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A Santíssima Trindade e a Criação

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Fontes primárias

1. 1. Textos de títulos idênticos no site do Opus Dei (21 pgs.); 2. §§ 232 a 384 do Catecismo da Igreja Católica.

Na última aula, terminamos a antropologia católica tal qual exposta pelo Catecismo, compreendendo que a fé é uma resposta humana e divina, ou humana- divinizada, ao chamado de Deus, cujo fim é a participação do homem na natureza divina, da qual a fé já faz parte pela graça. Também começamos a estudar o Credo Apostólico, resumo bimilenar da fé da Igreja, cunhado para as cerimônias de Batismo.

Hoje continuaremos o estudo do Credo, especificamente do primeiro Artigo, tratando do Mistério da Santíssima Trindade e do Mistério da Criação.

O Mistério da Santíssima Trindade

“§1. Deus, infinitamente perfeito e bem-aventurado em Si mesmo, num desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para o tornar participante da sua vida bem-aventurada.” Eis por que, desde sempre e em todo lugar, está perto do homem. Chama-o e ajuda-o a procurá-Lo, a conhecê-Lo e a amá-Lo com todas as suas forças. Convoca todos os homens, dispersos pelo pecado, para a unidade da sua família, a Igreja. Faz isto por meio do Filho, que enviou como Redentor e Salvador, quando os tempos se cumpriram. N’Ele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo, seus filhos adotivos e, portanto, os herdeiros da sua vida bem-aventurada.

A Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã (§234). Assim como é Dela que toda a criação procede (§258), assim também é Dela que todas as verdades da fé derivam. Ela é o fim de tudo – afinal, é para participar Dela que somos chamados (§260) – e é nela que tudo subsiste.

Ela é uma daquelas verdades que só pode ser conhecida pela fé, pela Revelação (§237). A razão humana, por si só, não pode alcançar essa Verdade. Percebam que nem mesmo o povo Israelita, no Antigo Testamento, vislumbrou a Trindade, apesar de já terem parte da revelação. Apenas com o Evangelho Ela se tornou acessível.

A razão, porém, uma vez iluminada, pode encontrar fundamentos para o mistério. Se, em alguns casos, podemos conhecer aspectos das verdades da Fé pela investigação racional, em outros, podemos apenas raciocinar depois de ter aceitado como premissa do pensamento a verdade revelada.

Esses dois modos, se é que podemos chamá-los assim, de utilizar a razão (um investigativo – ou indutivo –, que chega a novas verdades por um processo de humilde e sincera investigação; e outro dedutivo, ou seja, que deduz de verdades já aceitas outras menores ou derivadas, já contidas nas primeiras), estão adequados à Fé, mas, como vimos, de modos diferentes.

Esse segundo é o que dá origem ao Desenvolvimento da Doutrina da Igreja, bem como às descobertas dos fundamentos racionais da Revelação. Ele é descrito muito bem por São John Henry Newman, que diz que:

Quando uma ideia, real ou não, é de tal natureza que apreende e toma posse da mente, dela pode ser dito que tem vida, ou seja, que vive na mente que é seu recipiente. Assim, as ideias matemáticas, tão reais quanto sejam, dificilmente podem ser chamadas “vivas”, ao menos comumente.

Mas, quando um grande enunciado, real ou não, sobre a natureza humana, o bem atual, o governo, o dever, ou a religião é levado a frente até a turba pública dos homens, e chama a atenção, então ele não meramente recebida com passividade nesta ou naquela forma nas muitas mentes, mas ele se torna um princípio ativo dentro delas, levando-as para uma sempre nova contemplação de si mesmo, para uma aplicação dele em suas várias direções e uma propagação dele em todos os lugares.

Tal é com a doutrina do direito divino dos reis, do direito do homem, dos aspectos antissociais do sacerdócio, do utilitarismo, do livre mercado, do dever de empreendimentos benevolentes, ou da filosofia de Zenão ou de Epicuro, doutrinas cuja natureza atrai e influencia, e têm uma tal realidade à primeira vista que podem ser observadas por muitos lados e tocar mentes diferentes de modos muito variados.

