o que incute o monofiletismo humano, tornando de todo improvável o polifiletismo (vários troncos na origem do gênero humano) e a ologênese (surto simultâneo dos homens em diversas regiões do globo, à semelhança de gotas de geada).</p>



<p>Contudo poder-se-ia objetar: encontraram-se fósseis humanos assaz diferentes uns dos outros, dentro, porém, do mesmo período geológico; são fósseis tidos como contemporâneos entre si, mas aparentemente independentes uns dos outros. Não insinuarão o polifiletismo? — Em resposta, far-se-á observar que muito relativa é a contemporaneidade desses fósseis: cada um dos períodos geológicos em que se situam, compreende dezenas ou centenas de milênios; ora bastam apenas algumas dezenas de séculos para que uma espécie de viventes emigre do seu berço de origem e se propague pelo globo, sofrendo os consequentes fenômenos de adaptação, evolução ou degenerescência. E, note-se bem, tal prazo (dezenas de séculos) escapa à observação experimental dos geólogos; uma diferença de cinco ou seis mil anos entre estrados da terra já não pode ser verificada, tendo que ser negligenciada (a Paleontologia não saberia dizer se o sinantropo de Pequim e o homem de Kanam na África, pertencentes ao pleistoceno inferior, foram contemporâneos entre si; não se pode determinar em que termos o pleistoceno inferior da África corresponde ao pleistoceno inferior de Pequim e ao da Inglaterra). Em consequência, os geólogos são obrigados a dar por estratigraficamente contemporâneos fósseis que outrora existiram à distância de alguns milênios uns dos outros!</p>



<p>2) Uma vez admitido o monofiletismo, a ciência não pode diretamente provar o monogenismo, mas também nada tem a lhe objetar.</p>



<p>O fenômeno que mais voga dá ao poligenismo, é a existência das diversas raças humanas, que a alguns observadores parecem irredutíveis a um só casal primordial.</p>



<p>Pois bem; levem-se em conta os elementos que explicam a diversificação das raças.</p>



<p>Esta se deve não somente a fenômenos de adaptação do indivíduo às diversas circunstâncias de clima, alimentação, trabalho, etc., fenômenos que em geral se processam lentamente, supondo sempre número relativamente grande de sujeitos. As divergências raciais se elucidam outrossim por um fator que só recentemente tem sido estudado: o mutacionismo, isto é, modificações ocorridas nos genótipos, portanto no período embrional do indivíduo, as quais motivam variação brusca e hereditária da espécie. Ora sabe-se que tais «mutações» se realizam em número restrito de indivíduos da mesma espécie (em uma ninhada grande, os indivíduos mutantes são «indivíduos raros»); é o que torna bem compreensível a tese de que numa camada numerosa de antropoides o Criador haja determinado infundir a dois apenas (um casal) uma alma intelectiva, humana, dando a esses antropoides (seres até então não humanos) os caracteres essenciais da natureza humana e fazendo que então começasse uma estirpe mutante, a estirpe humana, da qual, por via de monogenismo, procede o gênero humano atual. Segundo as leis de Mendel referentes à hereditariedade, um novo tronco (phylon) de viventes pode ter origem por combinação de cromossomas, não somente a partir de pouquíssimos, mas até a partir de um só indivíduo. Longe, portanto, de contradizer às ciências naturais, o monogenismo professado pela fé cristã é de certo modo ilustrado por estas.</p>



<p>A respeito das raças humanas e da sua formação veja-se «P. R.s 4/1957, qu. 2; E. Bettencourt, Ciência e Fé na história dos primórdios, AGIR (3a. ed.), cap. VI e Apêndice IV.</p>



<p>Ponderadas todas as opiniões dos autores, conclui-se que, com os dados de que atualmente dispõe, a ciência é impotente para provar qualquer das duas teses contrárias: poligenismo ou monogenismo. É sobre este fundo de incerteza que se faz ouvir a voz da Revelação cristã, professando o monogenismo estrito: esta profissão procede de um argumento superior aos de ordem natural, mas de modo nenhum contradiz à ciência; apenas vem dar resposta a uma questão que esta por si só não pode resolver; a infusão da alma humana, espiritual, a uma porção de matéria destinada a ser corpo humano é algo que a geologia e os fósseis não registram, por conseguinte algo que ficará sempre subtraído à observação dos cientistas.</p>



