Conheça, ame, viva e defenda a Fé Católica

Mais confissões de um ex-protestante

69

Olá, meu caro leitor. Sob os protestos de minha esposa, darei continuidade ao artigo publicado na semana passada. Ela (talvez com razão) me diz para continuar a série sobre o Santo Rosário, mas a quantidade de reflexões a que fui levado pela meditação daquele trecho do Evangelho de São João me impele a falar um pouco mais sobre o assunto.

Uma coisa interessante que percebi somente depois de terminado o primeiro texto é que o título veio bem a calhar. Esse modo de escrever, intercalando memórias e reflexões com preces dirigidas a Deus é muito próprio das Confissões de Santo Agostinho. Quando eu era protestante, tinha o hábito saudável de escrever um diário, e mesmo sem fazer idéia de quem era Santo Agostinho, escrevia do mesmo modo naquela época. A única diferença para os textos que escrevo hoje em dia é a quantidade de “aleluia” e “glória a Deus”. 

Ah, se eu soubesse o que estava diante de mim quando uma pessoa apareceu com um livro de Santo Agostinho sugerindo-me que o lesse! Levado pelo temor de ofender a Deus lendo uma obra católica, recusei a oferta. Talvez as coisas tivessem sido bem diferentes se eu houvesse entendido o convite de Deus naquele dia.

Mas não se chora pelo leite derramado. Deus foi bom e com sabedoria me trouxe para a casa Passemos então às confissões. 

Uma das coisas que reflito até hoje é como um protestante tem certeza sobre tudo, resposta para tudo. Algo semelhante eu vi apenas no curso de Direito. Para você ter idéia do grau de certeza sobre tudo que tem um protestante pentecostal, pergunte-lhe se está certo da própria salvação. Mesmo os que estão afastados da religião dizem que serão salvos, porque um dia vão voltar para a igreja. Ah, se eles soubessem o que significa pecar por excesso de esperança! Ah, se eles soubessem que isso é pecado contra o Espírito Santo!

Por mais que as Escrituras deixem claro que o homem padece de uma profunda ignorância, eu sempre encontrava uma resposta pronta para todas as objeções que eram opostas às minhas crenças. Procedia desse modo porque julgava ser uma obrigação moral ter essa certeza. Não preciso aqui dizer que o que eu possuía não era Fé, mas uma crença (e muito fraca, diga-se de passagem). 

Mas eu percebia que isso não era uma particularidade minha. Todas as pessoas que partilhavam daquelas crenças agiam do mesmo modo. Aliás, foi com elas que aprendi a ser assim. Quantas vezes eu não ouvi (e quantas outras não declarei) que o cristão tem que estar certo de sua própria salvação? Havia verdadeiro repúdio pela expressão “não sei” em matéria de crença. 

Lembro-me do dia que tomei consciência desse mal. Eu estava disputando com protestantes sobre um determinado assunto, estando já nessa época afastado da religião. Em determinado momento, a pessoa que comigo debatia perguntou-me como eu podia explicar determinada coisa à luz de minha nova teoria. Eu lhe disse que não sabia. Por incrível que pareça, a pessoa tomou a resposta como um triunfo de sua suposta verdade. Ela não deve ter percebido que eu declarei ignorância não como quem se dá por vencido, mas como quem admite um desconhecimento com paz de espírito.

Hoje eu sei que se eu espremer aquelas mesmas pessoas como um limão, elas terão que se dar por vencidas e declarar ignorância em muitas matérias, ou acabarão por dar respostas incoerentes com declarações anteriores. Antes eu não podia agir de tal modo, pois não tinha o mesmo conhecimento que tenho hoje. Também é verdade que se hoje eu for espremido como um limão por pessoas que entendem muito mais do que eu, terei de confessar ignorância. Mas há duas diferenças: a primeira é a de que eu já aprendi que a ignorância é uma das penas que deverei suportar até o fim dessa vida, e a segunda é a de que a Fé bem fundada não é abalada por coisas desse tipo.

Uma das lições mais valiosas que uma pessoa deve aprender é lidar com a própria ignorância. A quantidade de coisas que são ignoradas é muito, muito maior do que o número de coisas conhecidas. Estamos falando sobre mistérios de Fé, mas não precisamos ir tão longe para compreender isso. Uma das coisas que mais mata no Brasil é acidente de trânsito. Só no ano de 2020, cerca de 29.200 pessoas morreram em decorrência disso. Acidentes de trânsito são ocasionados por diversos fatores (falhas nos veículos, distrações, imprudência, erros humanos etc.). Acontece que as pessoas suportam todos os dias os riscos do trânsito, mesmo não sabendo se serão a próxima vítima. Veja que estamos falando de um dano muito grave, que é a perda da vida! Qualquer um sabe que pode ser a próxima vítima mesmo sendo uma pessoa cautelosa na direção; compreende que não tem como controlar a totalidade dos fatores. Você já deve ter percebido que esse raciocínio não se aplica somente ao trânsito.

