Como tratar os escrúpulos?

1. Que é a escrupulosidade?

1. Etimologicamente, o termo «escrúpulo» se deriva do latim «scrupuls», pedrinha pontiaguda que, entrando do calçado de alguém, muito perturba o andar. A forma neutra do vocábulo, «scrupulum» designava entre os romanos uma unidade de peso equivalente a cerca de uma grama.

Aplicado ao setor da Moral cristã, o termo «escrúpulo» significa naturalmente um entrave ao progresso espiritual. Mais exatamente: significa uma disposição da alma que lhe faz crer sem motivo adequado, haja pecado onde de fato não o há. A alma, acometida de escrúpulos, se vê obcecada pelo temor de pecar; em consequência, não ousa decidir-se à ação no momento devido, e vive em contínua angústia, considerando os males que pretensamente cometeu no passado e as crises que o futuro lhe parece reservar.

Em outros termos: o escrúpulo de consciência é uma modalidade do que a Psicologia moderna chama «obsessão», modalidade, porém, que só pode ser devidamente entendida e tratada por quem admita a ordem sobrenatural e o pecado no sentido cristão.

Em vista de maior precisão, duas distinções se impõem:

— Consciência escrupulosa não é consciência delicada. Esta sabe delimitar devidamente os pecados e a sua gravidade; observa a diferença exata entre falta e imperfeição; por isto pode empregar os meios oportunos para evitar até mesmo os mínimos desvios, sem perder a paz. Ao contrário, a consciência escrupulosa está incapacitada de avaliar adequadamente o que é pecado.

— Distinga-se outrossim a ideia obsessiva que causa o escrúpulo, da ideia fixa. Ideia fixa vem a ser uma noção que paira sempre ante a mente do individuo, de tal modo, porém, que este a acaricia e cultiva, porque condiz com suas tendências espontâneas (não raro megalomaníacas); assim a ideia fixa de ter importante missão a realizar em tal região da terra…, a ideia fixa de ser Pitágoras ou Alexandre Magno redivivo, etc. — Ao contrário, a ideia obsessiva é aquela que sempre volta à mente do sujeito, mas que este reconhece como estranha à sua personalidade e intrusa ao seu pensamento, de modo a lutar contra ela, sem contudo poder livrar-se da sua perspectiva; daí resultam naturalmente temor e angústia na alma. Uma das ideias obsessivas mais comuns e funestas é a de haver ofendido a Deus por ações ou omissões, principalmente por pensamentos e, consequentemente, haver merecido o justo castigo do Senhor. Na alma escrupulosa o juízo da razão assegura que ela não pecou; contudo a pessoa não tem a coragem de confiar nesse juízo; a emotividade ou o temor sensível nela prepondera.

2. O estado de alma escrupulosa se pode reconhecer mediante alguns sintomas característicos:

a) insegurança de alvitre. A pessoa escrupulosa julga nunca poder chegar à certeza em questões de moral; por isto dificilmente toma algum alvitre, e mais dificilmente mantém alvitre tomado;

b) impermeabilidade ao juízo alheio. A atmosfera de incerteza em que a alma escrupulosa versa, torna-a mais ou menos impermeável aos pareceres de outras pessoas, mesmo que ela lhes reconheça grande autoridade.

Assim o escrupuloso, depois de ouvir a sentença tranquilizadora de algum sacerdote ou conselheiro, procura esquivar-se à mesma, alegando não haver relatado suficientemente o seu caso, ou não haver sido devidamente entendido pelo conselheiro, ou não haver compreendido com lucidez o teor do conselho… Em consequência, a pessoa escrupulosa ou tenta relatar de novo a «história» ao seu interlocutor ou vai consultar a outros, com esperança de encontrar finalmente «a sentença acertada»… Passando, porém, de sacerdote a sacerdote ou de conselheiro a conselheiro, o escrupuloso arrisca-se a cair em estado de perplexidade ainda maior, pois é de crer que ouça pareceres diversos pelo fato mesmo de que nem todos o conhecem de modo a julgar adequadamente o seu caso;

