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Como Estudar a Sagrada Escritura

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Texto compilado com excertos da obra “Eruditionis Didascalicae libri Septem sive Didascalicon”, de Hugo de São Vítor

Introdução

Os dois principais meios pelos quais se alcança a ciência são o estudo e a meditação. Entre ombos o estudo ocupa, no aprendizado, uma posição de anterioridade em relação à meditação. Será, portanto, do estudo que iremos tratar em seguida, explicando quais são os seus preceitos, e interessando- nos mais particularmente pelo estudo das Sagradas Escrituras.

Três são os preceitos mais necessários para o estudo. Primeiro, é preciso saber o que se deve estudar. Segundo, em que ordem estudar, isto é, o que estudar primeiro e o que estudar depois. Terceiro, é preciso saber como estudar. Nossa intenção será tratar de cada um destes três preceitos, cuidando de modo especial de suas aplicações ao estudo das Sagradas Escrituras.

Deste modo, em primeiro lugar determinaremos quais são os livros que merecem o nome de Sagradas Escrituras; em seguida, consideraremos o número e a ordem dos livros sagrados. Trataremos também de algumas propriedades das Sagradas Escrituras que devem ser bem conhecidas pelos que se propõem a estudá-las. Feito isto, ensinaremos como devem ser estudadas as Sagradas Escrituras por aqueles que nela buscam tanto a correção dos seus costumes como uma forma de vida. Em último lugar, dirigiremos nosso discurso àqueles que estudam as Escrituras por amor da ciência.

Quais são as Sagradas Escrituras

Não são todos os escritos que tratam de Deus ou dos bens invisíveis que devem ser chamados de sagrados, e nem tampouco apenas estes. Entre os livros dos pagãos encontram-se muitas obras que tratam da eternidade de Deus, da imortalidade das almas, dos prêmios e dos castigos eternos merecidos pela virtude e pela maldade, tudo isto demonstrado por meio de argumentação bastante provável, sem que, no entanto, ninguém julgue por isto que sejam obras dignas de receberem o nome de sagradas.
Por outro lado, percorrendo a série dos livros do Antigo e do Novo Testamento, observaremos que tratam-se de escritos que se ocupam quase que inteiramente de coisas que pertencem à vida presente, raramente discorrendo abertamente sobre a doçura dos bens eternos e a felicidade da vida celeste. Não obstante, são estes escritos que a fé católica costuma chamar de sagrados.

Os escritos dos filósofos brilham externamente pelo esplendor de suas palavras, mas quando nos estendem uma aparência de verdade, mesclam-na com o erro, no que podem ser comparados a uma parede de barro caiada de branco. Tal como a parede caiada, escondem sob uma camada de cal o barro do erro [Ver nota 1] . Os discursos sagrados, ao contrário, podem ser com muita propriedade comparados aos favos de mel, pois parecem áridos na simplicidade da linguagem, mas internamente são repletos de doçura. São, ademais, chamados de sagrados porque estão tão distantes da contaminação do erro que nada de contrário à verdade pode ser encontrado neles.

Definem-se as Sagradas Escrituras

São sagradas aquelas Escrituras que vieram a lume por meio de homens que cultivaram a fé católica, tendo sido recebidos e conservados pela autoridade da Igreja universal para serem incluídas no número dos escritos sacros para o fortalecimento desta mesma fé. Além destas há ainda outras numerosíssimas obras escritas por homens sábios e religiosos, nas mais diversas épocas, as quais, ainda que não tenham sido aprovadas pela autoridade da Igreja universal, sendo conformes à fé e ensinando muitas coisas úteis, são consideradas como estando incluídas entre os discursos sagrados. Tudo isto, porém, pode ser melhor entendido exemplificando do que definindo.

Divisão das Sagradas Escrituras em dois Testamentos, cada um dividido em três ordens

Toda a Sagrada Escritura está contida em dois Testamentos, o Antigo e o Novo Testamento. Em cada testamento podem ser distinguidas três ordens. O Antigo Testamento contém a Lei, os Profetas e os Hagiógrafos. O Novo Testamento contém o Evangelho, os Apóstolos e os Padres.