Deixe que uma dessas ideias tome posse da mente popular ou da mente de qualquer parte de uma comunidade, e não é difícil entender qual será o resultado. No começo, os homens não compreenderão completamente o que é que os move, e expressarão e explicarão a si mesmos inadequadamente.

Haverá uma agitação generalizada do pensamento, e uma ação da mente sobre a mente. Haverá um período de confusão, quando concepções e incompreensões estarão em conflito, e é incerto se qualquer coisa procederá de algo modo da ideia, ou qual visão dela deve ter precedência sobre as outras. Novas luzes serão utilizadas para aclarar as declarações iniciais da doutrina esposada; novos julgamentos e aspectos se acumularão.

Depois de um tempo, algum ensino definitivo emerge; e, à medida que o tempo passa, uma visão será modificada ou expandida por outra, e, então, combinada com uma terceira; até que a ideia a qual pertencem esses vários aspectos seja para cada mente separadamente o que, em primeiro lugar, era apenas para todas em conjunto.

Ela será investigada, também, na sua relação com outras doutrinas ou fatos, com outras leis naturais ou costumes estabelecidos, com as circunstâncias variáveis dos tempos e lugares, com outras religiões, políticas, filosofias, conforme seja o caso. Como ela permanecerá quando sob as influências de outros sistemas, como ela os afetará, o quanto poderá ser combinada com eles e o quanto os tolerará, quando com eles interferir, será gradualmente elaborado.

Ela será interrogada e criticada pelos inimigos, e defendida pelos simpatizantes. A multidão de opiniões formadas sobre ela, nesses pontos e em muitos outros, será colecionada, comparada, classificada, peneirada, selecionada, rejeitada, gradualmente a ela ligada, separada, na mente dos indivíduos e da comunidade. Ela irá introduz a si mesma, na medida do seu vigor e da sua sutileza naturais, na estrutura e nos acontecimentos da vida social, mudando a opinião pública e fortalecendo ou minando as fundações da ordem estabelecida.

Com o tempo, ela terá crescido em um código ético ou em um sistema de governo, em uma teologia, ou em um ritual, de acordo com suas capacidades: e esse corpo de pensamento, adquirido com tanto labor, será, enfim, um pouco mais do que o representante adequado de uma ideia, sendo em substância o que aquela ideia significou desde o princípio, sua imagem completa, vista em uma combinação de diversos aspectos, com as sugestões e as correções de muitas mentes e a ilustração de muitos exercícios.”

NEWMAN, Saint John Henry. An Essay on the Development of Christian Doctrine. S.L: Assumption Press, 2013, p. 29-30 [ch. 1, s. I, 4]

Esse processo, que acontece em maior ou menor grau com todas as ideias, acontece plenamente com as “ideias” reveladas, com a Revelação, especialmente porque o processo de desenvolvimento dela é auxiliado pelo Espírito Santo. E, ainda, não apenas o homem encontra verdades dentro da verdade revelada, mas os fundamentos delas nas coisas criadas.

ob a iluminação da fé, a razão consegue, assim, encontrar os fundamentos do Mistério da Trindade. Não explicá-lo ou demonstrá-lo, mas compreender como ele não é contra a razão e como pode ser compreendido por analogia[1]. A compreensão analógica da Trindade será explicada aqui tomando a síntese da doutrina de Santo Tomás de Aquino.

A “explicação” analógica é a seguinte: em nós, o inteligir é um ato que se distingue do nosso intelecto, que é a faculdade; a distinção de dá, porque o intelecto pode inteligir, ou seja, há uma potência e um ato, e ambos são distintos; em Deus, porém, não há distinção entre a potência e o ato, pois Ele é puro ato; do mesmo modo, o ato de inteligir e a faculdade do intelecto não se distinguem; não se distinguem, ainda, o inteligir, o intelecto e a espécie inteligível, pois Deus conhece tudo e conhece tudo em si mesmo; estes três são a sua essência[2].

Ainda, “como o que se concebe no intelecto é uma semelhança da coisa inteligida, e representante da sua espécie”, dizemos que a concepção parece ser um filho da coisa, sendo a coisa inteligida como que o Pai da concepção e o intelecto, que gesta a coisa e gera a concepção, é como que a Mãe – sendo esse mesmo o motivo de falarmos de concepção de alguma ideia.

