A filosofia moderna torna as pessoas miseráveis. Que tal uma aproximação medieval?

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(LifeSiteNewsTraduzido por Gabriel Gomes) Ao olharmos o panorama da modernidade recente, podemos ver um grande número de pensamentos dominantes do momento. Dois deles, creio eu, são especialmente perniciosos: a atitude, trazida à tona por uma combinação de materialismo e tecnologia, que vê toda natureza – incluindo a natureza humana- como matéria-prima para exploração (“Se podemos fazer, devemos fazer”, ou como expresso classicamente, “o poder torna certo”) e o aumento em milhares das “espiritualidades” vagas, as quais envolvem essa atitude egoísta em pacote brilhante de aceitação social e autoengano psicológico – em outras palavras, uma espiritualidade de “faça você mesmo” que, em seu centro, uma forma de egoísmo hedonista. 

Como chegamos neste lugar tão fundo, e como podemos emergir? Existem várias maneiras de responder essas questões, mas aqui eu gostaria de chegar a uma resposta por meio de um contraste entre os três pensadores mais influentes do ocidente. 

Algumas vezes denominado o “pai da filosofia moderna”, René Descartes (1596-1650), nos seus escritos da maturidade, repudiou a filosofia e teologia Católica que ele havia aprendido no colégio jesuíta de La Flèche. Nesse aspecto ele exemplificouum dos mais notáveis tratados dos filósofos modernos: a contínua busca por uma fundação perfeita sobre a qual pudessem construir seus sistemas, algo que requer um afastamento ou até destruição dos fundamentos que já foram postos por outros. É oposto do princípio Cristão: “Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido” (1 Cor 15,3).

Nós podemos ver essa separação de caminhos em uma passagem famosa de Descartes: O Discurso do Método: “Em um lugar onde a filosofia especulativa ensinada nas escolas, é possível encontrar a filosofia prática”, pela qual nós poderíamos “tomarmo-nos a nós mesmos como mestres possuidores da natureza.” Não, em outras palavras, respeitosos estudantes, zeladores, e assistentes da natureza, que aprendem a trabalhá-la para o nosso bem e o bem comum, mas estupradores que dominam a natureza para o seu bel prazer, condutores de escravos que sujeitam as criaturas às suas próprias vontades. Por que deveríamos voltar nossas atitudes para esse pensamento? Descartes nos conta:

“O que é de desejar, não só para a invenção de uma infinidade de artifícios, que permitiriam gozar, sem qualquer custo, os frutos da terra e todas as comodidades que nela se acham, mas principalmente também para a conservação da saúde, que é sem dúvida o primeiro bem e o fundamento de todos os outros bens desta vida. […] se é possível encontrar algum meio que torne comumente os homens mais avisados e mais hábeis do que foram até aqui, creio que é na Medicina que se deve procurá-lo. […] poderíamos livrar-nos de uma infinidade de moléstias, quer do espírito, quer do corpo, e talvez mesmo do enfraquecimento da velhice, se tivéssemos bastante conhecimento de suas causas e de todos os remédios de que a natureza nos dotou.”

“Infinidade de artifícios” para “gozar, sem qualquer custo, os frutos da terra”? Aqui temos o esboço da revolução tecnológica e materialista, que de maneira implícita ou explícita toma a saúde do corpo como o bem maior ou sumum bonum, sofrimento do corpo como mal primário, e a medicina como a disciplina suprema. Deus não somente furiosamente rejeitado, como Ele também é ignorado, ou ainda, convidado a retirar-se, porque Ele não entrega os bens físicos imediatos, nos quais colocamos as nossas esperanças. Isso é o que São João Paulo II chamava de “ateísmo prático”. 

Em outra obra, Princípios da Filosofia, Descartes comparou a filosofia a uma árvore, a qual tem a metafísica como raiz, a física como tronco e os galhos são a medicina, a mecânica e moral. Depois de introduzi a metáfora, ele escreve: “Assim como não é da raiz ou do tronco que alguém retira o fruto de uma árvore, mas somente nas pontas dos galhos, o principal benefício da filosofia depende daquelas partes que só podem ser aprendidas no final.” A fruta do conhecimento é, no lado corporal, uma abundância de artifícios para postergar ou amenizar a morte e, no lado psíquico, o arenoso estoicismo para aceitar a vida em um universo de forças indiferentes e impessoais. 