Como alguém pode viver tranquilamente sabendo que pode ser a próxima vítima de acidentes (ou incidentes) letais? A maioria das pessoas nunca pensa nisso porque é natural que as coisas sejam desse modo. Quem se prender a esse pensamento não fará mais coisa alguma. Se todos adotarem esse mesmo princípio, a humanidade será extinta. Então é óbvio que existe desordem na falta de ação por medo de algo que é inevitável. 

Estou dizendo isso apenas para provar como é grande a capacidade do ser humano em lidar com a ignorância, e como isso não o impede de viver e desfrutar do que há de bom na vida. Não é razoável que o mesmo se dê com o conhecimento que temos das coisas espirituais? Como pode alguém falar que Deus é um Deus de mistérios se não se comporta segundo essa verdade diante da própria ignorância? Como pode alguém pretender uma resposta para todas as objeções? O resultado dessa atitude é o abandono de Deus, porque a pessoa concebeu um arcabouço de idéias que tenta explicar todas as coisas, o que é impossível. A realidade irá mostrar que essas idéias são falsas, e então a pessoa só poderá escolher um dos três caminhos de que falarei.

O primeiro é a negação da realidade. Esse pecado é muito sério. Deus é a verdade, e a verdade se manifesta antes de tudo na realidade. No caso dos seres humanos, estamos literalmente falando da realidade sensível. Nossos pensamentos só são possíveis porque temos contato com as coisas percebidas pelos sentidos. É a partir desses dados que o intelecto opera. Não nego que Deus possa conceder a uma pessoa a experiência inexprimível de sua presença e até mesmo da chamada inabitação trinitária. Mas é fato que Ele mesmo, conhecedor de todas as realidades visíveis e invisíveis, manifesta-se a nós por meio de sinais visíveis. Nós somos seres humanos, é natural que seja assim. Se fosse de outro modo, julgaríamos Deus como imperfeito por nos ter aprisionado em uma matéria que não serve para nada. Se a matéria fosse intrinsecamente má, Deus seria imperfeito por tê-la criado, e mais ainda por ter assumido a matéria quando criou para si um corpo humano.

Há uma coisa que tenho percebido nos últimos anos: é pela negação da realidade que as pessoas se tornam loucas. Não digo isso pejorativamente. Falo sobre loucura clínica que exige tratamento especializado!

O segundo caminho é o abandono de Deus. Certas pessoas por verem derrubados um tijolo do edifício que construíram ao longo dos anos, julgam que tudo está perdido. Revoltam-se contra Deus, e em pouco tempo manifestarão seu ódio por Ele, mesmo sabendo lá no íntimo que Deus existe e que julgará os vivos e os mortos. Acontece que esse ódio teve início em uma frustração com uma coisa que não é Deus! A pessoa mete idéias erradas na cabeça pela fraqueza de sua Fé e depois fica revoltada quando a realidade a desmente! Veja que grande injustiça decorre de não aceitar com paz e humildade a própria ignorância! 

Aqui novamente eu vejo a associação entre Cristo e a Igreja. Esta é desprezada pela maioria das pessoas não por aquilo que ela realmente é, mas por aquilo que acreditam que seja. Todas, absolutamente todas as pessoas que eu conheci e que desprezam a Igreja não a conhecem. Os protestantes que conhecem a Igreja não a desprezam de modo algum; são pessoas que têm respeito pela verdade.

Sobre o terceiro caminho já falamos. Grave no seu coração que a ignorância deve ser aceita com paz e humildade. É necessário muita paciência para lidar com ela. É preciso ter confiança para deixar o assunto de lado, suspender o juízo, pedir a Deus luzes para bem compreender as coisas e procurar alguém de critério para conversar, sabendo que mesmo assim pode não ser possível alcançar uma resposta.

Mas antes de tudo a pessoa deve se saber se há um verdadeiro estado de ignorância ou um erro induzido. Isto acontece muito! Nós pensamos que os erros que se espalham no mundo são causados somente pela ignorância. Nada mais falso! Os grandes erros têm origem na malícia. Veja o caso de Karl Marx. Muitos podem pensar que ele cometeu um equívoco. Pensam que ainda que isso tenha resultado em milhões de mortes, foi um equívoco. No entanto, os estudiosos do assunto declaram que Marx não se enganou de modo algum. Ele sabia o que estava fazendo. Uma das evidências é que ele falseava estatísticas em suas obras para adequá-las às teorias que pregava. Nós nunca podemos desprezar o nível da malícia dos filhos do maligno. A mentira descarada é muito mais comum do que imaginamos. É verdadeiro o adágio que diz que uma mentira contada muitas vezes torna-se verdade.