Elenco dos Livros das três ordens do Velho Testamento

A primeira ordem do Velho Testamento é a Lei, que os judeus chamam de Torá. A Lei é formada pelos cinco livros de Moisés, chamados, em seu conjunto, de Pentateuco. O primeiro destes livros é o Gênesis, o segundo o Êxodo, o terceiro o Levítico, o quarto o Livro dos Números, o quinto o Deuteronômio.
A segunda ordem do Velho Testamento é a dos profetas, que contém oito volumes. O primeiro volume é o livro de Josué; o segundo, o livro de Juízes; o terceiro o Livro de Samuel, também chamado de Primeiro e Segundo Livro dos Reis; o quinto é o livro de Isaías; o sexto, o livro de Jeremias; o sétimo, o livro de Ezequiel; e o oitavo é o livro que contém as profecias dos doze profetas (menores).

Finalmente, a terceira ordem do Velho Testamento possui nove livros. O primeiro é o livro de Jó; o segundo é o livro de Davi [Ver nota 2] ; o terceiro é o livro dos Provérbios de Salomão; o quarto é o Eclesiastes; o quinto é o Cântico dos Cânticos; o sexto é o livro de Daniel; o sétimo é o livro dos Paralipômenos; o oitavo é o livro de Esdras; o nono é o livro de Ester. Todos estes livros são em número de vinte e dois.

Há, ademais, outros livros, como o livro da Sabedoria de Salomão, o livro de Jesus filho de Sirac, o livro de Judite, o livro de Tobias e os livros dos Macabeus que são lidos mas não se incluem no Cânon [Ver nota 3].

Elenco dos livros das três ordens do Novo Testamento

A primeira ordem do Novo Testamento contém os livros dos quatro Evangelhos, aqueles escritos segundo Mateus, Marcos, Lucas e João.
A segunda ordem, semelhantemente, contém também quatro livros: as Epístolas de São Paulo, em número de quatorze, reunidas em um só livro, as demais Epístolas Canônicas reunidas em outro livro, o Apocalipse e os Atos dos Apóstolos.

Quanto à terceira ordem, o primeiro lugar corresponde aos Decretais da Igreja, aos quais também chamamos de cânones ou regras; depois deles vêm os escritos dos santos padres e dos doutores da Igreja, como os de S. Jerônimo, S. Agostinho, S. Gregório, S. Ambrósio, S. Isidoro, Orígenes, S. Beda e muitos outros escritores ortodoxos, os quais são tão infinitos que não podem sequer ser contados. Seu tão grande número mostra o fervor destes homens na fé, por causa da qual deixaram aos seus pósteros tantas e tão memoráveis obras. Diante deles nossa preguiça se torna evidente, pois sequer conseguimos ler aquilo que eles puderam escrever.

Conveniência entre as ordens do Velho e do Novo Testamento

A conveniência entre as diversas ordens do Velho e do Novo Testamento fica manifesta se considerarmos que, assim como a Lei é seguida pelos Profetas e os Profetas são seguidos pelos Agiógrafos, assim também depois do Evangelho vêm os Apóstolos e depois dos Apóstolos vêm os Doutores. E.embora em cada uma destas ordens esteja contida toda a verdade, plena e perfeita, é para nós causa de admiração verificar como as razões da dispensação divina fizeram com que nenhuma delas seja supérflua.

O tríplice entendimento das Sagradas Escrituras

Expusemos, assim, brevemente, a ordem e o número dos livros sagrados, para que o estudante conheça a matéria que lhe é oferecida. Passemos agora ao restante do que nos interessa para a intenção da presente obra.

Antes de tudo o mais, deve-se saber que a Sagrada Escritura pode ser entendida de três maneiras, isto é, segundo a história, segundo a alegoria e segundo a tropologia ou, de acordo com outro modo de dizer, segundo o sentido literal, o sentido alegórico e o sentido moral.

É certo que nem tudo o que se encontra no discurso sagrado pode ser vertido nesta tríplice interpretação, como se cada lugar sempre contivesse simultaneamente uma história, uma alegoria e uma tropologia. Em muitos lugares da Escritura estas três coisas podem, de fato, ser encontradas, mas encontrá-las em todas é muito difícil ou mesmo impossível.

