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O que é “virtude”?

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Você é virtuoso? Essa é uma pergunta que já devemos ter ouvido em nossas vidas ou já devemos ter feito a nós mesmos. Em um primeiro momento, a resposta geral para ela é: “Não”. Mas há três virtudes que todos aqueles batizados que estão em estado de graça santificante possuem: a fé, a esperança e a caridade, as três virtudes mais altas. E, mesmo que a pessoa cometesse um pecado mortal, ainda restariam a fé e a esperança. 

Primeiramente, definamos o que é virtude: Santo Tomás diz que os hábitos virtuosos “são certas disposições e inclinações das diversas faculdades, que fazem bons os atos correspondentes” (PÈGUES, 2019, p.119). São Pio X, complementa essa definição:

A virtude sobrenatural é uma qualidade que Deus infunde na alma, pela qual se tem propensão, facilidade e prontidão para conhecer e praticar o bem, em ordem à vida eterna.

(Catecismo Maior, 852)

Também o Catecismo da Igreja Católica: 

A virtude é uma disposição habitual e firme para praticar o bem. Permite à pessoa não somente praticar atos bons, mas dar o melhor de si mesma. A pessoa virtuosa tende para o bem com todas as suas forças sensíveis e espirituais; procura o bem e opta por ele em atos concretos.

(CIC, 1803)

Às virtudes que adquirimos por esforço próprio, desenvolvendo de maneira consciente um hábito bom, chamamos de uma virtude natural. O hábito torna-se sólido com a repetição dos atos. Quando um ato se enraíza em nós a ponto de podermos dizer que aquela ação é algo da nossa natureza, adquirimos uma virtude. E esta será natural, porque foi alcançada por esforço próprio. 

Contudo, Deus pode atuar em nossa alma, infundido nela uma virtude, sem que façamos esforço algum. As virtudes dessa espécie – hábitos que Deus infunde na alma – chamam-se sobrenaturais. As três virtudes sobrenaturais mais importantes são fé, esperança e caridade, que são as virtudes teologais. As virtudes teologais são chamadas assim porque dizem respeito diretamente a Deus. Diz São Pio X: 

As virtudes teologais têm a Deus por objeto imediato porque pela Fé nós cremos em Deus, e cremos tudo o que Ele revelou; pela Esperança esperamos possuir a Deus; pela Caridade amamos a Deus e n’Ele amamos a nós mesmos a ao próximo.

(Catecismo Maior, 855)

Estas três virtudes, junto com a graça santificante, são infundidas nas almas no momento do Batismo. 

Diferenças entre as virtudes naturais e sobrenaturais 

Existem duas diferenças principais entre as virtudes naturais e sobrenaturais. Uma virtude natural, como já fora dito, é adquirida através da prática frequente de certo ato; por isso quanto maior for certa virtude natural em nós, mais fácil será praticá-la. Contudo, isso não é verdade quando o assunto são as virtudes sobrenaturais, pois elas são infundidas diretamente na alma e não implicam um hábito; logo, não irão, necessariamente, tornar a sua prática mais fácil. 

A outra diferença está na forma como essas duas virtudes crescem. As virtudes naturais crescem da mesma forma que são adquiridas; ou seja, através da prática repetida de certo ato. Já as virtudes sobrenaturais só podem crescer através da ação de Deus, portanto crescerão na mesma proporção que a graça. 

As virtudes morais 

Além das virtudes teologias, existem outras quatro virtudes que são infundidas na alma pelo Batismo. Estas virtudes não dizem respeito diretamente a Deus, mas sim às pessoas e coisas com relação a Deus, por isso são chamadas de virtudes morais. São elas: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. Essas virtudes também são conhecidas como cardeais. Esse adjetivo deriva do latim cardo, que significa “dobradiça”; isto é, as outras virtudes giram em torno das cardeais. Quem possui uma dessas virtudes, possui todas as outras. Diz o CIC: 

Há quatro virtudes que desempenham um papel de dobradiça. Por isso, se chamam «cardeais»; todas as outras se agrupam em torno delas. São: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. Se alguém ama a justiça, o fruto dos seus trabalhos são as virtudes, porque ela ensina a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza (Sb 8, 7). Com estes ou outros nomes, estas virtudes são louvadas em numerosas passagens da Sagrada Escritura.

