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O livro do novo testamento que foi dado a uma pedinte

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Na época de São Francisco, ainda não existia a imprensa. Então quando falamos em cópias de livros, eram cópias feitas à mão e tinham um valor inestimável. Vamos recordar o dia em que São Francisco mandou dar a única cópia que eles tinham do novo testamento para uma senhora necessitada. O livro do novo testamento que os frades possuíam, ao ser vendido poderia trazer uma boa renda para aquela senhora que pedia esmolas. Além do valor monetário do livro, havia também o valor sentimental e o valor prático.

Nós percebemos que quando Frei Francisco pergunta a seu vigário, Pedro Cattani se havia algo para dar aquela senhora, é porque ele mesmo já não sabia mais o que dar. Ele mesmo já tinha consciência de que não tinha mais nada em casa. Nem comida, nem roupas, nem cobertores, mas jamais ele deixaria aquela mulher a quem ele chamava de mãe por ser mãe de dois frades, ir embora de mãos vazias. Então, Pedro Cattani diz que só tinha restado de valor o livro do novo testamento. Não que Pedro Cattani não quisesse dar o livro, mas vemos certo apego na forma como ele respondeu ao Santo de Deus dizendo: “Só temos o Novo Testamento, onde, como não temos breviário, lemos as lições de Matinas”.

Um tom meio que de lamentação, não é mesmo? Nosso único livro! Olha o apego ao livro! Não temos breviário, usamos o livro para rezar! Ora essa, precisa de livro para rezar? Reza com a sinceridade do coração que já está bom né? Mas o ser humano é assim. Às vezes dá muita importância para as coisas. Às vezes você compra uma coisa e não quer emprestar para ninguém, porque é novo. Porque é meu. Tem ciúmes, dá mais valor para as coisas do que para as pessoas. E amizades às vezes são desfeitas por causa de uma coisa. Você briga com alguém porque você emprestou não sei o que e a pessoa devolveu estragado. Gente! São só coisas! Nem breviário para rezar, como as outras ordens, nós temos. Então usamos o livro do novo testamento. É a única coisa que nos resta. Como quem diz: “você não está de fato pensando em dar o livro né?” Mas, de fato, Francisco estava pensando sim, tanto que ordenou: “Dá o Novo Testamento a nossa mãe, para que ela o venda e possa acudir sua necessidade, pois é ele mesmo que nos manda ajudar os pobres. Acho que Deus vai ficar mais contente com a esmola do que com a leitura”.

E o próprio Tomás de Celano que narra essa história parece também ficar com o coração partido, pois, afinal era o primeiro volume do novo testamento que a ordem teve. Algo histórico que se perdeu. Veja que ele diz: “Deram o livro à mulher, e assim, por essa piedade, foi-se embora o primeiro Novo Testamento que houve na Ordem”.

Tudo bem que era algo histórico. Eu, como professor de história, gosto de guardar uns trecos também. Eu tenho aqui em casa umas peças de museu. Uma taça de vinho que minha bisavó trouxe da Alemanha. Nunca ninguém bebe nesta taça, fica lá de enfeite. Uns potes de porcelana também trazidos da Alemanha e pintados a mão. São potes de mantimentos e o nome dos alimentos pintados em alemão. São objetos que para mim tem uma importância sentimental e histórica, mas se alguém derrubar e quebrar, quebrou, ora, fazer o que? Eu não vou brigar com a pessoa que quebrou, pois acidentes acontecem e as pessoas valem mais do que as coisas. Você junta os cacos das coisas quebradas e joga fora, mas os cacos de um briga, dificilmente você consegue juntar. Eu me recordo com grande pesar de uma acontecimento do passado em que eu ainda não tinha esse discernimento que graças a Deus hoje eu tenho. O meu filho mais velho era bebê e nós morávamos numa casa de madeira, chão de assoalho e eu havia trabalhado o dia inteiro até a noite e quando cheguei em casa encontrei um CD original de uma banda que eu gostava muito na época, todo lixado, completamente arranhado. O bebê não tinha culpa de nada, mas a mãe dele que sempre foi muito relapsa, deixou que ele lixasse o meu CD preferido no chão. Ah, fiquei tão bravo. Falei tanto, briguei tanto, mas gente, era só um CD. Então nos resta refletir sobre o desapego de nosso seráfico pai e o nosso apego cada vez maior pelas coisas. Se alguém bater na tua porta para pedir um pedaço de pão e você sabendo que não há mais nada em casa. Que não há mais dinheiro para comprar pão no dia seguinte, daria o único e último pedaço de pão que havia sobrado, ou dispensaria o pedinte dizendo: “Irmão, vá procurar em outro lugar, pois aqui também não há nada.”

Quantas vezes eu já escutei pessoas na rua ao serem indagadas por um mendigo que pede um trocado dizerem: “Eu não tenho nada. Já estou bom de sair pedir também”. Quanta ingratidão para com o Senhor que nos deu tudo.

É verdade, o sentimento é esse mesmo! De ingratidão. Você tem tudo, tem casa, tem carro, tem boa comida, tem um cobertor quentinho para dormir e reclama da vida, porque queria ter mais e mais coisas. Outra coisa que eu acho importante é em relação a essas igrejinhas neopentecostais que pedem dinheiro o tempo todo. Dinheiro, dinheiro, dinheiro e a pessoas doam tudo o que tem e o que não tem. Gente, peguem o seu dinheiro e comprem sacolões para doar para famílias pobres do seu bairro, da sua rua e vai ver que isso alegra muito mais o coração de Deus do que entregar tudo nas mãos destes pseudopastores. Para Francisco de Assis, mais importante do que ter o livro do novo testamento, era fazer aquilo que o novo testamento manda: ajudar os pobres. Por isso mais importante do que ser amado é amar. Mais importante do que ser perdoado é perdoar. Pois o sentido desta vida, não está no aqui, no agora e sim na vida eterna onde adoraremos a trindade santa em comunhão com a virgem Maria e todos os anjos e santos por todos os séculos dos séculos.

Que assim seja.

Amém.

Os Cooperadores
Os Cooperadores
Apologética Católica pela Hermenêutica da Continuidade. Apostolado pertencente ao Centro de Estudos São Francisco de Sales, de Itajaí/SC.

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