Devemos jejuar todas as sextas-feiras do ano?

127

Não há dúvidas de que vivemos em uma época de profunda crise nos fiéis da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, crise que pode ser observada em vários aspectos da vivência da fé católica. Dentre eles, um dos aspectos mais esquecidos e vilipendiados é o da ascese e da penitência. Por isso, não é incomum encontramos, hodiernamente, católicos que não sabem do dever que temos de jejuar em todas as sextas do ano. Vejamos o que diz o Código de Direito Canônico, em seus cânones 1249-1253:

Cân.  1249. Todos os fiéis, cada qual a seu modo, estão obrigados por lei divina a fazer penitência; mas, para que todos estejam unidos mediante certa observância comum da penitência, são prescritos dias penitenciais, em que os fiéis se dediquem de modo especial à oração, façam obras de piedade e caridade, renunciem a si mesmos, cumprindo ainda mais fielmente as próprias obrigações e observando principalmente o jejum e a abstinência, de acordo com os cânones seguintes.

Cân.  1250. Os dias e tempos penitenciais, em toda a Igreja, são todas as sextas- feiras do ano e o tempo da quaresma.

Cân. 1251 Observe-se a abstinência de carne ou de outro alimento, segundo as prescrições da Conferência dos Bispos, em todas as sextas-feiras do ano, a não ser que coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades; observem-se a abstinência e o jejum na quarta-feira de Cinzas e na sexta-feira da paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Cân. 1252 Estão obrigados à lei da abstinência aqueles que tiverem completado catorze anos de idade; estão obrigados à lei do jejum todos os maiores de idade até os sessenta anos começados. Todavia, os pastores de almas e os pais cuidem que sejam formados para o genuíno sentido da penitência também os que não estão obrigados a lei do jejum e da abstinência, em razão da pouca idade.

Cân. 1253 A Conferência dos Bispos pode determinar mais exatamente a observância do jejum e da abstinência, como também substituí-la, totalmente ou em parte, por outras formas de penitência, principalmente por obras de caridade e exercícios de piedade.

Código de Direito Canônico

Podemos ver, pois, que, além da Quarta-feira de cinzas e da Sexta-feira Santa, estamos obrigados a jejuar, caso não coincida com um dia de solenidade, em todas as sextas do ano. Esse jejum pode ser de carne, o que é de praxe entre a maioria dos católicos, ou de outro alimento; podendo ser substituído pela Conferência da Bispos por outra forma de penitência, como prevê o cânon 1253 do CDC. No Brasil, a CNBB dá aos fieis as seguintes possibilidade de substituição: por uma obra de caridade, por um exercício de piedade ou por outro alimento.

Os Benefícios Espirituais do Jejum

Pois bem, agora que vimos nossas obrigações canônicas, falemos um pouco sobre os benefícios espirituais que a prática do jejum e da abstinência nos traz. É salutar que ressaltemos que o jejum e a abstinência são formas de penitência interior, que é definida pelo CIC como: 

“uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal e repugnância às más obras que cometemos. Ao mesmo tempo, é o desejo e a resolução de mudar de vida com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda de sua graça. Esta conversão do coração vem acompanhada de uma dor e de uma tristeza salutares chamadas pelos Padres de “animi cruciatus (aflição do espírito”, “compunctio cordis (arrependimento do coração)” (§ 1431).

Catecismo da Igreja Católica

Destarte, o jejum e abstinência têm como frutos nossa santificação através da ruptura com o pecado, alcançada pela educação da nossa vontade de acordo com nossa alma, ao invés da carne; do desejo ardente de afastar-se do mal e aproximar-se do bem; ou seja, do próprio Deus; da firme resolução de mudar de vida.

Por fim, fiquemos com essa reflexão feita por São Pedro Crisólogo sobre o Jejum: 

Dos Sermões de São Pedro Crisólogo, bispo
O que a oração pede, o jejum o alcança
e a misericórdia o recebe


Há três coisas, meus irmãos, três coisas que mantêm a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude. São elas a oração, o jejum e a misericórdia. O que a oração pede, o jejum alcança e a misericórdia recebe. Oração, misericórdia, jejum: três coisas que são uma só e se vivificam reciprocamente.

O jejum é a alma da oração e a misericórdia dá vida ao jejum. Ninguém queira separar estas três coisas, pois são inseparáveis. Quem pratica somente uma delas ou não pratica todas simultaneamente, é como se nada fizesse. Por conseguinte, quem ora também jejue; e quem jejua, pratique a misericórdia. Quem deseja ser atendido nas suas orações, atenda às súplicas de quem lhe pede; pois aquele que não fecha seus ouvidos às súplicas alheias, abre os ouvidos de Deus às suas próprias súplicas.

Quem jejua, pense no sentido do jejum; seja sensível à fome dos outros quem deseja que Deus seja sensível à sua; seja misericordioso quem espera alcançar misericórdia; quem pede compaixão, também se compadeça; quem quer ser ajudado, ajude os outros. Muito mal suplica quem nega aos outros aquilo que pede para si.

Homem, sê para ti mesmo a medida da misericórdia; deste modo alcançarás misericórdia como quiseres, quanto quiseres e com a rapidez que quiseres; basta que te compadeças dos outros com generosidade e presteza.

Peçamos, portanto, destas três virtudes — oração, jejum, misericórdia — uma única força mediadora junto de Deus em nosso favor; sejam para nós uma única defesa, uma única oração sob três formas distintas.

Reconquistemos pelo jejum o que perdemos por não saber apreciá-lo; imolemos nossas almas pelo jejum, pois nada melhor podemos oferecer a Deus, como ensina o Profeta: “Sacrifício agradável a Deus é um espírito penitente; Deus não despreza um coração arrependido e humilhado” (cf. Sl 50, 19).

Homem, oferece a Deus a tua alma, oferece a oblação do jejum, para que seja uma oferenda pura, um sacrifício santo, uma vítima viva que ao mesmo tempo permanece em ti e é oferecida a Deus. Quem não dá isto a Deus não tem desculpa, porque todos podem se oferecer a si mesmos.

Mas, para que esta oferta seja aceita por Deus, a misericórdia deve acompanhá-la; o jejum só dá frutos se for regado pela misericórdia, pois a aridez da misericórdia faz secar o jejum. O que a chuva é para a terra, é a misericórdia para o jejum. Por mais que cultive o coração, purifique o corpo, extirpe os maus costumes e semeie as virtudes, o que jejua não colherá frutos se não abrir as torrentes da misericórdia.

Tu que jejuas, não esqueças que fica em jejum o teu campo se jejua a tua misericórdia; pelo contrário, a liberalidade da tua misericórdia encherá de bens os teus celeiros. Portanto, ó homem, para que não venhas a perder por ter guardado para ti, distribui aos outros para que venhas a recolher; dá a ti mesmo, dando aos pobres, porque o que deixares de dar aos outros, também tu não o possuirás.

Sermo 43: PL 52, 320.322

1 comentário
  1. Dante Diz

    Excelente post! Parabéns Gabriel!

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.