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Pobres e Vencedores

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Tudo o que se pode falar sobre o Santo Rosário não é suficiente para exaurir o mistério dessa sublime devoção. De agora em diante, deve fazer parte de tua vida o aprofundar-se cada vez mais nesse mistério, tomando nota de todas as profundas meditações que fizeram os santos a seu respeito, e buscando conhecer a vida das pessoas que foram por ele transformadas.

O que estou tentando por meio desses artigos, e espero com a ajuda da Santíssima Virgem consegui-lo, é despertar-te para essa realidade, pois estou convicto de que dificilmente conseguirás alcançar a linha de chegada se não te preparares por meio do Santo Rosário. Não digo que as linhas que escrevo são de pequena monta, mas é certo que a grandeza de tudo o que vai escrito não advém de meus méritos. O que tenho dito nada mais é do que aquilo que ouvi da Santa Mãe Igreja por meio de seus filhos mais especiais e amados, que são aqueles que alcançaram a união com Nosso Senhor Jesus Cristo.

Alguns católicos, sobretudo aqueles que encontraram a Barca de S. Pedro depois de terem estado no protestantismo, têm dificuldades para se relacionar com Maria Santíssima. É certo que se sentem constrangidos com isso, e assumem com franqueza a miséria de seus corações. Há algo de pernicioso incrustado em seus corações, que nada mais é do que os erros que se sedimentaram na alma ao longo de anos ou até décadas acerca da comunhão dos santos e da glória da Santíssima Virgem Maria.

No entanto, tenho por certo que essas almas já estão vivendo na Verdade; o constrangimento que têm é um sinal claro disso. De fato, crêem na Santa Igreja Católica, e desejam profundamente um relacionamento íntimo com Nossa Senhora. Querem crer com cada vez mais convicção, trilhando o mesmo caminho de tantos santos que devotaram suas vidas ao serviço da Grande Rainha. Essa Fé acompanhada da boa vontade é tudo aquilo de que necessita o Espírito Santo para fazer crescer uma alma na vida da Graça.

Se esse for o teu caso, não nego que é necessário que estudes mais, que procures tomar conhecimento das obras clássicas que versam sobre a Santa Mãe de Deus, que busques enfim todo material condizente com a santa doutrina que possa auxliar-te no crescimento da vida devota.

Mas o que realmente te é necessário nesse momento é abrir teu pobre coração para a Santa Mãe de Deus. Diga a Ela com toda a confiança a dificuldade que tens para n’Ela confiar: 

— Minha Santa Mãe, eu creio! Alcançai-me junto a Jesus Cristo o aumento da Fé. Curai minha desconfiança!

Ah, meu irmão! Fazendo isso imitarás a humildade daquele pobre pai que, tendo levado seu filho que era atormentado por um demônio para Jesus o libertasse, confessou sua Fé, mas lhe pediu que o ajudasse em sua desconfiança. É certo que nessa linda passagem do Evangelho, tão carregada de realidade, foi o pai muito mais abençoado do que o filho, porquanto este foi liberto de um espírito que o atormentava, mas aquele recebeu o dom da Fé que salva, cura e liberta!

Para corroborar o que digo a respeito da necessidade que tens de pedir à Virgem Maria que te alcance uma Fé maior e que te mostre o amor que tem por ti, ouve o que Maria Santíssima respondeu a Santa Matilde quando esta perguntou àquela como poderia testemunhar a ternura de sua devoção:

— Saiba, minha filha, que ninguém pode me honrar com uma saudação mais agradável do que aquela que a tão adorável Santíssima Trindade mandou que a mim se apresentasse, e pela qual a mesma Trindade me elevou à dignidade de Mãe de Deus. Com a palavra “Ave”, que é o nome de Eva, aprendi que Deus, em sua onipotência, me preservou de todo pecado e das misérias às quais a primeira Eva estava sujeita. O nome de “Maria”, que significa Senhora da Luz, significa que Deus me cumulou de sabedoria e de luz, como uma estrela fulgurante, para iluminar o céu e a terra. As palavras “cheia de graça” significam que o Espírito Santo infundiu em mim tantas graças que posso transmiti-las abundantemente àqueles que as pedirem por minha mediação. Quando a mim se diz “o Senhor é convosco”, se está renovando a alegria inefável que senti quando o Verbo Eterno se encarnou em meu seio. Quando se dirigem a mim as palavras “bendita sois vós entre as mulheres”, eu louvo a divina misericórdia que me elevou a tamanho grau de felicidade. Com as palavras “bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”, todo o céu rejubila comigo por ver Jesus, meu Filho, adorado e glorificado por ter salvado os homens!

Isso tudo Maria Santíssima revelou à Santa Matilde estando esta em êxtase místico.