<p>Eis as. razões pelas quais o cristão professa o monogenismo do gênero, humano, sem receio de estar errando ou mesmo de estar destoando das expressões mais abalizadas do saber contemporâneo.</p>



<p>A propósito cf. E. Bettencourt. Ciência e Fé na história dos primórdios (ed. AGIR), cap. VI.</p>
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		<title>O Homem é um macaco evoluído?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Dom Estevão]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Mar 2020 13:28:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fé e Ciência]]></category>
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					<description><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="O Homem é um macaco evoluído" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído-1024x576.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p>Há quem diga que o homem não é mais do que um macaco aperfeiçoado; nada de específico e próprio haveria no homem. Eis, porém, que a observação atenta das manifestações do ser humano e do macaco dá a ver que no homem existe a faculdade de conceber o universo abstrato, formando definições, construindo linguagem sonora [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div style="margin-bottom:20px;"><img width="1920" height="1080" src="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído.jpg" class="attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image" alt="O Homem é um macaco evoluído" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído.jpg 1920w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído-600x338.jpg 600w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído-300x169.jpg 300w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído-768x432.jpg 768w, https://cooperadoresdaverdade.com/wp-content/uploads/2020/03/O-Homem-é-um-macaco-evoluído-1024x576.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></div>
<p><em>Há quem diga que o homem não é mais do que um macaco aperfeiçoado; nada de específico e próprio haveria no homem. Eis, porém, que a observação atenta das manifestações do ser humano e do macaco dá a ver que no homem existe a faculdade de conceber o universo abstrato, formando definições, construindo linguagem sonora lógica, permitindo cálculos e progressos de civilização, cultivando o senso ético e a Religião — resultados estes que o macaco não consegue alcançar. A razão destas manifestações é a existência, no homem, de um princípio vital ou alma espiritual que transcende a matéria e por isto se exprime de maneiras que ultrapassam as capacidades da matéria.</em></p>



<p>No artigo anterior deste fascículo, fez-se referência as páginas da revista VEJA (28/9/1994), que insinuavam ser o homem tão simplesmente o descendente do macaco. Aliás, em nossos dias registra-se forte tendência a despojar o ser humano de todos os predicados que sempre foram tidos como características exclusivamente suas. Charles Darwin (+1882) insinuava que o ser humano não vem a ser senão um macaco aperfeiçoado; Sigmund Freud (+1939) gloriava-se de haver reduzido o homem a joguete de instintos cegos, ao passo que a filosofia estruturalista decompõe o homem em elementos estruturais sem conteúdo específico; proclama assim a morte do homem, como passo conseqüente à &#8220;morte de Deus&#8221;.</p>



<p>Já foi dito à p.55 deste fascículo que, ao se tratar de tal assunto, urge distinguir entre corpo e alma do homem (este não é um bloco monolítico); o corpo, sendo matéria, pode ter vindo de matéria viva preexistente; ao contrário, a alma, sendo espiritual, é criada por Deus para cada ser humano no momento da fecundação do óvulo pelo espermatozóide ou, se nos referimos aos primeiros pais,&#8230; no momento em que o organismo do primata evoluído devia tornar-se sede da vida humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>1. </strong><b><strong>Inteligência</strong></b><strong> do Homem e o Instinto Animal</strong></h2>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>1.1. Domesticação do animal e educação da criança</strong></h3>



<p>Há certos animais domesticados que parecem tão espertos ou &#8220;inteligentes&#8221; quanto um ser humano. Tal é o caso, por exemplo, dos macaquinhos de circo, que executam exercícios em trapézio, montam a cavalo, andam de bicicleta, tocam acordeão, fumam cigarro, comem à mesa com fidalguia, etc. Dir-se-ia que entre esses animais e um homem educado há mais afinidade do que entre um índio das selvas e um cidadão do séc. XX.</p>



