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Deus revela o Seu Nome

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Finalmente voltamos às nossas meditações sobre os mistérios gozosos do Santo Rosário. Quando eu me dei conta que estamos já na quinta parte da série e nem sequer encerramos o primeiro mistério, fiquei um pouco perplexo e receoso. A perplexidade é autoevidente, ao passo que o receio é de que você considere minhas reflexões muito prolixas. 

Pois bem, devo dizer que tomei a decisão de deixar este receio de lado. Penso que a mentalidade que deve imperar em um cristão é a de que sua vida de oração deve progredir. É pela oração que nos relacionamos com Deus até que possamos chegar ao fim último de nossas vidas que é conhecer e amar a Deus, alcançando aquela terna e afetuosa união denominada pela Igreja de Caridade.

Nunca é demais, portanto, ler escritos piedosos fundados em boa doutrina para nos aprofundarmos cada vez mais nos mistérios de nossa redenção. Com o passar do tempo, esta prática dá substância aos nossos pensamentos, palavras e ações. O doce nome de Maria tem um sabor muito diferente dependendo do grau de devoção e de intimidade que com Ela temos. Assim acontece também (e principalmente!) com o Santo Nome de nosso Salvador.

Na última meditação contemplamos o mistério d’Aquela que encontrou graça diante de Deus. Compreendemos que a graça que por Maria foi encontrada é a mesma que nossos primeiros pais perderam por não terem faltado com a Fé. A Senhora dos Anjos não encontrou graça para si, pois dela já era plena desde sua Imaculada Conceição. Foi para nós homens e para a nossa salvação que, tendo oferecido sua vida a Deus desde o ventre de sua mãe, alcançou-nos a graça atraindo para o seu puríssimo seio o Verbo Eterno de Deus:

És um horto cerrado, minha irmã, minha noiva, uma nascente fechada, uma fonte selada.

(Ct 4, 12)

Agora vejamos como o Anjo prosseguiu seu anúncio:

Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. 

Vejam que trecho impressionante! O Anjo do Senhor revela a Maria Santíssima o Nome do Salvador, e com isto encerra o ciclo de um mistério muito grande, guardado zelosamente por Deus desde toda a Eternidade. Creio que até aquele momento somente aos Santos Anjos tinha sido dada tal ciência. Digo isto tendo em mente o fato óbvio de que Deus age por muitos caminhos desconhecidos, e sendo Ele o Senhor do Universo, nada o impedia de ter revelado o sacrossanto mistério da Santíssima Trindade a alguns de seus escolhidos mais diletos que precederam a encarnação do Verbo. Não podemos concluir coisa semelhante quando Cristo diz que Abraão viu o seu dia e se alegrou? Especulações, especulações…

A revelação do Nome de Jesus é algo de suma importância porque, até então, o Nome de Deus era um verdadeiro mistério para o povo judeu. Moisés, estando no monte Horeb, viu uma sarça envolta em chamas que não era consumida pelo fogo. Aproximando-se do curioso objeto, ouviu Deus lhe chamando. O Senhor prometeu a Moisés que libertaria o povo de Israel da escravidão do Egito, e disse-lhe que era ele o escolhido para dizer ao faraó que libertasse os escravos. Moisés, desconfiando de sua própria fraqueza e antevendo os percalços da empresa, perguntou a Deus o que diria aos israelitas quando estes perguntassem qual era o nome da divindade que o havia enviado. Deus então respondeu a Moisés:

Eu sou aquele que sou.

(Ex 3, 14)

Ó, profundidade dos mistérios de Deus! Oxalá soubessem os grandes sábios da terra que o Deus Vivo e Verdadeiro se manifestou na história como sendo o próprio Ser em essência! Não teria isto impactado desde aquele tempo tudo o que entendemos ser a metafísica de Aristóteles? Sim! O homem é capaz de Deus! Lutero estava errado! A natureza humana não foi corrompida a tal ponto de não poder conhecer a verdade pela luz da razão natural! A razão não é uma prostituta! Sim! A sabedoria humana é capaz de conhecer o ser! A razão humana é capaz de Deus! Aleluia!

