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Criação e Queda: O que é o Pecado Original?

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O Estado Original 

Deus, em seu infinito amor e bondade, não se contentou em dar ao ser humano somente os dons que são próprios de sua natureza. Além de nos dar um corpo que é verdadeiramente maravilhoso e uma alma ainda mais maravilhosa, Deus foi ainda mais longe e concedeu a Adão e Eva os dons preternaturais que os livraram do sofrimento e da morte, e o dom sobrenatural da graça santificante. No plano inicial de Deus, Adão e Eva deveriam passar estes dons para sua descendência, de modo que nós poderíamos estar gozando deles ainda hoje. 

Para garantir que esses dons fossem passados para a sua posteridade, Deus exigiu de  Adão uma única: que ele desse seu amor a Ele, de maneira livre e irrevogável. Essa é a finalidade de nossas existências. O amor exige a nossa total entrega ao nosso amado. Nos ensina o Padre Leo Trese: 

É da natureza do amor autêntico a entrega completa de si mesmo ao amado. Nesta vida, só há um meio de provar o amor a Deus, que é fazer a sua vontade, obedecer-lhe. Por esta razão. Deus deu a Adão e Eva uma ordem, uma única ordem: que não comessem do fruto de certa árvore.

(TRESE; 1999; p.49)

O fruto em questão, provavelmente, não tinha nada de diferente dos outros frutos existentes no Éden. Mas em relação a ele havia um mandamento que, por consequência, deveria ser obedecido; e na obediência a este mandamento residia a prova do amor a Deus. Diz o Catecismo da Igreja Católica:

Deus criou o homem à sua imagem e constituiu-o na sua amizade. Criatura espiritual, o homem só pode viver esta amizade na modalidade da livre submissão a Deus. É isso o que exprime a proibição feita ao homem de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, “pois no dia em que o comeres, morrerás” (Gn 2, 17). A “árvore de conhecer o bem e o mal” (Gn 2, 17) evoca simbolicamente o limite intransponível que o homem, como criatura, deve livremente reconhecer e confiadamente respeitar. O homem depende do Criador. Está sujeito às leis da criação e às normas morais que regulam o exercício da liberdade.

(CIC, 396)

O Primeiro Pecado do Homem

Mas nós sabemos que esse mandamento primordial não foi cumprido; e a prova de amor a Deus não foi dada. Adão e Eva falharam e cometeram o primeiro pecado, o pecado original. Cometeram um pecado que não se resume em um simples desobedecer do mandamento divino, mas que está envolto em uma profunda soberba, como aquela que tomou o espírito dos demônios. São Pio X nos diz que o pecado de Adão foi de soberba e de grave desobediência; isto é: a soberba foi a base do pecado, o que levou à desobediência. 

O Padre Leo Trese faz uma reflexão sobre essa soberba de Adão e Eva: 

Sim, sabemos que Adão e Eva pecaram. Mas já nos é mais difícil convencermo-nos da enormidade do seu pecado. Hoje encaramos esse pecado como algo que, tendo em conta a ignorância e a fraqueza humanas, parece até certo ponto inevitável. O pecado é algo lamentável, sim, mas não surpreendente. Tendemos a esquecer-nos de que, antes da queda, não havia ignorância ou fraqueza. Adão e Eva pecaram com total clareza de mente e absoluto domínio das paixões pela razão. Não havia circunstâncias eximentes. Não havia desculpa alguma. Adão e Eva escolheram-se a si mesmos — em lugar de Deus — de olhos bem abertos, poderíamos dizer.

(TRESE; 1999: p. 50)

Ao pecarem, Adão e Eva tiraram da criação a sua harmonia primordial. Os dons preternaturais que Deus havia-lhes concedido, foram todos perdidos. E o dom sobrenatural da graça santificante ficou reduzido a uma parcela mínima daquilo que era antes. Nos ensina o CIC: 

A Escritura refere as consequências dramáticas desta primeira desobediência: Adão e Eva perdem imediatamente a graça da santidade original. Têm medo daquele Deus de quem se fizeram uma falsa imagem: a dum Deus ciumento das suas prerrogativas.

