É o Covid-19 um castigo divino?

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(Catholic Answers. Traduzido por Gabriel Gomes) À medida que o Covid-19 espalha-se pelo mundo, muitos católicos estão perguntando se essa doença foi mandada por Deus como punição pelos pecados. Alguns dizem que Deus está punindo o mundo ou até mesmo a Igreja por causa de vários eventos recentes. Outros rebatem dizendo que Deus jamais puniria as pessoas com uma praga ou pandemias e é óbvio que isso não é um castigo divino. 

A verdade (como acontece geralmente) está em algum lugar no meio de tudo isso. 

A Bíblia mostra Deus punindo as pessoas nesta vida por causa de suas ações, através de desastres naturais. Deus fez chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra por causa da depravação de seus habitantes (Gn 19, 24-25) e Ele enviou cobras venenosas para afligir Israel quando eles tornaram-se impacientes e falaram contra Deus no deserto (Nm 21,6). Algumas dessas punições incluem o envio de doenças para afligir as pessoas, como as pragas do Egito (Ex 7,16-17) e até uma praga sobre Israel (2 Sm 24,15).

E isso não é algo que Deus fez somente no Antigo Testamento. São Paulo admoestou os Coríntios que receberam a Eucaristia em estado de pecado: “é por isso que muitos entre vocês estão fracos e doentes, e alguns mortos” (1 Cor 11,30). São Lucas recorda como Ananias e Safira caíram mortos depois de Pedro ter confrontado o comportamento desonesto deles em relação ao patrimônio comunitário (Atos 5, 9-11).

Agora, há um questionamento sobre o que querem dizer os autores bíblicos quando dizem que Deus enviou uma praga ou outro desastre. Isso poderia ser o caso de Deus ter intervido diretamente na ordem natural para trazer tal calamidade ou de Ele ter permitido que mal natural se revelasse e escolhido não o parar. De qualquer modo, o testemunho das Escrituras mostra que não podemos dizer que Deus nunca causou nenhuma doença ou morte como punição para um comportamento pecaminoso. 

Mas isso não quer dizer que doenças ou mortes sempre serão uma punição por um comportamento pecaminoso. Um tema central do livro de Jó é o fato de ele não ter feito nada para receber as aflições que ele suportou (1,1). Na verdade, Deus ficou irritado com os amigos de Jó por sugerirem de maneira errada que as aflições de Jó eram punições por pecados (42,7). Ele diz a Jó (e para todos nós) que nós não estamos na posição de podermos julgar o porquê de Deus permitir que o mal ocorra (38,1-41). Isso porque, como Deus disse pelo profeta Isaías, “quantos os céus estão acima da terra, assim estão os meus caminhos acimas dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos” (55,9).

Jesus de maneira similar ensinou que alguns males ocorrem sem nenhuma conexão com práticas pecaminosas. Ele disse que as vítimas de um desabamento da torre em Siloé não eram mais pecadores que os judeus que Pilatos massacrou (Lc 13,2-5) e que nenhum pecado causou a cegueira do homem de Jo 9,3. Deus, pelo contrário, permitiu que o homem fosse cegado para que seu poder restaurador fosse revelado através de Jesus. Isso é similar ao porquê de Deus não ter curado o “espinho na carne” (que pode ter sido uma doença; cf. Gl 4,13-15) de São Paulo. O sofrimento de Paulo não foi uma punição divina por causa do pecado, mas uma oportunidade para que a Graça de Deus fosse revelada. Por isso Deus disse a Paulo, “Basta-te a minha graça; pois é na fraqueza que a força se realiza plenamente” (2 Cor 12,9).

Nem todo mal natural deveria ser visto como uma punição pelos pecados. Na verdade, Deus usualmente permite que o mundo enfrente seus desdobramentos de acordo com as regras nas quais ele foi criado – os milagres são a exceção, não a regra. Por que vivemos em mundo governado por leis naturais, nós deveríamos começar presumindo que qualquer mal natural, seja pessoal ou comunitário, é um produto dessas leis e não uma punição específica pelos pecados. 

 De fato, a Igreja não disse que outras pandemias globais, tsunamis, terremotos, e outros tipos de desastres que mataram centenas de milhares e afligiram milhões eram punições divinas. Destarte, por que deveríamos crer que o Covid-19 ou qualquer outro desastre é diferente daqueles não pensamos ser punição pelos pecados?

As pessoas na Bíblia estavam vivendo em um momento chave do plano de Deus, quando as intervenções divinas eram especialmente comuns, e Ele deu a eles profetas para que entendessem as razões por trás destas intervenções. Mas nós vivemos em uma era diferente, e a revelação pública parou, significando que temos de usar outros métodos. 

Se o desastre somente tivesse atingido pessoas que esperaríamos que Deus puniria, como um grupo de médicos abortistas ou praticantes da satânica missa negra, isso poderia ser evidência de punição divina. Também seria plausível acreditar em um desastre como punição divina, caso ele tivesse sido anunciado ou viesse acompanhado por uma aprovação da Igreja como uma revelação privada, e mesmo assim os fiéis não estariam obrigados a acreditar, porque tal verdade não poderia ser encontrada na revelação pública. 

De qualquer maneira não temos nenhuma evidência que favoreça tal visão no caso do Covid-19. Mesmo assim, Deus sempre colhe o bem quando o mal ocorre, e essa pandemia provê um lembrete de que devemos nos arrepender de nossa pecaminosidade enquanto temos tempo para isso. 

De fato, esse foi o ponto de Jesus quando as pessoas o indagavam pela aparente falta de sentido nas mortes de judeus da Galileia pelas mãos de Pôncio Pilatos. Ele disse que os adoradores mortos não eram mais pecadores que os mortos na torre de Siloé. O que importava não era o fato de eles terem morrido, mas se eles foram capazes de se arrependerem antes de morrerem, ou como Jesus disse, “Se não se arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo” (Lc 13,5).

Você ou eu podemos ou não contrair o Covid-19. Se contrairmos, podemos ou não morrer por causa disso. Também podemos nunca saber o porquê de Deus ter permitido que umas peguem essa doença e outras não. Mas o que nós sabemos é que iremos morrer um dia e ficaremos cara-a-cara com Nosso Senhor e seremos julgados (2Cor 5,10). 

Desta forma, nós deveríamos usar esse tempo de provação comunitária, da mesma forma que usamos os “desastres pessoais” que afligem a maioria das pessoas, para nos aproximarmos de Deus. Devemos nos arrepender dos pecados que nos mantêm afastados de Deus e nos impedem de buscar comunhão com Ele, mesmo que isso ocorra por uma oração de comunhão espiritual e adoração através da assistência de um meio de comunicação como uma Missa online. E nós devemos estender a misericórdia e bondade de Cristo para as muitas pessoas que delas precisam e que podem estar sofrendo física, emocional e economicamente. Como nos admoesta São Paulo, em sua segunda carta aos Coríntios: 

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de todas as misericórdias e Deus de toda consolação. Ele nos consola em toda a nossa tribulação, para que possamos consolar os que se acham em alguma tribulação, por meio da consolação com a qual nós mesmos somos consolados por Deus.” (1,3-4).

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