Qual a real necessidade do Purgatório?

A Sagrada Escritura ensina que o homem foi chamado a ver a Deus face a face (cf. Mt 5,8; 1 Cor 13,1 ls; 1 Jo 3,1-3).

E’ claro, porém, que só pede conseguir tal fim o indivíduo que, na hora de comparecer finalmente diante do Senhor, esteja livre de qualquer tendência desregrada, incompatível com Deus, que é a Verdade e o Amor subsistentes.

Ora mesmo os homens virtuosos não raro terminam seus dias trazendo na consciência pequenas faltas e, no íntimo de sua natureza, inclinações mais ou menos desregradas (culpadas, porque não suficientemente combatidas).

Em tais condições, a criatura evidentemente não é o receptáculo ao qual Deus se possa comunicar num consórcio pleno; é ontològicamente impossível a conciliação do impuro com o Puro.

Em vista disto, Deus, que não quer rejeitar a sua criatura, lhe proporciona a ocasião póstuma de se habilitar à plena comunhão com o Senhor; tal é o purgatório, favor gratuito e misericordioso do Criador.

E como se dá esta purificação?

A pena primária do purgatório é a chamada pena de dilação. A vida terrestre constitui o período normal em que o homem se deve preparar para ver a Deus face a face; terminada a peregrinação neste mundo, a criatura deveria, segundo a ordem reta das coisas, entrar imediatamente no gozo do seu Senhor. Ora a alma que, ao deixar o corpo, verifique não estar habilitada a isto por causa de sua negligência em combater as imperfeições, não pode deixar de experimentar profunda dor por tal motivo; chegou-lhe o tempo de se encontrar diretamente com o Divino Amigo, e eis que ela ainda não pode sustentar a visão imediata desse Amigo! Separada do corpo, a alma compreende muito melhor o valor imenso da visão de Deus face a face, assim como a hediondez que há em todo pecado, em toda leviandade. Em consequência, ela experimenta espontaneamente a necessidade de se purificar, repudia as suas desordens com generosidade nova; separa-se de seu amor próprio para se identificar com a justiça de Deus, sofrendo a dilaceração e a dor daí consequentes. Esta dor vai mais e mais penetrando a alma, libertando-a de todo o egoísmo que o pecado e as más inclinações implicam; figuradamente dir-se-ia: vai raspando, até a mais profunda camada, toda a ferrugem que adere às faculdades da criatura. As almas, portanto, sofrem o seu purgatório voluntariamente: sequiosas de ver a Deus, não são menos sequiosas de se purificar em oportuno estágio.

Além da pena da dilação, que é espiritual, há no purgatório uma pena física, que se costuma chamar o castigo do fogo. Não se poderia dizer precisamente em que consista (nem é este o aspecto do purgatório que mais mereça nossa atenção). Não se pense em fogo igual ao deste mundo. Provavelmente, trata-se de um estímulo físico que, por permissão de Deus, age sobre a alma impedindo-lhe o uso das faculdades — inteligência e vontade — tal como ela o quisera; esta coibição, partindo de uma criatura material, tem também o caráter de humilhação para o espírito humano.

Os fundamentos bíblicos da doutrina

A existência do purgatório decorre logicamente das afirmações bíblicas segundo as quais Deus exige do homem a expiação pessoal de faltas cometidas. Com efeito, lê-se em mais de uma passagem da Sagrada Escritura que o Senhor, mesmo depois de perdoar a culpa do pecador, ainda lhe pediu reparasse a ordem violada. Note-se que tal satisfação não era, nem é, algo que Deus imponha arbitrariamente: já que todo pecado consiste na ruptura, mais ou menos violenta, da ordem reta das coisas, ele não pode ser cancelado, caso não se dê a restauração da harmonia por ele burlada. Eis os exemplos bíblicos mais significativos:

Adão foi certamente tirado ou absolvido do seu pecado (cf. Sab 10,2); não obstante, o Criador o quis submeter a graves penas até o fim da vida (cf. Gên. 3,17s);

Moisés e Aarão cederam à pouca fé em dado momento de sua vida; por isto viram-se pelo Senhor privados de entrar na Terra Prometida, embora não haja dúvida de que a culpa lhes tenha sido perdoada (cf. Núm 20,12s; 27,12-14; Dt 34,4s);

Davi, culpado de homicídio e adultério, foi agraciado ao reconhecer o delito; não obstante, teve que sofrer a pena de perder o filho do adultério (cf. 2 Sam 12,13s).

Em outros textos, o perdão é estritamente ligado com obras de expiação; cf. Tob 4,11s; Dan 4,24; Jl 2,12s.

Além destas passagens, que manifestam o princípio geral segundo o qual Deus cancela o pecado, costumam-se citar outros trechos diretamente alusivos ao purgatório:

2 Mac. 12,39-46: Judas Macabeu (+160 a.C.) descobriu, debaixo das túnicas de seus soldados falecidos, pequenos ídolos, objetos impuros dos quais se haviam apoderado no saque de Jâmnia. Em consequência, considerou a morte de seus homens como castigo que Deus lhes infligira. Não obstante, Judas, tendo verificado que os prevaricadores haviam “morrido piedosamente” (v. 45) (supunha, por conseguinte, se houvessem arrependido de seus pecados), mandou arrecadar esmolas a fim de se oferecer pelos defuntos um sacrifício expiatório; julgava, pois, que lhes ficavam aderências da culpa, mesmo depois de haverem obtido o perdão e terem passado para outra vida; acreditava outrossim que seriam purificados de tais resquícios e conseguiriam finalmente “a bela recompensa” (vers. 45), se os vivos, por seus sufrágios, os ajudassem a prestar expiação.

Mt 5,25 (cf. Lc 12,58s): Jesus recomenda aos seus discípulos, percorram a caminhada desta vida em boa paz com os irmãos; em caso contrário, finda a peregrinação terrestre, terão que responder ao Juiz Supremo, que lhes imporá duro castigo — duro castigo, porém, do qual serão libertados depois de satisfazer à Justiça.

1 Cor 3,10-16: São Paulo distingue entre operários que no reino de Deus trabalham zelosamente, produzindo a melhor obra de que são capazes, e outros que, sem deixar de trabalhar, se mostram negligentes. Diz que os primeiros, no dia do juízo, nada terão a temer, ao passo que os outros (tipo dos homens que servem a Deus com as tibiezas do pecado venial) se salvarão, mas após haver experimentado dores e penas devidas à sua conduta imperfeita. Embora o Apóstolo, como Jesus em Mt 5,25s, se sirva de expressões figuradas, percebe-se com clareza, suficiente que sob as metáforas de Mt 5,25s e 1 Cor 3,10-15 estão contidas as idéias que definem a doutrina do purgatório.

Vê-se destarte que o purgatório, longe de ser invenção humana, é expressão da santidade e da misericórdia de Deus, que, mesmo fora do tempo normal, conciliando justiça e bondade, sabe outorgar à criatura os meios de O possuir eternamente.

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