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A Eucaristia

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Fontes primárias

1. Textos de títulos idênticos no site do Opus Dei;
2. §§1322 – 1419 do Catecismo da Igreja Católica.

O terceiro sacramento que faz parte da iniciação da vida Cristã. Terceiro em ordem de exposição (e, dependendo da época e do lugar, em ordem de recepção), mas primeiro em ordem de importância: a Eucaristia, fonte e ápice da vida eclesial.

O papel central da Eucaristia é uma marca da Igreja desde o princípio. Os primeiros documentos eclesiásticos, a começar pelo Novo Testamento, e, também a Didaqué, as primeiras obras da Patrística, demonstram essa centralidade. Claro, como toda doutrina da Igreja, ela se desenvolveu, encontrando seu ápice na formulação do IV Concílio de Latrão (1215), que definiu a transubstanciação. A partir daí, a Eucaristia passou a ser “explicada” em termos de forma e substância.

Quero focar nisso hoje: na compreensão, e nos seus limites, da Eucaristia. E, também, no que a Eucaristia significa para a Igreja, como ela revela a sua natureza e garante sua veracidade

Breve notícia da Eucaristia na Igreja

Quando chegou a hora, ele se pôs à mesa com seus apóstolos e disse-lhes: “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer; pois eu vos digo que já não a comerei até que ela se cumpra no Reino de Deus”. Então, tomando uma taça, deu graças e disse: Tomai isto e reparti entre vós; pois eu vos digo que doravante não beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus”. E tomou um pão, deu graças, partiu e deu-o a eles, dizendo: “Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória”. E, depois de comer, fez o mesmo com a taça, dizendo: “Essa taça é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós.”

Evangelho Segundo São Lucas 22, 14-20

Disseram-lhe, então: “Que faremos para trabalhar nas obras de Deus?” Respondeu-lhes Jesus: “A obra de Deus é que creiais naquele que ele enviou”. Então lhe perguntaram: “Que sinal realizas, para que vejamos e creiamos em ti? Que obra fazes? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes o pão do céu a comer”.

Respondeu-lhes Jesus:

“Em verdade, em verdade, vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu, mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do véu; porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo”.

Disseram-lhe: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!” Jesus lhes disse:

“Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome, e o que crê em mim nunca mais terá sede. Eu, porém, vos disse: vós me vedes, mas não credes. Todo aquele que o Pai me der virá a mim, e quem vem a mim eu não o rejeitarei, pois desci do céu não para fazer minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade daquele que me enviou é esta: que eu não perca nada do que ele me deu, mas o ressuscite no último dia. Sim, esta é a vontade de meu Pai: quem vê o Filho e nele crê tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia”.

Os judeus murmuravam, então, contra ele, porque dissera: “Eu sou o pão descido do céu”. E diziam: “Esse não é Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como diz agora: ‘Eu desci do céu’!” Jesus lhes respondeu:

Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair (helkein); e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Quem escuta o ensinamento do Pai e dele aprende vem a mim. Não que alguém tenha visto o Pai; só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. Em verdade, em verdade, vos digo: aquele que crê tem vida eterna. Eu sou o pão da vida. Vossos pais no deserto comeram o maná e morreram. Este pão é o que desce do céu para que não pereça quem dele comer. Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá para sempre. O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo”.

Os judeus discutiam entre si, dizendo: “Como esse homem pode dar-nos a sua carne a comer?” Então Jesus lhes respondeu:

“Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes seu sangue, não teres a vida em vós. Quem come minha carte e bebe o meu sangue tem vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que de mim se alimenta viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. Ele não é como o que os pais comeram e pereceram; quem come estão pão viverá eternamente”.

Assim falou ele, ensinando na sinagoga em Cafarnaum.

Muitos de seus discípulos, ouvindo-o, disseram: “Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?” Compreendendo que seus discípulos murmuravam por causa disso, Jesus lhes disse: “Isto vos escandaliza? E quando virdes o Filho do Homem subir aonde estava antes?…

O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que vos disse são espírito e vida.

Alguns de vós, porém, não creem”. Jesus sabia, com efeito, desde o princípio, quais os que não criam e quem era aquele que o entregaria. E dizia: “Por isso vos afirmei que ninguém pode vir a mim, se isso não lhe for concedido pelo Pai.”

A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele.