Quando, porém, “o intelecto se intelige a si mesmo, o verbo concebido se compara ao inteligente como o filho ao pai. Assim, quando falamos do verbo enquanto Deus se intelige a si mesmo, é necessário que o mesmo verbo se compare a Deus, de quem é verbo, como o filho ao pai.” [3]

Em nós, “uma coisa é o ser natural e outra é o inteligir”, de tal modo que “o verbo concebido em nosso intelecto, o qual tem tão-somente ser inteligível, seja de natureza outra que a de nosso intelecto, que tem ser natural. Em Deus, porém, são o mesmo o ser e o inteligir. Logo, o Verbo de Deus, que está em Deus, de quem é verbo segundo o ser inteligível, tem o mesmo ser que Deus, de quem é verbo. E por isso é necessário que seja da mesma essência e natureza que ele, e que tudo o que se diz de Deus convenha ao Verbo de Deus.” [4]

Por isso, o verbo de Deus o chama de Pai, pois dele foi gerado inteligivelmente. [5]

E, assim como “o inteligido está no inteligente enquanto inteligido, assim também é necessário que o amado esteja no amante enquanto amado. O amante, com efeito, é de algum modo movido pelo amado por certa moção intrínseca. Daí que, como o que move tem contato com o que é movido, é necessário que o amado esteja intrinsecamente no amante. Ora, é necessário que Deus, assim como se intelige a si mesmo, assim também se ame a si mesmo: com efeito, o bem é inteligido enquanto é de si amável. Deus, portanto, está em si mesmo como o amado no amante.” [6]

“Como porém o inteligido está no inteligente, e o amado no amante, há que considerar que é por razão diversa que, nos dois casos, um está no outro. Dado que sem dúvida o inteligir se faz por assimilação de um inteligiente ao que se intelige, é necessário que o que se intelige esteja no inteligente, enquanto sua semelhança consiste nisto. O amar, todavia, faz-se segundo alguma moção do amante pelo amando: o amado, com efeito, atrai para si o amante. Portanto, ao contrário do inteligir, que se perfaz por semelhança com o inteligido, o amar não se perfaz por semelhança com o amado, senão que se perfaz por atração do amante para o mesmo amado. A transmissão da semelhança principal, porém, faz-se principalmente por geração unívoca, segundo a qual, entre as coisas viventes, se chama generante ao pai, e gerado ao filho. Entre eles, ademais, a primeira moção faz-se segundo a espécie. Assim, pois, como o modo pelo qual Deus está em Deus como o inteligido está no inteligente se expressa ao dizermos Filho, que é o Verbo de Deus, assim também o modo pelo qual Deus está em Deus como amado no amante expressamo-lo ao afirmar o Espírito, que é o amor de Deus.” [7]

Essa explicação analógica, que parte do modo como nós conhecemos e amamos, é a maneira pela qual podemos compreender que o Mistério da Trindade não é contra razão e como há em nós, estando a explicação correta literalmente, há algo da Trindade em nós – motivo pelo qual somos realmente Sua imagem e semelhança.

Essa semelhança entre nós e a Trindade é o que permite que a explicação analógica seja feita, mesmo que não seja a descrição real da Natureza Divina. Essa semelhança, na verdade, não é só entre o homem e Deus, mas entre Deus e toda a criação. Por isso que o recurso analógico (a analogia entis de Santo Tomás de Aquino) permite conhecer algo de Deus (§286). Desse modo, sendo obra da Trindade (§ 292), a Criação é também Revelação, uma vez que comunica a glória e a perfeição de Deus (§§293; 315).

O Mistério da Criação

Dentre todos os tópicos relevantes no tema da Criação, penso que dois tem particular importância nos nossos tempos: a Lei Natural e a Ordem. A importância desses dois temas – que, de muitos modos, são um – é que hoje tanto a visão de que existe uma Ordem na Realidade quanto a de que, por causa dessa Ordem, existem diretrizes fundamentais para o comportamento humano, foram abandonadas.