(CIC, 1805)

A Fé 

A Fé é a virtude primeira e fundamental das virtudes teologais, pois não podemos esperar e amar a um Deus no qual não acreditamos. A Fé “é a virtude pela qual assentimos plenamente a tudo quanto nos foi revelado por Deus” (Catech. R. I, I, 1). Nas palavras do Catecismo da Igreja Católica: 

A fé é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus; é, ao mesmo tempo, e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou. Como adesão pessoal a Deus e assentimento à verdade que Ele revelou, a fé cristã difere da fé em uma pessoa humana. É justo e entregar-se totalmente em Deus e crer absolutamente no que Ele diz. Seria vão e falso pôr tal fé em uma criatura.

(CIC. 150)

Detenhamo-nos sobre alguns aspectos das definições de Trento e do Catecismo. Cremos verdadeiramente quando damos nosso assentimento incondicional e definitivo a uma afirmação. Muitas vezes, empregamos o verbo “crer” de maneira imprópria como, por exemplo, quando dizemos que cremos em uma coisa que irá acontecer (“Creio que irá chover”). Crer não é ter uma opinião sobre determinada coisa. A fé demanda certeza. 

Contudo, nem todas certeza é fé, como nos ensina o Padre Leo Trese, em seu A fé explicada: 

Não digo que creio cm alguma coisa, se a vejo e compreendo claramente. Não creio que dois e dois sejam quatro porque é algo evidente; posso compreendê-lo e prová-lo satisfatoriamente. O tipo de conhecimento que se refere a falos que posso perceber c demonstrar é compreensão e não crença.

(TRESE, 1999, p. 113)

A fé é uma aceitação com base na autoridade de outra pessoa, por adesão pessoal a ela. Posso nunca ter estado em um algum lugar, mas por conhecer pessoas, nas quais confio, que lá estiverem, eu creio na existência dele. Este é o conhecimento da fé: aceitar pela autoridade de outro, através da confiança e de uma adesão pessoal. 

A essa fé baseada em algo revelado a nós por outra pessoa, chamamos de fé humana. Já a Fé que possuímos naquelas verdades reveladas por Deus, chamamos de divina, que é de um conhecimento muito mais seguro e firme do que aquele da fé humana.

Deus é a Sabedoria infinita e a Verdade infinita, logo não pode enganar-se. Portanto, a fé precisa ser completa. Não é possível escolher as verdades reveladas por Deus que mais nos agradam. Encerremos com mais uma referência ao Padre Trese: 

A fé de que falamos é fé sobrenatural, a fé que surge da virtude divina infusa. É possível ter uma fé puramente natural em Deus ou em muitas de suas verdades. Esta fé pode basear-se na natureza, que dá testemunho de um Ser Supremo, de poder e sabedoria infinitos; pode basear-se também na aceitação do testemunho de inúmeras pessoas grandes e sábias, ou na atuação da Providência divina em nossa vida pessoal. Uma fé natural deste tipo é uma preparação para a autêntica fé sobrenatural, que nos é infundida junto com a graça santificante na pia batismal. Mas é só esta fé sobrenatural, esta virtude da fé divina, que nos é infundida no Batismo, aquela que nos dá condições para crer firme e inteiramente em todas as verdades, mesmo as mais inefáveis e misteriosas, que Deus nos revelou. Sem esta fé, os que alcançaram o uso da razão não poderiam salvar-se. A virtude da fé salva a criança batizada, mas, quando se adquire o uso da razão, deve haver também atos de fé. 

(TRESE, 1999, p. 115)

Na próxima catequese falaremos sobre as virtudes da Esperança e da Caridade. 


Referências

  • Catecismo da Igreja Católica; 
  • Catecismo Maior de São Pio X; 
  • Catecismo Romano; 
  • Pègues, Tomás. A Suma Teológica de Santo Tomás em forma de catecismo – Tomás Pègues. Campinas, SP: Edições Livre, 2019. 
  • TRESE; Leo John. A fé explicada / Leo J. Trese; tradução de Isabel Perez. – 7ª ed. – 
  • São Paulo: Quadrante, 1999. 

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