Advento: passagem das trevas para a Luz

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O advento é um tempo litúrgico único na vida de fé da Igreja. Nele, como o próprio nome já diz, nos preparamos para a vinda do Cristo, em um aspecto tridimensional: lembramos da encarnação do Cristo, esperando a sua segunda vinda, pedindo que Ele venha habitar em nossas almas. E, se o Cristo vem até nossas almas, as nossas vidas mudam. Algo acontece: passamos das trevas à Luz. Como diz São Paulo na Cartas aos Romanos:

A noite está quase passando, o dia vem chegando: abandonemos as obras das trevas e vistamos as armas da luz. Andemos honestamente, como em pleno dia: nada de glutonerias e bebedeiras, nada de orgias e obscenidades, nem de discórdias e ciúmes”

(Rm 13, 12-13)

Santo Tomás de Aquino, em seu comentário à epístola aos Romanos nos diz que essa passagem da noite para o dia pode ter três interpretações: i) a noite representa o tempo da vida presente, que é penoso e tomado pelas trevas da ignorância, enquanto o dia é o estado da bem-aventurança eterna; ii) a noite pode ser entendia como o estado de pecado, tomado pelas trevas da culpa, já o dia é o estado de graça; iii) a noite pode ser interpretada como o tempo que precedeu a Encarnação do Cristo, pois até então não havia se manifestado senão por entre sombras; contudo após a Encarnação é dia, pois alcançamos a plenitude dos tempos. 

Segue-se, destes três pontos, que o Advento é um tempo de mudança de vida, assim como a Quaresma. Apesar de não possuir a austeridade do tempo que precede a Páscoa de Nosso Senhor, o Advento exige de nós vigilância constante à espera d’Aquele que vem. Esta vigilância, essa espera é o que nos faz entender como as três interpretações de Santo Tomás estão ligadas entre si e, por conseguinte, ao Advento. Pois, ao desejarmos com coração ardente a vida futura, entendemos que a passagem desta vida (noite) para a vida eterna com Deus (dia) só acontece se deixarmos o pecado (noite) e vivermos a santidade (dia). Ademais, isso só nos é possível pois Deus mandou seu Filho, que se Encarnou possibilitando que deixássemos a escravidão da morte (noite), nos levando para o tempo de sua Graça (dia). 

Santo Tomás, continuando seu comentário à passagem supracitada, nos dá importantes conselhos para podermos viver esse tempo e buscarmos uma mudança de vida: 

II. A honestidade de vida é necessária

1° Para deixar os vícios: Deixemos, pois, as obras das trevas. Ao afastar-se a noite, devem cessar as sombras da noite. Os pecados são chamados obras das trevas, porque carecem da luz da razão, que deve iluminar as ações humanas; porque se executam nas trevas, e porque por elas o homem é conduzido para as trevas, como diz São Mateus: Lançai-o nas trevas exteriores (Mt 22, 13). 

2° Para adquirir as virtudes. Como se dissesse: Posto que é chegado o dia, tomemos o que convém ao dia, revistamo-nos das armas da luz, quer dizer, as virtudes que se chamam armas, porque nos defendem, e se dizem armas da luz, ou porque são fortificadas e aperfeiçoadas pela luz da razão, ou porque exigem o exame da luz, ou porque outros são iluminados pelas obras das virtudes: Assim brilhe a vossa luz diante dos homens (Mt 5, 16). 

3° Exorta-se à prática a aproveitamento das virtudes, quando diz: Caminhemos como de dia, honestamente. Duas coisas parecem convir ao dia. Antes de tudo a honestidade; pois durante o dia cada um procura conduzir-se de tal maneira que pareça honesto diante dos outros, porém, não é assim na noite. Em segundo lugar, o homem caminha durante o dia, mas não durante a noite. Pelo que diz São João: Porém, o que andar de noite tropeça (Jo 11, 10). Portanto, já que é dia, é necessário caminhar, isto é, progredir do bom para melhor; por isso, diz São João: Andai enquanto tendes luz (Jo 12, 35).

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