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A Encarnação. Paixão e Morte na Cruz

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Fontes primárias

Textos de títulos idênticos no site do Opus Dei; 2. §§ 484 – 630 do Catecismo da Igreja Católica.

Na última aula falei do pecado e de como ele é fundamental para compreender a Criação tal como existe hoje. Introduzi também o segundo e o terceiro artigos do Credo, “E em Jesus Cristo, Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria“.

Falei do porquê Cristo se Encarnou, de como Ele é tanto Segunda Pessoa da Trindade, Verbo de Deus, quanto a realização em si de todas as profecias e de toda a Lei Mosaica. Ele é o Messias, aquele que veio redimir o homem e a Criação do pecado, e restaurar tudo à Graça.

Hoje, continuarei no segundo artigo do Credo. Veremos que não se pode falar da Encarnação sem se falar de Nossa Senhora, pois todas as verdades sobre ela, todos os dogmas marianos, são desenvolvimento das verdades sobre Cristo, da Cristologia.

Veremos também o que é o Mistério da Encarnação, segundo mistério central da fé, segundo Santo Tomás de Aquino, e também como Cristo redimiu o mundo: primeiro na sua vida privada, depois da sua vida pública, com sua paixão, morte e ressurreição (esta última ficará para a próxima aula).

Reitero o aviso que fiz na terceira aula: esse curso não é apologético, portanto, não me preocuparei em contrapor detalhadamente a fé da Igreja às fés protestantes e evangélicas.

Fundamento da Mariologia

§1. Deus, infinitamente perfeito e bem-aventurado em Si mesmo, num desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para o tornar participante da sua vida bem-aventurada.” Eis por que, desde sempre e em todo lugar, está perto do homem. Chama-o e ajuda-o a procurá-Lo, a conhecê-Lo e a amá-Lo com todas as suas forças. 1 Convoca todos os homens, dispersos pelo pecado, para a unidade da sua família, a Igreja. Faz isto por meio do Filho, que enviou como Redentor e Salvador, quando os tempos se cumpriram. N’Ele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo, seus filhos adotivos e, portanto, os herdeiros da sua vida bem-aventurada.

Por que falar de Maria na exposição da fé da Igreja sobre a Trindade? Ou, pode-se perguntar, o que Maria tem a ver com o conhecimento da Revelação? Por que existem dogmas marianos, mas não dogmas adâmicos, abraâmicos, davídicos? Não bastariam os dogmas sobre a Trindade?

Tendo vindo do protestantismo, sei que essas e outras perguntas podem surgir. Mais do que isso, podem ser dúvidas sinceras. Os católicos, já muito acostumados com o papel de Nossa Senhora na vida cristã podem estranhar, e até tomar essas dúvidas por puro desrespeito. É certo que, em alguns casos, é mesmo. Em outros, porém, são dúvidas oriundas do desconhecimento do ensino da Igreja.

Não há como expor e fundamentar, nessa aula, todos os dogmas marianos. Mas há como apresentar o seu fundamento teológico: que eles são, antes de tudo, sobre o próprio Cristo, que são também dogmas Cristológicos, e como é necessário compreendê- los para bem compreender a Cristo.

Em primeiro lugar, não é possível falar completamente da Trindade sem falar da Encarnação do Verbo, evento central da história humana e ponto máximo da ação de Deus na história. A Encarnação, que marca o início da vida terrena do Verbo de Deus, é o início da Redenção do mundo. Ela é o eixo da história e da Criação.

Se ela, a Trindade não pode ser propriamente compreendida, pois falta-lhe algo: a completa dimensão do Amor de Deus pelos homens e o sentido mesmo da obra trinitária, da Criação, que, sem a Encarnação, não tem como retornar para Deus, seu último e derradeiro fim.

Em segundo lugar, não há como falar da Encarnação sem falar do modo como ela aconteceu, sem falar daquela que, escolhida por Deus desde a fundação do mundo, deu carne e sangue para o Verbo de Deus. Sem esse elo, a Encarnação não é Encarnação. É geração espontânea, é criação ex nihilo.

Sem falar da Mãe de Deus, não podemos falar, propriamente, da Encarnação; sem falar da Encarnação, não podemos falar propriamente da Trindade; sem falar da Trindade, não podemos falar da Revelação, da Fé, da Igreja e da vida Cristã.

Portanto, há uma relação de necessidade real entre a Encarnação e Mãe de Deus. Essa necessidade, por sua vez, significa que as verdades sobre a Mãe de Deus são também verdades sobre a Encarnação, logo, sobre o próprio Verbo de Deus (§486).