<p>Observando de mais perto, porém, o estudioso verifica que, aquilo que o macaco executa de estupendo, ele o faz unicamente para imitar o comportamento do homem, sem perceber o significado intrínseco de seus atos (não foi em vão que os antigos deram ao macaco o nome de &#8220;simus&#8221;, isto é, simulador ou imitador). Em outros termos: a conduta do macaco se deve a mera associação de imagens e impressões; ele aprende cegamente (isto é, sem saber por quê) a realizar tal gesto ou a efetuar tais e tais ações desde que seja impressionado por tal estímulo. ([1]) Com efeito, o animal que aprendeu alguma &#8220;arte&#8221;, nunca evoluiu nem se aperfeiçoa na execução da mesma; jamais chega ao limite máximo de suas possibilidades; ele apenas tolera-a arte que lhe ensinaram, sem perceber a finalidade da mesma. Desde que se veja emancipado do seu domesticador, liberta-se dos costumes que aprendeu, ou emprega despropositadamente os instrumentos que ele antes parecia manejar com sabedoria.</p>



<p>Assim um macaco pode aprender a comer com a colher; desde, porém, que o homem o deixe entregue a si mesmo, tal animal usará da colher para brincar ou para qualquer outra atividade, não, porém, para comer. O macaco que toca acordeão, assim que o pode, serve-se deste instrumento como se fora um trampolim, um projétil ou um bastão para atingir determinada fruta. O símio que veste trajes humanos, não consegue deixar de comer seus próprios excrementos, apesar dos muitos castigos que lhe são infligidos.</p>



<p>Estes dados mais uma vez mostram que o irracional não possui a capacidade de apreender proporções ou de perceber as relações vigentes entre meio e fim ou entre causa e efeito.</p>



<p>A criança, ao contrário, após aprender a manejar determinado instrumento, tende a perscrutar as leis do seu funcionamento, chegando a desmontar tal objeto, a fim de se tornar consciente das causas dos respectivos efeitos. Se possível, a criatura humana, tendo percebido as relações que existem entre as diversas partes do instrumento, ainda procura aperfeiçoar a este, tornando-o mais adaptado à sua finalidade.</p>



<p>Em outros termos dir-se-á: o irracional vive exclusivamente no presente; utiliza, sim, conhecimentos adquiridos no passado, mas apenas na medida em que beneficiam a situação presente; não possui a capacidade de se emancipar das circunstâncias atuais para conceber de algum modo também o futuro; é isto que comunica à conduta do animal a índole prática e realista que por vezes suscita a nossa admiração. — O homem, ao invés, tende a abarcar os acontecimentos passados e presentes numa só visão de conjunto, na qual o futuro já é previsto e contemplado; ao desenrolar sucessivo dos acontecimentos o homem costuma dar uma interpretação, procurando os fios condutores ou as linhas-mestras da história; e é por essa interpretação ou por essa &#8220;filosofia&#8221; que a pessoa humana costuma, antes do mais, guiar a sua conduta; a situação concreta de determinado momento não toma então senão valor secundário.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>1.2. A Percepção do Universal</strong></h3>



<p>Ainda duas experiências vêm ao caso para mostrar a diferença entre inteligência e instinto. Aquela apreende o invisível; este, não.</p>



<p>O prof. G. Révesz apresentou a macacos, crianças e homens oito caixas fechadas, das quais uma continha chocolate. Na primeira experiência colocou o chocolate na primeira caixa; na segunda experiência, deslocou-o para a segunda caixa; na terceira experiência&#8230; para a terceira caixa; assim, de cada vez, na caixa sucessiva. Ora homens e crianças dos seis, sete anos em diante descobriram sem demora a lei que regia essas experiências: importava saber que o alimento se encontrava na caixa n + 1, sendo n o número da experiência anterior. Ao contrário, os macacos, submetidos ao mesmo teste, não descobriram a lei abstrata geral (n + 1), mas de cada vez se precipitaram sobre a caixa que na experiência anterior fora &#8220;premiada&#8221;. Isto quer dizer que o animal infra-humano é incapaz de superar o concreto, material, para perceber o abstrato, universal. Donde se conclui que lhe falta a capacidade de conhecer espiritual, imaterial, ou a inteligência.</p>