Ainda esses dias eu estava explicando para um irmão que a superpopulação mundial é um mito. Os adeptos da contracepção falam em quase 8 bilhões de pessoas como se fosse um problema, mentindo descaradamente quando dizem que o planeta Terra não pode suportar todo esse contingente. Se você acredita nisso, eu sugiro que faça uma conta bem simples. Tome o número total de habitantes do Brasil e divida por quatro, para saber mais ou menos quantas famílias existem em nosso país (a média de filhos por casal no Brasil não chega a 2). Agora tente colocar todas essas famílias em um território do tamanho do Estado de São Paulo e veja quantos hectares dariam por família. Depois que se assustar com a quantidade de terra disponível, faça projeções para o resto do mundo, e você vai entender o que eu estou falando.

Esse tipo de engano prejudica a Fé? Mas é claro que sim! Tal mentira coloca em cheque o ensinamento da Igreja de que a maioria das formas de controle de natalidade são imorais e gravemente pecaminosas! Se você se deixa levar por esse tipo de mentira, não tendo a devida paciência para estudar bem as coisas, acabará abandonando a Fé ou vivendo em pecado. Em ambos os casos o diabo já lucrou uma alma. É simples assim.

No entanto, pode ser que a pessoa perceba que realmente estava enganada, pois os fatos que baseiam os argumentos contrários são verdadeiros, e os raciocínios são validamente lógicos, partindo de premissas corretas. Neste caso, a pessoa deve aceitar humildemente o erro, retificar se for preciso e dar graças a Deus por ter se dignado a iluminar as trevas de seu entendimento.

Meu caro irmão, a humildade é a verdade. Essa declaração profunda feita por Santa Teresa D’Ávila é um manancial de meditações. Sob certo ponto de vista, a doutora está nos dizendo que sem humildade não se pode alcançar a verdade, ao passo que também está dizendo que humilde é aquele que sabe a verdade sobre si mesmo. Então tomemos consciência de nossa ignorância, sobretudo em matéria de Fé. Esforcemo-nos por conhecer tudo aquilo que a Igreja ensina como sendo de Fé, mas saibamos que mesmo os dogmas abarcam uma parcela ínfima da realidade invisível, e muito provavelmente só tratam daquilo que é indispensável para que as pessoas não incorram em erros que lhes custem a salvação eterna.

Certa vez, pedi a um Professor por quem tenho grande estima que me esclarecesse algumas coisas sobre o protestantismo. Em determinado momento, ele disse de modo muito incisivo que o protestantismo é a religião da soberba. Eu refleti muito sobre isso, e permaneço refletindo passados já quase dois anos. Cada vez mais vejo que é verdade. Seria custoso relatar para você todas as minhas memórias que confirmam isso, mas posso garantir que é assim mesmo.

Bem por isso tenho pena dos meus irmãos católicos que são visivelmente soberbos, principalmente os que se arrogam exímios conhecedores do magistério da Igreja. O olhar de altivez, a ironia, as falas de menosprezo… Tudo isso me recorda o que vi e vivi no convívio com os protestantes. Eu tenho pena porque Deus tem um modo muito severo de tratar os soberbos. Ele odeia a soberba mais do que tudo! Não há palavras para exprimir como ela o ofende! O remédio e a pena para a soberba é a humilhação. Então Deus, seja para salvar, seja para punir o soberbo, permite com que ele seja humilhado. Quão amargo o remédio que esses irmãos terão que tomar para se verem curados dessa pecha abominável!

Voltando ao assunto principal, tenho um relato interessante que demonstra o que eu disse até aqui. Certa vez, quando eu era ainda protestante, foi jogado na mesa o assunto da teoria da evolução. A esposa do pastor fez pouco caso, dizendo que era absurdo supor que o homem veio do macaco. Eu já havia estudado o assunto e lido A Origem das Espécies de Charles Darwin de cabo a rabo; eu sabia que tal afirmação era desonesta. Tomei a palavra e disse que na verdade a teoria supõe que o homem e o macaco têm um ancestral comum, e não que o homem procede do macaco. Nunca vou me esquecer da resposta que ouvi: “ah, é tudo a mesma coisa”. 

