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Dez deficiências da Sola Scriptura como regra de fé

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(Por Dave Armstrong, Catholic Answers. Tradução: Petter Martins) Muitos católicos – e um bom número de protestantes – estão confusos quanto ao significado exato de sola scriptura (latim, “somente as Escrituras”), o princípio de autoridade ou regra de fé para nossos irmãos protestantes.

Isso não significa que a autoridade é mantida apenas na Bíblia e nada mais (por exemplo, credos, confissões, igrejas, catecismos denominacionais, etc.). Nem significa necessariamente que a história e a tradição da Igreja sejam irrelevantes. A maioria dos protestantes que entendem sua herança teológica consideraria tais pontos de vista caricaturais.

A posição real, conforme desenvolvida por Lutero, Calvino e outros protestantes nos últimos 500 anos, é a crença de que somente as Escrituras são a autoridade final e infalível no cristianismo. Ou, para colocar de outra forma, “oposicional”: A Igreja e a tradição apostólica e os concílios ecumênicos e os papas não possuem infalibilidade.

Os cristãos tradicionais concordam que a Escritura é a revelação inspirada e inerrante de Deus. Os católicos discordam apenas em colocar a Bíblia contra a Igreja e a tradição apostólica. Para os católicos, todos os três estão entrelaçados e possuem autoridade infalível.

No espaço limitado deste artigo, apresentarei dez (entre muitos) aspectos da sola scriptura que revelam sua profunda fraqueza e incoerência interna, e tudo com base na mesma Bíblia à qual se apela. Se a própria Bíblia contradiz a sola scriptura, então obviamente o princípio é falso.

1. A boa tradição (apostólica) é superior às más tradições dos homens, de acordo com a Bíblia.

A linha inferior (bíblica) não é “tradição versus nenhuma tradição”, mas sim “tradição verdadeira e apostólica versus tradição falsa, feita pelo homem”. A Bíblia muitas vezes distingue entre os dois (a falsa tradição está em itálico nas seguintes passagens e a verdadeira tradição entre colchetes):

  • Mateus 15, 3 Jesus respondeu-lhes: “E vós, por que violais os preceitos de Deus, por causa de vossa tradição?”
  • Mateus 15, 6 Assim, por causa de vossa tradição, anulais a Palavra de Deus.
  • Marcos 7, 8-9, 13 “Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens”. E Jesus acrescentou: “Na realidade, invalidais o mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição”. […] “anulando a Palavra de Deus por vossa tradição que vós vos transmitistes. E fazeis ainda muitas coisas semelhantes”.
  • Gálatas 1, 9-12 Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado! É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo. Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo.
  • Colossenses 2, 8 Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo.
  • 1 Tessalonicenses 2, 13 Por isso é que também nós não cessamos de dar graças a Deus, porque recebestes a Palavra de Deus, que de nós ouvistes, e a acolhestes, não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, como Palavra de Deus, que age eficazmente em vós, os fiéis.
  • 1 Timóteo 4, 1; 6-7 O Espírito diz expressamente que, nos tempos vindouros, alguns hão de apostatar da fé, dando ouvidos a espíritos embusteiros e a doutrinas diabólicas […] Recomenda esta doutrina aos irmãos, e serás bom ministro de Jesus Cristo, alimentado com as palavras da fé e da sã doutrina que até agora seguiste com exatidão. Quanto às fábulas profanas, esses contos extravagantes de comadres, rejeita-as.

2. A tradição oral bíblica é mais ampla em escopo do que a Escritura escrita.

Nem a Bíblia nem a lógica requerem o ensino oral de Paulo (por exemplo, 1 Cor. 11, 2 e 23; 15, 1-3; Gal. 1, 9, 12, 1 Tes. 2, 13; 2 Tes. 3, 6; 2 Tim. 1, 13-14; 2, 2) para ser o mesmo que seu ensino escrito ou “proibir” que contenha informações não encontradas em suas cartas.

Podemos razoavelmente deduzir que o ensino oral de Paulo era harmonioso com seus ensinos preservados no texto escrito da Bíblia; mas também quase certamente conteria algumas coisas não encontradas nas Escrituras.