<p>A análoga conclusão chegou o Prof. Hamilton:fez uma mesma experiência com dez indivíduos humanos (um adulto normal, um adulto deficiente, seis crianças normais de dez a cinco anos, uma criança de 26 meses, uma criança anormal de onze anos) e 27 animais (cinco macacos, dezesseis cães, cinco gatos e um cavalo). A experiência consistia em introduzir os indivíduos num recinto fechado com quatro portas. Uma destas podia abrir-se com um empurrão, ao passo que as outras estavam hermeticamente fechadas por fora. A porta que podia ser aberta com um empurrão variava de experiência para experiência, mas não de modo que pudesse ser identificado pela memória, pois as mudanças eram efetuadas segundo uma lei simples que seria preciso descobrir. — Ora também neste caso somente os indivíduos humanos sadios de mais de dois anos chegaram a perceber a lei secreta das mudanças. Aos animais o problema ficou sendo insolúvel. Isto quer dizer, mais uma vez, que os animais infra-humanos são incapazes de perceber princípios abstratos; não têm inteligência.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>1.3. Desenvolvimento do macaco e da criança</strong></h3>



<p>O fato de que a conduta da criancinha não se diferencia da do macaco nos seus primeiros meses, não quer dizer que o bebê não seja verdadeiro ser humano desde os seus primeiros dias, mesmo desde a concepção no seio materno. Apenas as suas faculdades intelectivas permanecem latentes em grau maior ou menor, enquanto não estão plenamente desenvolvidos o cérebro e, em geral, os sentidos, que fornecem à inteligência os elementos sobre os quais ela raciocina. A medida que o desenvolvimento se dá, a criança manifesta a presença e as qualidades do seu intelecto.</p>



<p>Os estudiosos têm realizado experiências muito significativas neste setor. Assim, por exemplo, o casal Kellog permitiu que seu filhinho* Donald, dos dez aos dezenove meses de idade, fosse educado ao lado de uma criazinha de macaco chamada &#8220;Gua&#8221;, a qual, no início da experiência, contava sete meses de idade. Os observadores submeteram o filhote de macaco e a criança exatamente às mesmas provas (necessidade de fazer um desvio ou um circuito para alcançar o seu alimento, subir sobre um tamborete, manejar um objeto, obedecer a uma ordem, etc). Após minucioso confronto, verificaram que durante alguns meses Donald e Gua apresentavam semelhantes reações aos estímulos extrínsecos; respondiam aos mesmos testes com sucesso variável, mas geralmente obtendo empate final; apenas o macaco se mostrava mais hábil e ligeiro nos seus movimentos físicos, enquanto a criança manifestava mais capacidade de prestar atenção. Após determinado prazo, porém, observaram que a criança, por seus progressos, se distanciava do concorrente, de sorte a tornar vã qualquer ulterior comparação. A criança começou a falar propriamente; transpôs o limiar da linguagem, que a caracterizaria como ser humano.</p>



<p>Experiência semelhante à do casal Kellog foi empreendida pela cientista russa Sra. Kohts, que confrontou o comportamento de seu filho com&nbsp;o de seu chimpanzé a partir de um ano e meio até os quatro anos de idade. Observou que o chimpanzé aprendia, sim, certas façanhas, mas de modo mecânico e rotineiro, sem manifestar tendências a se aperfeiçoar; ao contrário, o menino demonstrava a propensão a realizar trabalho cada vez mais produtivo, ou seja, a superar continuamente os dados que aprendia. Isto é, mais uma vez, indício de que a criança estava consciente do significado ou das proporções das artes que assimilava, ao passo que o macaco não percebia tais proporções.</p>



<p>Assim a faculdade de falar constitui o sinal de demarcação colocado entre o reino dos irracionais e o do homem; essa demarcação é intransponível, mesmo ao mais perfeito dos viventes meramente sensitivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>2. A Linguagem Humana</strong></h2>