Da Lei Natural traremos melhor quando falarmos dos Dez mandamentos. Por hora, basta notar que ela é uma classificação das diversas leis de constituição e desenvolvimento de cada ente criado, pois cada criatura reflete a seu próprio modo a sabedoria e a bondade de Deus, e cada uma tem uma finalidade na Ordem do cosmos criado (§339). O fundamento das leis naturais, portanto, não é qualquer ideal abstrato e utópico, mas a própria natureza das criaturas, natureza que se desenvolve no curso da vida de cada uma.

Quanto a Ordem do Ser, importa perceber que i. ela foi criada por Deus e tem como fundamento, especificamente, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, o Logos divino, Cristo (Jo 1); ii. que ela não está à disposição do homem, de tal modo que ele pode escolher apenas se vai participar ativamente ou não dela; iii. que o homem ocupa uma posição única nela: vive entre a matéria e o espírito.

Disso nós podemos tirar alguns preceitos para a vida humana.

O primeiro é que, viver de acordo com a Lei Natural é viver de acordo com a Razão Divina. Por isso que São Paulo disse que os homens que, não tendo ouvido o Evangelho, viveram de acordo com ela, crendo que há um Deus que recompensa de acordo com as obras, cumprem a Lei (Rm 2, 13-16). Portanto, conhecer a Lei Natural das criaturas e, especialmente, do homem, é o caminho para obedecer a Deus, para a santidade.

O segundo, que o homem, mesmo se for rebelde a Deus, ainda serve a Ele (§307). Em primeiro lugar, porque o homem nunca pode ir completamente contra a sua Lei Natural, ele nunca pode buscar conscientemente o Mal. Mesmo quando busca o mal, considera que conseguirá algum benefício dessa busca. Portanto, ao invés de sermos rebeldes, é melhor escolhermos cooperar ativamente com a vontade divina, ajudando a aperfeiçoar a criação

E, em terceiro lugar, que não há nenhuma outra criatura capaz de instaurar a Ordem do Ser na realidade além do homem. Deus pode, claro, mas ele não é criatura. Apenas o homem, por ter uma natureza material e espiritual, pode ser a ponte entre Deus e o resto da Criação. Não podemos acreditar que a Criação continuaria existindo em Ordem sem o homem. Ele, nós, somos responsáveis por fazer desse mundo uma imagem da Ordem divina e, sem nós, a Criação, ao invés de voltar a um “estado primitivo”, cairia numa tremenda desordem.


Prof. Rafael Cronje Mateus
Dada no Centro Cultural Alvorada, no dia 14 de abril de 2021.


Referências

  1. “Dado que nosso intelecto não é suficiente para conter-lhe a essência, partimos, em sua cognição, das coisas que estão ao redor, nas quais se encontram diversas perfeições, cuja raiz e origem é em Deus algo uno, como se mostrou [c. 22]. E, como não podemos nomear as coisas senão na medida em que as inteligimos, pois que os nomes são signos do inteligido, não podemos nomear a Deus senão a partir das perfeições que se descobrem nas coisas, cuja origem está nele mesmo; e, como tais perfeições nas coisas são múltiplas, é necessário impor muitos nomes a Deus.” SANTO TOMÁS DE AQUINO. Compêndio de Teologia. Edição bilíngue. 2a edição. Trad. Carlos Nougué. Porto Alegre: Concreta, 2017, p. 101 [l. 1, c. 24].
  2. SANTO TOMÁS DE AQUINO. Compêndio, p. 109 [l. 1, c. 31].
  3. SANTO TOMÁS DE AQUINO. Compêndio, p. 116-17 [l. 1, c. 39].
  4. SANTO TOMÁS DE AQUINO. Compêndio, p. 117 [l. 1, c. 41].
  5. SANTO TOMÁS DE AQUINO. Compêndio, p. 117 [l. 1, c. 40].
  6. SANTO TOMÁS DE AQUINO. Compêndio, p. 121 [l. 1, c. 45].
  7. SANTO TOMÁS DE AQUINO. Compêndio, p. 123 [l. 1, c. 46].

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