Os Efeitos da Eucaristia

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Entre 1508 e 1566 viveu o teólogo Francisco de Mendoza, também bispo e cardeal da Igreja. Devido às suas ocupações de dignatário eclesiástico pouco pôde escrever, embora tenha deixado um livro importante sobre a Eucaristia, publicado pela primeira vez apenas no século XX, após a Segunda Grande Guerra, o De Naturali cum Christo Unitate Libri V, surgido à luz em Roma no ano de 1948.

No “L’Eucaristia” de Antonio Piolanti, autor que foi o primeiro e também, segundo parece, até hoje o único editor do De Naturali Unitate encontram-se alguns comentários sobre a obra de Mendoza. Uma resenha do livro pode ser encontrada também num trabalho de Joaquin Blazquez publicado na Revista Española de Teologia de abril de 1944, antes, pois, do livro ter sido publicado pela primeira vez. No seu trabalho, Blazquez afirma ter lido os originais manuscritos da obra de Mendoza encontrados na Biblioteca Nacional de Madri e o termina sugerindo a importância de sua publicação.

O tema central desta obra do Cardeal Mendoza são os efeitos da Eucaristia. Por ter Santo Tomás de Aquino tratado deste mesmo assunto de um modo algo diverso de como o fêz o Cardeal, traduzimos a seguir as considerações de Piolanti e resumimos o trabalho de Blazquez para contribuir ao estudo deste tema, sem pretender, de momento, externar uma posição a respeito.

A Natureza dos Efeitos da Eucaristia

Os efeitos da Eucaristia são substancialmente comuns a todos os sacramentos. É, portanto, legítimo perguntar em que sentido podem ser atribuídos de modo especial a este sacramento. Este problema se colocou claramente no pensamento cristão apenas no século XVI. O Cardeal Mendoza, falecido em 1566, de quem até hoje ignorava-se a sua genuína doutrina, foi quem o resolveu pela primeira vez. A Eucaristia, diz ele, diversamente dos demais sacramentos, produz um efeito especial, que dura também após o desaparecimento das espécies, e é constituído pela participação na alma e no corpo do fiel das perfeições de que estava ornamentada a humanidade de Jesus Cristo em virtude da união hipostática. Este carisma especial, que deve ser identificado com a graça sacramental, é “um certo dom cristífico”, que torna cristiforme a alma de quem comunga, assim como a graça santificante torna deiforme o que se batiza. Por causa deste dom cristífico, o comungante se une de modo mais perfeito que nos demais sacramentos a Jesus Cristo, de quem participa as perfeições e reflete a imagem, une-se mais estreitamente ao seu Corpo Místico e possui um direito mais fundamentado à ressurreição gloriosa de seu corpo.

Estas colocações, bem entendidas, não poderiam ter recebido senão o consenso geral. No entanto, tendo sido expostas de modo bastante prolixo e com expressões ambíguas, como a de “união natural” e, mais ainda, em uma obra que nunca foi publicada, mas que todos em sua época presumiram conhecer, deu margem a discussões que duraram dois séculos e na qual entraram teólogos de clara fama, como Luiz de León, Diego de Tapia e Tomassin, a favor; Suarez, Vasquez e os Salmaticences, em forte oposição; e os Cardeais Cienfuegos e Belluga, com amplificações exageradas. As explicações de Mendoza, substancialmente verdadeiras, não são todavia completas porque não elucidam o modo como este dom cristífico da Eucaristia produz uma união mais perfeita entre a cabeça e os membros do Corpo Místico e um maior direito à ressurreição do corpo.

Quer nos parecer que esta lacuna possa ser preenchida considerando o dom cristífico, que deve ser identificado com a graça sacramental própria da Eucaristia, sobre o fundo geral da economia sacramental e à luz do pensamento de Santo Tomás de Aquino, o qual, mesmo que não tenha redigido uma síntese a este respeito, colocou, porém, os seus princípios e espalhou em muitas passagens de sua obra preciosos elementos.