c) inquietude quanto à integridade da confissão sacramental. O escrupuloso receia não ter manifestado todos os pormenores característicos do seu pecado; por isto deseja renovar acusações sacramentais já validamente efetuadas. Também costuma indicar cifras exageradas e inverossímeis, ao enunciar quantas vezes pecou. Interroga, sem acabar, o seu confessor a respeito do que este lhe tenha mandado ou sugerido fazer… Tendo-se confessado no sábado à tarde, deseja voltar à confissão no domingo de manhã para comungar;

d) recurso a sinais nervosos. Intencionando resistir de maneira bem concreta ao que eles julgam ser tentação, muitos escrupulosos realizam gestos descontrolados, fazem caretas e tomam atitudes de corpo assaz estranhas. Tendem a repetir as mesmas orações, julgando-as inválidas por falta de atenção; entregam-se assim a uma tensão física mais ou menos doentia.

Um dos sinais mais característicos a que não raro recorrem as pessoas escrupulosas é a «loção das suas mãos», ou, mais largamente, o culto constante do asseio do corpo, atitude mediante a qual professam o seu desejo de pureza de alma.

Conta-se o caso de uma mulher que tinha a preocupação exagerada da limpeza. Seu marido queixava-se de que ela lhe tornava a vida quase insuportável por exigir o mais rigoroso asseio para ela, suas vestes, seus filhos e o domicilio inteiro; trajava-se da maneira mais imaculada possível, desprezando todas as mulheres que não compartilhassem seus austeros princípios, que ela chamava simplesmente seus «bons modos».

Ora em vista dessa obsessão foi submetida a exame psíquico, dando então a saber que, durante cinco anos de vida conjugal, tivera relações extramatrimoniais. Havia cedido a esse vício, depois de receber em sua adolescência uma educação muito severa; tinham-lhe dito frequentemente que os abusos sexuais não convinham a donzelas de sua categoria, pois eram o apanágio das pessoas «sujas». Destarte acostumara-se a associar em sua mente as ideias de desordem-carnal e imundície física. Em consequência, tal pessoa, vindo em época posterior a se entregar ao pecado da carne, passara a sentir os protestos de sua consciência, protestos que se traduziam pelo desejo espontâneo e cada vez mais imperioso de limpeza física. Tal desejo exigente nela permanecia mesmo depois de haver abandonado o vício, em sinal de arrependimento e remorso de alma (cf. Vanderveldt-Odenwald, Psychiatrie et CatholiciKme. Paris 1954, 474).

3. Os autores de espiritualidade costumam afirmar ser assaz elevado o número de pessoas vítimas dos escrúpulos de consciência.

Embora as estatísticas nem sempre forneçam uma imagem fiel da realidade, pode-se citar o seguinte resultado de inquérito: 400 estudantes de um instituto dos EE. UU. da América, todas norte-americanas, mas de classes sociais diversas, foram oportunamente questionadas sobre o assunto; em resultado, apurou-se que 25 % se sentiam habitualmente afetadas de escrúpulos, ao passo que cerca de 50 % eram vítimas de crises passageiras (cf. J. Mullen, Psychological Factors in the Pastoral Treatment of Scrupules. Washington 1927 29s).

Esboçada a natureza da escrupulosidade de consciência, faz-se agora mister indagar sumariamente quais seriam as raízes de tal estado de alma.