Então, disse Jesus aos Doze: “Não quereis também vós partir?” Simão Pedro respondeu-lhe: “Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus”.

Evangelho Segundo São João 6, 28-69

Com efeito, eu mesmo recebi do Senhor o que vos transmiti: na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim.” Do mesmo modo, após a ceia, também tomou o cálice, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim.” Todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha. Eis por que todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Por conseguinte, que cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe para a própria condenação.

1ª Carta de São Paulo aos Coríntios 11, 23-29

Do mesmo modo como este pão partido tinha sido semeado sobre as colinas, e depois recolhido para se tornar um, assim também a tua Igreja seja reunida desde os confins da terra no teu Reino, porque tua é a glória e o poder, por meio de Jesus Cristo, para sempre”. Ninguém coma nem beba da Eucaristia, se não tiver sido batizado em nome do Senhor, porque sobre isso o Senhor disse: “Não deem as coisas santas aos cães”

Didaqué. A celebração eucarística, IX
AA. VV. Didaqué: O catecismo dos primeiros cristãos para as comunidades de hoje (Avulso). Paulus Editora. Edição do Kindle.

Este alimento se chama entre nós Eucaristia, da qual ninguém pode participar, a não ser que creia serem verdadeiros nossos ensinamentos e se lavou no banho que traz a remissão dos pecados e a regeneração e vive conforme o que Cristo nos ensinou. De fato, não tomamos essas coisas como pão comum ou bebida ordinária, mas da maneira como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne por força do Verbo de Deus, teve carne e sangue por nossa salvação, assim nos ensinou que, por virtude da oração ao Verbo que procede de Deus, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças – alimento com o qual, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossa carne – é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado. Foi isso que os Apóstolos nas memórias por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram que assim foi mandado a eles, quando Jesus, tomando o pão e dando graças, disse “Fazei isto em memória de mim, este é o meu corpo” (Lc 22, 19-20). E igualmente, tomando o cálice e dando graças, disse: “Este é o meu sangue”, e só participou isso a eles.

São Justino de Roma – I Apologia
São Justino de Roma. I Apologia. In: I e II Apologia. Diálogo com Trifão. São Paulo: Paulus, 1995, p. 82.

Ora, existe uma Igreja universal dos fiéis, fora da qual absolutamente ninguém se salva, e na qual o mesmo Jesus Cristo é sacerdote e sacrifício, cujo corpo e sangue são contidos verdadeiramente no sacramento do altar, sob as espécies do pão e do vinho, pois que, pelo poder divino, o pão é transubstanciado no corpo e o vinho no sangue; de modo que, para realizar plenamente o mistério da unidade, nós recebemos dele o que ele recebeu de nós. Este sacramento, não pode celebrá-lo absolutamente ninguém senão o sacerdote que tenha sido regularmente ordenado, segundo o poder das chaves da Igreja que o mesmo Jesus Cristo concedeu aos Apóstolos e aos seus sucessores.

IV Concílio de Latrão (1215).
DENZINGER, H. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2007, p. 284.

Está o Corpo de Cristo neste sacramento em verdade, ou a modo de figura, ou como num sinal?

QUANTO AO PRIMEIRO ARTIGO, ASSIM SE PROCEDE: parece que não está em verdade, mas só a modo de figura, ou como num sinal.

1. Com efeito, no Evangelho se relata: como o Senhor dissesse “se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue,” etc., “muitos dos seus discípulos começaram a dizer: ‘Esta palavra é dura!” E ele lhes replicou: “é o Espírito que vivifica, a carne para nada serve.” É como se ele dissesse, explica Agostinho: “Entendei espiritualmente minhas palavras. Não ireis comer este corpo que vedes, nem bebereis aquele sangue que derramarão os meus algozes. Confiei-vos um mistério. Se o entenderdes espiritualmente, ele vos vivificará, já que a carne não serve para nada”.

2. ALÉM DISSO, o Senhor disse: “Quanto a mim, eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos tempos;” o que Agostinho explica assim: “Cristo está nos céus até o fim do mundo; e contudo o Senhor, que é a verdade, está conosco aqui na terra. Pois, o corpo com o qual ele ressuscitou deve estar num só lugar; mas sua verdade está espalhada por todas as partes.” Portanto, o corpo de Cristo não está neste sacramento em verdade, mas somente como num sinal.