Não se entende a vida e a obra de Cristo se, antes (ou ao mesmo tempo) não se entender a vida e a obra de Cristo em Sua Mãe. É sobre isso que falam os dogmas marianos: sobre o que Cristo fez em Nossa Senhora e o que isso significa acerca Dele. Os dogmas marianos são, no sentido estrito do termo, desenvolvimento das doutrinas sobre Cristo (§487).

Ao mesmo tempo, a obra de Cristo em Nossa Senhora é uma antecipação da obra Dele em nós. A perfeita obediência de Maria é a perfeita obediência que, pela Graça, também podemos obter; o perfeito silêncio, a perfeita fé, a perfeita esperança e o perfeito amor de Nossa Senhora são antecipações da perfeição que nós, uma vez totalmente purificados do pecado e de seus efeitos, teremos. Maria é, por isso, imagem da Igreja (§488; 494).

Quem meditar humildemente e com esse espírito sobre a relação entre Cristo e sua Mãe, chegará aos mesmos dogmas formulados pela Igreja – e quem sabe até em outras verdades mais. Dito isso, e tendo em mente o que o Catecismo ensina sobre Nossa Senhora, podemos seguir para o estudo da Encarnação.

Encarnação

Cristo encarnou no seio de Maria. Esse é o traço distintivo da fé cristã (§463). Santo Tomás diz que dois são os mistérios revelados centrais: a Santíssima Trindade e a Encarnação do Verbo de Deus. Quem não crê neles, não pode se chamar Cristão.

O estudo da Encarnação pode seguir, hoje, muitas vias. Uma é a que procede pelo estudo das heresias cristológicas, até chegar à definição dogmática do mistério. Outra é que analisa os efeitos dela sobre a compreensão da realidade nos seus mais diversos aspectos. E uma terceira é que medita sobre o que ela diz sobre a vida e a obra de Cristo, bem como o que ela diz sobre a nossa vida à luz da Dele.

O Catecismo trata das três. Tratarei aqui apenas da terceira, especificamente de dois pontos: de como, à luz da Encarnação, Cristo é um modelo a ser imitado por nós e, ao mesmo tempo, o nosso Redentor. Na verdade, as duas coisas são inseparáveis na vida cristã. Não podemos crer que Cristo nos redime e não o imitar, nem o imitaremos sem crer na redenção: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.” (Jo 14,21).

Cristo não é apenas um modelo a ser imitado – como são os filósofos, os heróis, os virtuosos etc. –, ele é O modelo a ser imitado. Por que razão? Porque ele foi o único que viveu perfeitamente (§578). O que isso quer dizer?

Quando Adão foi criado, sua vida estava em perfeito acordo com a vontade divina. Estando no estado de justiça original, tudo que ele fazia tinha como fim último servir a Deus, mesmo os atos mais materialmente irrelevantes. Quando pecou, porém, todos os seus atos, mesmo os mais ínfimos, se tornaram atos de revolta contra Deus, pois seus fins se desviaram do fim último do homem: amar e conhecer a Deus, participar da vida da trindade.

Depois de Adão, a vida de todos os homens se resumiu a tentar, dentre todas as suas ações desordenadas, ordenar uma ao bem. O grande esforço humano, auxiliado pela graça, nos legou grandes exemplos antigos, como os heróis da fé, de que fala São Paulo, os homens virtuosos e os filósofos antigos. Todos esses, porém, falharam, em última instância, no projeto de ordenar todos os aspectos das suas vidas ao Bem.

Apenas um homem teve sucesso pleno nessa empreitada: Jesus Cristo, filho de Maria. Sua vida humana, dada sua união com a sua vida divina, foi completamente ordenada a Deus. Cada momento, cada ato, cada pensamento e palavra de Cristo estavam perfeitamente ordenados ao Bem. Sua infância, sua adolescência, sua vida adulta; sua vida familiar, seu trabalho e seu ministério; tudo, tudo que Cristo fez, fez em perfeita obediência e em perfeito acordo com a vontade Divina.

Isso quer dizer que Ele mostrou, na realidade, nas nossas condições, como a vida humana pode ser vivida perfeitamente, sem nenhuma mácula, sem nenhum egoísmo, sem nenhuma vontade soberba de substituir a Deus na Ordem da Realidade. Por isso ele é o exemplo a ser imitado por nós.

Mas não só por isso. Como ensina a Igreja, a Redenção que Cristo nos trouxe não se realizou unicamente na sua morte e ressureição. A paixão de Cristo é o cume da obra de salvação, mas a ela não se resume. Cristo redimia o mundo em cada um dos seus atos perfeitos.