2. As causas de escrúpulos de consciência

Podem ser agrupadas sob alguns títulos, abaixo recenseados:

a) Causas de ordem fisiológica ou somática: entendem-se nesta categoria, primeiramente, os estados de saúde física debilitada, em consequência de excesso de trabalho, nutrição insuficiente, perturbações digestivas, moléstia prolongada, jejum, vigílias e outras austeridades físicas não regradas pela virtude da prudência. Em tais circunstâncias, a pessoa se sente como que de antemão derrotada diante dos embates da vida; carece da energia necessária para considerar serenamente as situações e tomar resoluções adequadas. A mesma debilidade pode ser acarretada por falta de recreios honestos, que permitam ao individuo mudar de ideias, desfazendo-se de preocupações que podem tomar proporções obsessivas.

b) Causas de ordem psíquica. Tenham-se em vista principalmente

— os temperamentos melancólicos, dados à suspeita e à tristeza;

— os temperamentos meticulosos, sempre prontos a descobrir razões de duvidar, sempre desejosos de possuir certeza absoluta, mesmo ao se tratar de causas contingentes;

— o infantilismo e a imaturidade de juízo. Em não poucos casos, a consciência do adulto escrupuloso ficou no nível que tinha quando era criança; consequentemente, incapacitado de formar seus juízos, o escrupuloso vê-se impelido a procurar a tutela ou a autoridade de outros para regrar a sua vida.

— c) Causas de ordem moral. Enumeram-se aqui a fuga de uma situação desagradável… É o que se dá quando alguém, não tendo coragem para emendar algum costume de vida irregular, procura esquecer tal problema concentrando toda a sua atenção sobre outros pontos de sua conduta que absolutamente não merecem tanto cuidado; têm-se então os «escrúpulos de compensação», de que já se tratou em «P. R.» 40/1961, qu. 6;

— o egocentrismo, a vaidade, o desejo quiçá inconsciente de chamar a atenção para si. Há, com efeito, pessoas que não manifestam a mais pálida aspiração a se ver livres dos seus escrúpulos; ao contrário, parecem apegadas à sua situação, como que contentes por merecerem a atenção de diretores espirituais e médicos. Tais pessoas são, de um lado, as que mais procuram conselheiros e guias e, de outro lado, as que menos prontas estão a submeter-se ao arbítrio alheio. Alguns autores chegam a crer que a mor parte dos casos de escrúpulos se deve a um lastro de orgulho e espírito de reivindicação latentes na pessoa afetada. Esta opinião, porém, parece exagerar, visto que elevado número de escrupulosos se ressente realmente da insuficiência de discernimento, sem que se possa asseverar haja nisto alguma ponta de vaidade ou orgulho;

faltas graves cometidas na vida passada. Pode acontecer que alguém, após longo período de vida desregrada, se emende definitivamente, mas não consiga desvencilhar-se de obsessiva recordação das suas culpas anteriores; revolve-as constantemente em seu espírito, deixando de dar a devida atenção às ocupações da hora presente.

d) Causas extrínsecas. Entre estas, devem ser citadas

— as falhas de educação. Afagos e mimos demasiados facilmente provocam na adolescência uma atitude de insegurança, que pode vir a ser a raiz de escrupulosidade. O mesmo se diga de uma disciplina excessivamente rigorosa, inspirada por normas morais estreitas e pessimistas; tal regime só faz onerar e amedrontar, além do necessário, a consciência dos jovens;

— a convivência com pessoas escrupulosas e a leitura de obras que desfigurem a ideia de Deus Pai Misericordioso, sobrepondo-Lhe a de um terrível Juiz, são outros tantos fomentos de escrúpulos.

e) Por fim, não se poderia deixar de aludir à ação do demônio em certos casos de escrúpulos (não se creia, porém, que são muito numerosos).

O Maligno tem todo o interesse em paralisar o progresso espiritual dos fiéis, provocando neles a confusão característica da escrupulosidade. O Senhor permite a ação do demônio visando com isto o bem das almas; com efeito, uma crise de escrúpulos pode ser ocasião providencial para que o cristão pratique as virtudes da humildade e da obediência,… para que aguce em si o horror ao pecado e forme a sua consciência dentro dos moldes da delicadeza, que é penhor de santificação crescente. Aliás, provocada ou não pelo demônio, toda crise de escrúpulos é sempre acompanhada pela graça de Deus, que fornece à alma o auxilio necessário para que tire da sua provação todo o proveito espiritual (purificação, acrisolamento das virtudes); deve-se mesmo dizer que é sempre em vista desse enriquecimento espiritual que Deus permite sejam as almas acometidas de escrúpulos.

