Sim, o hábito faz o monge

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Nosso seráfico pai, Francisco de Assis, já previa o que aconteceria com sua ordem. Talvez, por isso, ele exortou tanto aos frades a amarem a pobreza e a vivê-la com alegria. Talvez, por isso mesmo, proibia-lhes de usarem duas túnicas ou roupas luxuosas, porque sabia que quando ele não estivesse mais materialmente neste mundo, ficariam as lembranças de suas palavras e os escritos de seus biógrafos. Nós, franciscanos seculares, que formamos a terceira ordem fundada por São Francisco, somos filhos e filhas da penitência. Mas afinal, nós fazemos penitência? Nós mortificamos nosso corpo, ou fazemos todos os desejos dele como se fosse uma criança mimada? Fazemos jejuns ou nos empanturramos com comida? Vestimo-nos de forma modesta ou com a intenção de chamar a atenção das outras pessoas? Preferimos as coisas mais simples ou a melhor casa, o melhor carro e toda tecnologia de ponta e produtos de última geração que custam os olhos da cara? Estendemos as mãos aos pobres ou fingimos que não os vemos? Qual seria a palavra que Francisco de Assis teria para nós nos dias de hoje?

E quanto aos frades da primeira ordem? Onde está o hábito? Francisco prezava tanto pelo hábito! Francisco fazia questão de que os frades se vestissem de forma penitencial. E o que os frades vestem hoje? Alguns com roupa social, outros mais jovens de jeans e camiseta e somente quando há algum evento especial ou a festa do padroeiro é que usam o hábito. Literalmente perderam o hábito. E o próprio hábito quando é usado, também já não é o mesmo. Um tecido macio, leve, suave, gostoso de usar, que é colocado por cima de outra roupa. Por baixo, roupa normal, calça e camisa, por cima o hábito bonito, todo engomadinho. O pobrezinho de Assis disse: “Ainda vai haver tamanho relaxamento no fervor, e um domínio tão grande da tibieza, que filhos do pobre pai não vão se envergonhar de usar até púrpura, cuidando apenas de mudar a cor”. Só o que restou do hábito foi a cor marrom? Não me admiro se daqui uns anos nem a cor se preserve e tenhamos hábitos multicoloridos.

É inquestionável o fato de que os religiosos tem a obrigação de usar o hábito e os padres seculares, a batina. Isso nunca foi revogado. Nunca! Calça e camisa não é roupa do dia a dia para um religioso, a roupa do dia a dia é o hábito! Quem não se lembra dos frades de outrora que andavam de bicicleta e hábito, não é mesmo? A cavalo, e hábito. Jogavam uma partida de futebol, logicamente usando o hábito. Não tiravam o hábito pra nada. Padre Pio não queria tirar o hábito nem pra fazer exames médicos, pois dizia que sem ele se sentia nu.

Mas para celebrar a eucaristia por cima do hábito deve ir alva, estola e por fim a casula. Outro absurdo não raro hoje em dia entre os frades menores está no fato de muitos deles celebrarem a missa de hábito e estola. Isto está errado! O hábito é a roupa do dia a dia, para celebrar a missa é necessário se paramentar. Não apenas jogar uma estola por cima do hábito, mas sim, colocar a alva, a estola e a casula. Casula não é opcional. É obrigatória, embora tantos padres não usem.

Alguns frades usam como desculpa esfarrapada para não usar a casula, a ideia de que São Francisco não queria luxo, pedia deles a vida de pobreza. Que absurdo! Francisco era super zeloso com a eucaristia e para Deus sempre dava o melhor. Casulas enfeitadas, ricas, feitas de tecido nobre para a missa, são para a missa e não para os frades. São para o Santo Sacrifício de Jesus no calvário, no altar da cruz. Portanto para Jesus o melhor! Mas para o dia a dia do frade, hábito e no caso do padre diocesano, batina. A batina é o como uma mortalha. Negra. Simboliza que o padre morreu para o mundo.

Hoje em dia ao andarmos pelas ruas não tem como reconhecer um padre, pois estão misturados entre o povo, de jeans e camiseta como se fossem pessoas comuns. Mas não o são! São sacerdotes a serviço do Deus altíssimo. Não são definitivamente funcionários da paróquia, mas homens consagrados a Deus. Quantas vezes fui beijar a mão ungida de um padre e ele puxou para que eu não a beijasse? Deixem de ser arrogantes! O povo não beija a tua mão por causa da tua pessoa, mas por causa da pessoa de Cristo de quem você é servo aqui nesta terra.

Os sacerdócios são diferentes. Não tem como colocar num mesmo patamar o sacerdócio ministerial e o sacerdócio batismal do leigo. Mas algumas coisas ficaram confusas principalmente após o concílio vaticano II. Após o concílio, mas não por culpa do concílio, que fique bem claro. Os textos do concílio não dizem a mesma coisa que dizem os modernistas que acreditam conhecer o verdadeiro “espírito” do concílio. Na missa tridentina, só pra dar um exemplo, o sacerdote dizia: “Orai irmãos para que o meu e o vosso sacrifício sejam aceitos por Deus Pai todo poderoso”. O meu e o vosso, mostrando aí uma distinção bem clara entre o sacrifício do padre e o sacrifício do povo. Depois do vaticano II com a reforma litúrgica, o missal de Paulo VI diz: “Orai irmãos e irmãs para que nosso sacrifício…”, nosso sacrifício, entendeu? Como se fosse um único, igual, mas não é.

Por que há tanta indiferença religiosa hoje em dia? Por que há tanto relativismo religioso? Por que tantas pessoas abandonam a Igreja? Por que tantas pessoas não confiam mais nos padres?

Já dizia São Francisco: “Há um contrato entre o mundo e os frades: os frades dão bom exemplo ao mundo e o mundo provê suas necessidades. Quando forem infiéis e deixarem de dar bom exemplo, o mundo retirará sua mão, em justa repreensão”.

Que possamos refletir.

Que assim seja.

Amém.

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