Desculpe-me, meu querido irmão, por este rompante de alegria. Eu simplesmente não consigo conter tais impulsos! Ah! Quem me dera eu possuísse uma centelha da sabedoria de um Santo Tomás para ser capaz de ocupar-me muito mais de tão sublime contemplação!

O nome que Deus revelou a Moisés é descrito pelo tetragrama YHWH, que se parece com a expressão “eu sou” em hebraico. Não entendo muito bem sobre o assunto, mas sei que muitos especialistas, como o Papa Bento XVI, afirmam que o tetragrama é um nome incompleto. Veja o que este mesmo teólogo diz:

O nome do Sinai [YHWH], que ficou por assim dizer incompleto […].

O Nome de Jesus dá ao tetragrama o seu sentido completo, significando Deus salva. Diz o Papa Bento XVI que o nome que antes tinha ficado incompleto é agora revelado na sua totalidade. Continua dizendo:

O Deus que é, é o Deus presente e salvador. A revelação do nome de Deus, que começou na sarça ardente, é completada em Jesus.

Temos aqui então uma primeira revelação: Jesus Cristo é Deus.

Isto pode parecer óbvio, mas você já parou para pensar na audácia de nossa Fé? Jesus é Deus! Deus assumiu a forma humana, tornando-se igual a nós em tudo, exceto no pecado! O Deus Todo-Poderoso, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, Aquele que é exaltado acima de todos, Aquele que tem todo o domínio, honra, glória e poder, Aquele que com um ato de vontade criou os Céus, a Terra e tudo o que neles há, Aquele que sustenta todas as coisas pelo seu sumo poder, Aquele para quem nada está em segredo, Aquele que não cabe em palavras humanas, Aquele a quem ninguém pode conhecer com toda a perfeição fez-se homem!

Ah, meu querido irmão! Você tem idéia de quantas pessoas já perderam a vida por confessar tão sublime verdade? Você tem noção no ódio que semelhante declaração produz no inferno, pelo que o diabo move tudo quanto lhe é possível para calar a boca aos que professam esse mistério? Ou você não sabe que os demônios nem sequer podem confessar que Cristo assumiu a forma humana (1Jo 4, 1-2)?

Talvez tenha sido no sublime momento da anunciação que Maria Santíssima tomou conhecimento do duplamente santo mistério: Deus é Pai, é Filho e é Espírito Santo. Veja o que lhe disse o Anjo:

Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus [Pai]. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo (…). O Espírito Santodescerá sobre ti (…). 

(Lc 1, 30-35)

Digo talvez porque é bem possível que Maria Santíssima, sendo portadora de santidade tal que a todos os anjos excedia desde a sua Imaculada Conceição, e tendo sido dotada do uso da razão desde que foi concebida no ventre de sua mãe, poderia muito bem ter conhecimento do sacrossanto mistério da Trindade Santa desde muito antes.

Pois bem, que reflexão cabe diante do mistério do Nome de Deus que a nós é revelado em Cristo Jesus?

Devemos antes de tudo compreender o que significa um nome, e poucos há que o façam.

Infelizmente, fogem-me no momento as referências bibliográficas para lhes explicar de onde tirei o que passarei a dizer, e até mesmo por isso estarei sujeito a imprecisões. Portanto, peço condescendência de agora em diante, e também que me corrijam os versados em filosofia para que eu faça os ajustes necessários no futuro.

Quando Deus criou o homem, deu-lhe a terra e tudo o que nela há para que a trabalhasse e contemplasse a criação. Neste ora et labora, ofereceria o homem culto a Deus, unindo-se cada vez mais a Ele pelos laços da Caridade, até que chegaria o momento em que o Senhor concederia ao homem o dom da visão beatífica, fazendo-o participante de uma felicidade ainda mais perfeita do que a que possuía no paraíso terrestre.

No livro do Gênesis está relatado que Deus, após ter criado o homem, levou as criaturas a sua presença para ver como o homem as haveria de chamar. Continua dizendo:

[…] e todo o nome que o homem pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome.