3. Os estudiosos costumam indicar algumas notas que desde cedo caracterizam as pessoas predispostas à escrupulosidade.

Ei-Ias em resumo: já em idade infantil, manifestam tendência a manias e «tiques» nervosos; têm pavor de estar sós e mostram-se muito sensíveis a repreensões. Com o decorrer do tempo, revelam dificuldade para tomar alvitre na vida; visando então obter luz e certeza para suas opções, dão-se mais e mais à introspecção ou à reflexão sobre si mesmas — o que não pode deixar de deformar progressivamente a sua mentalidade, sujeitando-a paulatinamente a verdadeira obsessão.

Adotando-se oportunas medidas na educação, pode-se impedir que a tendência aos escrúpulos prevaleça nas almas inclinadas a eles; evitam-se assim crises penosas. Essa preservação requer cuidado zeloso por parte dos educadores.

Como meios eficazes de profilaxia, recomendam-se regime de vida higiênica, em que oportunamente se ministra um tônico do sistema nervoso, assim como os demais tratamentos médicos de que possa necessitar o paciente; formação moral muito sólida, baseada em visão larga e profunda da vida espiritual mais do que em ameaças aterradoras; combate ao isolacionismo e à demasiada introspecção do adolescente.

A psicoterapia poderá ser útil se for orientada por um médico respeitoso dos valores sobrenaturais.

Dado, porém, que, alguém se torne vítima de escrupulosidade, quais as medidas a tomar?

É o que o parágrafo abaixo considerará.

3. Remediar! E como?

1. Tenha-se consciência de que a escrupulosidade, apesar da sua semelhança com delicadeza de alma, é um mal a ser energicamente combatido. A energia será tanto mais necessária no caso quanto mais puros ou santos forem os aspectos sob os quais se poderá encobrir o veneno da escrupulosidade.

A fim de avivar a consciência dos perigos em que incorre uma pessoa escrupulosa, vão aqui apontados alguns dos nocivos efeitos de que pode vir a ser vítima.

No plano físico, os escrupulosos debilitam mais e mais o sistema nervoso e a saúde física, chegando a ocasionar neurastenia crônica e outras moléstias.

No plano psíquico e religioso, os escrúpulos podem tornar a pessoa vítima de manias em grau mais ou menos próximo do ridículo. Fecham o coração no egocentrismo, com prejuízo para a caridade fraterna. Julgando estar em pecado grave e, por conseguinte, condenado por Deus, o escrupuloso facilmente perde a coragem na vida assim como a confiança no Senhor, que ele mais e mais tende a considerar como juiz excessivamente severo. A oração se lhe torna cada vez mais difícil, absorvido que está por suas preocupações subjetivas; não reconhecendo mais em Deus a face do Pai misericordioso, insensivelmente perde o gosto da oração assim como o da recepção dos sacramentos da Penitência e da Eucaristia.

Também acontece que o escrupuloso, dando atenção exagerada a coisas que não a merecem, perca tempo em «resolver» pseudoproblemas, deixe de cumprir importantes deveres de estado e negligencie o verdadeiro serviço de Deus. Compreende-se outrossim que, vítima de desatinos, a pessoa escrupulosa se ponha a viver uma vida de contrastes: hoje submete-se a rigorosas práticas de mortificação, prestes a ir procurar amanhã um desafogo na licenciosidade e no gozo de prazeres ilícitos. A noção do bem assim se obscurece na sua mente e a vida cristã se lhe torna impossível.

2. Será preciso, pois, reagir sem demora contra as primeiras manifestações da escrupulosidade; em vista disto, os mestres enumeram uma série de diretivas oportunas.