Sabemos, por um lado, que ele discutia e raciocinava nas sinagogas e em outros lugares públicos. O grande número de suas palavras faladas deve ter incluído assuntos não cobertos ou apenas tocados em suas epístolas do Novo Testamento.

Ele ensinou em uma sinagoga por “três meses” (Atos 19, 8), e em um local “diariamente” por dois anos (Atos 19, 10). Tudo isso era ensino oral – provavelmente incluindo muita tradição apostólica oral, e grande parte dela não foi, seguramente (pelo senso comum), registrada nas Escrituras.

Se um protestante afirma que não estamos vinculados a nada que não seja encontrado nas Escrituras, podemos perguntar a ele onde nas Escrituras ele encontra tal noção, e por que devemos pensar que somos vinculados de maneira diferente dos primeiros cristãos, que viveram antes da compilação do Novo Testamento.

3. Jesus sanciona a tradição extra-bíblica do “Assento de Moisés”.

A tradição judaica, incluindo a Mishna extra-bíblica (Êxodo Rabá 43, 4 e a Pesikta siRav Kahana 1, 7), descreve a “sucessão de ensino” de Moisés em diante. Jesus reconhece esta tradição:

Mateus 23, 1-3 Então disse Jesus à multidão e aos seus discípulos: “Os escribas e os fariseus estão sentados na cadeira de Moisés; então pratique e observe tudo o que eles lhe dizem, mas não o que eles fazem; porque pregam, mas não praticam”.

Aqui Jesus está sancionando uma tradição de autoridade farisaica e, ao fazê-lo, está dando legitimidade ao conceito de tradição oral extra-bíblica. Algumas tradições farisaicas eram corruptas (portanto, Jesus as condenou, assim como aqui ele condena sua hipocrisia pessoal), mas algumas eram autoritárias, de modo que até Jesus ordena obediência a elas.

4. Paulo usa motivos da tradição e da Igreja com mais frequência do que “Escritura” e “palavra de Deus”.

As palavras Escritura e Escrituras aparecem 51 vezes no Novo Testamento. No entanto, em oito de suas 13 epístolas (2 Coríntios, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, Tito e Filemom) Paulo não usa nenhuma dessas palavras. De fato, Paulo as usa apenas 14 vezes: em Romanos (seis vezes), 1 Coríntios (duas), Gálatas (três), 1 Timóteo (duas) e 2 Timóteo (uma).

Em contraste, se examinarmos o “Corpo” (de Cristo) em Paulo, encontraremos 19 aparições (Rm 7, 4, 12, 4-5; 1 Co 10, 17; 12, 12-13, 25, 27; Ef. 1, 23, 3, 6; 4, 4, 12, 16; 5, 23, 30; Col. 1, 18, 24; 2, 19; 3, 15).

Paulo usa Igreja (ekklesia), em outro sentido local de congregação ou construção, 20 vezes (1 Cor. 5, 12, 6, 4, 10, 32, 11, 22, 12, 28, 15, 9; Gal. 1, 13; Ef. 1, 22; 3, 10, 21; 5, 23-25, 27, 29, 32; Fil. 3, 6; Col. 1, 18, 24; 1 Tim. 3, 15).

Da mesma forma, aqui está o uso de Paulo (quatro vezes) de (apostólica) “tradição(ões)” (paradosis): 1 Coríntios 11, 2; Colossenses 2, 8; 2 Tessalonicenses 2, 15, 3, 6.

Mas a palavra tradição não é a única palavra que Paulo usa para essa noção — nem de longe. Há também o conceito de “receber” (tradição) e “entregar”, ou transmiti-lo. Três das passagens acima sobre “tradição” contêm esse motivo. Esta menção de algum tipo de tradição transmitida (principalmente oralmente através da pregação) pode ser vista em passagens como 1 Coríntios 11, 23, 15, 1-2, 15, 3; Gálatas 1, 9, 12; 1 Tessalonicenses 2, 13; e 2 Timóteo 1, 13, 2, 2, para mais oito casos.

