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Criação e Queda: E depois de Adão?

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Em nossa última catequese falamos sobre o pecado original e de como Adão e Eva, em um ato de soberba e desobediência, quebraram a aliança com Deus; quebrando a ligação que havia entre Criador e criatura. Cabe-nos agora falar da situação da humanidade após o pecado original. Para isso, recorramos a uma pequena história contada pelo padre Trese: 

Certa vez, um homem passeava por uma pedreira abandonada. Distraído, aproximou-se demasiado da beira do poço que lá se formara e caiu de cabeça na água. Tentou sair, mas as paredes eram tão lisas e verticais que não podia encontrar um ponto onde apoiar a mão ou o pé. Era bom nadador, mas sem dúvida ter-se-ia afogado por cansaço se um transeunte não o tivesse visto em apuros e o tivesse resgatado com uma corda. Já fora, sentou-se para esvaziar os sapatos de água, enquanto filosofava um pouco: “É surpreendente como me era impossível sair dali, e o pouco que me custou entrar.”

(TRESE; 1999; p. 53)

Uma ofensa cresce conforme cresce a dignidade de quem é ofendido. Se ofendermos nosso vizinho, arremessando nele algum objeto, teremos como consequência uma briga e, talvez, um olho roxo. Por outro lado, se fizermos a mesma coisa contra um Presidente, instantaneamente seremos capturados por seus seguranças e levados para uma delegacia. Dessa forma, se a gravidade da ofensa tem certa relação com a dignidade do ofendido, e se Deus tem uma dignidade ilimitada e perfeita, a ofensa que é contra Ele cometida será muito mais grave do que qualquer outra ofensa, não podendo existir mal maior que esse. 

Isso explica o porquê de Adão ter deixado a humanidade em situação parecida com aquela do homem que caiu no posso. Assim como ele, estávamos presos lá no fundo e não havia nada, absolutamente nada, que pudéssemos fazer para sair de lá. Nossas capacidades são todas limitadas. Mesmo que todas as pessoas que já existiram, existem, ou existirão dessem a vida para reparar a ofensa cometida contra Deus, não seria o suficiente para que houvesse uma reparação; toda a humanidade unida continua sendo limitada. 

Logo, para que essa situação fosse resolvida só havia uma única solução possível: o próprio Deus teria de pagar essa dívida que Adão e Eva criaram. Somente Ele é infinito. Então somente Ele poderia pagar um débito igualmente infinito. 

A Redenção 

O modo como Deus pagou a dívida não é desconhecido por nós, já ouvimos essa história inúmeras vezes. Porém, nunca nos cansamos de nos maravilharmos com a misericórdia e amor infinitos de Deus, ao decretar, desde toda a eternidade, que o seu próprio Filho fosse o escolhido para pagar o preço devido pelo nossos pecados, assumindo uma natureza humana. 

O Catecismo da Igreja Católica é claro ao ensinar que Deus não nos abandonou depois do pecado original:

Depois da queda, o homem não foi abandonado por Deus. Pelo contrário, Deus chamou-o e anunciou-lhe, de modo misterioso, que venceria o mal e se levantaria da queda. Esta passagem do Gênesis tem sido chamada “Proto-Evangelho” por ser o primeiro anúncio do Messias redentor, do combate entre a Serpente e a Mulher, e da vitória final dum descendente desta.

A Tradição cristã vê nesta passagem um anúncio do “novo Adão” que, pela sua “obediência até à morte de cruz” (Fl 2, 8), repara super‑abundantemente a desobediência de Adão. Por outro lado, muitos santos Padres e Doutores da Igreja vêem na mulher, anunciada no proto-Evangelho, a Mãe de Cristo, Maria, como “nova Eva”. Ela foi a primeira a beneficiar, dum modo único, da vitória sobre o pecado alcançada por Cristo: foi preservada de toda a mancha do pecado original e, durante toda a sua vida terrena, por uma graça especial de Deus, não cometeu qualquer espécie de pecado.

(CIC, 410-411) 

Cristo, o novo Adão, sendo verdadeiramente homem, poderia representar e agir por toda humanidade, como fez Adão ao pecar. Sendo Ele também verdadeiramente Deus, possuíam suas ações um valor infinito, suficiente para pagar todos os pecados; cometidos ou por cometer. 

Ao serem expulsos do Jardim do Éden, Adão e Eva ouviram a profecia que o Catecismo chama de Proto-Evangelho. Neste primeiro anúncio, Deus disse a Satanás: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela; ela te esmagará a cabeça, e tu em vão te revolverás contra seu calcanhar.” Essa esperança permeou todo o Antigo Testamento. Muito tempo passou até que o Cristo esmagasse a cabeça da serpente, mas a esperança trazida por essa promessa nunca deixou de brilhar. 