Distinguiremos abaixo entre diretivas cuja aplicação depende do paciente e do seu diretor conjuntamente, e diretivas que dizem respeito ao diretor espiritual apenas.

A. Normas cuja aplicação depende tanto do paciente como do diretor de consciência.

1) O paciente deve chegar a reconhecer que é escrupuloso e que o escrúpulo é um grande mal; enquanto não esteja convicto dessas verdades, qualquer tratamento torna-se vão.

2) oração é arma capital no combate a qualquer mal. Acontece, porém, frequentemente que o escrupuloso deva reaprender a rezar, restaurando em si uma atitude de piedade filial para com o Pai das Misericórdias e de confiança no Redentor; terá que vencer, portanto, o afastamento em relação a Deus que a obsessão angustiosa do juízo final lhe possa ter ocasionado. Nessa tarefa, poderão e deverão ser úteis ao paciente o seu diretor espiritual e os seus amigos, dando-lhe esclarecimentos e conselhos.

Na oração, o escrupuloso pedirá amor a Deus e paciência na provação, força na luta e libertação da obsessão.

3) Após a prece, o remédio por excelência vem a ser a obediência total a um diretor espiritual prudente e esclarecido. Sem obediência, e obediência absoluta, pode-se crer que o paciente jamais conseguirá libertar-se do seu mal.

Por isto, uma vez escolhido o respectivo guia de consciência, o escrupuloso, por pretexto nenhum, deve trocá-lo; caso tenha que se afastar dele por motivo de viagem, confesse-se com outro sacerdote, mas permaneça fiel às instruções do antigo diretor espiritual. Dado que o escrupuloso recuse obediência integral, o diretor está habilitado a lhe dizer que não o pode dirigir.

4) O escrupuloso deve aos poucos habituar-se a desprezar os escrúpulos. Saiba que uma das melhores táticas para vencer as suas angústias é a de não lhes dar importância; por conseguinte, em vez de se agitar diante de alguma tentação, como se tivesse de enfrentar um adversário real e perigoso, conserve sua superioridade serena e indiferente. Principalmente não se entregue a gestos, contorções e atitudes estranhas, visando simbolizar a sua resistência à tentação. Tais gestos não estão à altura de gerar a almejada certeza e paz na alma, pois com o tempo esta já não se contenta com um, dois, três gestos, mas tende a multiplicá-los indefinidamente, podendo assim chegar às raias da demência.

Concretizando as ideias acima, diremos: uma pessoa escrupulosa, tentada por pensamentos contra a fé não reaja diretamente pronunciando mentalmente um ato de fé, pois com isto só contribuiria para aumentar as tentações e os escrúpulos… O que ela deve fazer é simplesmente desprezar o pensamento, lembrando-se de que este só se torna pecado, caso haja consentimento, e consentimento certamente dado. Em geral, tais tentações não são em si coisa grave, mas reduzem-se a atos de imaginação sem grande importância.

O desprezo dos escrúpulos assim recomendado implica um conjunto de pequenas normas práticas, que vão abaixo enunciadas:

a) Ao agir, para formar a sua consciência, a pessoa escrupulosa valer-se-á do seguinte princípio: «Enquanto eu não vir, como dois e dois são quatro, que tal ação é pecaminosa, poderei praticá-la ou… que tal omissão é pecaminosa, poderei abster-me».

Em outros termos: o escrupuloso seguirá o axioma : «Lex dúbia, lex nulla», isto é, «A lei duvidosa não obriga». Esta norma, que se poderia, sem mais, recomendar às pessoas de consciência laxa, há de ser inculcada aos escrupulosos.

