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A Existência de Deus e a Revelação

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Na aula passada, tratei da experiência fundamental da filosofia: a busca da Verdade e amizade, o amor, para com a Sabedoria. Tratei também da semelhança entre ela e a experiência do cristão no seu relacionamento com Deus. E, por último, expliquei como essa experiência revela que no homem há um desejo de Deus, desejo tal que, como diz Santo Agostinho, o homem permanece inquieto enquanto não encontra e repousa em Deus[1].

A percepção desse desejo é o ponto de partida do Catecismo (§ 27). É útil retomar algo que foi dito na aula passada: o Catecismo atual começa assim, pois no nosso tempo já não é mais sabedoria comum que todos os homens, Católicos ou não, necessitam de Deus. Meu amigo Rodrigo Couto, que estuda o pensamento político dos séculos XVIII, me disse nas últimas semanas que, ainda naquela época, os filósofos e pensadores, se não eram verdadeiros fiéis, eram, ao menos, teístas. Suas obras ainda levavam em conta a providência divina e a necessidade de remeter tudo que existe ao Criador.

Se voltarmos ainda alguns séculos, para os mil-e-quinhentos, veremos que as grandes disputas – políticas, sociais etc. – eram disputas entre fiéis – genuínos ou não. Quando, portanto, o Catecismo Romano – fruto do Concílio de Trento (1545-1563) – foi redigido, ele não precisou demonstrar para os homens que o homem necessitava de Deus.

Nem mesmo os hereges da época duvidavam disso. Por isso, esse Catecismo começa com o problema da autoridade da Igreja e da necessidade de que a fé seja anunciada por legítimos pregadores[2]. Na época, dado o problema com os protestantes, o ponto mais relevante era demonstrar e fundamentar a autoridade da Igreja.

Hoje, porém, os homens sequer se perguntam se a Igreja tem ou não autoridade. Por causa da Reforma Protestante e das Revoluções – especialmente a Francesa –, eles tomam por pressuposto que a Igreja é uma instituição meramente humana e sem qualquer autoridade genuína sobre a vida dos povos. Sua autoridade espiritual só vale para aqueles que a aceitam, e apenas na medida em que a aceitam.

Por isso é comum vermos, hoje, católicos que creem ser correto discordar do ensino da Igreja. Para eles, a autoridade espiritual precisa ser aceita individualmente. O princípio democrático – de que o poder emana do povo – se tornou parte da visão que muitos católicos têm do poder espiritual da Igreja. Ou, pode-se dizer, o princípio democrático-consumista: “a Igreja tem autoridade sobre mim apenas se eu deixar e apenas naquilo que agradar o meu corpo, assim como eu só compro os produtos que quero e que me trazem satisfação corporal”[3].

Expulsa da vida dos povos, a Igreja precisa, agora, re-evangelizar o Ocidente. E o primeiro ponto necessário, hoje, é demonstrar que todo homem deseja Deus. Esse é o motivo do Catecismo começar sua exposição da fé por uma questão antropológica.

O sentido da vida humana e da história – §§1º a 3º

Os três primeiro parágrafos do Catecismo, ainda no prólogo, explicam, resumidamente, o sentido da vida humana, da história e o todo da doutrina da Igreja. Todo o Catecismo está contido aqui, desde as primeiras verdades reveladas até a vida de oração.

Tomarei esses três parágrafos como estrutura da exposição do Curso. Uma das vantagens de fazer assim é que a unidade do Catecismo estará sempre diante dos nossos olhos. E, outra, é que, conquanto a memorização do documento inteiro seja um feito quase impossível, a desses parágrafos não é.

E, uma vez que neles está contida, resumidamente, todo o ensino do Catecismo, decorá-los é guardar na memória esse conteúdo, abrir na memória os locais dentro dos quais o conteúdo será gravado.

Hoje, focaremos nosso estudo no primeiro parágrafo, no qual estão resumidos a necessidade humana de Deus e o chamamento Divino. Assim diz:

§1. Deus, infinitamente perfeito e bem-aventurado em Si mesmo, num desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para o tornar participante da sua vida bem-aventurada. Eis por que, desde sempre e em todo lugar, está perto do homem. Chama-o e ajuda-o a procurá-Lo, a conhecê-Lo e a amá-Lo com todas as suas forças. Convoca todos os homens, dispersos pelo pecado, para a unidade da sua família, a Igreja. Faz isto por meio do Filho, que enviou como Redentor e Salvador, quando os tempos se cumpriram. N’Ele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo, seus filhos adotivos e, portanto, os herdeiros da sua vida bem-aventurada.

O homem é capaz de Deus (§§27-49)

Afinal, a religião Cristã não é a única que existe. Pelo contrário, talvez tenha sido a última grande religião que surgiu – se considerarmos a possibilidade de que o Islamismo seja uma heresia[4].

Que o caminho aberto pela Filosofia permita chegar a algum conhecimento de Deus, bem como da necessidade de Deus no homem, é, pelo menos para nós, prova o suficiente de que Ele existe.

Falamos, na aula passada, da descoberta da alma em nós – não apenas da aceitação humildade da verdade revelada de que temos uma alma, mas da experiência filosófica que permite perceber a existência da alma. Essa descoberta denuncia que existe uma parte da realidade que não é composta de matéria corporal.

E, como coloca o Catecismo, a alma, que é semente de eternidade que trazemos dentro de nós, é irredutível à matéria corporal. Ela não pode, portanto, ter origem no mundo criado, mas apenas em Deus[5].