3. ADEMAIS, nenhum corpo pode estar simultaneamente em vários lugares, já que isso é impossível até mesmo ao anjo, pois, pela mesma razão, ele poderia estar em todas as partes. Ora, o corpo de Cristo é verdadeiro corpo, e está no céu. Logo, ele não pode encontrar-se verdadeiramente no sacramento do altar, mas somente como num sinal.

4. ADEMAIS, os sacramentos da Igreja têm por finalidade a utilidade dos fiéis. Ora, segundo Gregório, o oficial é repreendido porque “procurava a presença corpórea de Cristo”, Os apóstolos também foram impedidos de receber o Espírito Santo, porque estavam presos à presença corporal de Cristo, assim Agostinho comenta o texto de· João: “se eu não partir, o Paráclito não virá a vós”. Logo, Cristo não está no sacramento do altar segundo uma presença corporal.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, Hilário diz: “Não se pode pôr em dúvida a verdade da carne e do sangue de Cristo. De fato, pela declaração do próprio Senhor e por nossa fé, a sua carne é verdadeiramente comida e o seu sangue é verdadeiramente bebida.” E Ambrósio acrescenta: “Como o Senhor Jesus Cristo é o verdadeiro Filho de Deus, assim também é sua verdadeira carne que comemos e seu verdadeiro sangue que é uma bebida.”

RESPONDO. Que o verdadeiro corpo e sangue de Cristo estejam no sacramento não se pode apreender pelo sentido, mas somente pela fé, que se apoia na autoridade divina. Por isso, o texto do Evangelho de Lucas “Isto é o meu corpo dado por vós” é comentado por Cirilo: “Não duvides que seja verdade, mas antes aceita as palavras do Salvador na fé: pois; sendo a verdade, não mente”:

1°: Isto está de acordo, primeiramente, com a perfeição da Nova Lei. Pois, os sacrifícios da antiga lei continham este verdadeiro sacrifício da paixão de Cristo, somente em figura, como se diz na Carta aos Hebreus: “Possuindo apenas o esboço dos bens futuros, e não a expressão mesma das realidades”. Por isso, foi necessário que o sacrifício da Nova Lei, instituído por Cristo, tivesse algo a mais, a saber que ele contivesse a Cristo na sua paixão, não somente no significado e na figura, mas também na verdade da realidade. E, por isso, este sacramento, que contém realmente o próprio Cristo, como diz 6 Dionísio, “é a perfeição de todos os outros sacramentos”, nos quais a força de Cristo é participada.

2º: Isto convém à caridade de Cristo, pela qual ele assumiu um verdadeiro corpo humano em vista de nossa salvação. E porque é muitíssimo próprio da amizade, segundo Aristóteles, conviver com os amigos, ele nos prometeu em recompensa a sua presença corporal, como está no Evangelho de Mateus: “Onde quer que esteja o cadáver, ali se reunirão os abutres”. Neste ínterim, porém, não nos privou de sua presença corporal nesta nossa peregrinação, mas pela verdade de seu corpo e sangue uniu-nos a si nesse sacramento. Ele mesmo diz: “Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”. Por isso, este sacramento é o sinal da maior caridade e reconforto de nossa esperança por causa da união tão familiar de Cristo conosco.

3º: Isto convém à perfeição da fé, que se refere tanto à divindade de Jesus quanto a sua humanidade, como diz o Evangelho: “Vós credes em Deus, crede também em mim”. E porque a fé trata de realidades invisíveis, como Cristo nos manifesta invisivelmente a sua divindade, assim também neste sacramento nos manifesta a sua carne de modo invisível.

Não atinando com isto, alguns afirmaram que o corpo e sangue de Cristo não está nesse sacramento a não ser como em sinal. O que se deve rejeitar como herético, já que contrário às palavras de Cristo. Por isso, Berengário, iniciador desse erro, foi em seguida obrigado a abjurá-lo e confessar a verdadeira fé.