Se, depois de agir conforme tal regra, o escrupuloso começar a suspeitar de haver cometido pecado grave, não julgue ter realmente pecado, a não ser que isto se lhe incuta tão evidentemente como a proposição «dois e dois são quatro».

b) Eis outra norma valiosa para formar a consciência da pessoa escrupulosa que esteja obrigada a tomar alguma atitude. Pergunte a si mesma: «Que diria eu a quem se visse na situação embaraçosa em que me acho?». A resposta à pergunta proposta de maneira tão objetiva talvez aflore sem grande dificuldade à mente do escrupuloso. Dado que resolva o caso assim formulado, não hesite em seguir praticamente tal solução.

c) O paciente não deverá esperar entrar finalmente em paz mediante capitulação, isto é, cedendo, «ao menos desta vez,… pela última vez», aos escrúpulos. Será ilusória a paz assim conseguida, pois sem demora a pessoa verá outro motivo de angústia, que lhe parecerá tanto mais grave quanta mais fraca ela se tiver mostrado anteriormente.

d) Abstenha-se o escrupuloso de repetir atos que lhe pareçam inválidos, mesmo quando se tratar de atos gravemente preceituados. Repetindo-os, o paciente, longe de solucionar sua angústia, entrará num verdadeiro labirinto, pois constantemente verá falhas nos atos repetidos, falhas tanto mais graves quanto mais ele se for cansando pela multiplicação.

Em particular, no tocante à confissão de seus pecados, o escrupuloso tende a multiplicar as mesmas acusações, julgando não se ter feito, compreender devidamente nas confissões anteriores. Resista, porém, energicamente a tal propensão, pelos motivos indicados. O confessor, do seu lado, ajudará o paciente a relutar, replicando-lhe o seguinte:

«Concordo em ouvir a acusação de pecados de tua vida passada desde que, em presença de Deus, me possas afirmar estes três pontos:

– tens certeza de haver cometido tais pecados;

– cometendo-os, tinhas certeza de estar praticando pecados mortais;

– nunca acusaste tais pecados em confissão sacramental».

Caso o penitente titubeie a respeito de algum desses itens, o confessor deverá tranquilamente proibir-lhe a acusação.

Note-se bem: o penitente não deve julgar ter sido pecado grave uma ação que não lhe tenha parecido tal desde que ele a cometeu ou uma ação que só tardiamente ele imagina haver sido grave. Na verdade, o pecado grave só é tal quando cometido com pleno conhecimento de causa, conhecimento que não pode deixar de suscitar imediatamente perturbação na alma do pecador.

5) O escrupuloso procurará debelar tudo que possa ser fonte ou fomento de melancolia em sua vida (leituras demasiado severas, convivência com pessoas escrupulosas…)

Esforce-se por ter um horário em que trabalho e recreio estejam devidamente equilibrados.

Com outras palavras: trabalhe de maneira metódica, de modo a evitar atropelos e imprevistos, que agitam os nervos e podem levar à exaustão; na medida do cabível, proporcione ao organismo a restauração de suas forças. — Doutro lado, todo tipo de ociosidade há de ser evitado, pois vem a ser fonte de tédio, tédio que proporciona o surto de angústias; o trabalho regrado entretém a alegria de viver.

6) Em muitos casos, será oportuno que o paciente consulte um médico ou um psiquiatra, de consciência bem formada, e siga fielmente a orientação que tal especialista lhe der.

B. Normas que dizem respeito ao diretor apenas.

O diretor de consciência a quem uma pessoa escrupulosa se chegue, pedindo orientação, procurará levar em conta algumas regras de sabedoria, que os mestres costumam assim delinear:

1) Esforce-se, antes do mais, por ganhar a confiança do consulente; e isto, mediante duas atitudes:

— mostre dedicação, sendo paciente para ouvir histórias e explicações, e respondendo com brandura, sem, porém, permitir desobediência;

— dê provas de segurança e competência.

Depois de deixar o paciente falar, o diretor não deve repetir o relato, pois a pessoa escrupulosa poderia encontrar meios de dizer que não foi exatamente assim,… e recomeçaria toda a sua exposição…

As questões formuladas pelo diretor serão simples e claras, não se detendo em pormenores que não mereçam grande atenção.

