Farinha pouca, meu pirão primeiro

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Já diz um ditado popular: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Isso mostra claramente o egoísmo do ser humano. De pensar somente em si. De querer as coisas primeiro para si e somente se sobrar é que poderá partilhar com os irmãos. Uma vez fui almoçar na casa de uns amigos e como era uma família pobre o bife estava contadinho. O filho mais novo do casal ao se servir pegou logo três bifes com muito entusiasmo e colocou no prato dele. O pai envergonhado, sem saber o que dizer daquela atitude egoísta do filho disse apenas: “Meu filho, tem mais gente que gosta de bife”. E o garoto respondeu: “Mas não tanto quanto eu, pai”.

Quem tem muito, quer ter cada vez mais, mesmo que isso signifique tirar o pouco que tem aquele que quase nada possui. As pessoas só se preocupam com o seu próprio umbigo. Com o seu próprio conforto e bem estar. Nestes tempos de noites frias e chuvosas, quantos irmãos sofredores de rua andam perambulando por aí sem um cobertor para se aquecerem, sem uma roupa para vestir, sem nada para comer, sem um travesseiro para repousar a cabeça. Mas parece que não nos importamos com isso. Parece que preferimos fingir que não sabemos de nada. Que nada está acontecendo. E pior, ainda reclamamos da vida.

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Reclamamos quando nossa mãe ou esposa não prepara aquela comidinha que estávamos imaginando, ou reclamamos que ficou sem sal ou salgado demais. Reclamamos e isso principalmente as mulheres, mas alguns homens também, que não temos roupa para sair. Para ir a tal lugar, em tal ocasião. Reclamamos de barriga cheia, como se costuma dizer. Tão cheia como a daquele passarinho que vivia junto com os frades. Que guloso, comia tudo, ficava farto e não deixava seus irmãos se aproximarem da comida. A gula é pecado e quando comemos além das nossas capacidades certamente estamos tirando da boca de um pobre. Quando temos dois cobertores um deles roubamos do pobre que não tem nenhum, como já diziam os santos.

O Evangelho

Jesus disse no evangelho escrito por Mateus, capítulo oito: “As raposas têm tocas, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. Se Deus se fez homem e veio armar a sua tenda entre nós, Ele poderia ter nascido em um castelo todo coberto de ouro, mas ele quis ser pobre. Ele que é o rei de todo o universo, se fez pobre. Viveu a pobreza. Nasceu nu em uma manjedoura e nu morreu humilhado em uma cruz. Francisco amava a pobreza e disse ter se casado com ela. A senhora dama pobreza. E os frades até hoje fazem voto de pobreza, mas muitos deles, e alguns que nós até conhecemos, ostentam riquezas, são arrogantes, egoístas e autoritários, não tem o mínimo de zelo com a liturgia e se acham os donos da verdade.

Mas ao estudarmos o espírito profético de São Francisco nos deparamos com Nosso Seráfico Pai prevendo um triste fim para o passarinho egoísta. Ele disse: “Vede o que está fazendo esse comilão. Mesmo cheio e empanturrado, tem inveja de seus esfomeados irmãozinhos. Ele ainda vai acabar mal”. Não demorou muito para se cumprir o que o santo dissera. O perturbador de seus irmãos subiu a um vaso de água para beber, caiu e morreu afogado. E não houve gato ou qualquer outro animal que quisesse comer o passarinho anatematizado pelo santo.

Talvez o passarinho tenha caído na água de tão gordo que estava. Nós também acabaremos tropeçando e caindo em nossa própria maldade se não resolvermos mudar de vida. Ele vai acabar mal, disse o Santo de Assis. Nós vamos acabar mal meu irmão, minha irmã se continuarmos vivendo no pecado, rastejando na lama da impiedade. Portanto, busquemos a Deus enquanto Ele ainda se deixa encontrar. E o encontremos no pobre, pois ele mesmo disse: “Tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estive na prisão, e fostes me ver”.

Que assim seja.

Amém.

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