Como o teísmo de Santo Tomás difere-se do “teísmo” do mercado de ideias

58

(LifeSiteNews. Traduzido por Gabriel Gomes) No início da semana, eu falei sobre “teísmo místico” de Aquino como ápice da atividade intelectual humana auxiliada pela Graça comparada com o pântano do ateísmo Cartesiano e Heideggeriano – poia eles tomam como premissa uma infrutífera busca por fundamento, enquanto a metafísica clássica e a revelação divina foram deixadas de lado com o argumento de que estão fora de moda.

Parte do problema com os denominado “neo-ateístas”, como foi percebido pela maioria de seus críticos, é o fato de eles terem uma concepção extremamente pobre do que se quer dizer com a palavra “Deus”. Isso, sem sombra de dúvidas, é devido ao processo de degradação conceitual que tem afligido crentes e não crentes, como uma lenta desvalorização de uma moeda. O ateísta torna Deus em ídolo, como as estátuas de madeira dos pagãos, e esmaga-o em pedaços congratulando a si próprio pelo trabalho bem feito. Temos de concordar que o trabalho do ateu seria impactante entre pagãos, mas ele não faz nada ao Deus dos Cristãos, que não pode ser esmagado em pedaços.

#DicaCooperadores Iniciação à Filosofia de São Tomás de Aquino Vol. I: Introdução, Lógica, Cosmologia / Iniciação à Filosofia de São Tomás de Aquino Vol II: Psicologia, Metafísica

“Deus” não é somente uma versão mais poderosa de Suas criaturas, um “superpoderoso” que é, pelo menos teoricamente, um competidor pelo mesmo território. Ele não é como um homem um milhão de vezes mais forte, esperto ou traiçoeiro. Ele não é um ser entre muitos outros, como se você pudesse contá-lo: “Nós temos quatro lâmpadas, três batatas, dois carros, e um Deus”. Como explica Santo Tomás, Deus está além de todos os seres que nós podemos nomear e numerar: Ele é ipsum esse per se subsistens: Ser Ele mesmo, existindo dentro e fora de Si mesmo, ilimitado em qualquer aspecto, absolutamente um (não existido ninguém antes ou depois, nenhuma parte compondo um todo), a fonte do ser, da vida, e da atividade de tudo o mais sem ser condicionado ou determinado por isso, presente em todos os lugares mas restrito a nada. Ele É pura simplesmente (onde Ser é tomado como um verbo, uma atividade) – não como o calor ou a luz do sol, mas como Calor e Luz. Isso significa que não falta perfeição Nele, nada é parcial Nele; ele não é somente todo bom, ou o melhor bem, mas a Bondade em si. Tudo que está “em” Deus (i.e., que nós podemos verdadeiramente dizer sobre Ele) é Deus; esse é o porquê de podermos dizer que Deus é amor, Deus é sabedoria, Deus é misericórdia, Deus é justiça, e ainda assim não existirem deuses para cada atributo, mas um só Deus, o Ser em si mesmo, é todas perfeições ao mesmo tempo, no Seu eterno agora.

É difícil conceber Deus? Sim, claramente é. Nossas mentes, como mentes de animais racionais, não são propriamente ajustadas para algo, ou melhor alguém, que está “fora do território mapeado” pelas informações que adquirimos através de nossos sentidos. Nossas ideias originam-se todas através das nossas experiências com este mundo material, logo tudo o que dizemos sobre Deus está baseado ou na razão através do saber que deve existir um primeiro princípio e, por conseguinte, negando as limitações que achamos nos seres (com “s” minúsculo), ou na revelação divina que nos diz quem, o que e como Deus é. Como Dionísio, o Aeropagita diz, Deus usa todas as Suas possíveis descrições nas Escrituras – comparando a Si mesmo com fenômenos climáticos, pedras e minerais, plantas, pássaros, mamíferos, homens, querubins e serafins – de maneira que não caiamos no erro de confudí-Lo com nenhum destes, nem mesmo com o melhor deles. Ele é tudo que eles são, mas indescritivelmente além deles; eles nos dizem algo sobre Ele, mas somente uma milionésima ou milésima parte, dependendo da comparação (porque, de fato, algumas criaturas são mais nobres que outras). Deus, em palavras curtas, nos diz para evitarmos o erro dos neo-ateístas.