Depois do Cristo

A história não chegou ao seu fim depois da Redenção. A vinda do Cristo marca, na verdade, a plenitude dos tempos, o ápice da história. A reparação que o Cristo trouxe não levou a nossa liberdade. Assim como nossos primeiros pais eram livres e precisavam usar essa liberdade para provar seu amor por Deus, nós também o temos. 

Todos nós nascemos com o pecado original, mas ele não é o único presente em nós: temos de lidar com aqueles pecados que  nós mesmos cometemos. Este pecado é chamado de atual. O pecado atual pode ser de dois tipos: mortal ou venial, de acordo com o grau de malícia e maldade que há nele. 

Usemos um exemplo do Padre Trese para introduzirmos os graus de pecado:

Sabemos que há graus de gravidade na desobediência. Quando um filho desobedece a seus pais em pequenas coisas ou é indelicado com eles, não é necessariamente por falta de amor por eles. Seu amor pode ser menos perfeito, mas existe. Não obstante, se este filho lhes desobedece deliberadamente em assuntos de grave importância, em coisas que os firam e aflijam gravemente, há bons motivos para concluir que não os ama. Ou, pelo menos, tiramos a conclusão de que ama a si mesmo mais do que a eles.

(TRESE; 1999; p. 55)

Observamos a mesma coisa nas nossas relações com Deus. Quando O desobedecemos em matérias de menor importância, não quer dizer não O amemos. A desobediência em matérias que não são graves configuram o pecado venial. 

O pecado ainda pode ser considerado venial quando desobedecemos a algo de matéria grave caso exista em nós ignorância ou falta de consentimento pleno em relação à matéria. Podemos exemplificar essa situação imaginando-nos no lugar de um católico que vivesse na Alemanha nazista. Esse católico esconde em sua casa um judeu, quando recebe a visita de um agente da Gestapo. Ao ser indagado pelo agente sobre judeus avistados na área, o católico vê-se obrigado a mentir; isto é, ele mentiu sem dar pleno consentimento a esse ato, agindo por medo das consequências que a delação do judeu traria tanto para o refugiado como para o próprio católico. 

Não vemos neste católico uma malícia que tem como base um consciente e deliberado desprezo por Deus. 

Os pecados veniais são assim chamados, pois a palavra latina “venia” significa “perdão”. Ou seja, os pecados veniais são perdoados por Deus sem que seja necessário o sacramento da Confissão. Basta um ato de contrição e o propósito de emenda. 

Apesar disso, não podemos dar pouca importância aos pecados veniais. Todos os pecados são uma falha no amor, ainda que seja parcial no caso dos veniais. O único mal que supera aquele do pecado venial é o mal do pecado mortal, portanto não devemos nos apegar nem aos pecados veniais. Temos o dever de nos empenharmos para extirpá-los de nossas vidas. 

Vários pecados veniais não se tornam em um pecado mortal, porque o número não modifica a espécie do pecado. Contudo, quão maior for o número de pecados veniais que cometemos, maior será a chance de cairmos na tentação de cometermos um pecado mortal. No Evangelho de São Lucas lemos: “Quem é fiel nas pequenas coisas, será também nas grandes; e quem é injusto nas pequenas será injusto também nas grandes.” 

Porém, da mesma forma que um pecado que a princípio seria considerado mortal, devido a algumas condições de ignorância ou falta de pleno consentimento, possa ser considerado venial, um pecado venial também pode vir a ser considerado mortal. Tomemos como exemplo aquele que comete pequenos furtos de maneira contumaz, habitual. Roubar uma moeda de um real não é um pecado, mas roubar muitos moedas de um real até conseguir juntar milhares de reais é um pecado mortal; não pela quantidade, mas pela intenção. 

De qualquer forma, se o nosso coração está posto e firmado em seguir a vontade de Deus, não há motivos para que nos preocupemos com essas coisas, pois quem anda nos caminhos d’Ele sempre evita o pecado. 

Falaremos mais sobre o pecado atual na nossa próxima catequese. 


Referência Bibliográficas 

  • Catecismo da Igreja Católica; 
  • Catecismo Maior de São Pio X; 
  • TRESE; Leo John. A fé explicada / Leo J. Trese; tradução de Isabel Perez. – 7ª ed. – 
  • São Paulo: Quadrante, 1999.

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