QUANTO AO 1º, portanto, deve-se dizer que ao entender mal as palavras de Agostinho, os hereges citados nelas encontraram ocasião de engano. Uma vez que, ao dizer “não comeis este corpo que vedes”, Agostinho não pretende excluir a verdade do corpo de Cristo, mas somente afirmar que os discípulos não o haveriam de comer sob a mesma forma em que o viam. Assim, quando acrescenta: “Recomendei-vos um mistério, que, se for entendido espiritualmente, vos vivificará”, não quer afirmar que o Corpo de Cristo esteja neste sacramento somente em uma significação mística, mas espiritualmente, isto é, invisivelmente e pela força do Espírito. Daí, prosseguir Agostinho, comentando o versículo de João, “a carne para nada serve”: “Sem dúvida, ela não serve para nada no modo que eles entenderam. Pois, entenderam que era preciso comer uma carne semelhante a que se arranca de um cadáver, ou se vende no açougueiro; não entenderam no modo como é vivificada pelo Espírito. Que o Espírito se ajunte à carne, então a carne servirá muito, pois se a carne não servisse para nada, o Verbo não se teria feito carne para habitar entre nós”.

QUANTO AO 2°, deve-se dizer que esta palavra de Agostinho e outras semelhantes devem ser entendidas a respeito do corpo de Cristo no que toca à sua aparência, o que aliás o mesmo Senhor disse: “A mim, porém, não me tereis sempre.” No entanto, ele se encontra de maneira invisível, sob as aparências deste sacramento, em todas as partes em que este se celebra.

QUANTO AO 3º, deve-se dizer que o corpo de Cristo não está no sacramento da mesma maneira como um corpo está no lugar, a ele comensurado em suas dimensões: mas segundo um modo especial, que é próprio desse sacramento. Por isso, dizemos que o corpo de Cristo está em diversos altares, não como em diversos lugares, mas como no sacramento. Por esta razão, não entendemos que Cristo esteja aí somente como no sinal, se bem que o sacramento pertença ao gênero do sinal. Más entendemos o corpo de Cristo estar aí, como já se disse, conforme o modo próprio desse sacramento.

QUANTO AO 4°, deve-se dizer que este argumento provém da presença do corpo de Cristo, à maneira de corpo, isto é, em sua aparência visível: não, 7 porém, de maneira espiritual, isto é invisível, conforme o modo e a força do Espírito. Por isso, Agostinho diz: “Se entendeste de maneira espiritual as palavras de Cristo a respeito de sua carne, elas te serão espírito e vida: se entendeste de maneira carnal, então elas continuam a ser espírito e vida, mas não para ti.”

Santo Tomás de Aquino – Suma Teológica, IIIª parte, q. 75, art. 1º
SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Os Sacramentos, III parte, questões 60-90, v. IX. 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2013, p. 268-271.

Cap. 1. A presença real de nosso Senhor Jesus Cristo no santíssimo sacramento da Eucaristia

Em primeiro lugar, o santo Sínodo ensina e professa aberta e simplesmente que, no sublime sacra- mento da santa Eucaristia, depois da consagração do pão e do vinho, nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e homem, está contido ver- dadeira, real e substancialmente sob a aparência das coisas sensíveis. Pois não há contradição nisto, que o mesmo nosso Salvador esteja sempre sentado à direita do Pai nos céus, segundo o modo natural de existir, e que, não obstante, esteja para nós sacramentalmente presente em sua substância, em muitos outros lugares, segundo um modo de existência que, embora mal o possamos exprimir em palavras, podemos reconhecer pelo pensamento iluminado pela fé como possível para Deus [cf. Mt 19,26; Lc 18,27], e no qual devemos crer firmemente.

Assim todos os nossos antepassados que estavam na verdadeira Igreja de Cristo e que trataram deste santíssimo sacramento, professaram muito abertamente que nosso Redentor instituiu este tão admirável sacramento na última Ceia, quando, depois de abençoar o pão e o vinho, testemunhou, com palavras claras e precisas, que lhes estava dando seu próprio corpo e seu sangue. Já que estas palavras, referidas pelos santos Evangelistas [cf. Mt 26,26ss; Mc 14,22ss; Lc 22,19s] e repetidas depois pelo divino Paulo [1Cor 11,23s], comportam aquela significação própria e claríssima segundo a qual os Padres as entenderam, é sem dúvida a mais indigna das vergonhas que, por alguns homens contenciosos e perversos, sejam distorcidas, contra o sentir uni- versal da Igreja, até figuras de estilo fictícias e imaginárias, nas quais se nega a verdade da carne e do sangue de Cristo. Como coluna e fundamento da verdade [1Tm 3,15], repudia como satânicas essas invencionices lucubradas por homens ímpios, reconhecendo com espírito sempre grato e fiel este insigne benefício de Cristo.