Além disso, há pelo menos 15 outras passagens bíblicas que exibem a noção de tradição apostólica (e oral), expressa de várias maneiras (incluindo “palavra de Deus”, “pregação”, etc.): Romanos 6, 17; 10, 8 , 16, 25; 1 Coríntios 1, 18; 2 Coríntios 3, 6; Efésios 1, 13; Filipenses 2, 16; 4, 9; Colossenses 1, 5-6; 1 Tessalonicenses 1, 6; 2 Tessalonicenses 3, 14; 2 Timóteo 4, 2, 15, 17.

Os protestantes podem querer que a sola scriptura seja a regra de fé paulina, mas os números simplesmente não batem.

5. A Bíblia afirma que pelo menos alguns de seus ensinamentos precisam ser “abertos”.

Em Lucas 24, 32, dois discípulos no caminho de Emaús ficaram maravilhados como Jesus “nos abriu as Escrituras”. A palavra grega para aberto é dianoigo. De acordo com o Greek-English Lexicon of the New Testament, de Joseph Thayer, significa “abrir dividindo ou separando, abrir completamente (o que estava fechado)”. Este significado pode ser visto em outras passagens onde aparece dianoigo (Marcos 7, 34-35, Lucas 2, 23; 24, 31, 45; Atos 16, 14, 17, 3).

Aqui, então, a própria Escritura parece estar nos informando que algumas partes dela não eram claras – isto é, estavam “fechadas” – até que a infalível autoridade de ensino e interpretação de nosso Senhor Jesus a abriu e a tornou clara. Isso vai contra a noção protestante da perspicuidade das Escrituras e sua natureza autointerpretativa.

6. A própria natureza da sola scriptura exige que o conceito seja encontrado na Bíblia, e não é.

Dada a premissa de seu princípio, o protestante não tem escolha a não ser provar que a Bíblia ensina clara e explicitamente a sola scriptura. Mas a Bíblia não ensina isso. Ela afirma a autoridade infalível e obrigatória da Tradição (2 Tessalonicenses 2, 15, 3, 6; Fil. 4, 9; 2 Timóteo 1, 13-14, 2, 2; muitos mais) e da Igreja (Atos 15, 1-32, 16, 4, 20, 28; 1 ​​Tim. 3, 15).

Além disso, a Bíblia contradiz totalmente a sola scriptura (em suas indicações de tradição obrigatória, tradição oral autorizada, sucessão apostólica, forte autoridade da Igreja, papado, concílios liderados pelo Espírito Santo, etc.).

7. Tanto as Escrituras quanto a história da Igreja têm áreas problemáticas a serem trabalhadas.

Os protestantes gostam de apontar momentos escandalosos na história da Igreja como refutação de sua autoridade. É verdade, há “problemas” na história católica para refletir e tentar resolver (por exemplo, papas e antipapas reivindicando simultaneamente a Cátedra de Pedro) – assim como existem “problemas” exegéticos nas Escrituras, aos quais os protestantes dedicam muita energia resolvendo (tenho a Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas de Gleason Archer na minha biblioteca.)

Como estes últimos não são considerados antitéticos à crença em uma Bíblia inspirada, inerrante e infalível, as dificuldades na história da Igreja não são fatais para a crença em uma Igreja infalível.

8. Os participantes do Concílio de Jerusalém sentiram-se guiados pelo Espírito Santo e, assim, afirmaram uma autoridade obrigatória.

Se o Espírito Santo pôde falar a um concílio nos tempos apostólicos, pode fazê-lo agora. (Isso não requer a crença na revelação contínua, que é outra questão.) Os discípulos foram claramente informados por nosso Senhor Jesus na Última Ceia que o Espírito Santo “vos ensinaria todas as coisas” (João 14, 26) e “guiaria em toda a verdade” (João 16, 13).

Isso pode ser entendido como se referindo a indivíduos sozinhos ou em um sentido corporativo, ou ambos. Se for corporativo, então pode ser aplicado a um conselho da Igreja. E, de fato, vemos exatamente isso no Concílio de Jerusalém em Atos 15, 1-29.