A fisionomia do pai espiritual se conservará firme e calma. Isto não poderá deixar de redundar em alívio e paz para o paciente.

2) Tendo ganho a confiança da pessoa escrupulosa, o diretor tratará de obter a sua obediência.

Em vista disto, incutirá ao paciente o principio de que só a obediência o poderá curar; acentuará bem que o escrupuloso sempre poderá obedecer com a consciência tranquila, mesmo que o diretor esteja errado, pois Deus pede do escrupuloso uma só atitude: a obediência.

As ordens deverão ser breves, claras e categóricas, evitando qualquer frase condicionada («se isso te perturba…») ou qualquer tipo de hesitação («parece…, melhor seria…, provavelmente…»). O diretor espiritual não precisará de apresentar os motivos de suas normas, pois o paciente poderia querer discuti-los, o que seria vão ou mesmo nocivo. O diretor ponderará previamente as normas a dar, de modo a não ter que se desdizer; a desdita redundaria em detrimento da autoridade. Por fim, o pai espiritual procurará certificar-se de que suas diretivas foram devidamente-observadas; em mais de um caso, terá que repetir várias vezes a mesma prescrição; deverá mesmo entregá-la por escrito para que finalmente venha a ser cumprida (diz-se que, no momento de obedecer, o escrupuloso tende a recuar como o condenado diante do suplício).

3) Em particular, no tocante à confissão sacramental, lembre-se o sacerdote de que existem os chamados «privilégios dos escrupulosos». Do seu lado, o penitente deverá ter consciência de que o uso desses privilégios não lhe é apenas facultativo, mas chega a ser obrigatório, desde que o confessor o imponha. Tais privilégios dizem respeito à integridade material da confissão. Assim, a juízo do confessor, o penitente deverá reduzir seu exame de consciência a poucos minutos ou mesmo emiti-lo; o sacerdote encarregar-se-á então de interrogar no confessionário. Em outros casos, o escrupuloso limitar-se-á a acusar dois ou três pecados certamente cometidos e de maior importância, abstendo-se em geral de relatar pormenores; de resto, tratará de excitar contrição e propósito, principalmente a respeito das faltas mais notáveis da vida passada.

A satisfação imposta pelo confessor deverá ser leve e fácil.

Quanto à periodicidade da penitência sacramental, o sacerdote tomará como norma não permitir mais de uma confissão por semana; caso o penitente volte após intervalo mais breve sem ter cometido evidente pecado mortal, o confessor apenas lhe dará a bênção, recomendando-lhe que faça um ato de contrição e continue tranquilamente a comungar.

4) Por fim, o sacerdote estimará a colaboração do médico, sempre que for oportuna. Em geral, a ação conjunta do padre e do clinico dá ótimos resultados; a fim de que estes frutos sejam realmente obtidos, requer-se consonância nas respostas e nas diretivas de um e de outro.

Assim ficam delineados os principais remédios (sobrenaturais e naturais) a serem utilizados para a cura dos escrúpulos de consciência. Devidamente aplicados, tais recursos podem restituir paz e alegria às almas.

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  • João Paulo

    Acho que tenho esses “escrúpulos da consciência” eu pequei no passado depois de aceitar a Cristo, e toda vez que passa uma tentação sobre aquele pecado eu começo a ficar com medo de ter cometido já um pecado. Tbm tenho medo de ser tarde de mais, tenho medo de ter ficado incrédulo e eu fico tão assustado que minha mente cria problemas que eu mesmo faço, eu não quero criar os problemas mas quando eu penso neles, eles voltam e ficam na minha mente. Tipo eu penso: “e se eu duvidar sem querer ou eu tenho medo de duvidar” minha mente fica duvidando toda vez que vou rezar ou fazer algo que envolva Deus. Toda vez que isso passa na minha cabeça sinto o vazio dentro de mim almentado e eu perdendo o entendimento sobre as coisas espirituais. Eu estou muito bagunçado…