Cap. 4. A transubstanciação

Ora, porque Cristo, nosso redentor, disse que aquilo que oferecia sob a espécie do pão [cf. Mt 26,26-29; Lc 22,19s; 1 Co 11,24-26] era verdadeiramente seu corpo, existiu sempre na Igreja de Deus a persuasão que este santo Concílio novamente declara: pela consagração do pão e do vinho realiza-se uma mudança de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo, nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância de seu sangue. Esta mudança foi denominada, convenientemente e com propriedade, pela santa Igreja católica, transubstanciação [cân. 2].

Cânones sobre o santíssimo sacramento da Eucaristia

Cân. 1. Se alguém negar que, no sacramento da santíssima Eucaristia, está contido verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue, juntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, portanto, o Cristo inteiro, mas disser que só estão como que em sinal ou em figura ou na eficácia: seja anátema [cf. *1636; 1640].

Cân. 2. Se alguém disser que, no sacrossanto sacramento da Eucaristia, permanece a substância do pão e do vinho juntamente com o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, e negar aquela admirável e singular mudança de toda a substância do pão no corpo e de toda a substância do vinho no sangue, permanecendo só as espécies de pão e vinho – mudança que a Igreja católica chama com muita propriedade transubstanciação –: seja anátema [cf. *1642].

Cân. 3. Se alguém negar que, no venerável sacramento da Eucaristia, depois da separação , está contido o Cristo inteiro sob cada espécie e sob cada parte de cada espécie: seja anátema [cf. *1641].

Cân. 4. Se alguém disser que, depois da consagração, o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo não estão no admirável sacramento da Eucaristia, mas somente no uso, enquanto são recebidos, porém não antes nem depois, e que o ver- dadeiro corpo do Senhor não permanece nas hóstias ou partículas consagradas que se guardam ou sobram depois da comunhão: seja anátema [cf. *1639].

Cân. 5. Se alguém disser ou que o fruto principal da santíssima Eucaristia é a remissão dos pecados ou que dela não provêm outros efeitos: seja anátema [cf. *1638].

Cân. 6. Se alguém disser que não se deve, no santo sacramento da Eucaristia, adorar com culto de adoração, também exterior, a Cristo, Filho unigênito de Deus, e que, portanto, não deve ser venerado numa solenidade especial, nem levado solene- mente em procissões segundo o rito e uso louvável e universal da Santa Igreja, nem deve ser exposto ao povo publicamente para ser adorado, e que seus adoradores são idólatras: seja anátema [cf. *1643].

Cân. 7. Se alguém disser que não é lícito conservar a sagrada Eucaristia no sacrário, mas que deve ser necessariamente distribuída aos presentes imediatamente depois da consagração; ou que não é lícito levá-la com honra aos enfermos: seja anátema [cf. *1645]

Cân. 8. Se alguém disser que Cristo apresentado na Eucaristia só é manducado espiritualmente e não também sacramental e realmente: seja anátema [cf. *1648].

Cân. 9. Se alguém negar que todos e cada um dos fiéis cristãos, de ambos os sexos, tendo chegado aos anos de discrição, são obrigados a comungar todos os anos, ao menos na Páscoa, segundo o preceito da santa mãe Igreja: seja anátema [cf. *812].

Cân. 10. Se alguém disser que não é lícito ao sacerdote celebrante dar-se a comunhão a si mesmo: seja anátema [cf. *1648].

Cân. 11. Se alguém disser que a fé, só, é preparação suficiente para receber o sacramento da santíssima Eucaristia [cf. *1646]: seja anátema.

E, para que tão grande sacramento não seja recebido indignamente e, portanto, para morte e conde- nação, o santo Sínodo determina e declara que, quem tem a consciência agravada por pecado mortal, por mais contrito que se julgue, necessariamente deve antes se confessar, havendo suficiente número de confessores. Porém, se alguém ousar ensinar, pregar ou afirmar pertinazmente o contrário, ou também defendê-lo em disputa pública, seja ipso facto excomungado [cf. *1647].

Concílio de Trento (13ª sessão, 1551)
DENZINGER, H. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2007, p. 419-426

Sobre os limites na compreensão da Eucaristia

O corpo de Cristo neste sacramento pode ser visto por algum olho, ao menos glorificado?

