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De Lutero a Bento XVI: A Crise Eclesiástica Alemã

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Na semana passada, muitos se surpreenderam com a renúncia do Cardeal Reinhard Marx, arcebispo da diocese de Munique e Freising, por meio de uma carta enviada ao Santo Padre no dia 21 de maio, tornando-se pública a notícia no dia 04 de junho. Segundo o Cardeal, os motivos que o levaram a tomar tal decisão, seriam as denúncias de abuso sexual por parte de eclesiásticos e leigos católicos, entre os anos 1970 e 2005, de acordo com um relatório expedido pela Igreja Católica na Alemanha[1]. Dom Marx ainda afirma que “estamos em um ‘beco sem saída’[2]”

Ele não está errado ao afirmar isso: a situação da Igreja na Alemanha parece, humanamente falando, sem solução. E aqui não se trata de uma visão pessimista ou de uma dúvida quanto à promessa de Nosso Senhor no Evangelho de São Mateus 16, 18: “et ego dico tibi quia tu es Petrus et super hanc petram ædificabo ecclesiam meam et portæ inferi non prævalebunt adversum eam” [3], mas sim de uma constatação do óbvio. 

É triste falar que o país que nos presenteou com Bento XVI seja uma das grandes pilastras do chamado “progressismo católico”. Sem diminuir a gravidade das denúncias envolvendo os menores, não são somente esses fatos que chacoalham a cabeça dos fiéis perplexos: infelizmente, poderíamos afirmar que já há uma lenda urbana que envolve a prática criminosa da pedofilia ao sacerdócio católico. Contudo, outro fato oriundo do clero alemão, nunca antes ocorrido na história da Igreja, conseguiu ultrapassar a perplexidade já existente: a benção aos casais homossexuais realizadas por sacerdotes dentro de Igrejas Católicas.

Não é novidade para ninguém qual é o ensinamento católico a respeito do sacramento do matrimônio, pois o catecismo é muito claro quando afirma no seu parágrafo 1603 ao afirmar:

A íntima comunidade da vida e do amor conjugal foi fundada pelo Criador e dotada de leis próprias […]. O próprio Deus é o autor do matrimônio» (97). A vocação para o matrimônio está inscrita na própria natureza do homem e da mulher, tais como saíram das mãos do Criador. O matrimônio não é uma instituição puramente humana, apesar das numerosas variações a que esteve sujeito no decorrer dos séculos, nas diferentes culturas, estruturas sociais e atitudes espirituais. Tais diversidades não devem fazer esquecer os traços comuns e permanentes. Muito embora a dignidade desta instituição nem sempre e nem por toda a parte transpareça com a mesma clareza (98), existe, no entanto, em todas as culturas, um certo sentido da grandeza da união matrimonial. Porque «a saúde da pessoa e da sociedade está estreitamente ligada a uma situação feliz da comunidade conjugal e familiar»

[4]

Assim, reafirma-se sempre o pressuposto de que, de acordo com os ensinamentos da Doutrina Católica, o matrimônio sempre se dará entre um homem e mulher, com as finalidades de união e procriação[5].

Todavia, ao que parece, parte da Igreja Alemã criou um catecismo próprio, que se baseia muito provavelmente nas vozes das cabeças dos envolvidos: rejeitando o documento emitido pela Congregação para a Doutrina da Fé no dia 15 de março deste ano[6], que negava aos padres o direito de “abençoar” uniões homoafetivas, realizou-se no dia 10 de maio de 2021 uma cerimônia com essa finalidade como forma de protesto ao que orientou a Igreja. 

De acordo com o site ACI Digital, as cerimônias aconteceram “em Würzburg, Aachen, Berlim, Frankfurt, Mainz e Colônia, longe do público”, e que “quase 130 participantes se reuniram na igreja de Santo Agostinho não muito longe da catedral de Würzburg, ao mesmo tempo em que cerca de 40 pessoas assistiam à missa”[7].

Vamos nos atentar ao fato de que o Cardeal Marx, citado no início do artigo, é um dos eclesiásticos favoráveis a esse tipo de bênção inaceitável à luz da sã doutrina[8]. Seu currículo não para por aí: Dom Marx também é a favor da comunhão para divorciados recasados, de padres casados, pregação de leigos na Santa Missa[9]. Não precisamos nos alongar na explicação do que a Igreja ensina sobre cada um desses aspectos, pois deduz-se que alguém que se diz católico ao menos saiba isso, apesar dos apesares, como se diz por aí.

O fato é que, seguindo a linha progressista do Cardeal Marx, outros bispos alemães se uniram a ele, sobretudo no tocante a benção dos casais homoafetivos, ocasionando o que alguns já chamam de “cisma”. Se em 31 de Outubro de 1517 conta-se que Martinho Lutero pregou as 95 teses na porta de uma Igreja, parte do clero alemão, no dia 15 de maio de 2021, como se não bastasse a clara desobediência ao Sumo Pontífice, pregou novamente Nosso Senhor Jesus Cristo na cruz: conforme foi divulgado no blog do Padre Eduardo Hayen, sacerdote mexicano, “o presidente do episcopado alemão, monsenhor Georg Bätzing, anunciou que nesse dia haveria uma celebração na qual seriam convidados a receber a Comunhão eucarística católicos e protestantes que, com conhecimento, comungaram”[10], coisa impensável para aqueles que dizem não acreditar na presença do Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. Permitindo esse tipo de coisa, parece-nos que os próprios bispos alemães envolvidos também não creem mais…

Ou seja, esse é o panorama da Igreja Católica na Alemanha atualmente. Foi essa Igreja que o Cardeal Reinhard Marx disse estar numa situação de “beco sem saída”. Entretanto, para chegar no beco sem saída do Cardeal, em sua mente houve apenas o caminho dos abusos sexuais cometidos contra os infantes, ao passo que, conforme o demonstrado, é um beco formado por inúmeros caminhos também pavimentado e construído, de certo modo, com seu auxílio. 

Sua renúncia não significa correção de ideias (o que é possível de acontecer, dependendo da nossa oração e penitência pelos sacerdotes), e por isso não é motivo para comemoração antecipada. Contudo, como nos diz o título de um livro da escritora cearense Rachel de Queiroz, “Existe outra saída, sim”. Essa saída será aberta através da arma da Santa Cruz, e, por mais dolorida que seja, haverá luz no fim do túnel.


  1. “É a maior crise que a Igreja já viveu”. Mais de 300 crianças abusadas sexualmente por membros do clero na Alemanha
  2. Arcebispo de Munique renuncia: ‘estamos num beco sem saída’
  3. “E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.
  4. Catecismo 1533s
  5. 2363. Pela união dos esposos realiza-se o duplo fim do matrimônio: o bem dos próprios esposos e a transmissão da vida. Não podem separar-se estes dois significados ou valores do matrimônio sem alterar a vida espiritual do casal nem comprometer os bens do matrimônio e o futuro da família.” Catecismo da Igreja Católica.
  6. Responsum da Congregação para a Doutrina da Fé a um dubium sobre a bênção de uniões de pessoas do mesmo sexo.
  7. Padres alemães desafiam Santa Sé e abençoam uniões homossexuais
  8. Cardeal Marx: Casais homossexuais podem receber bênção da Igreja.
  9. Aqui, aqui e aqui.
  10. “Sin embargo lo peor es lo que vino el 15 de mayo. El presidente del episcopado alemán, monseñor Georg Bätzing, anunció que en ese día harían una celebración en la que invitarían a recibir la Comunión eucarística a católicos y a protestantes que, en conciencia, se acercaran a comulgar.”.

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