Sua autoridade era obrigatória porque era um conselho da Igreja, guiado pelo Espírito Santo (Atos 15, 6, 22, 28). Teria sido obrigatório para os cristãos se nunca houvesse um Novo Testamento (e naquela época não havia um), ou se nunca tivesse sido registrado nas Escrituras.

O Concílio de Jerusalém exerceu sua autoridade para obrigar. Ele emitiu ordens, não opiniões acadêmicas de uma torre de marfim. Paulo e seus assistentes Silas e Timóteo proclamaram essas decisões em suas viagens missionárias:

Atos 16, 4-5 Passando pelas cidades, entregaram-lhes, para que observassem, as decisões tomadas pelos apóstolos e anciãos que estavam em Jerusalém. Assim, as igrejas foram fortalecidas na fé e aumentaram em número diariamente.

O Concílio de Jerusalém é um exemplo bíblico cristalino da autoridade infalível da Igreja. Faz sentido dizer que a natureza do governo da Igreja perdurou e que os concílios subsequentes da Igreja ao longo da história também chegaram a decisões infalíveis.

9. “Toda a Escritura é inspirada por Deus”.

2 Timóteo 3, 15-17 Mas, quanto a ti, continua naquilo que aprendeste e em que acreditaste, sabendo de quem o aprendeste e como, desde a infância, conheces os escritos sagrados, que podem instruir-te para a salvação, fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para instruir na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.

Este é o texto clássico de prova protestante para sola scriptura. A premissa oculta é que, uma vez que a Escritura é boa para todas essas coisas, é boa para todas as coisas, inclusive sendo a única regra infalível de fé.

Mas a segunda não decorre da primeira. Os católicos que entendem sua fé seguem essa passagem tanto quanto os protestantes. Mas uma leitura simples mostra que “equipar para toda boa obra” não exclui outras fontes de treinamento, como exigiria a sola scriptura.

As noções importantes de Igreja e tradição estão presentes implicitamente em 2 Timóteo 3, 15-16, com base em referências cruzadas tópicas a outras passagens paulinas sobre autoridade, tradição apostólica e a Igreja. Além disso, se olharmos para o contexto geral desta passagem, somente em 2 Timóteo, Paulo faz referência à tradição oral três vezes (1, 13-14, 2, 2, 3, 14), e era tão vinculativa na obra de Paulo. opinião como suas cartas escritas.

Concordamos com os protestantes que as Escrituras podem nos treinar em justiça e nos equipar para boas obras, assim como cremos na suficiência material da Bíblia (a noção de que todas as doutrinas cristãs são encontradas nas Escrituras de uma forma ou de outra). O erro protestante está em igualar essa suficiência com a suficiência formal: a Bíblia como a única, última e obrigatória norma e regra de fé autorizada, excluindo a Igreja e a Tradição.

Isso não segue logicamente, nem exegeticamente, da passagem. É um argumento circular. Na melhor das hipóteses, essa passagem pode ser considerada harmoniosa com uma visão da sola scriptura, supondo que ela tenha sido claramente estabelecida em outros fundamentos bíblicos. Mas de forma alguma estabelece o princípio da sola scriptura por conta própria.

10. Deus usa homens falíveis para sustentar uma Igreja infalível, assim como fez com a Bíblia.

Os protestantes acreditam que Deus poderia produzir uma Bíblia infalível por meio de homens falíveis e pecadores — Moisés, Davi, Mateus, Pedro e Paulo, para citar alguns; que poderia ser confirmado em seus parâmetros por homens falíveis e pecadores; traduzido por homens falíveis e pecadores; e preservada por homens falíveis e pecadores por 1.500 anos antes do nascimento do protestantismo (de homens falíveis e pecadores, pode-se acrescentar).

Concordamos e afirmamos que Deus pode e cria e sustenta da mesma forma a Igreja e a Tradição infalíveis às quais esta mesma Bíblia se refere repetidamente. Isso não é menos plausível e, de fato, é biblicamente exigido.

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