QUANTO AO SÉTIMO, ASSIM SE PROCEDE: parece que o corpo de Cristo pode neste sacramento ser visto por algum olho, ao menos glorificado.

1. Com efeito, os nossos olhos estão impedidos de ver o corpo de Cristo neste sacramento por causa das espécies sacramentais que o encobrem. Ora, os olhos glorificados não podem em nada ser impedidos de ver os corpos tais quais são. Logo, os olhos glorificados podem ver o corpo de Cristo como ele está neste sacramento.

2. ALÉM DISSO, os corpos gloriosos dos santos “tornam-se semelhantes ao corpo glorioso de Cristo” como está em Filipenses. Ora, os olhos de Cristo veem a si mesmo tal qual está neste sacramento. Logo, pela mesma razão, quaisquer olhos glorificados podem vê-lo.

3. ADEMAIS, diz o Evangelho de Lucas que os santos na ressurreição serão “iguais aos anjos”. Ora, os anjos veem o corpo de Cristo tal qual está neste sacramento. Até mesmo os demônios demonstram reverência e temem diante deste sacramento. Logo, pela mesma razão, os olhos glorificados podem vê-lo tal qual está neste sacramento.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, urna mesma coisa não pode ser ao mesmo tempo vista por um mesmo observador sob diversas figuras. Ora, os olhos glorificados estão sempre a ver a Cristo na sua própria figura, como diz o profeta: “Teus olhos contemplarão o rei na sua beleza”. Portanto, parece que eles não veem a Cristo como está sob a espécie deste sacramento.

RESPONDO. Há dois tipos de olhos: os do corpo, os olhos no sentido próprio, e os da inteligência, entendidos de maneira metafórica. Ninguém pode ver o corpo de Cristo com os olhos corporais tal qual está no sacramento. Antes de tudo, porque o corpo se faz visível modificando o meio pelos seus acidentes. Ora, os acidentes do corpo de Cristo estão neste sacramento por meio da substância, de tal maneira que eles não têm nenhuma relação imediata com este sacramento nem com os corpos que o circundam. Por isso, não podem modificar o meio de maneira que pudessem ser vistos por algum olho corporal.

Em seguida, o corpo de Cristo está neste sacramento a modo de substância. A substância, por sua vez, enquanto tal, não é visível aos olhos do corpo, nem é atingível por algum sentido nem pela imaginação, mas somente pela inteligência, cujo objeto é a “essência das coisas”, como ensina Aristóteles. Portanto, falando com propriedade de termos, o corpo de Cristo, segundo a maneira de existir neste sacramento, não é perceptível nem pelos sentidos, nem pela imaginação, mas somente pelo intelecto, chamada de olho espiritual.

Ele é percebido de modo diferente conforme os diversos tipos de intelectos. Porque a maneira de existir de Cristo neste sacramento é profundamente sobrenatural, torna-se nela mesma visível ao intelecto sobrenatural, isto é, divino e consequentemente ao intelecto bem-aventurado dos anjos e dos seres humanos que, participando da claridade do intelecto divino, veem as realidades sobrenaturais na visão da essência divina. O intelecto do homem nesta terra não pode vê-la a não ser na fé, como aliás as outras realidades sobrenaturais. Nem mesmo o intelecto dos anjos, segundo sua potência natural, é capaz de intuir essa presença. Os demônios, por sua vez, não podem ver a Cristo neste sacramento pelo intelecto a não ser pela fé, a que, aliás, eles não aderem pela vontade, mas simplesmente são convencidos pela evidência dos sinais, como diz a Carta de Tiago: “Os demônios também creem e tremem.”

QUANTO AO 1°, portanto, deve-se dizer que os nossos olhos do corpo não conseguem ver pelas espécies sacramentais o corpo de Cristo que existe sob elas, pois elas não somente o encobrem, assim como não conseguimos ver o que está escondido debaixo de qualquer véu corporal, mas também porque o corpo de Cristo está em relação com o meio que circunda este sacramento, não mediante os próprios acidentes, mas mediante as espécies sacramentais.

QUANTO AO 2º, deve-se dizer que os olhos corporais de Cristo veem a si mesmo existindo neste sacramento. Contudo não podem ver o seu próprio modo de existir neste sacramento, porque tal pertence ao intelecto. Não se pode falar da mesma maneira dos outros olhos glorificados. Pois os olhos de Cristo estão sob este sacramento, enquanto os outros olhos glorificados não se lhes assemelham neste ponto.