Uma das coisas que mais chama atenção em se tratando da devoção à Santíssima Virgem Maria é o fato de não se tratar de uma devoção qualquer. Tal devoção é, na verdade, segundo a opinião de muitos santos, um sinal claro de predestinação, ao passo que a resistência ou negligência nessa matéria é um sinal de condenação.

Veja o que a Santíssima Virgem revelou ao Beato Alano de la Roche:

  1. É sinal provável e próximo de reprovação eterna manifestar negligência, tibieza ou aversão pela Saudação Angélica, que reparou o mundo;
  2. Aqueles que têm devoção por essa admirável saudação são portadores de um enorme sinal de predestinação;
  3. Aqueles que receberam do céu o favor de amar a Santíssima Virgem e servi-la com afeição devem ser extremamente cuidadosos em continuar a amá-la e a servi-la até que Ela alcance de seu Filho um lugar para eles no Céu.

S. Luís de Montfort diz palavras duríssimas contra aqueles que de alguma forma combatem essa devoção. Começa dizendo que “todos os hereges, que são filhos do diabo e trazem as marcas evidentes da reprovação, têm horror à Ave-Maria”. O que me impressiona nisso é o fato de que muitas dessas pessoas lêem a Bíblia, mas não conseguem participar da alegria de todos os santos quando lêem a Saudação do Anjo. Creio que a eles se aplica os dizeres do profeta: “Ouvireis com os vossos ouvidos e não entendereis, olhareis com vossos olhos e não vereis, porque o coração desse povo se endureceu”.

No então, duras são também as palavras que dirige aos próprios católicos que dão pouco valor à devoção devida à Santa Mãe de Deus: “Entre os católicos, os que trazem a marca da reprovação não dão importância alguma ao terço, nem ao Rosário, negligenciando recitá-lo, ou recitando-o com desânimo e pressa”.

Percebemos que o santo menciona três categorias de pessoas.

A primeira é a das pessoas que não dão a mínima importância ao Santo Rosário. São as almas soberbas que por vezes dizem que não se pode exagerar na devoção à Santíssima Virgem Maria, e que é preferível esta ou aquela prática ao Santo Rosário. Dizem também ao próximo que tenha cautela para que a devoção à Maria Santíssima não ponha obstáculos ao amor que é devido a Deus (como se fosse possível haver contradição entre Jesus e Maria). O espírito ao qual pertencem é identificável na altivez de seus olhos, na jactância de suas palavras, e pela repugnância que causa sua falsa humildade. Por mais doutos que sejam e ainda que possuam tantas outras virtudes, falta-lhes a humildade, e sem elas viverão uma vida douta e virtuosíssima no inferno por toda a eternidade.

O que fazer em relação a esses pobres miseráveis? Maria Santíssima ensinou a São Domingos de Gusmão e ao Beato Alano de la Roche que o Santo Rosário é como que uma arma poderosíssima para a conversão dos hereges e dos pecadores, e a vida desses santos é testemunha de que tal revelação é verdadeira.

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 Também, e na medida do possível, podes demonstrar como tantos santos refutam tais afirmações, ao passo que nenhum santo do mundo, por menos devoto que parecesse, proferiu os mesmos ultrajes contra Maria Santíssima, ainda que disfarçados de teologia. Sim, pois quem recomenda cautela sob a justificativa que a devoção mariana pode conflitar com o amor que é devido a Deus, ultraja a Santíssima Virgem e por conseqüência a própria Santíssima Trindade. Como são almas soberbas, dificilmente serão convencidas pela razão, mas é necessário que saibam, pois não poderão alegar ignorância diante do Justo Juiz.

A segunda categoria é a das pessoas que reconhecem o valor do Santo Rosário e até gostariam de recitar ao menos o Terço diariamente, mas movidos que são pelas paixões desordenadas e acometidos sobretudo do mal da acídia e da tibieza, não dispõem de suas vidas em ordem para lisonjear a Santa Mãe de Deus diariamente com sua devoção favorita. Por vezes, são capazes de se entregar em um mesmo dia a mil e uma atividades diferentes e até muito nobres: ajudam os pobres, servem no altar, lêem muitos livros e ouvem muitas aulas. Com isso somente se enganam, pois não reconhecem o ativismo preguiçoso.

A estes só posso aconselhar os remédios típicos contra a preguiça: Fazer aquilo que é mais difícil por primeiro, sem perder qualquer tempo que seja com outra atividade. Na primeira oportunidade, antes mesmo de conferir as últimas mensagens no celular, tomar o tercinho nas mãos e traçar o sinal da cruz, custe o que custar.

