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Que história é essa de Padre casado?

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E vamos à polêmica da vez… 

Campanha da Fraternidade de 2021?

Até que poderia ser, mas não. A polêmica à qual me refiro está no que se tem noticiado por aí com relação ao “primeiro padre casado do Brasil”. Pois é, se você não sabia, a partir de agora sabe. Contudo, o que chama a atenção nas redes sociais nos comentários sobre o assunto é o total desconhecimento da parte de alguns sobre o ocorrido. Alguns comemoraram, dizendo que “eram a favor de os padres poderem casar, porque assim eles não molestariam garotos” (sim, na mente de alguns ser celibatário é sinônimo de ser pedófilo, infelizmente), enquanto outros declararam ser “o fim dos tempos profetizado por Nosso Senhor Jesus Cristo”. Por fim, ainda houve aqueles que afirmaram que o agora sacerdote não pertenceria à Igreja Católica Apostólica Romana. Porém, no fim das contas, o que é verdade e o que é mentira nessa história?

Primeiramente devemos esclarecer um ponto que é de suma importância para a compreensão da situação: A Santa Igreja Católica Apostólica Romana não possui somente o Rito Romano. Ela, como um todo, é composta pela Igreja Latina (com sede em Roma, a qual conhecemos, pois a colonização do Brasil foi feita por um povo de origem latina, os portugueses), e mais outras 23 Igrejas chamadas sui iuris, ou seja, que possuem estatutos e um código de Direito Canônico autônomos, mas que estão em plena comunhão com Roma, sendo totalmente subordinadas ao Santo Padre, o Bispo de Roma.

O Rito Romano, o mais comum no Brasil, é chamado “Ocidental”, no qual os presbíteros devem ser necessariamente celibatários (salvo raras exceções as quais não exploraremos neste pequeno artigo) ao passo que os demais são chamados de “Ritos Orientais”, e é justamente dentro desses ritos onde está inserido o contexto da ordenação desse homem que já havia recebido o sacramento do matrimônio.

O Rito Oriental da questão é o Greco-Melquita, de tradição bizantina, que permite a ordenação de homens casados. Conforme explicado acima, isso é permitido por conta da autonomia jurídica que essa Igreja possui, mesmo sendo subordinada à Roma e à autoridade papal, o que lhe confere a faculdade de “legislar”, por assim dizer, sobre esse tema. Recorde-se que não se trata de uma “inovação”, mas que isso já é um costume antiquíssimo no catolicismo oriental.

Mas então porque isso nunca havia acontecido no Brasil? Simplesmente por ser um país de tradição latina, ou seja, celibatária. Ocorre que mesmo com a presença de outros ritos e tradições orientais, (como os maronitas, os melquitas, etc), que admitem às ordens homens com uma família, a ordenação em si não poderia acontecer em países cuja tradição fosse latina, que é o caso do Brasil.

Então algo mudou para que a ordenação pudesse ser realizada? Sim.

Em 14 de junho de 2014, o Santo Padre, o Papa Francisco, autorizou, através da Congregação para as Igrejas Orientais, por meio do documento intitulado Pontificia Praecepta de clero Uxorato Orientali, a atuação de padres casados em território ocidental, ou seja, em território de tradição latina. Já havia padres de ritos orientais celibatários no Brasil, mas casados não, e isso foi a “novidade”, digamos assim.

Ou seja, a ordenação ocorrida no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, no dia 14/02/2021, foi totalmente válida, no sentido de que o novo sacerdote:

  • Pertence à Igreja Católica Apostólica Romana, sendo, portanto, um padre católico, porém de rito diverso do latino (greco-melquita, no caso);
  • A discussão nada tem a ver com a ordenação de homens casados no rito latino, posição já reiterada pelo Papa Francisco no documento final do Sínodo da Amazônia;
  • Também existe o celibato nos ritos orientais, sendo obrigatório para os Bispos, estes escolhidos entre sacerdotes também celibatários.

Obs.: o homem casado só poderá se tornar sacerdote se o casamento for anterior à ordenação. Caso contrário, só é permitido o sacerdócio celibatário.

Há quem diga que essa ordenação poderá influenciar à aceitação de homens casados para o sacerdócio pelo rito latino futuramente. Dentre várias especulações, o fato é que, acima de tudo, nós devemos ser católicos fiéis à Santa Tradição, ao Magistério e à Sagrada Escritura, e busquemos ter conhecimento dos assuntos eclesiásticos não somente para emitir alguma opinião assertiva sobre assunto, como também para que possamos enxergar para além dos fatos e debates.


  1. Diário do Rio

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