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A Grande Alegria — Parte 1

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Lembra-te de algumas leituras da Santa Missa nas grandes solenidades do ano, como o Natal e a Páscoa? São palavras que, quando ditas com fé e devoção, fazem o coração incendiar de alegria e de esperança na salvação. É normal que em pleno entusiasmo saiamos compartilhando esses belíssimos trechos das Sagradas Escrituras em nossas redes sociais.

Confesso que, de todas essas passagens, a que mais enche meu coração de alegria e de assombro é aquela que está no livro do Profeta Isaías e que ouvimos na Missa da noite de Natal do Senhor:

Porque nasceu para nós deca 300 side effects um menino, foi-nos dado um filho.

(Is 9, 5)

Não me é difícil compreender o Santo Padre Pio quando diz que o Natal é sua solenidade favorita. Sabemos que a Páscoa é o dia mais importante do ano para nós Católicos, mas há uma ternura, uma alegria, um entusiasmo tão grande no Natal, que é bem possível que nos sintamos por vezes mais atraídos por ele do que pela Páscoa do Senhor.

Creio que seja por esse espírito de alegria que marca o nascimento do Salvador que os primeiros cinco mistérios do Santo Rosário sejam chamados gozosos. Sabemos que a encarnação, nascimento e infância do Divino Menino são permeadas por um fundo sombrio de dor e sofrimento. Refiro-me à profecia de Simeão, ao martírio dos Santos Inocentes e dos Magos do Oriente, à fuga da Sagrada Família para o Egito e à perda de Jesus Menino na cidade de Jerusalém. Mas mesmo tudo isso não é capaz de sufocar a alegria que emana da contemplação do Divino Menino na manjedoura.

Ah, ali está nosso Deus, nosso Senhor, nosso Amor. Tão lindo, tão puro, tão inocente, tão humilde! Está deitado em uma manjedoura, dormindo em paz, gozando da mais plena impassibilidade. Ignora desde já a pobreza, os farrapos que cobrem seu corpinho santo, o frio que lhe maltrata as parcas carnes e que o faz merecer nossa salvação:

Sendo ele de condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas humilhou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens.

(Fp 2, 6-7)

Deves estar pensando por que estou te dizendo todas essas coisas. Deixe-me dar-te um conselho, e então entenderás meus motivos. É certo que o Santo Rosário deve acompanhar-te até o fim de tua vida, por tudo o que foi dito até aqui. Portanto, é necessário que nunca desperdices uma oportunidade de aprofundar-te mais nos mistérios que são contemplados conjuntamente com a récita do Saltério.

Procure, pois, ler todas essas obras de piedade escritas pelos bons filhos de Maria Santíssima; elas compõem um depósito de inesgotáveis riquezas gratuitas. Basta que te disponhas e voltarás para o teu descanso cheio de dádivas maravilhosas!

Digo isso para que tua meditação tenha conteúdo. Um dia, contemplando o mistério da anunciação, ficarás absorto ao meditar a humildade da Virgem Maria. Como pôde ela, que tinha a plena consciência de nunca ter ofendido a Deus com o mais mínimo pecado que fosse, ficar perturbada com a saudação do anjo? Apesar de ser a Santíssima Virgem Maria, considerava-se a mais vil entre todas as criaturas, e isso Ela mesmo revelou à Santa Brígida. Ao contemplar isso, é certo que perguntarás à tua alma:

– E tu, alma soberba? Quantas vezes já ofendeste a Deus! Como podes ainda somar às tuas iniqüidades o orgulho? Não tens razão senão para humilhar-te por todo mal que fizeste! Vamos, então, humilhemo-nos ao nosso Deus. Quem sabe ele esqueça nossas transgressões. Digamos, pois, como o salmista:

Dos meus pecados desviai os olhos, e minhas culpas todas apagai. Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza. De vossa face não me rejeiteis, e nem me priveis do vosso Santo Espírito. Restitui-me a alegria da salvação, e sustentai-me com uma vontade generosa.

(Sl 50, 11-14)

Mas se pensas que isso é tudo o que podes meditar a partir desse mistério, devo dizer-te que ainda não compreendeste bem quando eu disse que são inesgotáveis os mistérios contidos nos Evangelhos. Veja o que diz o Profeta Rei sobre os ensinamentos do Messias:

Abrirei os lábios, pronunciarei sentenças, desvendarei o mistério das origens.

(Sl 77, 2)

Os Evangelhos contêm, segundo o que posso entender, mistérios que compreendem toda a realidade do Céu e da Terra. Ali está tudo, desde o princípio, desde que Deus Eterno gera o Verbo no seio da Santíssima Trindade que é desde todo o sempre, ao que escreve novamente o Profeta Rei:

“Tu és meu filho, eu hoje te gerei”.

(Sl 2, 7)

Ouso dizer, e peço-te que me corrijas caso estiver sendo exagerado em minha interpretação, que nem a sabedoria de todos os anjos é capaz de abarcar a totalidade dos mistérios que Deus comunicou. Ainda, segundo o que penso, somente a Divina Sabedoria é capaz de compreender tudo isso, pois quem é que existia antes de Deus para que pudesse explicar o próprio Deus?