O que é a redenção? É, como tenho dito desde o começo, o retorno de todas as coisas para Deus, é a Participação na Natureza Divina (§460). O homem redimido é aquele que se afastou de Deus por seu pecado, mas agora foi restaurado à Graça por

Cristo. Nosso Senhor operou a redenção do mundo já quando realizada cada ato da sua vida oculta, pois lá ele já ordenava a humanidade – a sua humanidade – a Deus, ao Bem. Se, antes, todos os atos humanos eram pecaminosos – ou, mesmo se bons, ainda eram maculados –, agora os atos humanos de Cristo são sem nenhuma mancha. Cristo mostra que é possível ao homem viver retamente, viver sua vida ordinária na Graça. Que a natureza humana não é empecilho para a obediência a Deus. Que, com a Graça, o homem pode ser um outro Cristo. Menor, é certo, mas ainda um Cristo: um Cristão.

§517 – Toda a vida de Cristo é mistério de redenção. A redenção nos vem, antes de tudo, pelo sangue da cruz, porém, este mistério está em ação em toda a vida de Cristo: em sua Encarnação, pela qual, fazendo-se pobre, nos enriqueceu por sua pobreza; em sua vida oculta, que, por sua submissão, serve de reparação para nossa insubmissão; em sua palavra, que purifica seus ouvintes; em suas curas e em seus exorcismos, pelos quais ‘assumiu as nossas dores e carregou as nossas enfermidades’ (Mt 8,17); em sua ressurreição, pela qual nos justifica.

Por isso, imitar a Cristo e crer que ele é o Redentor são uma e a mesma coisa. Se ele não for o redentor, por que imitá-lo? Por que não imitar outro grande homem? Se ele é o redentor, por outro lado, como não imitá-lo? Cristo é o único mediador entre Deus e os homens, pois Ele é o único que abre o caminho para que a vida humana, maculada pelo pecado, possa, novamente, viver na Graça.

Paixão e morte: “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado.” Artigo 4º

§1. Deus, infinitamente perfeito e bem-aventurado em Si mesmo, num desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para o tornar participante da sua vida bem-aventurada.” Eis por que, desde sempre e em todo lugar, está perto do homem. Chama-o e ajuda-o a procurá-Lo, a conhecê-Lo e a amá-Lo com todas as suas forças. Convoca todos os homens, dispersos pelo pecado, para a unidade da sua família, a Igreja. Faz isto por meio do Filho, que enviou como Redentor e Salvador, quando os tempos se cumpriram. N’Ele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo, seus filhos adotivos e, portanto, os herdeiros da sua vida bem-aventurada.

Entraremos, agora, no quarto artigo do Credo: padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado.” A morte e a ressurreição de Cristo nos abriram o céu. Por quê? Porque essa realidade também precisava ser redimida. A morte, que surge como consequência do pecado humano, encontra em Cristo a sua ordenação. Se, antes, era causa de desespero – exceto para as almas mais elevadas –, agora se torna fonte de esperança, pois é a porta da vida eterna.

A redenção que Cristo é fruto do seu amor perfeito a Deus e a nós. “É o ‘amor até o fim’ que confere o valor de redenção, de reparação, de expiação, de satisfação ao sacrifício de Cristo” (§616). Cristo não substituiu nossa pena, e sim o nosso sacrifício. Essa é uma distinção fundamental.

Se Cristo tivesse substituído nossa pena, isso significaria que Ele, justo, morreu como pecador aos olhos de Deus. Mas, além da grave injustiça que é um justo ser condenado à morte, como o próprio Deus poderia portar algum pecado em si? Como Deus poderia se manchar com o pecado?

E como Deus Pai poderia se separar do seu Filho, também Deus? Isso vai diretamente contra o mistério da trindade. Como a natureza divina de Cristo poderia se separar da sua natureza humana, o que aconteceria caso essa estivesse maculada pelo pecado? Isso vai contra a Encarnação.

Cristo, na verdade, oferece-se em sacrifício perfeito perante Deus, não cumprindo nossa pena, mas abrindo o caminho da redenção pela perfeita ordenação até mesmo da morte, grande inimiga do homem.

Vencendo a morte pela ressureição, Cristo eleva sobrenaturalmente até a mais terrível e terrena das realidades, e abre, para nós, as portas do céu. Agora, podemos também, pela incorporação no seu Corpo, a Igreja, ter esperança na nossa ressureição no último dia.

Todos esses pontos ficarão mais claros no resto da exposição do Credo. Esse é o ápice, esse é o centro, o eixo, a cruz que ilumina todo o resto. A salvação só se torna inteligível se compreendermos que ela dá por participarmos do sacrifício de Cristo pela cooperação com a graça divina que recebemos.


Prof. Rafael Cronje Mateus
Dada no Centro Cultural Alvorada, no dia 05 de maio de 2021.

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