Entenda isto, meu caro irmão: para mim é evidente que a teoria da evolução é errada, e não por motivos de Fé, mas por motivos científicos. No entanto, isso não me dá o direito de mentir a respeito dela e obstinar-me na mentira, ainda que motivado pela defesa da Fé. Esse fato me marcou muito e contribuiu para o enorme desprezo que passei a ter pela religião cristã quando a abandonei. Para mim, o cristianismo havia se tornado uma religião de covardes que tinham medo da verdade, movidos única e exclusivamente pelo temor de receberem a punição eterna.

Ah! Se eu apenas tivesse aceitado ler aquele livro de Santo Agostinho… 

Eu já demonstrei como aquelas passagens do Evangelho de São João me levaram a refletir que o que Jesus sofreu em seu tempo continua a sofrer hoje por meio de seu Corpo que é a Igreja, de modo que interpreto o apelo de Jesus Cristo aos judeus como um apelo da Santa Igreja a todos os incrédulos. De fato, nega a realidade aquele que diz crer em Jesus sem antes ter acreditado na pessoa que lhe comunicou o Evangelho.

Se é verdade que só podemos obter a salvação pela Fé em Jesus Cristo, é verdade que só podemos obter a salvação por meio da Santa Igreja Católica, que é o Corpo de Cristo que continua a agir na história. Quando Cristo diz que é o caminho, está a dizer que sua humanidade é a ponte que conduz o gênero humano à divina essência; a união hipostática é o símbolo disso, porque nela a humanidade e a divindade se unificam, de modo que as duas coexistem perfeitamente em uma mesma pessoa sem anularem-se mutuamente. É um verdadeiro mistério, um grande mistério! Sabemos que é assim porque cremos na Igreja, mas vemos isso como uma imagem em um espelho embaçado. Não é por acaso que, no mesmo discurso em que Cristo se refere a si mesmo como “o caminho”, ele também diz “o Pai e eu somos um”, e também que os discípulos serão um com ele, assim como ele é um com o Pai. Humanidade e divindade unidas por um verdadeiro milagre feito pelo Espírito Santo!

Mas os protestantes levantam objeções em relação a isso. Para eles, essa doutrina é idolátrica por dois motivos: divinização do homem pecador e usurpação do lugar de Cristo pelos homens (a Igreja Católica é para eles apenas uma instituição humana, quando não demoníaca).

À primeira objeção respondo que a divinização do homem não é idolatria, mas a Fé dos Apóstolos. Cristo disse nessa mesma ocasião que a Igreja faria obras maiores do que as dele. As obras de Cristo são obras divinas, pois ele mesmo disse que são feitas pelo Pai. A diferença é que Cristo é verdadeiro Deus, ao passo que os homens não. No entanto, a união da alma com Deus pelas virtudes da Fé, Esperança e Caridade faz com que o homem proceda divinamente, movido livremente pela vontade do Espírito Santo. É por isso que se fala em divinização do homem. O Apóstolo quis dizer isso ao declarar que já não era mais ele que vivia, mas Cristo. Uma pessoa divinizada não é uma pessoa divina. Divinas são somente as pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Elas são divinas desde toda a eternidade. Não passaram de um modo de ser para o outro, portanto seria incorreto referir-se a elas como divinizadas. Uma pessoa divinizada é uma pessoa que, por livre e espontânea vontade, em tudo procede para a maior glória de Deus, segundo o modo pelo qual Ele mesmo quer ser glorificado por meio dela. Os anjos e os seres humanos foram criados para serem divinizados. Nisso consiste a perfeita felicidade para a qual a Santíssima Trindade os criou por pura bondade.

À segunda objeção responderei em um artigo futuro.

Meu caro irmão, sei que todas as coisas que escrevo nesses artigos não são novidades para você, mas meditar essas coisas nos fazem ver diferenças fundamentais que existe entre a verdadeira Fé e todas as demais crenças no mundo. Como diz o Padre Paulo Ricardo: “é lindo ser católico!”. A Igreja é uma fonte inesgotável de sensatez, amor pela verdade, virtude, caridade, presença de Deus. 

Realmente, é lindo ser católico!

Peço para você a caridade de falar sobre esses artigos comigo pelo Instagram (@aduccineto). Eu realmente preciso saber se tenho entregado um conteúdo de valor para vocês, e se esses pit stops que faço no meio do caminho são aceitáveis. Também preciso saber se vocês gostariam que eu aumentasse a freqüência das publicações ou que tratasse outros temas. Enfim, irmão, a sua opinião é muito valiosa para que eu possa orientar meus passos futuramente.

Que Deus abençoe a todos e ao apostolado Cooperadores da Verdade.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.