<p>O chimpanzé e o gorila não podem falar nem aprender a falar linguagem sonora desenvolvida, como demonstram todas as tentativas até agora realizadas. Em conseqüência, os experimentadores têm procurado ensinar aos chimpanzés e aos gorilas alguns sinais, que se assemelham aos da linguagem dos surdo-mudos. A aprendizagem surtiu efeitos, como se depreende do relatório publicado por Francine Patterson com o título Conver-sations with a Gorilla em National Geographic, vol. 154, october 1978, pp. 438-465. Experiências anteriores à de Francine Patterson foram levadas a termo por cientistas como R. Fouts, Gardner, Rumberger, Gill, Glaserfeld&#8230;; os resultados foram positivos&#8230; Todavia D. Ploog em 1972 verificava que, mesmo diante de tal êxito, se devem registrar.profundas diferenças: a comunicação entre animais e a linguagem usada pelos homens não diferem entre si apenas por diversidade de graus de perfeição dentro da mesma pretensa linha homogênea, mas supõem estruturas físicas e psicológicas essencialmente diversas: o homem é, por sua natureza mesma, um ser dado à cultura ou pré-programado para a cultura; o mesmo não se pode dizer a respeito dos animais inferiores ao homem, que são dados a repetir e imitar o que vêem, sem poder criar algo que dependa de lógica e raciocínio.</p>



<p>Notemos também que os chimpanzés podem transmitir uns aos outros certos artifícios: assim na ilha japonesa Koshima, que não é habitada por seres humanos, uma fêmea de macaco descobriu certa vez que, para limpar batatas, não é necessário esfregá-las entre as mãos, mas basta mergulhá-las na água e lavá-las. Quatro anos mais tarde, a metade dos indivíduos do grupo a que pertencia tal fêmea, praticava o rito de lavar as batatas; no decorrer de dez anos, 71% dos membros do grupo haviam adotado tal costume por via de imitação. Deve-se, porém, observar que esta propagação de artifício não se deve ao desejo de educar, ensinar ou de comunicar aos semelhantes alguma novidade; ela se assemelha muito mais à difusão por contágio ou por imitação.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>3. O Senso </strong>Ético</h2>



<p>Já Charles Darwin em 1871 procurava enumerar os caracteres que distinguem o ser humano de maneira típica, permitindo assim estabelecer a linha divisória entre o homem e o animal inferior. Dizia então:</p>



<p><em>&#8220;Sem restrição, subscrevo a tese dos especialistas que afirmam que, dentre todas as diferenças existentes entre o homem e o animal inferior, o senso moral ou a consciência é a mais importante&#8221;&nbsp;</em>(Die Abstammung des Menschen, p. 144).</p>



<p>Observações efetuadas em pessoas surdas e cegas de nascença revelaram que ao homem a consciência é inata, ou seja, anterior a qualquer experiência.</p>



<p>Somente o homem tem a noção do bem e do mal. Somente o homem pode tornar-se réu ou culpado. Em conseqüência, só o homem tem responsabilidade.</p>



<p>A responsabilidade, por sua vez, supõe liberdade de opção, faculdade esta que falta aos animais inferiores.</p>



<p>Não há dúvida, o animal tem uma bondade espontânea, a qual se manifesta principalmente no instinto materno; todavia não se pode dizer que essa bondade resulte de uma opção consciente. É inconsciente e indeliberada; o animal reage espontaneamente a certos estímulos como é o caso da prole ou dos filhotes. O ser humano também reage espontaneamente a tais estímulos; haja vista como as crianças gostam de brincar com bonecas, cachorrinhos, coelhinhos, etc. Todavia, à diferença dos animais, o homem é capaz de proceder contra os seus instintos; assim fazendo, ele se perverte ou&#8230; segue um ideal e cultiva valores que ele julga superiores à satisfação proporcionada pelos instintos. Só o homem pode assumir certas atitudes aparentemente paradoxais ou antitéticas aos instintos: a paciência, a misericórdia, o amor aos inimigos, a compaixão e a benevolência com os criminosos e perversos; tais virtudes estão fora do alcance dos animais, mas elas não são sobre-humanas; são, ao contrário, profunda e tipicamente humanas.</p>