A harmonia em que viviam, graças à justiça original, ficou destruída; o domínio das faculdades espirituais da alma sobre o corpo foi quebrado; a união do homem e da mulher ficou sujeita a tensões; as suas relações serão marcadas pela avidez e pelo domínio. A harmonia com a criação desfez-se: a criação visível tornou-se, para o homem, estranha e hostil. Por causa do homem, a criação ficou sujeita “à servidão da corrupção”. Enfim, vai concretizar-se a consequência explicitamente anunciada para o caso da desobediência: o homem “voltará ao pó de que foi formado”. A morte faz a sua entrada na história da humanidade.

(CIC, 399-400)

Pecado de Adão e Nosso

Infelizmente, a ofensa que Adão e Eva cometeram contra Deus não afetou somente a eles. Todos nós estávamos presentes de maneira potencial em nosso pai comum, por isso todos nós sofremos com o pecado original. O que Adão fez, todos nós também o fizemos. Sobre a hereditariedade do pecado original, ensina São Pio X: 

62) Este pecado, é próprio somente de Adão?

Este pecado não é só de Adão, mas é também nosso, embora por diverso título. É próprio de Adão, porque ele o cometeu com um ato da sua vontade, e por isso nele foi pessoal. É nosso, porque tendo Adão pecado como cabeça e fonte de todo o gênero humano, é transmitido por geração natural a todos os seus descendentes, e por isso para nós é pecado original.

Quando dizemos que nascemos no estado de pecado original, queremos dizer que nossa alma nasce com algo a menos; não podemos encontrar nela algo que deveria estar lá. Ela está “manchada”, imersa na escuridão espiritual, fechada à vida sobrenatural. O Batismo abre nossas almas para vida espiritual. Quando somos batizados, Deus derrama em nós a sua Luz, tirando-nos, assim, do nosso estado de escuridão.

O Batismo não restaura nossa natureza para o estado que Adão e Eva gozaram antes da Queda. Os dons preternaturais, por exemplo, não serão mais desfrutados por nós nesta vida terrena. Mas devemos nos alegrar mesmo assim, pois Deus foi misericordioso com a raça humana. Após a o pecado original, Ele poderia ter nos deixado de lado, relegando-nos a uma vida fora da graça, fadados a padecer eternamente no inferno. Mas Ele não quis que fosse esse o nosso destino. 

A Virgem Maria 

Com a exceção de Nosso Senhor Jesus Cristo, depois de Adão e Eva, um único ser humano foi privado do pecado original: a Virgem Santíssima. Ao ser escolhida e predestinada para ser a Mãe do Filho de Deus, Maria foi preservada, desde o momento de sua concepção, do pecado original. Isso porque seria um atentado contra Deus, se a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ao encarnar-se e assumir nossa natureza humana, fosse gerada no ventre de uma pecadora. 

Maria amou a Deus desde o ventre de Santa Ana e sua alma esteve sempre unida a Ele desde o primeiro momento de sua existência. Esse privilégio com o qual a Virgem foi agraciada é chamado de Imaculada Conceição de Maria. Diz o CIC: 

Para vir a ser Mãe do Salvador, Maria “foi adornada por Deus com dons dignos de uma tão grande missão” (Lumen Gentium, 56) . O anjo Gabriel, no momento da Anunciação, saúda-a como “cheia de graça” (Lc 1, 28). Efetivamente, para poder dar o assentimento livre da sua fé ao anúncio da sua vocação, era necessário que Ela fosse totalmente movida pela graça de Deus.

Ao longo dos séculos, a Igreja tomou consciência de que Maria, “cumulada de graça” por Deus, tinha sido redimida desde a sua conceição. É o que confessa o dogma da Imaculada Conceição, proclamado em 1854 pelo Papa Pio IX:

“Por uma graça e favor singular de Deus onipotente e em previsão dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada intacta de toda a mancha do pecado original no primeiro instante da sua conceição (Denzinger, 2803)” (CIC, 490-491) 

Assim encerramos mais esta catequese.


Referência Bibliográficas

  • Catecismo da Igreja Católica; 
  • Catecismo Maior de São Pio X; 
  • TRESE; Leo John. A fé explicada / Leo J. Trese; tradução de Isabel Perez. – 7ª ed. – 
  • São Paulo: Quadrante, 1999.

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