Ocorre no discurso sagrado o mesmo que se observa nos instrumentos musicais, nos quais somente as cordas produzem melodia, e não tudo o que puder ser percutido, embora as demais partes sejam incorporadas ao corpo do instrumento para interligarem as cordas entre si e para que, tensionando estas cordas, possam modulá-las a fim de produzir a suavidade da melodia. É deste mesmo modo que no discurso sagrado foram postas certas coisas que somente podem ser entendidas espiritualmente; outras, que estão a serviço do importante trabalho da formação das virtudes; outras ainda, que foram escritas para serem entendidas segundo o simples sentido histórico; há, finalmente, também os lugares que podem ser explicados convenientemente tanto segundo a história, como também segundo a alegoria e segundo a tropologia.

Vemos, assim, que Deus de modo admirável dispôs e interligou toda a Sagrada Escritura em suas partes para que tudo o que nela estivesse contido soasse com a suavidade da inteligência das cordas espirituais ou então, contendo seus mistérios esparsos na seqüência histórica e na dureza das letras, interligasse e se unisse à melodia do espírito como a concavidade da madeira do instrumento interliga em um só todo todas as cordas estendidas e recebe em si o som das cordas tornando-o mais doce aos ouvidos. Este som, de fato, é mais doce porque não foi formado apenas pelas cordas, mas também pelo corpo do instrumento. É assim que também o mel é mais agradável quando está no favo.

É necessário, portanto, ler a Sagrada Escritura sem que se queira buscar em toda a parte uma história, uma alegoria e uma tropologia. Cada uma destas coisas deve ser assinalada em seus devidos lugares segundo o que a razão o exija convenientemente. Será freqüente, todavia, que em uma só e mesma letra possamos encontrar a todas, na medida em que a verdade da história insinua através da alegoria um mistério espiritual e demonstra, através da tropologia, como se deve agir.

Nas Sagradas Escrituras também as coisas significam

No discurso sagrado não apenas as palavras, mas também as coisas significadas pelas palavras têm por sua vez outras significações. Trata-se de algo que só muito raramente se observa em outros escritos. Os filósofos apenas conheceram as significações das palavras, embora as significações das coisas sejam mais excelentes do que as das palavras. Estas foram instituídas pelo uso, enquanto que aquelas foram impostas pela natureza.

As palavras são a voz dos homens, as coisas são a voz de Deus dirigida aos homens. Aquelas, quando pronunciadas, já perecem; estas, quando criadas, subsistem. A tênue voz é sinal dos sentidos; as coisas são simulacros da razão divina. O som produzido pela boca, mal principia a sua subsistência, já se desvanece. Por isso, assim como este som está para a razão da mente, assim também está qualquer espaço de tempo no qual as coisas subsistem para a eternidade. A razão da mente é uma palavra interior manifestada por uma palavra exterior que é o som da voz; assim também a divina sabedoria que o Pai exalou do seu coração, invisível em si mesma, pode ser conhecida pelas criaturas e nas criaturas.

Pode-se, deste modo, depreender quão profundo é o entendimento que deve ser buscado nas Sagradas Letras onde pela voz se chega ao intelecto, pelo intelecto à coisa, pela coisa à razão, pela razão se chega à verdade. Os menos instruídos, não considerando isto, julgam não haver nas Escrituras nada mais sutil em que possam exercer sua inteligência; por este motivo, apenas se ocupam com os escritos dos Apóstolos, já que nada mais conseguem apreender ali senão a superfície da letra, ignorando a força da verdade.

Frutos do Estudo das Sagradas Escrituras

Aquele que se aproxima da Sagrada Escritura para aprender deve saber primeiro qual é o fruto que pode esperar dela. Nada, de fato, pode ser buscado sem causa, e aquilo que não promete alguma utilidade não é também capaz de atrair o desejo.

Dois são os frutos das sagradas lições. Elas nos ensinam a ciência e nos ornamentam com as virtudes. A ciência se relaciona mais com a história e a alegoria, enquanto que as virtudes com a tropologia. Todas as Sagradas Escrituras existem para este fim.

Embora seja mais importante ser justo do que ser sábio, sei todavia que muitos buscam no estudo do sagrado discurso mais a ciência do que a virtude. Não considero reprovável, porém, a busca de nenhuma destas duas coisas; ao contrário, tenho como certo que ambas são necessárias e louváveis, pelo que passarei a tratar brevemente de cada uma delas.

As Sagradas Escrituras e a formação das virtudes

Consideremos primeiramente o que se deve abraçar nas Escrituras para a formação das virtudes.

