Conheça, ame, viva e defenda a Fé Católica

Dom Aldo: Uma Despedida

1.196

Pela primeira vez, eu escolho não me preparar para escrever um texto, pois quero que este flua com serenidade, qualidade essa tão estampada no rosto daquele de quem falo aqui. Eu sabia que um dia o perderia, mas não sabia o quão rápido isso se daria. Mas algo que posso constatar é que o amor cristão não possui limites de tempo e espaço: começa, por vezes, de repente, mas não tem fim. E aqui não se trata de uma visão romântica e barata, mas sim da constatação de que a Cruz não foi o fim. O amor não morre, apenas se reinventa.

Havia três anos em que eu rezava pedindo a Nossa Senhora a graça de um diretor espiritual. Em determinado dia, cheguei à minha Paróquia num domingo de tarde muito angustiada, pois havia cometido um pecado que não deixava a minha consciência em paz. Parei diante da imagem de Nossa Senhora das Graças e fiz a seguinte prece: “minha Mãe, dá-me a graça da confissão!”. 

Fui à sacristia, me informar se porventura o sacerdote que presidiria a celebração das 17 horas poderia me confessar rapidamente, para que eu não ficasse sem a Eucaristia. E sim, ele estava atendendo. Foi quando o conheci. Não era somente um presbítero, mas um Bispo! Naquele momento compreendi que Maria Santíssima me dava não somente a graça da Santa Confissão, mas sim o que há três anos eu esperava: um diretor espiritual. Ele abençoou meu ícone da Sagrada Face de Nosso Senhor, fazendo breves comentários sobre ela. 

O mais impressionante de tudo é o quão à vontade me senti. Parecia que estava conversando com o próprio Cristo, pois tamanha era a bondade daquele coração que foi justamente isso que me fez entender que a minha graça era naquele dia concedida. Recordo também que mencionei que amava ópera e música italiana. E qual não foi a surpresa quando ele cantou pra mim no próprio confessionário e me disse que era filho de italianos! Se havia ainda alguma dúvida na minha alma sobre se aquele realmente era o enviado por quem esperei, ela foi dissipada num piscar de olhos, piscar de olhos este que o levaria tão repentinamente…

O fato é que depois deste dia, começou não somente uma direção espiritual para mim, mas uma amizade. Eu tinha liberdade para falar sobre tudo, absolutamente tudo com ele, desde as minhas fraquezas, até questões delicadas da Igreja. Durante esse tempo, que faria dois anos ainda neste ano de 2020, posso testificar que não só eu me confessava com ele, mas ele (óbvio que não sacramentalmente) também se confessava comigo. Ele nunca teve vergonha de expor sua humanidade para mim, nem de falar o quanto sofria pela Igreja. Tudo que conversamos nessas direções espirituais daria um livro. Meu Deus, eu tive a graça de acompanhar esse martírio branco de perto. Jamais chegarei a dizer que seria um Simão Cirineu, pois não teria forças para isso, mas, quiçá, Maria Madalena, que permaneceu aos pés da Cruz do Mestre que ela tanto amava…

O último encontro que tivemos foi no mês de fevereiro deste ano, um pouco antes do Carnaval. Dessa vez toquei no assunto da defesa da família, e cheguei inclusive a pedir um autógrafo para o famigerado “Opção Preferencial pela Família”, do qual ele foi coautor. Lembro-me que ao me ver tirar da bolsa o livro, ele disse: “Ah! Isso aí me custou a cabeça!”, ao que eu respondi: “Mas também lhe custou o céu!”, o que lhe fez confirmar com a cabeça num gesto semelhante a “sim, faz sentido o que você falou”. Depois do autógrafo, peguei suas duas mãozinhas consagradas e as enchi de beijos. Olhei para ele e disse: “Eu lhe amo demais!”, ao que ele se limitou a sorrir e agradecer. Esse sorriso está emoldurado na minha alma. Sem que eu pedisse, ele me deu uma bênção especial para que eu continuasse na minha luta pela família, inspirada na luta e sacrifícios dele…

Depois, antes de ir embora, tive a inspiração de lhe pedir um abraço, cisa que nunca antes tivera coragem. E sim, ele me abraçou com muita ternura. Mal sabia eu que tanto aqueles beijos em suas mãos quanto aquele abraço já eram a despedida inspirada por Deus. Era como se Jesus me dissesse interiormente que logo o levaria, e era aquele curto espaço de tempo que eu tinha. Eu prometi que levaria um livro para ele da próxima vez que eu o visse, mas eu não sabia que não haveria próxima vez…

Ao passar este encontro, o bendito livro chegou em minha casa, e cheguei a escrever uma dedicatória de uma página inteira. Também adquiri um livro escrito por ele que se tratava de uma coletânea de artigos publicados em jornal. Porém, começou a quarentena…

Com muita esperança eu esperava o fim desse confinamento para então poder abraçar novamente o “meu Bispinho”, como eu carinhosamente o chamava. Mas não houve tempo. Uma semana antes de seu falecimento, eu conversei com ele por Whatsapp, e ele me garantiu estar tudo bem, e estar isento de Covid-19, o que me acalmou minha alma.

Mas o Senhor vem como um ladrão. Sua partida foi mais repentina que a notícia de sua internação na UTI. A despedida de fevereiro, os beijos na mão, a bênção e o terno abraço agora se mostravam “profecias”.

Os livros não poderei mais entregar, e tampouco terei o autógrafo no livro que era da sua autoria. Mas o fato é que desde o encontro providenciado por Nossa Senhora, Dom Aldo di Cillo Pagotto autografou não só meu coração, mas de todos aqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-lo.

Nas minhas últimas palavas recordo a música italiana “Caruso”: “Te voglio bene assai, ma tanto tanto bene, sai? È una catena ormai che scioglie il sangue dint’e vene, sai?”

Repito o mesmo que disse naquele dia: Eu lhe amo demais, Dom Aldo!

Uma singela homenagem de sua filha espiritual…

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.