Portanto, nada que leias, ouças ou medites em relação aos mistérios do Santo Rosário chegará perto da profundidade que ali está encerrada, pelo que podes alegrar-te pelo fato de que a Virgem Maria te concedeu uma fonte inesgotável de bênçãos, consolações e sabedoria.

O que pretendo, pois, para esse e para os próximos artigos? Trazer meditações como essas para que possas tirar cada vez mais frutos do Santo Rosário. Espero, com isso, auxiliar-te no aprofundamento dessa devoção, confiante na promessa de que a Santíssima Virgem alcança o perdão para os pecadores apóstolos do Santo Rosário.

 Vamos então continuar a meditar nesse belíssimo mistério da anunciação do Anjo à Maria e da encarnação do Verbo Eterno de Deus. O texto de base para a meditação é o capítulo primeiro do Evangelho de S. Lucas, versículos 26 a 38.

Apenas como nota, o Evangelho de S. Lucas deixa entendido que o autor coletou o depoimento da própria Virgem Maria para escrever seus primeiros capítulos. Isso se conclui porque o autor, endereçando o escrito a um homem chamado Teófilo, diz que lhe pareceu bem escrever um Evangelho que partisse de uma criteriosa investigação de todos os fatos acerca da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo desde o princípio (Lc 1, 3).

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Como sabemos, S. Lucas era médico (Cl 4, 14), pelo que podemos imaginar que aplicou em sua investigação critérios semelhantes aos utilizados em seus estudos de medicina. Ademais, sabemos também que S. Lucas era um colaborador direto de S. Paulo (Fm 1, 24); deve, pois, ter aproveitado as oportunidades das viagens apostólicas para coletar o máximo número possível de depoimentos, pois ele mesmo não foi uma testemunha direta dos fatos narrados.

Em uma dessas viagens, é quase certo que S. Lucas esteve na Palestina e se encontrou com a Virgem Maria e S. João (devo lembrar-te que Maria passou a morar com S. João após a morte de Jesus Cristo), pois por duas vezes ele se refere à intimidade do pensamento de Nossa Senhora escrevendo que “Maria guardava todas essas coisas em seu coração” (Lc 2, 19 e 51).

Confesso que algumas vezes meditei os mistérios gozosos apenas indiretamente. O verdadeiro conteúdo representado em minha imaginação era a Santíssima Virgem em companhia de S. João e S. Lucas, em uma casinha simples, narrando os acontecimentos a este último. Eu podia até imaginar S. João dizendo à Maria: “Mãe, conta para ele aquele caso que se passou quando vocês estavam de Jerusalém”. Maria, com um sorriso bobo e meneando a cabeça enquanto olha para S. João, começa a rememorar aquela história tão cheia de dores e alegrias. Imaginei então S. Lucas, na calada da noite, tendo em sua frente o pergaminho, o tinteiro e a pena, e ao lado a pequena lamparina a óleo, rememorando os fatos narrados por Maria e sendo inspirado pelo Espírito Santo enquanto escrevia.

Que com isso percebas, meu irmão, que todo o conhecimento, por mais “histórico” ou “banal” que possa parecer, serve de fundamento para uma meditação frutuosa.

O mistério da anunciação tem início com tempo e lugar. A história se passa no sexto mês de gravidez de S. Isabel, parenta de Maria e mãe de S. João Batista, em uma cidade chamada Nazaré da Galiléia. Estando em casa, absorta em profunda oração, meditando a grandeza do Deus Todo-Poderoso que livrou o povo da escravidão do Egito e prometeu um Salvador para o povo de Israel, suspirando a Deus pela vinda desse mesmo Salvador, Maria recebe um anjo de Deus que vem para lhe comunicar uma notícia.

O Evangelho diz que o anjo foi a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de Davi, e que o nome da virgem era Maria. Seja este, pois, o primeiro ponto de nossa meditação.

No livro do profeta Isaías, está escrito que o Senhor Deus, a fim de dissuadir o rei Acaz de seu intento de buscar aliança com o rei da Assíria (o que teria por conseqüência a obrigação de prestar culto aos deuses daquela nação), disse-lhe que pedisse um sinal, fosse do fundo da habitação dos mortos ou do alto, para que o rei tivesse certeza da promessa que Deus lhe fazia de triunfar sobre os inimigos que haviam lhe declarado guerra. Tudo isso se passou 733 anos antes de Cristo. O rei Acaz hipocritamente respondeu que não iria por o Senhor à prova, ao que Deus respondeu pela boca do profeta:

Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará luz a um filho, e o chamará Emanuel (que quer dizer Deus Conosco).

(Is 7, 14)

Essa profecia, segundo o entendimento dos eruditos em Sagradas Escrituras, não poderia se referir a nenhuma virgem existente na época, nem mesmo alegoricamente; nenhum indício histórico é capaz de endossar a tese, pelo que se conclui que é uma profecia que não se dirige somente ao rei incrédulo, mas a toda a humanidade, conforme ensina o Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI).

