Ninguém mais está disposto a abrir mão de nada

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Hoje em dia as pessoas parecem que não acreditam mais em Deus, vivem como se não tivessem que enfrentar em breve o Justo Juiz e por isso cometem todo tipo de atrocidade. É engraçado, pois se perguntamos quem quer ir pro céu, todos querem. Se perguntamos quem quer ir para o inferno, ninguém quer. Mas esqueceram-se que não vamos para o céu simplesmente porque Deus é bonzinho e não quer que ninguém se perca. Pra irmos para o céu é necessário fazermos certos sacrifícios nesta vida, e isso inclui abrir mão de certos prazeres que na verdade só nos fazem mal. O que nós temos percebido na verdade é que: Ninguém mais está disposto a abrir mão de nada

Jesus disse ao jovem rico, se quiseres ser meu discípulo, primeiro vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e depois me segue. Para seguir Jesus é preciso despojar-se de si mesmo, desapegar-se de tudo. E como somos apegados não é mesmo? Francisco fazia questão de que para o candidato poder entrar na ordem que antes ele distribuísse o seus bens entre os pobres.

Alguns institutos de vida consagrada até hoje tem essa prática. Mas o que nós vemos muito em nossos dias são jovens que ao entrar para o seminário deixam tudo arrumadinho em casa. Seu quarto fica arrumadinho do mesmo jeito que eles deixaram. Com aparelho de som, TV, computador e etc. Pois entram para o seminário já pensando que se não der certo, eles voltam pra casa e não perderam nada. Ninguém mais está disposto a abrir mão de nada.

Da mesma forma que o jovem rico saiu muito triste quando ouviu as palavras de Jesus, triste porque era apegado, triste porque não conseguia desapegar de seus bens, um jovem pediu a nosso seráfico Pai para entrar na ordem, mas, também não queria se desapegar. E tentou passar a perna em São Francisco e eu diria mais, tentou enganar-se a si mesmo, distribuindo seus bens entre os seus parentes.

Frei Francisco o repreendeu chamando-o de irmão mosca e não aceitou a sua entrada na ordem. O jovem voltou pra casa e pegou de volta suas coisas que estavam com seus parentes. Veja que se ele tivesse distribuído seus bens para os pobres e por algum motivo não conseguisse entrar na ordem, ou entrasse e depois de algum tempo quisesse desistir, mudasse de ideia e quisesse abandonar a ordem por algum motivo, ele ficaria sem seus bens, pois não haveria de conseguir recuperar aquilo que havia dado aos pobres. Então em sua perspicácia, o que ele fez foi uma questão de segurança, de não abandonar sua zona de conforto.

Francisco de Assis dizia aos frades que quando eles estivessem passando necessidades deveriam recorrer a outras pessoas, mas não aos que estavam entrando na Ordem. Ou seja, seria muito conveniente se Francisco dissesse que para entrar na ordem precisava dar todos os seus bens aos pobres da própria ordem, mas não, ele deixava muito claro a diferença entre os pobres de Deus e os pobres do mundo.

O candidato ao ingresso na ordem franciscana deveria distribuir todos os seus bens aos pobres do mundo e quando os pobres de Deus estivessem passando necessidade nunca deveriam recorrer aos que estavam entrando na ordem, pois não seria bom exemplo.

Nós franciscanos seculares ao ingressar na ordem não nos desfazemos de nossos bens materiais, afinal de contas vivemos no mundo, temos nossa família, nossa casa, nosso trabalho e etc., mas aprendemos a nos desapegar. Ter como se não tivesse. Possuir as coisas como se elas nos fossem emprestadas e partilhar, repartir, dividir com os outros. Colocar os bens materiais a serviço das pessoas. Em nossos tempos enquanto franciscanos seculares não podemos abrir mão de ter uma boa casa, um carro, um computador, mas precisamos praticar o desapego.

Do que precisamos nos desapegar para seguir Jesus? Talvez hoje o maior desafio dos franciscanos seculares seja desapegar-se da vaidade, do orgulho, do egoísmo, da avareza, enfim, desapegar-se de todas as preocupações do mundo para entregar-se totalmente a Cristo sem reservas e sem medo.

Que nossa cabeça possa contemplar a sabedoria das coisas eternas. O peito e os braços sirvam para meditar as palavras de Deus no coração e coloca-las em prática. Que nosso ventre seja como que de cristal e que sua dureza demonstre sobriedade e o esplendor, da castidade. Que nossas pernas sejam firmes como o ferro da perseverança. E que possamos nos revestir de um manto miserável que é o nosso pobre corpo abrigando tão preciosa alma.

Que assim seja.

Amém.

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