#DicaCooperadores A Raiz Antitomista da Modernidade Filosófica, por Daniel C. Scherer

Um dos primeiros a enxergar que o Cartesianismo não tinha nada a oferecer para a humanidade foi Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716), um dos criadores do Cálculo, que por volta de 1679 escreveu uma carta perspicaz sobre Deus e a alma, no curso da qual diz:

O Deus de Descartes, ou ser perfeito, não é um Deus como nós imaginamos ou esperamos, ou seja, um Deus justo e sábio, que faz todo o possível para o bem das criaturas. Pelo contrário, o Deus de Descartes é algo parecido com o Deus de Spinoza [que é idêntico com o cosmos impessoal]. […] Esse é o porquê um Deus como o Descartes não nos permite nenhum tipo de consolação a não ser aquela da paciência pela força. […] É impossível acreditar que esse Deus se importa mais com as criaturas inteligentes do que com as outras; cada criaturas será feliz ou infeliz a depender de como ela acha a si mesma presa nessa grande corrente ou vórtice. Descartes tem boas razões para recomendar, ao invés de felicidade, paciência sem esperança.

Depois de séculos que otimismo racionalista Cartesiano havia perseguido seu curso e o mundo parecia ter sido esvaziado de significado pelo materialismo e despido de mistério pela tecnologia, o filósofo Martin Heidegger (1889-1976) tentou criar um novo começo. Porém sua resposta, apresentada no polo oposto, compartilha da mesma doença:  filosofia é estar perto da morte, reconhecendo e abraçando a inevitabilidade da aniquilação. Cuidado genuíno pelos outros e autenticidade para consigo mesmo são estabelecidos nessa corajosa boas-vindas ao não-ser. Não há uma estranha semelhança entre esses pensamentos e o programa de enervação exposto pelo “Buda compassivo”, o grande professor da eutanásia espiritual? O Ocidente Cristão teve de esperar tanto tempo para um filósofo dar-lhe a mesma mensagem que o antigo Oriente distante? E ainda, sem as virtudes deste mesmo Oriente, nós estamos muito mais suscetíveis a tomar essa mensagem de desespero como uma desculpa para uma embreagem desesperada para prazeres evanescentes: “Coma, beba, e seja feliz, pois amanhã você morrerá.”

O sábio tolo ou tolice sábia do Apóstolo Paulo e do seu discípulo medieval Tomás de Aquino está totalmente distante do orgulho Cartesiano e do desespero Heideggeriano como os extremos do vício estão do “meio” da virtude. Assim como a elevada montanha eleva-se muito acima das medíocres terras baixas, o “teísmo místico” de Aquino, fundando no pessoal e transformador mistério de Deus, eleva-se muito acima do teísmo prático de Descartes e o ateísmo especulativo de Heidegger. Santo Tomás já havia previsto as posições delas e as rejeitado, assim como ele fez com milhares de outras objeções à verdade da religião cristã e suas fundações metafísicas. 

Não é de se espantar que o Papa Leão XIII, na sua encíclica Aeterni Patris de 1879, propôs que Santo Tomás seria o pensador mais adequado para prover ao currículo instável dos seminários e escolas, e para ser o guia para a criação da resposta filosófica e teológica da Igreja à modernidade. Leão XIII estava advogando a favor de uma criatividade fiel à tradição – o exato oposto da mentalidade que prega a construção do zero, que vimos no pai da filosofia moderna. 

O conselho de Leão XIII e a sabedoria de Aquino não são menos necessários em nossos dias. De fato, nossa falha em guardar o que eles nos legaram, nos tornará presas para o pragmatismo Cartesiano e para o pseudo-misticismo Heideggeriano, ou para uma aterrorizante combinação dos dois.

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