Que quis dizer, pois, o Espírito Santo? Por certo que, chegada à plenitude dos tempos, uma virgem seria agraciada de maneira nunca antes vista em toda a humanidade: De sua carne e de seu sangue, Deus tiraria a carne e o sangue com que formaria o corpo do Divino Verbo, passando a viver entre nós em condição humana.

Para tanto, era necessário que essa virgem fosse preservada da nódoa do pecado original, pois está escrito que Cristo foi igual aos homens em tudo, exceto no pecado. Sendo assim, Deus aplicou os méritos da Cruz de Cristo para redimir essa Virgem de um modo singular, não permitindo com que ela fosse escrava por um momento sequer do pecado e do diabo.

Podemos dizer ainda mais: Essa virgindade permaneceu intacta e perfeita por toda a vida de Maria Santíssima, pelo que a Igreja lhe dá o título de Sempre Virgem, querendo com isso dizer que Nossa Senhora manteve-se virgem antes, durante e depois do parto.

Na Virgem Maria encontra-se, pois, uma completude de que nenhum outro ser humano pode gozar. À virgindade, por mais pura e bela que seja, falta a fecundidade; é como se algo estivesse incompleto, como se não tivesse se exaurido todo o potencial daquilo que é ser mulher. Na maternidade natural, por mais nobre e fonte de alegrias que possa ser, há um quê de imperfeição, de entrega incompleta a Deus.

É assim, pois, que começa a meditação da anunciação. O começo não fala de Jesus, embora esteja sempre subentendido, origem que é de todo o bem e de toda a graça, mas sim de Maria e de sua glória. Sendo a Sempre Virgem, é Mãe de um Filho que saiu de suas entranhas. Que grande mistério!

Contempla, pois, a Virgem Maria. Tamanha era a sua inocência, que nada no mundo podia incutir-lhe na imaginação uma cena impura. Era inocente, cândida como uma pomba. De sua boca nunca se ouviu coisa alguma que pudesse causar escândalo. Sua beleza era sumamente encantadora, puríssima. Por onde passava, desarmava toda a luxúria e fornicação. Não houve homem no mundo que, tendo visto a Virgem Maria, pôde desejá-la com lascívia; do contrário, à vista daquela Virgem os homens se envergonhavam de seus pecados contra a castidade e sentiam um firme desejo de fazerem-se eunucos por amor da santa pureza. O próprio S. José, sendo justo e castíssimo, valeu-se da virtude que lhe comunicava a Virgem Santíssima para preservar a própria virgindade.

E quem pode falar do Menino Jesus? Ó, afortunada criança! Não te bastava ter Deus por Pai? Cresceu contemplando esse lírio tão belo; foi educado pela beleza e pela modéstia de sua Mãe Santíssima. Olhava para as outras mulheres com seus olhos infantis, e via o contraste: “Como é linda a minha mamãe!”.

Bem-aventurado o Apóstolo amado, que desse manancial de pureza pôde beber até o dia da Assunção! Não trazendo consigo mulher, pôde amar a Deus servindo a mais santa e pura das mulheres, aquela que com razão é chamada de A Mulher, pois é virgem e também é mãe. É mulher perfeita, tal como nenhuma outra pode ser.

E tu, meu irmão, que podes dizer? Quando é que te tornaste escravo da luxúria, olhando aquelas que outrora eram apenas amiguinhas como objetos de teus desejos egoístas? Quanto tempo desperdiçaste, meu amigo pecador, tomando o veneno mortífero da pornografia e da masturbação? Quantas mulheres usaste, tanto em teus pensamentos como em teus atos, sem com elas te comprometeres pelos vínculos do Santo Matrimônio? E, não bastando tamanha podridão, quantas vezes te orgulhaste disso? Quem sabe até as abominações mais pérfidas praticaste, e não as quero mencionar – que Deus tenha bem ocultados teus pecados e tua vergonha!

Clama, pois, à Virgem Maria para que alcance o perdão e a reparação por teus pecados contra a castidade e contra a santa pureza. Chora pelo dia que caíste nessa cilada do demônio; amaldiçoa o dia que cedeste à pressão daqueles coleguinhas que hoje não pesam mais que uma pena na balança. Depois disso, faz o firme propósito de nunca mais pecar contra a castidade e de guardares todos os teus sentidos de tudo aquilo que possa acender o fogo da luxúria em teu coração. Lembra-te que se pôr em ocasião de pecar gravemente é por si só um pecado grave. A Virgem Santíssima há de vir ao teu socorro, colocando-te no caminho para que alcances a Graça e com ela permaneças até o fim.

Continuarei no próximo artigo a tecer meditações como essas para que possas aprofundar-te cada vez mais nos mistérios do Santo Rosário. Pode ser que demoremos a concluir essa etapa, mas creio que não há nada melhor que eu possa oferecer nesses artigos; não que eu não pretenda falar sobre muitas outras coisas nos próximos anos, porém creio que a de maior valor é esta, pelo que lhe dou a primazia.

Espero que o mesmo espírito de devoção habite em teu coração, pois aquele que aprendeu a colocar a sua esperança na Virgem Maria tem em sua fronte o sinal da predestinação.

Que Deus abençoe a todos e ao apostolado Cooperadores da Verdade.

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