Além disso, existem outras dificuldades, como a tentativa, nos diálogos inter-religiosos, de falar de um “Deus” que não nem Yahweh, nem Alá, nem a Santíssima Trindade, mas somente um “ser supremo” a quem várias religiões concordam em chamar de Deus. O problema é, esse Deus foi despersonalizado, roubado da riqueza de Sua identidade, tornado em um objeto de nenhuma oração. É um Deus de lugar nenhum.

Santo Tomás não era, nem pode ser nenhum Cristão, um “teísta” nesse sentido minimalista. Não existe esse tal de “ser supremos” dos Deístas do Iluminismo – um “deus” sem sua identidade pessoal; há somente um e único Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo, a Santíssima Trindade. Assim como não pode existir um “Deus que não é”, também não pode existir um Deus separado da Trindade das Pessoas. Esse é o porquê de Cristãos e Mulçumanos não adorarem ao mesmo Deus com o mesmo ato de adoração, passada a lógica difusa da Nostra Aetate e da declaração de Abu Dhabi. 

Ademais, esse Deus não é distante, mas presente e tudo e para tudo, mais intimamente e inescapavelmente e amavelmente. Ele está perto de todos que O clama, e faz Sua morada nas almas que O recebem – que se transformam em templos do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. Nenhuma Pessoa habita sem a outra, porque elas são, em verdade, simples e absolutamente, o único Deus que é Ser em si mesmo. A distinção das Pessoas Nele não é uma distinção de essência ou existência, mas uma distinção que faz parte da essência e existência de Deus.

O que foi acima exposto, não visa negar a possibilidade de acreditar em um todperfeito Ser que é adorado pelo homem, mas não como uma Trindade – assim como a ausência da fé Trinitária é o resultado da ignorância invencível, não de repúdio explícito; também não o é negar a comunhão abstrata do objeto dessa crença dentre aqueles que o adoram. O que é negada é ilusão da denominada escola “perenialista” – representada por pensadores como René Guénon (1886–1951), Frithjof Schuon (1907–1998), and Titus Burckhardt (1908–1984) — para quem a diversidade de tradições religiosas esconde uma união transcendente da religião, assim como o erro de colocar-se uma harmonia, supostamente advinda de Deus, entre religiões opostas e seus aderentes, uma harmonia que talvez seja incansável nesse mundo devido à visão limitada do ser humano e suas prisões dogmáticas, mas já existente na mente de Deus. Esse erro pode ser a premissa escondida da declaração de Abu Dhabi.

Cada era, cada cultura cria formas de crer em Deus que compartilham um pouco ou nada em comum com a religião verdadeira. Em comparação com aqueles que adoram os deuses do mercado ou do clã, aquele que adora o Deus verdadeiro pode parecer um ateísta para os mentecaptos. Sócrates adorava ao Deus verdadeiro, apesar da pseudo-religião de sua cidade e foi condenado à morte como um ateísta. Os primeiros Cristãos adoravam a um Deus que cancelou o panteão Romano, e foram martirizados como ateístas. O Deus a quem os Cristãos adoram é um Deus cuja a Palavra esvaziou-se a Si mesma em uma natureza humana, rebaixado a tão grandes humilhação e miséria que Ele pode gritar: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? – não para questionar Sua perfeita união com o Pai, mas para chorar, sobre todo o espaço e tempo, a largura e o comprimento, a altura e a profundidade de Sua caridade para com os pecadores (Ef 3, 18-19), Sua identificação com a condição deles de falta, necessidade, desejo, que vai a extremos impensáveis, absurdo, aos olhos do homem.

Como Chesterton colocou na sua obra-prima Ortodoxia, com suas hipérboles usuais:

O mundo foi abalado e o sol desapareceu do céu não no momento da crucificação, mas no momento do grito do alto da cruz: o grito que confessou que Deus foi abandonado por Deus. E agora deixemos que os revolucionários escolham um credo dentre todos os credos e um deus dentre todos os deuses do mundo, ponderando com cuidado todos os deuses de inevitável recorrência e poder inalterável. Eles não encontrarão um outro deus que tenha ele mesmo passado pela revolta. Não (a questão torna-se difícil demais para a fala humana), mas deixemos que os próprios ateus escolham um deus. Eles encontrarão apenas uma divindade que chegou a expressar a desolação deles; apenas uma religião em que Deus por um instante deixou a impressão de ser ateu.

Nessa vida de exílio, uma adoração de auto-esvaziamento é a resposta mais adequada que o homem pode dar a um amor tão à frente de nós.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.