Quem no discurso sagrado busca a notícia das virtudes e uma forma de vida deve dedicar-se mais aos livros que aconselham o desprezo do mundo, que acendem a alma ao amor do Criador, que ensinam o caminho do reto viver e mostram como as virtudes podem ser adquiridas e os vícios abandonados.

É a própria Escritura que diz:

“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”, Mt. 6, 33

como se dissesse abertamente:

“Desejai as alegrias da pátria celeste e buscai cuidadosamente tudo aquilo por cujos méritos de justiça se chega a ela”.

Ambos são bens e ambos são necessários: amai-os e buscai-os. Quando o amor existe, não pode ficar ocioso. Quando se deseja ardentemente chegar, aprende-se como se alcança aquilo ao qual se anela.

Esta ciência se adquire por dois modos: pelo exemplo e pela doutrina. Adquire-se pelo exemplo quando lemos os feitos dos santos; adquire-se pela doutrina quando estudamos os seus ensinamentos no que diz respeito à nossa disciplina, entre os quais se destacam os escritos do muito bem aventurado S. Gregório Magno, que resplandecem entre todos os escritos dos santos padres pela doçura de sua doutrina e pela plenitude de amor pela vida eterna de que estão repletos.

Aquele que tiver iniciado este caminho deve procurar aprender nestes livros não apenas pela beleza do fraseado, mas também pelo estímulo que eles oferecem à prática das virtudes. Procure neles não tanto a pomposidade ou a arte das palavras, mas a beleza da verdade.

Que o estudo não seja uma aflição

Saiba também que não chegará ao seu propósito se, movido por um vão desejo da ciência, dedicar-se às Escrituras obscuras e de profunda inteligência, nas quais a alma mais se preocupa do que se edifica; e nem também se se dedicar de tal maneira apenas ao estudo que se veja obrigado a abandonar as boas obras. Para o filósofo cristão o estudo deve ser uma exortação, e não uma preocupação; deve alimentar os bons desejos, e não secá-los.

Como o estudo pode tornar-se uma aflição

Deve-se considerar também que o estudo costuma afligir o espírito de duas maneiras, a saber, pela sua qualidade, se se tratar de um material muito obscuro, e pela sua quantidade, se houver demais para se estudar. Em ambas estas coisas deve-se utilizar de grande moderação, para que não aconteça que aquilo que é buscado como uma refeição venha a ser utilizado para sufocar-nos.

Há aqueles que tudo querem estudar. Tu não contendas com eles, seja-te suficiente a ti mesmo. Que nada te importe se não tiveres lido todos os livros. O número de livros é infinito, não queiras seguir o infinito. Onde não existe o fim, não pode haver repouso; onde não há repouso, não há paz; e onde não há paz, Deus não pode habitar:

“Na paz”, diz o profeta, “fez o seu lugar, e em Sião a sua morada”. Salmo 75, 3

Em Sião, mas na paz; é importante ser Sião, mas não perder a paz.

Ouve a Salomão, ouve ao sábio, e aprende a prudência:

“Meu filho”, diz ele, “mais do que isto não busques; não há fim para se fazer livros, e a meditação freqüente é aflição da carne”. Ecl. 12, 12

Onde, pois, está o fim?

“Ouçamos, pois, todos, o fim deste discurso: teme a Deus e observa os seus mandamentos, este é todo o homem”. Ecl. 12, 13

Três gêneros de estudantes das Sagradas Escrituras

Há um primeiro gênero de homens que desejam a ciência das Sagradas Escrituras para obter honra ou fama. Esta intenção é tão perversa quanto deplorável.

Há outros a quem agrada ouvir as palavras de Deus e aprender sobre as suas obras, não porque isto possa conduzi-los à salvação, mas por serem coisas admiráveis. São pessoas que desejam investigar segredos e conhecer novidades, saber muito e não fazer nada, incapazes de se darem conta que nas coisas divinas é em vão que se admira a onipotência se não se ama a misericórdia. Elas fazem com as Escrituras o mesmo que os que freqüentam os espetáculos dos teatros e as apresentações dos músicos e dos poetas. Não se deve, porém, censurá-los; ao contrário dos anteriores, a vontade destes homens não é má, e sim imprudente. Mais do que nossa repreensão, eles necessitam de nosso auxílio.