A terceira categoria é a das pessoas que reconhecem o valor do Santo Rosário e o recitam regularmente, mas não se esforçam por colher dele os frutos espirituais. São as pessoas que não fazem esforço para meditar os mistérios, que recitam as preces rapidamente apenas para se verem livres da obrigação o quanto antes etc. Evidentemente, essa última categoria está muito mais próxima da redenção do que as demais, pois o que lhes falta é somente um pequeno ajuste. Se fazes parte desse grupo, reflete por um momento: 

  1. Quantos minutos a mais ganharás por recitar o Santo Terço na máxima velocidade que te é possível? Cinco? Realmente vale a pena? Um Terço bem feito costuma levar entre 25 a 30 minutos quando rezado sozinho. Vale a pena desperdiçar esse tempo precioso por cinco minutos?
  2. Já que te dispuseste a rezar o Santo Terço ou o Rosário, por que não aproveitar a ocasião para colher dele a maior quantidade de frutos possível? Por que não atentar com toda seriedade ao mistério contemplado, valendo-se do auxílio de todos os recursos possíveis para manter a concentração? Tens ainda um dia inteiro para ocupar-te de outros pensamentos.

Responde a essas perguntas, meu irmão, e verás que por uma ninharia estás a desperdiçar um grande manancial de graças e favores do Céu. Mas tu não tens motivo algum para desesperar, pois estás próximo do reinado de Deus.

Não ignoro que algumas pessoas podem pensar que o Santo Rosário é uma devoção simplória. Com efeito, muito pouco se exige do intelecto e da disposição daquele que deseja honrar a Santíssima Trindade por meio dessa devoção. Basta apenas que se saiba recitar o Credo, a Oração do Senhor, a Saudação Angélica e o Glória. Muitos também gostam de acrescentar ao Glória a oração que Nossa Senhora revelou aos pastorinhos de Fátima (“Ó meu bom Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno…”), o que é muito recomendado.

De fato, existe um paradoxo no Santo Rosário. Ao mesmo tempo que é uma devoção simplória, dada pelas Mãos da Virgem Santíssima aos pobres, ignorantes e desvalidos, é também uma devoção muito profunda, pois encerra todos os mistérios da redenção, desde a anunciação do Verbo até a coroação de Nossa Senhora como Rainha do Céu e da Terra.

O Santo Rosário é, pois, o modo pelo qual Maria Santíssima enriqueceu os pobres, fazendo-os ter acesso aos grandes mistérios da Sabedoria Divina apesar de toda a ignorância. Certa vez um Padre disse que a Eucaristia é a democratização da mística, pois, por meio da Comunhão Sacramental, qualquer pessoa em estado de Graça tem acesso à intimidade da Santíssima Trindade, o que só é possível aos santos. Pois bem, eu creio que o mesmo se aplica ao Santo Rosário, guardadas as devidas proporções.

Bem por isso alguns podem pensar que devido ao seu grau de estudo ou ao seu tempo de vivência na vida da Graça, o Santo Rosário é mais um adorno que uma necessidade. Mas fato é que dificilmente se encontra nessa geração alguém que hoje possa ser considerado sábio. Por mais que conheças o Magistério da Igreja, por mais que leias os grandes doutores como Santo Tomás e Santo Agostinho, por mais que refutes brilhantemente tantos erros que hoje devastam a humanidade, eu aposto que também tu estás contado no grupo dos pobres, pequenos e ignorantes.

És tentado a pensar o contrário, porque olhas em volta e vês ignorância por toda a parte. Sabes que és possuidor de um conhecimento que se perdeu. Mas o conhecimento que de fato tens é muito elementar; é um conhecimento que um religioso pouco dado aos estudos de antigamente tinha, e este o tinha de modo muito mais puro, pois não viveu em uma época em que o erro foi institucionalizado propositalmente e globalmente para a consolidação do império da morte.

Aos próprios camponeses ignorantes e analfabetos da Idade Média, os quais nunca tinham lido sequer um livro na vida, não se fazia necessário explicar o porquê de ser o aborto ou a relação homossexual pecaminosa, e tu te maravilhas por saber essas coisas?

Examina com olhos abertos para a verdade e verás que não podes ser contado no número dos sábios. Eu já ouvi palavras de um homem sábio, e sei que todas as demais pessoas que ouvi na vida não são verdadeiramente sábias, pois sua sabedoria não é fundada na contemplação infusa que é puro dom de Deus.

Mas digo isso para que te alegres! Conhecer a verdade é crescer na humildade, e esta virtude tem por fruto a santa alegria e a santa confiança em Deus. 

Somos pobres?
— Sim! 

Somos infelizes?
— Jamais!

Maria Santíssima nos deu tudo na medida certa para que fôssemos ricos em nossa pobreza e sábios em nossa ignorância, e isto Ela nos deu por meio do Santo Rosário.

Concluindo nosso encontro, exemplifico esses dizeres com um fato interessante. Certa vez, Nosso Senhor Jesus Cristo apareceu a Santa Gertrudes contando moedas de ouro. A santa, em um ato de ousadia, perguntou ao Senhor o que estava fazendo. O Divino Mestre respondeu:

— Estou contando suas Ave-Marias, que são as moedas com as quais se compra o meu paraíso.

Que Deus abençoe a todos e ao apostolado Cooperadores da Verdade.

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