QUANTO AO 3º, deve-se dizer que o anjo bom ou mau nada pode ver com os olhos corporais, mas somente com os olhos da inteligência. Por isso, não vale o argumento

Santo Tomás de Aquino – Suma Teológica, IIIª parte, q. 76, art. 1º
SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Os Sacramentos, III parte, questões 60-90, v. IX. 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2013, p. 303-304.

Sobre a Eucaristia como sinal da verdadeira Igreja (ou do que há de verdadeiro mesmo nas comunidades separadas)

Entendido que a Eucaristia é central para a Igreja desde sua fundação, e que ela é uma verdade inteligível apenas pela fé – mas sustentada por sólidas razões uma vez que a verdade foi aceita –, podemos agora entrar no último tópico da aula: como a Eucaristia é sinal da verdadeira Igreja.

Existem muitos modos pelos quais Cristo se faz presente na Igreja. Desde o modo mais simples, quando dois ou três se reúnem em seu nome (Mt 18,20) ou quando ele se identifica com os pobres, doentes e necessitados, até modo mais complexos, quando age por meio dos Sacramentos. Dentre os sacramentos, sua presença se revela como mais perfeita na Sagrada Eucaristia, pois nela ele está presente em corpo e sangue, alma e divindade. Dentre todos, é o único modo pelo qual Cristo está inteiramente presente na Igreja (§§ 1373-1374).

Sendo assim, não é de se admirar que a Eucaristia seja um sinal da verdadeira Igreja, e um dos sinais principais, pois ela indica onde Cristo está completamente. Todo Cristão, é certo, quer estar com Cristo. Esse é o fim do homem, afinal, e foi para isso que Ele se encarnou. Portanto, importava também que deixasse sinais da sua presença na Igreja verdadeira, para que todos pudessem reconhecê-la. Como, porém, saber em que Igreja está a Eucaristia?

Primeiro, é necessário observar quais são as condições para que a Eucaristia exista. Quem poderia realizar o milagre da transubstanciação? É certo que apenas Deus. O milagre, afinal, é um sacrifício oferecido por Cristo ao próprio Deus pai, no qual ele é tanto o sacerdote quanto a oferenda. Ele oferece-se a si mesmo em sacrifício para vencer a morte e redimir os homens.

Portanto, ninguém além de Cristo pode realizar esse milagre – ninguém além dele e aqueles a quem ele conferiu esse poder. Esses não são outros senão os Apóstolos, os 12 que estavam no Cenáculo, que receberam a ordem e o poder de repetir o milagre feito por Cristo – aos quais, depois, se acrescentou São Matias e São Paulo.

O sacramento da Ordem, portanto, é uma condição para a manutenção da Eucaristia na Igreja. Sem sucessão apostólica, não haveria Eucaristia hoje. É, portanto, por esses dois fatores – a sucessão apostólica e a Eucaristia – que reconhecemos qual a Igreja verdadeira.

Alguém poderia, nesse momento, perguntar: então as Igrejas orientais que não estão em comunhão são tão verdadeiras quanto a Católica e as que estão em comunhão (§1399)? É aqui que o último fator de reconhecimento se manifesta: o poder divino e humano do sucessor legítimo de São Pedro, líder dos Apóstolos e Bispo de Roma.

Se é verdade, como diz o Catecismo, que a sucessão não foi rompida para essas Igrejas orientais separadas, é verdade também que elas estão separadas por discordarem do ensino da Igreja e não se submeterem ao poder do Papa. A Eucaristia, que é sinal de unidade da Igreja – e que também realiza essa unidade –, indica que apenas aquela Igreja unida no tempo e na história, ainda submetida ao poder instituído por Cristo sobre São Pedro e seguindo a mesma doutrina revelada por Ele, pode ser a verdadeira.

Antes de tudo, portanto, o fato de ela existir nessas Igrejas orientais é um sinal para que a união delas conosco seja alcançada – o que já tem sido feito.

Portanto, é pela Eucaristia, pela sucessão apostólica e pela obediência ao Papa que reconhecemos a verdadeira Igreja, assim como os discípulos de Emaús, que reconheceram a Cristo quando ele celebrou a Eucaristia.


Prof. Rafael Cronje Mateus
Dada no Centro Cultural Alvorada, no dia 14 de julho de 2021.

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