<p>Mais: o animal não é capaz de assumir deveres ou compromissos; não se lhe podem impor normas, mesmo que se lhe imponha determinada&nbsp;aprendizagem. Por isto também a educação é fenômeno especificamente humano; sem educação não só o psiquismo do homem é prejudicado, mas também o próprio desenvolvimento biológico e corporal do homem sofre detrimento.</p>



<p>Tais ponderações evidenciam como o senso moral caracteriza o ser humano, distinguindo-o especificamente dos animais, e colocando o homem em posição singular no reino dos viventes.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>4. A Capacidade de Refletir</strong></h2>



<p>Ainda ao estudar as diferenças entre o ser humano e os animais inferiores, Darwin apontava a consciência que o homem tem de si mesmo: esta é a chamada consciência psicológica, à diferença da consciência moral ([2]).</p>



<p>Quais as conseqüências deste fato?</p>



<p>1) Por sua consciência psicológica, o homem é capaz de refletir sobre si mesmo, sobre o seu presente, o seu passado e o futuro. Essa capacidade de refletir é característica do ser humano, pois só este é sujeito de recordação propriamente dita; com efeito, um animal pode reconhecer o seu patrão ou determinados objetos quando estes lhe são apresentados de novo; mas somente o homem pode recordar-se de pessoas ausentes e de acontecimentos já ocorridos. Visto que os animais não conseguem isto, vivem quase exclusivamente no presente como vivem os bebês.</p>



<p>2) É precisamente a capacidade de recordar realidades ausentes que permite a formação de conceitos universais e de uma linguagem tal como o homem possui: linguagem que exprime noções universais, como homem, criança, belo, justo, injusto&#8230;, recorrendo aos mais diversos sons (francês, russo, chinês, bantu, tupi, etc).</p>



<p>3) Notemos outrossim: um ser para o qual só existe o presente imediato, não pode cultivar a história, como o homem a cultiva&#8230;</p>



<p>4) Nem pode ter responsabilidades, porque não pode prever as conseqüências de determinado comportamento seu&#8230;</p>



<p>5) Nem pode ter Religião como o homem tem, visto que a Religião põe o homem em contato com a transcendência ou com os valores históricos e trans-históricos. A Religião vem a ser, pois, um sinal típico e inconfundível do ser humano. Detenhamo-nos um pouco mais sobre esta afirmação.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>5. O Senso Religioso</strong></h2>



<p>O senso religioso, pondo o homem em contato com valores transcendentais, exprime-se, entre outras maneiras, através da crença na vida póstuma. É por isto que, desde os remotos tempos da pré-história, o ser humano sepulta os seus mortos. Os animais irracionais, diante dos seus semelhantes exânimes, experimentam sentimentos mistos de medo, insegurança, curiosidade, intranqüilidade&#8230; Mesmo a fêmea do macaco, apesar do seu instinto materno, não se preocupa com o sepultamento do filhote falecido: após a morte deste, ela ainda procura insistentemente alimentá-lo, carrega-o para diversos lugares,&#8230; mas, logo que o cadáver entra em decomposição e as características físicas&#8217; do filhote se vão extinguindo, ela abandona o cadáver em qualquer lugar e não mais se interessa por ele.</p>



<p>Ora entre os homens a atenção aos mortos é uma característica das mais antigas.</p>



<p>Os fósseis do homo erectus (devidamente identificado) encontrados na Europa e na Ásia atestam esta verdade. O homem de Neandertal, por exemplo, sepultava seus mortos na posição de quem está dormindo, com a cabeça pousada sobre uma pedra; sobre o cadáver lançava pó de ocre, que tem a cor da vida (pardo, amarelo, vermelho, castanho&#8230;); junto ao defunto colocava alimentos, armas, instrumentos diversos e figuras ornamentais, que lhe serviriam na viagem para o além&#8230; O homem de Cromagnon também adotava tais costumes. Estes atestam a fé numa vida póstuma ou numa realidade transcendente.</p>