(Gn 2, 19)

Note bem o que está sendo dito nesta passagem. Tudo aquilo que foi criado por Deus possui um nome próprio, um nome que Deus conhece em sua infinita sabedoria. Ao homem foi dada inteligência para que conhecesse, no uso da razão natural, o nome das criaturas que lheforam submetidas por Deus.

E o que é o nome no mais profundo sentido do termo? É a expressão intelectual daessência de um ser. Se possuíssemos a mesma inteligência de Adão, compreenderíamos as coisas de modo muito diferente. Ouvindo falar sobre um cachorro só pelo nome, não precisaríamos ver um cachorro ou pedir que nos explicassem o que ele é. O nome por si (que não seria “cachorro”)já expressaria a essência daquela criatura, e ela seria perfeitamente compreensível.

Infelizmente no Brasil perdemos essa noção mais acurada do que significa um nome, porque na maioria das vezes as crianças são batizadas pelo critério da moda. Os nomes são atribuídos de modo aleatório, sem pensar no que significam. Nem sempre foi assim. Na verdade, não faz muito tempo que se deu início a este processo que acabou por prejudicar de modo formidável a inteligência. 

Para saber mais sobre isso, assista ao vídeo intitulado Top 15 Baby Names in US from1880 to 2019 no YouTube. É um vídeo rápido e você não precisa saber nada de inglês para entendê-lo. Você vai perceber que até 1920 os nomes mais comuns com que as crianças eram batizadas eram Mary (Maria) e John (João), porque as pessoas tinham a consciência de que era necessário dar aos filhos nomes que indicassem virtudes evangélicas ou que homenageassem os santos. Esta seleção se mantém estável até a ascensão vertiginosa da cultura pop americana, no qual vemos que a cada ano o nome preferido para o batismo das crianças muda conforme o nome artista que está em alta. Você tem idéia de quantos Michaels foram registrados nos Estados Unidos durante o tempo em que Michael Jackson figurou como o artista mais influente da nação? Você pode imaginar quantos Enzos e quantas Valentinas foram registrados no Brasil nos últimos anos pelo simples fato de que tais nomes “pegaram” nas redes sociais?

Esse é um dos pontos que reflete a decadência de nossa civilização. Como é triste verque nós, que trouxemos um modo de vida civilizada aos índios, hoje perdemos uma compreensão que eles já tinham antes mesmo de conhecerem a civilização, pois nem mesmo os índios atribuíam nomes aleatórios aos seus filhos.

Embora tenhamos perdido essa ciência, Deus sabe a sua importância, pois criou o homem para a contemplação, e o objeto da contemplação é justamente aquilo que conhecemos do ser contemplado, ou seja, seu nome. E é por isso que é tão importante o segundo mandamento da Lei de Deus (não pronunciar o Nome do Senhor em vão).

O que Deus nos deu a conhecer sobre Si é o seu Santo Nome, e o compreenderemos de modo ainda mais perfeito quando alcançarmos o Céu. Deus é espírito. A Divina Essência não pode ser vista com os olhos da carne. E isto também é verdade quando falamos de Jesus Cristo, que reina glorioso no Céu em corpo, sangue, alma e divindade. Se não fosse assim, todos os que o viram em sua forma humana teriam crido.

Em Cristo, o Nome de Deus nos foi plenamente revelado, tanto quanto nos é possível saber por meio da Fé. E como Deus se revela a nós, até que o possuamos de modo perfeito na glória? Ele se revela como Deus salva. Sim, meu irmão, o nosso Deus é salvação.

Olha agora para o ventre de Maria Santíssima. Vê que dentro dela Deus se fez pequeno, fraco e humilde. Fez isto por amor de você. Sem isto, ainda que você visse a sarça ardendo e Deus lhe declarando amor infinito, não seria suficiente. Então Ele quis aniquilar-se a si mesmo por amor de você. Ele não precisava de nada disso. Ele nada deve a mim ou a você. Ele nos criou por pura bondade e nós o ofendemos. Mesmo depois de termos conhecido a salvação e recebido os Sacramentos, tornamos a ofendê-lo.

E você? Como vai responder a isso de agora em diante?

Que Deus abençoe a todos e ao apostolado Cooperadores da Verdade.

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