Há, finalmente, um terceiro gênero de homens que estudam as Sagradas Escrituras para, seguindo o preceito do Apóstolo, estarem preparados para responder a todos aqueles que lhe pedirem a razão da fé que há neles (1 Pe 3,15), para destruírem com firmeza aquilo que vai contra a verdade, para ensinarem os que sabem menos, para que eles próprios conheçam mais perfeitamente o caminho da verdade, e compreendendo de modo mais elevado os segredos de Deus, possam amá-Lo mais entranhadamente. Estes são dignos de louvor e de imitação.

O estudo alegórico das Escrituras

Considera o exemplo da construção de um edifício. Primeiro se assentam os alicerces e depois, por cima deles, levanta-se o prédio. Finalmente, consumada a obra, a casa é revestida com as suas cores.

Assim também no estudo das Sagradas Escrituras importa que primeiro se aprenda a história, repetindo do princípio ao fim a verdade das coisas acontecidas, confiando diligentemente à memória o que foi feito, por quem foi feito e onde foi feito. Somente será possível investigar perfeitamente as sutilezas da alegoria quem primeiro está bem fundamentado na história.

Depois da lição da história resta investigar os mistérios das alegorias, para o que deve-se saber que esta não é matéria apropriada para espíritos tardos e obtusos. Trata-se de uma investigação que exige inteligências já maduras, possuidoras de uma sutileza incapaz de perder a prudência no discernimento. É um alimento sólido, que não pode ser engolido se não for bem mastigado. Neste estudo é necessário fazer uso de tal moderação que, à medida em que se busca a sutileza das Escrituras, a presunção não nos torne temerários, recordando-nos do que diz o Salmista:

“Retesará o seu arco e o apontará, e preparará para eles dardos de morte”. Salmo 7, 13-14

Observa a obra do pedreiro com um pouco mais de diligência. Assentados os alicerces, ele estende uma linha na horizontal e levanta outra na vertical. Põe então em sua devida ordem as pedras previamente polidas com esmero. Depois, busca outras e mais pedras, e se encontrar algumas que não se encaixem na primeira disposição, toma de sua lima, apara as saliências, aplaina as superfícies ásperas e reduz à forma o que antes era informe. Finalmente, acrescenta a pedra assim trabalhada à ordem em que havia disposto as anteriores.

É um exemplo digno de imitação. Os alicerces se encontram dentro da terra, e nem sempre têm suas pedras devidamente trabalhadas e lapidadas. Já o edifício está acima da terra, e exige uma estrutura mais trabalhada, com pedras perfeitamente ajustáveis entre si.

Assim também a sagrada página contém muitas coisas que segundo o seu sentido natural parecem contradizer-se entre si, e algumas que até mesmo parecem absurdas ou verdadeiras impossibilidades. O entendimento espiritual, entretanto, não admite nenhuma repugnância; ainda que haja nele muita diversidade, não pode haver, porém, nenhuma contrariedade.

Não carece também de significado a primeira série de pedras assentada sobre os alicerces, dispostas segundo uma linha previamente estendida e sobre a qual se ergue e se encaixa todo o restante do edifício. Esta primeira série de pedras é como que outro alicerce, e a base de todo o edifício. Este alicerce sustenta o que lhe é superposto e é sustentado, por sua vez, pelo alicerce anterior. Sobre o primeiro alicerce repousa toda a construção; nem tudo, porém, se lhe ajusta perfeitamente; sustenta o edifício, mas está abaixo do edifício. O segundo alicerce também sustenta o edifício, porém não está apenas debaixo do edifício, mas também no edifício.

Dizemos que o alicerce que está debaixo da terra representa a história, e que o edifício que sobre ele se levanta representa a alegoria. A base deste edifício, portanto, base que lhe serve como de um segundo alicerce, deverá também pertencer à alegoria.

A construção é composta de muitas ordens de pedras, cada ordem possuindo o seu alicerce; assim também a divina página contém muitos mistérios, cada um possuindo os seus princípios.

A primeira ordem é o mistério da Trindade, pois a Escritura ensina que antes que existisse qualquer criatura Deus era trino e uno.

Já existindo trino e uno, Deus criou toda a criatura do nada, tanto as visíveis como as invisíveis; esta é a segunda ordem.