<p>Chamam outrossim a atenção dos estudiosos as pinturas encontradas nas cavernas da pré-história: representam motivos da caça ou da magia. Ora todo cultivo da arte está originariamente associado à Religião: esta sempre inspirou os pintores, os poetas, os músicos&#8230;</p>



<p>Ora a Religião, voltada para os valores transcendentais, é certamente uma característica do espírito; ela é tão antiga quanto o homem, pois se manifesta desde a pré-história até hoje, e nunca foi cultivada pelo animal irracional. A existência, no homem, de sentimento religioso e de expressões correspondentes abre um hiato entre o ser humano e o macaco, hiato&nbsp;este que não foi superado ou transposto até hoje. Nem há possibilidade de superação, visto que a Religião supõe, no ser humano, a realidade do espírito ou da alma espiritual, ao passo que o princípio vital dos irracionais é meramente material. É a alma espiritual ou não material que faculta ao homem ter expressões de si que transcendem os dados concretos, materiais, a que está confinado o ser irracional. Pela religião, o homem se eleva aos valores invisíveis e ao Infinito, procurando assim a resposta às suas aspirações mais espontâneas que são aspirações à Verdade, ao Amor, à Justiça, à Vida, à Felicidade sem limites. É tão somente através do caminho da Religião e da Mística que o homem encontra os verdadeiros bens para os quais foi feito e dos quais o animal irracional não tem a mais pálida noção.</p>



<p>A Religião é inspirada pela necessidade que o homem experimenta, de dar sentido à sua vida ou de justificar, perante a sua consciência, a sua luta, o seu trabalho, o seu sofrimento e a sua morte. Na verdade, se não existem valores transcendentais que respondem às aspirações congênitas de todo homem, a presente realidade é vazia e frustrante; o homem se torna um absurdo, perdido em meio às coisas passageiras que o cercam. E o homem-absurdo seria uma exceção no conjunto do universo, visto que este reflete ordem e harmonia — expressões de uma Inteligência Suprema.</p>



<p>Em nossos dias, a Religião continua sendo um fator típico da inteligência humana. Mesmo os que se dizem ateus, cultivam o Absoluto sob formas leigas ou secularizadas; é o caso do comunismo, ao qual o judeu Karl Marx deu a estrutura de um messianismo sem Deus; o proletariado sacrificado na luta de classes seria o Messias, que, morrendo, prepararia o surto de um homem novo, morigerado e pacífico. As categorias religiosas do judaísmo foram transpostas por Karl Marx para o plano da sociologia e da política; sobrevivem, porém, no esquema de pensamento marxista. — O marxismo cultua religiosamente certos valores meramente humanos ou profanos; este esquema caricatural já não satisfaz a muitos cidadãos, que hoje em dia se afastam do marxismo e das suas pantomimas para procurar a verdadeira fé e autênticas expressões religiosas. O senso religioso, inato em todo homem, vem de novo à tona apesar das tentativas de erradicação a que o marxismo o submeteu. Este fenômeno bem evidencia quanto o senso religioso é característico do ser humano. São sempre válidas as palavras de S. Agostinho (+430): &#8220;Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti&#8221; (Confissões I 1).</p>



<p>Atraído irresistivelmente pelo Senhor Deus&#8221;, o homem &#8220;ateu&#8221; de nossos dias cria suas místicas, seus &#8220;absolutos&#8221;, seus deuses, suas superstições, que inadequadamente lhe fazem as vezes do único Deus.</p>



<hr class="wp-block-separator"/>



<h4 class="wp-block-heading">Referências</h4>



<p>[1] Ver a propósito o artigo de PR 387/1994, pp. 338-352 (a &#8220;inteligência dos animais).<br>[2] A consciência moral é a faculdade que temos, de julgar o que convém ou não convém fazer em vista da consecução do nosso fim supremo; a consciência manda, a consciência aprova, a consciência censura nossos atos morais.</p>
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