Esse caminho, que começamos a trilhar na aula passada, é considerado pelo Catecismo como a segunda via de acesso ao conhecimento de Deus: a que parte da natureza do homem. A primeira, que parte da existência do mundo, não será tratada aqui. Expressões dessa primeira via são os argumentos de Santo Tomás de Aquino, chamadas de As Cinco Vias.

O que importa, nesse ponto, é perceber em si a necessidade de Deus. Essa necessidade dispõe o homem a buscar a Deus, não apenas como uma atividade “teórica”, mas, pelo intelecto, buscar Aquele que é o próprio Bem, que dará a medida da vida humana.

Por isso o Catecismo diz que “as provas da existência de Deus podem dispor à fé e ajudar a ver que a fé não se opõe à razão humana”[6].

Se o homem pode buscar a Deus pelo seu intelecto, e se, nesse processo, percebe que existem limites para o seu conhecimento, não há aqui oposição entre a fé e a razão, pois, como veremos na próxima aula, a fé é uma resposta a Deus, que ilumina a razão.

E não apenas isso. A Revelação, de que trataremos a seguir, exige a razão e a necessidade humana para ser aceita. Doutro modo, como poderíamos aceitá-la?

Deus vem ao encontro do homem (§§50-141)

Eis por que, desde sempre e em todo lugar, está perto do homem. Chama-o e ajuda-o a procurá-Lo, a conhecê-Lo e a amá-Lo com todas as suas forças. Convoca todos os homens, dispersos pelo pecado, para a unidade da sua família, a Igreja. Faz isto por meio do Filho, que enviou como Redentor e Salvador, quando os tempos se cumpriram. N’Ele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo, seus filhos adotivos e, portanto, os herdeiros da sua vida bem-aventurada.”

Trataremos, agora, da Revelação de Deus. Chama-se “de Deus” tanto por vir de Deus quanto por falar de Deus e de sua obra salvífica.

Percebamos o seguinte: o homem pode perceber em si a necessidade de Deus e, dependendo de quão reto é, conhecer a Deus. Porém, há um limite para esse conhecimento. Além desse limite, é absolutamente necessário que Deus nos revele o que quer que saibamos.

Mas a Revelação não diz respeito apenas a essa parte incognoscível pela nossa razão natural. Ou melhor, o conhecimento revelado é, antes de tudo, um chamado para a vida Divina. Por isso que o §1o diz que Deus nos chama e ajuda a procurá-lo, conhecê-lo e amá-lo. O fim do conhecimento é o amor, a união com a vida Divina.

Participação. Esse é o termo chave para compreender a Teologia da História, a finalidade da Revelação e a própria pregação do Evangelho. Deus não quer meramente nos informar. Ele quer que já agora, e ainda mais no final da nossa vida, participemos na sua Natureza, ou seja, vivamos a vida da Trindade.

O tema ou a doutrina da participação, como muitas vezes é chamada, se desenvolve em Platão – há indícios em Aristóteles de que tenha surgido com os Pitagóricos – e foi aceita pelos Padres da Igreja como um aspecto da Verdade sobre a existência.

Seu conteúdo pode ser resumido da seguinte forma: existem muitas coisas, todas elas diferentes umas das outras; porém, todas tomam parte, à seu próprio modo, daquele que é Uno, daquele que é a Bondade, a Beleza e a Verdade; por tomarem parte desse Uno, todas as coisas podem ser, em alguma medida, boas, belas e verdadeiras; para a Religião Cristã, esse Uno é o próprio Deus que nos chama para si e para sermos, cada vez mais, participantes da sua natureza.

Por que Deus se revelou para nós, pela Criação e pelos Profetas? Por que Cristo, na Plenitude dos Tempos, se encarnou, padeceu e foi sepultado, ressuscitou e nos redimiu? Por que Cristo fundou a Igreja sobre os apóstolos e garantiu que Ela seria auxiliada pelo Espírito Santo para ensinar os povos? Por que cuidou para que as Sagradas Escrituras e a Tradição fossem preservadas e registradas na Igreja e para a Igreja?

A resposta para essas perguntas é a mesma: para nos chamar e nos permitir entrar na Vida Divina, participar da Sua Natureza. Sermos salvos? Sim. Mas o que Deus deseja para nós ultrapassa infinitamente a salvação. Viver unidos a Deus, participando da vida da Trindade. Esse é o sentido da Criação, da Revelação e da vida humana.

Apêndice

Catecismo da Igreja não impede a existência de Catecismos locais. Necessidade de compreender como a única doutrina se aplica à vida concreta dos povos. Dever de justiça (§§ 23 e 24).


Prof. Rafael Cronje Mateus
Dada no Centro Cultural Alvorada, no dia 10 de março de 2021.


Referências

  1. SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Paulus, 2002, p. 19 (§ 1).
  2. Catecismo Romano, Proêmio §§1o-9o.
  3. “O tema de Deus não se leva a sério, ou não se leva em consideração, em absoluto, porque é sufocado na prática por uma vida orientada para os bens materiais. A indiferença religiosa coexiste com certa simpatia pelo sagrado, e talvez pelo pseudo-religioso, apreciados de um modo moralmente descuidado, como se fossem bens de consumo.” 01. Existência de Deus – Opus Dei. Disponível em: < https://opusdei.org/pt- br/article/tema-1-a-existencia-de-deus/>
  4. Cf. o capítulo 3 de BELLOC, Hilaire. As Grandes Heresias. Rio de Janeiro: Permanência, 2012.
  5. §33.
  6. §35.

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