O Senhor ainda não tem um lugar para ficar

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Estamos às vésperas de comemorar mais uma vez a grande festa do Natal, o nascimento do Verbo encarnado no seio da Virgem Santíssima. O belíssimo mistério do Deus que fez homem nos extasia, e é impossível assimilar totalmente a dimensão desse mistério. No entanto, o que mais chama a atenção é a forma pela qual o Senhor quis entrar no mundo: num pobre estábulo, pois a família de Nazaré não tinha quem a recebesse. Ou seja, o próprio Deus, não satisfeito em tornar-se homem, ainda sofreu a rejeição por suas próprias criaturas que lhe negaram um pequeno espaço de suas casas para abrigá-Lo. Talvez o conselho evangélico que Jesus já em idade adulta dá aos seus discípulos de alimentarem os que têm fome, darem de beber aos que têm sede, pois fazendo isso, cuidariam do próprio Senhor, tenha suas raízes quando o coraçãozinho do pequenino Jesus se sentiu abandonado pelos que lhe fecharam as portas.

E cá estamos nós, comemorando mais um Natal. Shoppings lotados, presentes comprados, mas mais uma vez eu me pergunto se não estaríamos nós fechando a porta na cara da Sagrada Família de Nazaré. Pergunto-me baseada numa experiência que tive no meio deste ano, e que me causou um misto de vergonha e tristeza.

Logo que foi anunciada a canonização de Irmã Dulce, nossa primeira Santa brasileira, tive a extraordinária graça de assistir a uma Santa Missa cujo presidente da celebração era seu confessor. Recordo que a Igreja ficou emocionada com o fato, pois todos estávamos diante daquele que teve a graça de absolver os pecados de uma santa reconhecida oficialmente pela Igreja. Ao final, o idoso sacerdote fez um apelo: ele estava numa paróquia que NÃO TINHA UM SACRÁRIO, E PEDIU HUMILDEMENTE A CONTRIBUIÇÃO DOS FIÉIS QUE ALI ESTAVAM PARA A COMPRA DE UM, PORQUE O CUSTO ERA MUITO ALTO PARA UMA PARÓQUIA COMO A DELE, E POR ISSO OS FIÉIS NÃO TINHAM COMO ADORAR O SENHOR.

Sim, meus caros. Dois mil anos depois, Jesus ainda não tem um lugar para habitar em muitas Igrejas, Capelas, também por falta de recursos. Tal como os pastores e os reis magos se deslocaram para adorar o Senhor, os fiéis que não têm a graça de ter um sacrário em sua igrejinha, precisam se deslocar para adorar Jesus no Santíssimo Sacramento do Altar. Se o Natal foi a primeira adoração, ele se perpetua cada vez que visitamos Jesus no Sacrário, e é complicado descobrir que mesmo tanto tempo depois, Nosso Senhor ainda não possui um lugar digno para ser adorado em muitos lugares.

Ressalto que esse texto não é um protesto, um manifesto, ou qualquer coisa do gênero, mas apenas uma reflexão acerca da repetição da mesmíssima cena de dois mil anos atrás se repetir tristemente: o Senhor ainda não tem um lugar para ficar.

Que neste Natal, ao contemplar o mistério do Menino-Deus, o acolhamos ao menos em nossos corações, para que, a partir daí, o nosso íntimo se abra para notar a necessidade que muitos de nossos irmãozinhos têm da adoração ao Senhor no Santíssimo Sacramento do Altar, e que assim, todos, absolutamente todos possam ter,  em suas paróquias, a “manjedoura” (sacrário), para acolher Aquele que É.

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