A economia sacramental é assim ordenada: o Batismo e a Crisma foram instituídos para iniciar a vida sobrenatural; a penitência e a extrema unção para devolvê-la depois do pecado; a ordem e o matrimônio para estendê-la a outros, e a Eucaristia para levá-la à sua perfeição. Os Santos Padres, de fato, nos apresentam a Eucaristia como o último complemento e Santo Tomás de Aquino como a consumação da vida espiritual (Summa Theologiae III Q.73 a.3). Como tal deve completar todo o organismo espiritual no seu ser, que é a graça santificante; nas suas faculdades, que são as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo; na sua atividade, que é a graça atual; e nos seus frutos, que são as boas obras.

A Eucaristia, conforme se depreende de um conjunto de documentos dogmáticos e teológicos, produz uma graça habitual mais abundante:

“A Eucaristia é fonte, enquanto que os outros sacramentos são os rios da graça”. — Concílio Tridentino

“A origem de todos os bens espirituais é o Augusto Sacramento da Eucaristia”. — Leão XIII, Enc. Mirae Charitatis

“A Eucaristia contém como em uma suma e em capítulo o que está disperso em todos os demais sacramentos”. — Santo Tomás de Aquino, In Sententiarum IV D.8

A Eucaristia aumenta a caridade ao seu máximo grau:

“A sincera caridade emana e arde copiosamente da Santíssima Eucaristia”. — Leão XIII, Enc. Mirae Charitatis

“Em virtude da Eucaristia ocorre uma certa transformação do homem em Cristo por via de amor e este é o efeito próprio deste sacramento”. — Santo Tomás de Aquino, In Sent. IV D.12

Estimula, pela graça atual, o fervor, conforme a doutrina comum claramente expressa pelo Doutor Angélico:

“Por meio deste sacramento o amor é estimulado ao ato”. — Santo Tomás de Aquino, Summa Theologiae III Q.79

Ensina também Tomás de Aquino que o fervor da caridade, pela sua natureza, destrói os pecados veniais, perdoa a pena temporal, preserva os pecados futuros diminuindo e acalmando os ardores da concupiscência e revelando as insídias do demônio. Deste conjunto de dons sobrenaturais emanam, portanto, como conseqüência natural, mais numerosas e mais perfeitas as obras meritórias da vida eterna.

Já que tais efeitos, que no seu conjunto são verdadeiramente um “dom cristífico”, constituem, como é fácil de se entender, a plena incorporação a Cristo, a mais perfeita união entre os fiéis, o mais alto direito à glorificação da alma e do corpo, cada um dos fiéis, assim como a Igreja inteira, alcançam o cimo da perfeição espiritual e a maturidade para a visão beatífica. Depois da Eucaristia não resta senão a glória.

Um ponto apenas resta ser esclarecido, isto é, de que maneira a Eucaristia pode dizer-se causa especial da ressurreição do corpo. Tanto mendoza como Contenson, este falecido em 1674, supuseram que o dom cristífico fosse como um gérmen físico divinamente conservado nos restos mortais e que, no momento estabelecido por Deus, como uma brasa debaixo da cinza, reacenderia a vida onde reinava a morte. Já os Salmaticences pensam que a graça sacramental da Eucaristia, inerente à alma, se tornará, no dia do Juízo, instrumento nas mãos de Deus para vivificar os corpos. M. de la Taille nos apresenta, porém, a doutrina mais comum e mais segura: a Eucaristia, comunicando à alma o máximo dom sobrenatural, seria causa indireta de uma ressurreição mais gloriosa. De fato, a alma possui uma ordenação transcendental ao corpo, e esta tendência deverá ter sua realização no fim dos tempos, quando Deus reunir os corpos às respectivas almas. Naquele momento a alma, aperfeiçoada pela Eucaristia, comunicará, por uma certa redundância, o seu esplendor ao corpo. Deste modo é fácil entender que o corpo daqueles que tiverem recebido da Eucaristia graça mais perfeita e mais abundante brilhará com uma luz especial entre os demais corpos gloriosos.

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