Deu livre arbítrio à criatura racional e preparou-lhe a graça, para que pudesse merecer a eterna bem aventurança. Puniu-as por terem caído por sua livre vontade; persistindo em sua queda, confirmou-as para que não pudessem cair mais ainda. A origem do pecado, o que ele é e qual a sua pena, eis a terceira ordem.

Os mistérios que Deus instituiu sob a lei natural para a restauração do gênero humano, eis a quarta ordem.

As Escrituras que Ele instituiu sob a Lei, eis a quinta ordem.

O mistério da Encarnação do Verbo, eis a sexta ordem.

Os mistérios do Novo Testamento, eis a sétima ordem.

Sua própria ressurreição, eis finalmente a oitava ordem.

Esta é toda a divindade, este é aquele edifício espiritual construído e erguido para o alto com tantas ordens quantos mistérios nele se contém. Os alicerces de cada ordem são os princípios destes mistérios. Se os alicerces da história já foram assentados, resta agora assentar os alicerces do próprio edifício. A linha que deve ser estendida antes de alicerçar as primeiras pedras é o caminho da verdadeira fé; as primeiras pedras que alicerçam a obra espiritual são os mistérios da fé pelos quais esta obra se inicia. Antes, pois, de abordar o estudo da alegoria, o estudante deve procurar instruir-se de quanto diz respeito à profissão da verdadeira fé para que tudo o que vier a encontrar depois possa ser edificado com segurança. Muitos que estudam as Escrituras, por não possuírem os alicerces da verdade, caem em erros diversos, e tantas vezes mudam suas sentenças quantas vezes se aproximam da leitura das Escrituras.

No livro de Ezequiel lemos que eram as rodas que seguiam os animais, e não os animais que seguiam as rodas:

“E quando os animais andavam, andavam também as rodas junto deles; e quando ao animais se elevavam da terra, também as rodas se elevavam juntamente”. Ez. 1, 19

Assim ocorre com a mente dos homens santos, que quanto mais progridem nas virtudes ou na ciência, tanto mais profundos vêem ser os arcanos das Sagradas Escrituras, e aquilo que para os homens simples e ainda presos às coisas da terra parecem coisas desprezíveis, para os espíritos mais elevados parecem sublimes.

Continua Ezequiel:

“Para onde o espírito ia, e para onde o espírito se elevava, as rodas, seguindo-o, também igualmente se elevavam. Porque o espírito da vida estava nas rodas”. Ez. 1,20

Lemos, assim, que as rodas seguiam estes animais, e seguiam o espírito. Ainda em outro lugar está escrito:

“A letra mata, o espírito, porém, vivifica”, 2 Cor. 3, 6

porque, a saber, importa que o estudante das Escrituras esteja tão consolidado no entendimento espiritual que os pontos mais importantes da letras, que algumas vezes podem ser entendidos pervertidamente, não o inclinem a desviar-se.

Por que aquele povo tão antigo, que havia recebido a Lei da Vida, foi reprovado, senão porque seguiu de tal maneira a letra que mata que não possuiu o espírito que vivifica? Não digo estas coisas para dar a qualquer um a ocasião de interpretar as Escrituras à sua vontade, mas para mostrar que aquele que segue apenas a letra não pode permanecer muito tempo sem cair no erro. É necessário, pois, seguir a letra de tal maneira que não se dê preferência ao nosso julgamento diante daquele dos autores sagrados; e não seguir a letra de tal maneira que se julgue depender dela todo o julgamento da verdade. Não é o letrado, mas o espiritual que tudo julga (1 Cor 2,15). Não é possível, porém, julgar a letra com segurança se se presumir do próprio julgamento, mas é preciso primeiro aprender, e informar-se, e assentar o alicerce da inabalável verdade.

Conclusão

Explicamos o que pertence ao estudo das Sagradas Escrituras o mais lúcida e compendiosamente que nos foi possível. Quanto à segunda parte do aprendizado, isto é, a meditação, dela não diremos nada no momento, por ser coisa tão importante que necessita de um tratado especial, e é mais digno silenciar inteiramente neste assunto do que dizer algo imperfeitamente.

Roguemos, pois, agora, à Sabedoria, para que se digne resplandecer em nossos corações e iluminar-nos em seus caminhos, para introduzir-nos naquele banquete puro e sem animalidade.

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